{"id":4207,"date":"2013-01-20T20:57:35","date_gmt":"2013-01-20T20:57:35","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4207"},"modified":"2013-01-20T20:57:35","modified_gmt":"2013-01-20T20:57:35","slug":"conseguiria-keynes-evitar-o-colapso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4207","title":{"rendered":"Conseguiria Keynes evitar o colapso?"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>por Guglielmo Carchedi\u00a0[*]<\/strong><\/p>\n<p>Para Marx, a causa pr\u00f3xima das crises \u00e9 a queda da taxa m\u00e9dia de lucro (TML).\u00a0<strong>[1]<\/strong> Um n\u00famero cada vez maior de estudos tem demonstrado que esta tese n\u00e3o apenas \u00e9 logicamente consistente, como tamb\u00e9m est\u00e1 suportada por evid\u00eancia emp\u00edrica robusta e crescente.\u00a0<strong>[2]<\/strong> Se a queda da TML \u00e9 a causa do colapso, este terminar\u00e1 apenas quando a rentabilidade recuperar numa trajet\u00f3ria de crescimento sustentado. Nesse caso, a quest\u00e3o \u00e9: podem as pol\u00edticas keynesianas restaurar a rentabilidade da economia? Poder\u00e3o elas evitar o colapso?<\/p>\n<p>Antes de mais: o que s\u00e3o pol\u00edticas keynesianas? Em primeiro lugar, s\u00e3o pol\u00edticas econ\u00f3micas p\u00fablicas, induzidas pelo Estado. Em segundo lugar, podem ser pol\u00edticas de redistribui\u00e7\u00e3o ou de investimento. Terceiro, devem ser financiadas pelo capital e n\u00e3o pelo trabalho: se forem financiadas pelo trabalho s\u00e3o pol\u00edticas neoliberais. Quarto, no caso das pol\u00edticas p\u00fablicas de investimento, pode tratar-se de pol\u00edticas civis (sobretudo obras p\u00fablicas tais como autoestradas, escolas, hospitais, etc., de modo a evitar competi\u00e7\u00e3o com os sectores privados j\u00e1 em dificuldades econ\u00f3micas), ou militares. N\u00e3o vou ocupar-me do &#8220;keynesianismo militar&#8221;, dado que presentemente n\u00e3o \u00e9 isso que os economistas keynesianos prop\u00f5em para acabar com a crise. Alguns podem pensar que uma grande guerra \u00e9 de facto a \u00fanica via de sa\u00edda para a depress\u00e3o. Isto constitui, por\u00e9m, uma aberta admiss\u00e3o da monstruosidade do sistema. Nesse caso, porqu\u00ea salv\u00e1-lo? O que segue refere-se, portanto, apenas \u00e0s pol\u00edticas keynesianas civis.<\/p>\n<p><strong>Redistribui\u00e7\u00e3o induzida pelo Estado <\/strong><\/p>\n<p>Suponhamos que o Estado produz uma redistribui\u00e7\u00e3o do valor orientada do capital para o trabalho atrav\u00e9s de legisla\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel a este \u00faltimo, de tributa\u00e7\u00e3o progressiva, etc. Evidentemente, o que importa \u00e9 o resultado l\u00edquido destas pol\u00edticas. Se o Estado corta nos impostos sobre o trabalho, mas tamb\u00e9m reduz os gastos p\u00fablicos em servi\u00e7os como sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o, ou bem o trabalho paga por estes servi\u00e7os, por conseguinte neutralizando o efeito que o crescimento salarial tem no consumo, ou ent\u00e3o o maior consumo \u00e9 neutralizado pelos menores gastos p\u00fablicos em servi\u00e7os pr\u00f3-trabalho.<\/p>\n<p>Vamos assumir, portanto, que os sal\u00e1rios l\u00edquidos (diretos, indiretos e diferidos) aumentam. Mais bens de consumo s\u00e3o vendidos e os trabalhadores consomem mais. \u00c9 por isso que se assume que estas pol\u00edticas s\u00e3o pr\u00f3-trabalho. Supostamente, a venda de bens de consumo acumulados estimula a produ\u00e7\u00e3o de meios de consumo. Isto deveria gerar procura de meios de produ\u00e7\u00e3o. Um ciclo ascendente come\u00e7aria. E \u00e9 por isso que se sup\u00f5e que estas pol\u00edticas tamb\u00e9m seriam pr\u00f3-capital. Quer o trabalho quer o capital ganhariam. Este \u00e9 o fundamento do keynesianismo reformista, ou de colabora\u00e7\u00e3o de classes.<\/p>\n<p>Mas ser\u00e1 que o maior consumo dos trabalhadores realmente causa uma maior produ\u00e7\u00e3o de bens de consumo, e depois tamb\u00e9m de bens de produ\u00e7\u00e3o, gerando portanto maior emprego e crescimento econ\u00f3mico? Suponhamos que alguns bens de consumo permanecem por vender. Esta \u00e9 a hip\u00f3tese subjacente ao intervencionismo keynesiano (falta de procura). Neste caso, sal\u00e1rios mais elevados causam o escoamento dos bens de consumo at\u00e9 ent\u00e3o por vender, n\u00e3o uma maior produ\u00e7\u00e3o desses bens. A redistribui\u00e7\u00e3o keynesiana falha nos seus pr\u00f3prios termos, nos termos de produ\u00e7\u00e3o induzida pela procura, e portanto emprego e retoma.<\/p>\n<p>O capitalismo, por\u00e9m, prospera n\u00e3o se a produ\u00e7\u00e3o aumenta, mas se rentabilidade aumenta. Uma vez a rentabilidade introduzida no esquema, tudo muda. Se um capitalista n\u00e3o consegue vender a sua produ\u00e7\u00e3o, sofre uma perda. Se mais tarde, devido a sal\u00e1rios mais elevados, estas mercadorias s\u00e3o vendidas, os lucros at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o realizados s\u00e3o-no. Os lucros e as perdas compensam-se reciprocamente. Mas a rentabilidade cai. A prova requer tr\u00eas passos.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: justify;\">a) Consideremos o sector produtor de meios de consumo. Na mais favor\u00e1vel das hip\u00f3teses para o argumento keynesiano, a totalidade do aumento salarial \u00e9 gasto (em bens de consumo). Este sector por um lado sofre a perda devida a sal\u00e1rios mais elevados, mas por outro lado consegue vender meios de consumo at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o escoados, e por um pre\u00e7o igual. O numerador da taxa de lucro permanece inalterado. Todavia, o denominador sobe, devido ao investimento mais elevado em capital vari\u00e1vel. O consumo dos trabalhadores aumenta, mas a taxa de lucro cai.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: justify;\">b) Consideremos de seguida o sector produtor de meios de produ\u00e7\u00e3o. O seu numerador diminui (por causa de sal\u00e1rios mais elevados e portanto lucros mais reduzidos) e o denominador aumenta (por causa de maior investimento em for\u00e7a de trabalho). Tamb\u00e9m neste sector o consumo dos trabalhadores aumenta, mas a taxa de lucro cai.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: justify;\">c) Finalmente, os sal\u00e1rios mais elevados no sector produtor de meios de produ\u00e7\u00e3o conduzem a maiores procura e consumo dos trabalhadores deste sector, e portanto um lucro extraordin\u00e1rio do sector produtor desses meios de consumo. A perda do sector I [produ\u00e7\u00e3o de meios de produ\u00e7\u00e3o] e o ganho no sector II [produ\u00e7\u00e3o de meios de consumo] compensam-se mutuamente.<\/p>\n<p>Os numeradores dos dois sectores regressam ao valor original. Todavia, os denominadores aumentaram. A taxa m\u00e9dia de lucro (TML) para os dois sectores cai. Seguem-se dois pontos. Primeiro, os sal\u00e1rios e portanto o consumo podem crescer sem que os lucros (mas n\u00e3o a TML) caiam. Segundo, a produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o aumenta. O que aumenta \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o\/venda das mercadorias previamente produzidas. Em suma, o consumo dos trabalhadores aumenta, mas a produ\u00e7\u00e3o permanece a mesma e a TML cai. A redistribui\u00e7\u00e3o keynesiana falha no seu pr\u00f3prio terreno, a produ\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m no terreno da rentabilidade; o aumento do consumo dos trabalhadores e o agravamento da crise s\u00e3o os dois lados da mesma moeda.<\/p>\n<p>Suponhamos agora que todos os sal\u00e1rios continuam a crescer at\u00e9 ao ponto em que todos os bens de consumo s\u00e3o vendidos. Dado que existe procura suficiente, n\u00e3o h\u00e1 necessidade de interven\u00e7\u00e3o keynesiana. Todavia, n\u00e3o \u00e9 verdade que um crescimento subsequente dos sal\u00e1rios estimularia uma produ\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria de meios de consumo? N\u00e3o. A produ\u00e7\u00e3o aumenta se, em simult\u00e2neo, a rentabilidade aumenta e existe procura para o output extra, isto \u00e9, se a mais-valia extra pode simultaneamente ser produzida e ser realizada. A produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o aumenta se uma destas condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o \u00e9 satisfeita.<\/p>\n<p>Sal\u00e1rios mais elevados aumentam a procura para bens de consumo, mas ao mesmo tempo reduzem a taxa de lucro. Alguns capitalistas podem decidir aumentar a produ\u00e7\u00e3o at\u00e9 mesmo com taxas mas reduzidas de rentabilidade. Mas nalgum momento, apesar dos seus esfor\u00e7os, a produ\u00e7\u00e3o da economia diminui. De facto, se os lucros caiem, (a) menos mais-valia pode ser gerada e portanto reinvestida e as reservas n\u00e3o s\u00e3o investidas em atividades cuja rentabilidade continua a decrescer, e (b) em resultado dos sal\u00e1rios mais elevados, os capitalistas mais fracos entram em bancarrota e cessam a produ\u00e7\u00e3o. Segue-se que os capitalistas tomados em conjunto reduzem a sua produ\u00e7\u00e3o apesar duma maior procura acrescida e apesar dos seus esfor\u00e7os para satisfazer essa procura.<\/p>\n<p>Por conseguinte, a equa\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p><strong>sal\u00e1rios mais elevados = mais consumo<\/strong><\/p>\n<p>est\u00e1 correta. Todavia, a equa\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p><strong>maior consumo = maior produ\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>est\u00e1 errada porque (a) no caso das vendas dos produtos remanescentes, os sal\u00e1rios mais elevados n\u00e3o afetam a produ\u00e7\u00e3o (s\u00f3 a realiza\u00e7\u00e3o de mercadorias j\u00e1 produzidas \u00e9 promovida) enquanto a rentabilidade cai e (b) a partir do ponto em que todo o output foi vendido, sal\u00e1rios mais elevados fazem diminuir a rentabilidade e portanto a produ\u00e7\u00e3o. Est\u00e1 \u00faltima resulta ou inalterada ou diminu\u00edda, mas a rentabilidade diminui em ambos os casos. Os sal\u00e1rios mais elevados n\u00e3o podem suprimir o colapso, mas apenas agrav\u00e1-lo. A medicina keynesiana \u00e9 pior do que a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>O acima exposto lan\u00e7ou luz sobre a diferen\u00e7a essencial entre a abordagem keynesiana e a marxista. Contrariamente a esta \u00faltima, para aquela a rentabilidade n\u00e3o \u00e9 a determinante essencial da produ\u00e7\u00e3o. A abordagem keynesiana inverte a ordem de causalidade. Nela, a rentabilidade \u00e9 uma consequ\u00eancia de maior produ\u00e7\u00e3o induzida pela procura, uma consequ\u00eancia de maior produ\u00e7\u00e3o f\u00edsica induzida por maior consumo. Na abordagem marxista, maior produ\u00e7\u00e3o \u00e9 a consequ\u00eancia de maior rentabilidade. As consequ\u00eancias te\u00f3ricas, pol\u00edticas e ideol\u00f3gicas s\u00e3o de longo alcance.<\/p>\n<p>Se uma maior procura (induzida por sal\u00e1rios mais elevados) estimulasse a produ\u00e7\u00e3o, a economia tenderia para um ponto no qual, em virtude da redistribui\u00e7\u00e3o pr\u00f3-trabalho, uma maior procura e uma maior oferta se encontrariam. Este \u00e9 o ponto em que o crescimento e o equil\u00edbrio se conjugam. Isto \u00e9 uma ilus\u00e3o da economia convencional. Todavia, se a maior procura induzida por sal\u00e1rios mais elevados n\u00e3o estimula a produ\u00e7\u00e3o, antes causa a sua queda em virtude da queda da rentabilidade, a procura e a oferta n\u00e3o se encontram e nenhum ponto de equil\u00edbrio pode ser alcan\u00e7ado. Para contrariar a rentabilidade decrescente, os sal\u00e1rios teriam de crescer de novo. O resultado \u00e9 uma sequ\u00eancia decrescente de pontos de n\u00e3o-equil\u00edbrio entre a procura e a oferta, os quais s\u00e3o outros tantos est\u00e1dios a caminho da crise. Ao contr\u00e1rio do que afirma a abordagem keynesiana, sal\u00e1rios mais elevados \u00e0 custa do capital contribuem n\u00e3o para o movimento rumo ao equil\u00edbrio e crescimento, mas para o movimento rumo a depress\u00e3o e crises.<\/p>\n<p>Esta conclus\u00e3o \u00e9 importante para a pol\u00edtica econ\u00f3mica, porque mostra que pol\u00edticas visando o est\u00edmulo ao crescimento atrav\u00e9s duma redistribui\u00e7\u00e3o pr\u00f3-trabalho est\u00e3o destinadas a falhar. Mas esta conclus\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 importante dum ponto de vista te\u00f3rico e pol\u00edtico porque, negando que o sistema, dado um conjunto apropriado de pol\u00edticas redistributivas, possa tender para o equil\u00edbrio e o crescimento, tamb\u00e9m negamos que o sistema seja (ou possa ser tornado) racional. A economia burguesa, por outro lado, mant\u00e9m que o sistema est\u00e1 num, ou tende para um, equil\u00edbrio a n\u00edveis mais elevados de produ\u00e7\u00e3o e de consumo, e que portanto ele \u00e9 racional. Se isto fosse verdade, as consequ\u00eancias para as lutas dos trabalhadores seriam devastadoras, porque a luta contra o sistema se tornaria uma luta contra um sistema racional, e portanto uma luta meramente &#8220;espontane\u00edsta&#8221; e irracional. Mas se o sistema \u00e9 irracional porque tende para crises apesar de pol\u00edticas keynesianas (ou outras), a luta dos trabalhadores \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o consciente do movimento objetivo da economia rumo a crises.<\/p>\n<p>De forma alternativa, o Estado pode induzir uma redistribui\u00e7\u00e3o do valor do trabalho para o capital atrav\u00e9s de sal\u00e1rios decrescentes e outras medidas. Estas s\u00e3o pol\u00edticas neoliberais, o oposto das keynesianas. Todavia, elas devem ser brevemente consideradas. Um corte de sal\u00e1rios aumenta a rentabilidade. Mas ao mesmo tempo reduz a procura de bens de consumo. Neste caso, os capitalistas reduzem o seu output n\u00e3o porque o lucro cai, mas porque a procura cai. Mas n\u00e3o deveria a rentabilidade acrescida reavivar a economia apesar de menores procura e produ\u00e7\u00e3o? N\u00e3o poderiam maiores lucros relativamente ao capital investido ser obtidos com base num mais reduzido n\u00edvel de produ\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Numa crise, a procura de bens de consumo cai devido a sal\u00e1rios mais baixos, os lucros extraordin\u00e1rios obtidos a partir dos sal\u00e1rios mais baixos n\u00e3o s\u00e3o reinvestidos nesse sector e portanto n\u00e3o conseguem estimular o investimento na produ\u00e7\u00e3o de meios de consumo. Mais ainda, o capital n\u00e3o desinveste no sector II investindo no sector I, porque a rentabilidade tamb\u00e9m diminui no sector I. Os lucros extraordin\u00e1rios s\u00e3o, ou colocados de lado como reservas, ou investidos nos sectores improdutivos (com\u00e9rcio, finan\u00e7a e especula\u00e7\u00e3o), nos quais a rentabilidade \u00e9 mais elevada (mas s\u00f3 na medida em que bolha especulativa n\u00e3o rebente), ou ent\u00e3o deslocados para pa\u00edses em que podem ser reinvestidos mais rentavelmente. Nalguns pa\u00edses mais do que noutros, podem tamb\u00e9m alimentar corrup\u00e7\u00e3o, criminalidade e inefici\u00eancias (a It\u00e1lia \u00e9 um caso t\u00edpico). Em qualquer caso, estre lucros extra n\u00e3o conseguem p\u00f4r a economia de novo em andamento.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m o Estado contribui, fazendo divergir valor dos sectores produtivos. Na presente conjuntura, dados os valores elevados da d\u00edvida p\u00fablica, o valor extraordin\u00e1rio de que o Estado se apropria (por exemplo, atrav\u00e9s de maior tributa\u00e7\u00e3o) \u00e9 usado para diminuir as perdas do Estado ou do capital financeiro. Os economistas keynesianos percebem a &#8220;austeridade&#8221; induzida pelo Estado (uma palavra ideologicamente carregada que devia ser cuidadosamente evitada) enquanto causa da crise ou do seu aprofundamento. Na realidade, a depress\u00e3o do consumo (sal\u00e1rios mais reduzidos) \u00e9 a consequ\u00eancia da rentabilidade declinante, representando uma tentativa do capital privado de, atrav\u00e9s do Estado, restaurar a TML.<\/p>\n<p>Em suma, as pol\u00edticas neoliberais n\u00e3o s\u00e3o a causa do colapso (elas s\u00e3o a consequ\u00eancia do colapso, um dos fatores compensat\u00f3rios da queda da TML) e falham essa tentativa simplesmente na medida em que os lucros s\u00e3o desviados dos investimentos produtivos e n\u00e3o, conforme \u00e9 defendido pelos autores keynesianos, porque os cortes de sal\u00e1rios reduzem o consumo. O dilema &#8220;austeridade&#8221; versus crescimento (medidas de pol\u00edtica pagas pelo trabalho ou pelo capital) como rem\u00e9dio para o colapso \u00e9 falso. Nem pol\u00edticas pr\u00f3-trabalho nem pol\u00edticas pr\u00f3-capital podem evitar o colapso. Isto pode ser empiricamente consubstanciado. Considere-se o seguinte.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/resistir.info\/crise\/imagens\/carchedi_1.jpg?w=747\" border=\"0\" alt=\".\" \/><\/p>\n<p><strong>Figura 1: A parte do trabalho e a TML nos sectores produtivos dos EUA<\/strong><\/p>\n<p>Este quadro mostra que at\u00e9 1986 os sal\u00e1rios subiram relativamente aos lucros e a TML, de acordo com o postulado por Marx mas n\u00e3o de acordo com o &#8220;subconsumismo&#8221; keynesiano. De 1987 at\u00e9 2009 os sal\u00e1rios desceram relativamente aos lucros e a TML subiu, de novo de acordo com Marx mas n\u00e3o com o &#8220;subconsumismo&#8221; keynesiano. Mas a tend\u00eancia da TML permaneceu de queda no conjunto do per\u00edodo. Quer redistribui\u00e7\u00f5es pr\u00f3-trabalho quer pr\u00f3-capital foram incapazes de impedir a TML de descer tendencialmente.<\/p>\n<p><strong>Investimentos induzidos pelo Estado <\/strong><\/p>\n<p>O argumento principal para as pol\u00edticas keynesianas n\u00e3o \u00e9 a redistribui\u00e7\u00e3o, mas o investimento induzido pelo Estado. Por via de regra, os autores (incluindo marxistas) que advogam pol\u00edticas de investimento p\u00fablico como via para evitar o colapso omitem um aspeto fundamental, nomeadamente quem \u00e9 suposto financiar esses investimentos (ser nota 4, infra). Existem duas possibilidades: investimentos p\u00fablicos financiados pelo capital ou financiados pelo trabalho. Vou considerar apenas o investimento p\u00fablico financiado pelo capital, dado que investimentos financiados pelo trabalho n\u00e3o s\u00e3o o que os autores keynesianos prop\u00f5em para evitar o colapso.<\/p>\n<p>Distingamos entre sector I, produtor de obras p\u00fablicas, e sector II, o resto da economia. O valor excedent\u00e1rio ou mais-valia, M, \u00e9 apropriado (por exemplo, tributado) pelo Estado no sector II e canalizado para o sector I com vista \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de obras p\u00fablicas.\u00a0<strong>[3]<\/strong> Em vez de tributar a mais-valia, o Estado pode apropriar-se de reservas n\u00e3o utilizadas. Mas, no que se refere ao capital, isso \u00e9 uma perda e portanto uma dedu\u00e7\u00e3o \u00e0 mais-valia. Tendo-se apropriado de M a partir do sector II, o Estado paga ao sector I um certo lucro, L, e avan\u00e7a o resto, M-L, ao sector I para a produ\u00e7\u00e3o de obras p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Consideremos primeiro os efeitos para o Estado. Este recebe obras p\u00fablicas do sector I pelo valor de M-L+L&#8217;, onde L&#8217; \u00e9 o excedente gerado no sector I (quer L&#8217; seja igual a L ou n\u00e3o). O sector I realiza os seus lucros, porque recebeu L do Estado, ao passo de L&#8217; pertence ao Estado. Como \u00e9 que o Estado realiza M-L+L&#8217;, o valor total incorporado em obras p\u00fablicas? Em capitalismo o valor \u00e9 realizado somente se e quando estiver metamorfoseado em dinheiro, atrav\u00e9s da venda do valor de uso em que est\u00e1 incorporado. Dado que o Estado n\u00e3o vende obras p\u00fablicas (a menos que as privatize, mas isso sai do \u00e2mbito da presente an\u00e1lise), resulta que o valor permanece potencial, enredado em valor de uso n\u00e3o vendido. Todavia, as obras p\u00fablicas podem realizar o seu valor duma forma diferente. O seu valor de uso \u00e9 consumido pelos utilizadores das instala\u00e7\u00f5es, os quais, em troca dessa utiliza\u00e7\u00e3o, t\u00eam de pagar em princ\u00edpio pela fra\u00e7\u00e3o do valor contido nas obras p\u00fablicas que consomem. Uma vez que as obras p\u00fablicas s\u00e3o completamente consumidas, o Estado recebe M-L+L&#8217;. O Estado realizou o valor potencial das obras p\u00fablicas, cobrando ao capital e ao trabalho pela sua utiliza\u00e7\u00e3o. Estas taxas s\u00e3o uma redu\u00e7\u00e3o indireta de sal\u00e1rios e de lucros. O Estado ganhou M-L+L&#8217;, o sector I ganhou L, o sector II perdeu M e o sector privado ganhou M-L. Consideremos os efeitos sobre a TML. O sector II perde M, mas o sector I ganha L. Em suma, o capital privado perde M-L para o Estado. O numerador da TML decresce precisamente isso. A TML cai. Mas isto n\u00e3o \u00e9 o fim da hist\u00f3ria. O valor capitalizado adiantado pelo Estado, M-L, \u00e9 investido pelo sector I. De modo a determinar o efeito deste investimento na rentabilidade, precisamos apresentar aquilo a que vou chamar o multiplicador marxista.<\/p>\n<p>Para produzir obras p\u00fablicas, o sector I compra for\u00e7a de trabalho e meios de produ\u00e7\u00e3o a outras empresas em ambos os sectores. Pelo seu lado, estas empresas comprometem-se em compras subsequentes de meios de produ\u00e7\u00e3o e de for\u00e7a de trabalho. Este efeito m\u00faltiplo repercute em cascata sobre o conjunto da economia. Na hip\u00f3tese mais favor\u00e1vel para o argumento keynesiano, os investimentos induzidos pelo Estado s\u00e3o suficientemente grandes para absorver primeiro os bens por vender, e depois estimular nova produ\u00e7\u00e3o. Dado que as empresas envolvidas neste efeito em cascata t\u00eam diferentes composi\u00e7\u00f5es org\u00e2nicas, tr\u00eas casos s\u00e3o poss\u00edveis:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: justify;\">a) M-L, o investimento inicial do sector I, mais o efeito acumulado no conjunto da economia, \u00e9 tal que constitui uma sec\u00e7\u00e3o representativa da economia global. Nesse caso, a taxa de lucro gerada por ele \u00e9 igual \u00e0 m\u00e9dia da economia. A TML depois destes investimentos n\u00e3o se altera. Nem se altera o emprego. A pol\u00edtica falha.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: justify;\">b) Alternativamente, a cadeia de investimentos trava num ponto em que a composi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica de todos os capitais investidos (inclu\u00eddos os iniciais) \u00e9 mais elevada do que a inicial. Nesse caso a TML cai. O emprego tamb\u00e9m cai. De novo, a pol\u00edtica falha. A raz\u00e3o pela qual a composi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica mais elevada deste agregado piora a crise \u00e9 que os investimentos extra se dirigiram predominantemente para as empresas mais eficientes (as que t\u00eam uma composi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica mais elevada). Vendendo o seu output mais elevado ao mesmo pre\u00e7o que o output mais reduzido das atrasadas, aquelas empresas apropriam-se de valor destas e em determinado momento expulsam-nas do mercado, dessa forma agravando a crise.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: justify;\">c) No caso oposto, em que a composi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica cai como resultado destes investimentos, a TML e o emprego aumentam. Mas nesse caso a pol\u00edtica keynesiana ajudou os capitais menos eficientes, aqueles de menor composi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica e menor efici\u00eancia, a sobreviver. Neste caso, a pol\u00edtica adia o colapso em vez de acabar com ele.<\/p>\n<p>Note-se que os tr\u00eas poss\u00edveis resultados n\u00e3o s\u00e3o op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que possam ser influenciadas pela pol\u00edtica estatal. Uma vez que o capital p\u00fablico inicial foi investido, o resultado final em termos de composi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica e de TML depende do funcionamento espont\u00e2neo do sistema, isto \u00e9, de quais capitais recebem encomendas de outros capitais. O Estado pode influenciar apenas o primeiro passo, encomendando investimentos p\u00fablicos a capitais de baixa composi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica. Mas ent\u00e3o, e como no caso acima, ajuda a fazer crescer a rentabilidade, mas tamb\u00e9m a manter os capitais menos eficientes \u00e0 tona.<\/p>\n<p>Mas \u00e0 parte isso, o resultado mais prov\u00e1vel \u00e9 um crescimento na composi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica combinada, e portanto uma queda na TML, porque cada capital tender\u00e1 em cascata a comprar o material de que necessita aos fornecedores mais baratos. Estes s\u00e3o habitualmente os mais eficientes, aqueles cuja composi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica \u00e9 alta relativamente \u00e0 m\u00e9dia. O investimento adicional induzido pelo investimento inicial Estado ir\u00e1 predominantemente para estes sectores. A composi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica cresce e a TML cai. Em suma, como resultado de um investimento induzido pelo Estado, ou a rentabilidade m\u00e9dia cai ou, se se eleva, os capitais menos eficientes s\u00e3o artificialmente mantidos vivos. A crise \u00e9 ou piorada ou adiada. E se ela for adiada, o capital n\u00e3o pode autodestruir-se e a retoma \u00e9 assim adiada. Em nenhum dos casos a economia reinicia.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m do multiplicador marxista, as pol\u00edticas estatais de redistribui\u00e7\u00e3o e\/ou investimento deparam-se com um outro obst\u00e1culo. Elas s\u00e3o poss\u00edveis quando o capital privado consegue suportar a perda de mais-valia (ou de reservas). Mas quando o capital se afunda na crise, quando a rentabilidade cai, o seu financiamento torna-se crescentemente problem\u00e1tico. Estas pol\u00edticas podem ser aplicadas onde s\u00e3o menos necess\u00e1rias, e n\u00e3o podem ser usadas onde s\u00e3o mais necess\u00e1rias. Isto mostra qu\u00e3o irrealista \u00e9 o apelo, inclusive de proeminentes marxistas, para uma vaga maci\u00e7a de redistribui\u00e7\u00e3o e\/ou de investimento induzidos pelo Estado, nas presentes condi\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas, enquanto forma de sa\u00edda da crise.\u00a0<strong>[4]<\/strong><\/p>\n<p>Alguns autores keynesianos sugerem estimular a procura n\u00e3o atrav\u00e9s de redistribui\u00e7\u00e3o nem atrav\u00e9s de investimentos, mas atrav\u00e9s do acr\u00e9scimo da quantidade de moeda. A assun\u00e7\u00e3o \u00e9 que a causa \u00faltima das crises \u00e9 falta de procura, de modo que mais dinheiro em circula\u00e7\u00e3o deveria estimular a procura. O argumento contra esta vis\u00e3o n\u00e3o consiste tanto em saber se tais pol\u00edticas s\u00e3o inflacion\u00e1rias (como defendem os economistas &#8220;austr\u00edacos&#8221;) ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>A obje\u00e7\u00e3o \u00e9 antes que, imprimindo dinheiro, aumentamos a representa\u00e7\u00e3o do valor mais do que o pr\u00f3prio valor. A economia n\u00e3o pode recome\u00e7ar se a mais-valia produzida relativamente ao capital investido permanece inalterada. Para al\u00e9m disso, imprimindo e distribuindo dinheiro, redistribu\u00edmos capacidade aquisitiva. Mas j\u00e1 vimos que nem redistribui\u00e7\u00f5es pr\u00f3-trabalho nem redistribui\u00e7\u00f5es pr\u00f3-capital conseguem evitar o colapso. A no\u00e7\u00e3o de que cr\u00e9dito \u00e9 dinheiro \u00e9 quase universalmente aceita, mas est\u00e1 fundamentalmente errada. Criando cr\u00e9dito, n\u00e3o se &#8220;cria dinheiro a partir de nada&#8221;, uma proposi\u00e7\u00e3o absurda. A partir de nada n\u00e3o se pode criar nada. Atrav\u00e9s da simples cria\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito cria-se d\u00edvida. Por conseguinte, a crise \u00e9 adiada at\u00e9 ao pagamento da d\u00edvida.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma das raz\u00f5es pelas quais o Estado pode decidir contrair empr\u00e9stimos como forma de obter o capital necess\u00e1rio para as obras p\u00fablicas, em vez de o obter expropriando o capital. Todavia, nalgum ponto as d\u00edvidas devem ser pagas. O argumento keynesiano \u00e9 de que as d\u00edvidas podem ser pagas quando, em resultado destas pol\u00edticas, a economia entra em retoma e a apropria\u00e7\u00e3o da mais-valia necess\u00e1ria para os pagamentos da d\u00edvida n\u00e3o amea\u00e7a a retoma. Mas isto \u00e9 uma auto-ilus\u00e3o piedosa.<\/p>\n<p>De facto, vimos que o investimento p\u00fablico financiado pelo capital n\u00e3o pode reiniciar a economia: quando muito, pode adiar a explos\u00e3o da crise. Nesse caso, se quer pol\u00edticas pr\u00f3-capital quer pol\u00edticas pr\u00f3-trabalho s\u00e3o impotentes contra o colapso, a crise deve seguir o seu curso at\u00e9 que ela pr\u00f3pria produza as condi\u00e7\u00f5es da sua solu\u00e7\u00e3o. Isto corresponde \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o de capital. S\u00f3 quando suficientes capitais (mais atrasados) tiverem sido destru\u00eddos (tiverem ido \u00e0 bancarrota) poder\u00e3o as unidades produtivas mais eficientes recome\u00e7ar a produzir numa escala mais alargada. Segue-se que, se estas pol\u00edticas quando muito adiam a explos\u00e3o da crise, estas tamb\u00e9m adiam a retoma. Atrasando a retoma, estas pol\u00edticas s\u00e3o um obst\u00e1culo ao, mais do que uma condi\u00e7\u00e3o do, pagamento pelo Estado da sua d\u00edvida.\u00a0<strong>[5]<\/strong><\/p>\n<p>A tese de que pol\u00edticas estatais de redistribui\u00e7\u00e3o e investimento, possivelmente atrav\u00e9s de empr\u00e9stimos contra\u00eddos pelo Estado, poderiam iniciar uma retoma sustentada, assumindo-se que a escala seria suficientemente larga, n\u00e3o \u00e9 apenas teoreticamente inv\u00e1lida (ver acima), mas tamb\u00e9m empiricamente falha de subst\u00e2ncia. O exemplo habitualmente mencionado \u00e9 o per\u00edodo longo de prosperidade que se seguiu \u00e0 Segunda Guerra Mundial, os chamados Anos Dourados do capitalismo. Supostamente, o contrair de empr\u00e9stimos pelo Estado norte-americano teria possibilitado a este \u00faltimo o financiamento de pol\u00edticas keynesianas e portanto o iniciar do longo per\u00edodo de estabilidade. Na realidade, a d\u00edvida federal bruta dos EUA enquanto percentagem do PIB diminuiu continuadamente durante os Anos Dourados, de 121.7 por cento em 1946 para 37.6 por cento em 1970. O grande efeito de prosperidade ficou a dever-se \u00e0 reconvers\u00e3o, isto \u00e9, \u00e0 reconstitui\u00e7\u00e3o do capital civil, e \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o de poder aquisitivo pendente que se seguiu \u00e0 guerra.\u00a0<strong>[6]<\/strong><\/p>\n<p><strong>As li\u00e7\u00f5es para os trabalhadores <\/strong><\/p>\n<p>O antes aduzido n\u00e3o deve ser argumentado para defender que o trabalho seja indiferente a pol\u00edticas estatais de redistribui\u00e7\u00e3o e\/ou investimento financiadas pelo capital. Pelo contr\u00e1rio, o trabalho devia lutar fortemente por essas pol\u00edticas. Mas esta luta devia ser orientada n\u00e3o por uma perspetiva keynesiana, mas por uma adequada perspetiva marxista.<\/p>\n<p>A abordagem keynesiana considera as respetivas pol\u00edticas como uma forma de melhorar quer a condi\u00e7\u00e3o do trabalho quer a condi\u00e7\u00e3o do capital, uma forma de contrariar ou evitar o colapso. Duma perspetiva marxista, as pol\u00edticas de distribui\u00e7\u00e3o e investimento politicamente induzidas e financiadas pelo capital n\u00e3o necessitam ser keynesianas, isto \u00e9, n\u00e3o precisam de transportar o conte\u00fado ideol\u00f3gico ligado \u00e0 palavra, a comunidade de interesses entre as duas classes principais. A perspetiva marxista sublinha (a) que estas pol\u00edticas podem melhorar a condi\u00e7\u00e3o do trabalho, mas s\u00e3o impotentes para conter a crise, quando muito podem adi\u00e1-la; e (b) o potencial pol\u00edtico destas pol\u00edticas. Atrav\u00e9s da luta do trabalho por melhores condi\u00e7\u00f5es de vida e de produ\u00e7\u00e3o, a consci\u00eancia pode emergir entre os trabalhadores de que cada vez que estas pol\u00edticas s\u00e3o pagas pelo capital este \u00faltimo sai enfraquecido quer econ\u00f3mica quer politicamente, e de que o trabalho pode aproveitar isso para enfraquecer o jugo do capital.<\/p>\n<p>Da perspetiva marxista, a luta pela melhoria das condi\u00e7\u00f5es do trabalho e a sedimenta\u00e7\u00e3o e acumula\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia e do poder antagon\u00edsticos do trabalho atrav\u00e9s desta luta devem ser os dois lados da mesma moeda. Esta constitui a sua real import\u00e2ncia. Elas n\u00e3o podem impedir o colapso, mas podem seguramente melhorar a condi\u00e7\u00e3o do trabalho e, enquadradas numa perspetiva adequada, promover o fim do capitalismo.<\/p>\n<p><strong><a name=\"13c58db2b790c337_13c584f36b06cf06_13c4d3c4210e340e_notas\"><\/a>Notas <\/strong><\/p>\n<p>1: A queda da TML \u00e9 a causa pr\u00f3xima, dado que ela pr\u00f3pria \u00e9 causada pela competi\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, isto \u00e9, pela introdu\u00e7\u00e3o de novas tecnologias capital-intensivas (ou &#8220;poupadoras de trabalho&#8221;), mas incrementadoras da efici\u00eancia.<\/p>\n<p>2: Ver Carchedi, 2011a; Carchedi, 2011b; Roberts, 2012, bem como a literatura indicada nestas obras. Marx define a taxa de lucro como s\/(c+v), onde s representa a mais-valia ou excedente, c o capital constante (isto \u00e9, o capital investido em meios de produ\u00e7\u00e3o) e v \u00e9 o capital vari\u00e1vel<\/p>\n<p>(isto \u00e9, o capital investido em for\u00e7a de trabalho, em termos gerais equivalente aos sal\u00e1rios). Portanto, s \u00e9 o numerador e (c+v) \u00e9 o denominador da equa\u00e7\u00e3o da taxa de lucro. A taxa de lucro depende da taxa de mais-valia (s\/v) e da composi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica do capital (c\/v).<\/p>\n<p>3: Isto \u00e9 uma simplifica\u00e7\u00e3o. O Estado apropria-se de mais-valia, por exemplo atrav\u00e9s de impostos, de ambos os sectores. O argumento \u00e9 que o sector I recebe mais valor excedent\u00e1rio para investir do que aquele que perde para o Estado.<\/p>\n<p>4: Por exemplo, tal como Alan Freeman defende, &#8220;se o Estado disponibilizar, para tantas pessoas quantas as necess\u00e1rias, as capacidades que o capitalismo produziu, entrando em todos os \u00e2mbitos em que a propriedade privada n\u00e3o entra, a crise acabar\u00e1&#8221; \u2013 Freeman 2009. Pelo contr\u00e1rio, a crise ou se aprofundar\u00e1 ou ser\u00e1 adiada. Anwar Shaikh tamb\u00e9m pensa que o investimento p\u00fablico direto pode tirar a economia da crise. Isto estimularia a &#8220;procura, uma vez garantido que as pessoas assim empregues n\u00e3o poupam o rendimento nem o utilizam para amortizar a d\u00edvida&#8221; \u2013 Shaikh, 2011. \u00c0 parte a natureza irrealista das assun\u00e7\u00f5es de que as pessoas n\u00e3o poupam e n\u00e3o amortizam as d\u00edvidas, dado que os bancos precisam das poupan\u00e7as dos trabalhadores e o default da d\u00edvida significa principalmente default da d\u00edvida banc\u00e1ria, isto constitui a receita segura para a crise financeira. Similarmente, Foster argumenta que &#8220;Teoricamente, qualquer crescimento da despesa p\u00fablica nesta altura ajuda a suavizar a queda e contribui mesmo para a eventual restaura\u00e7\u00e3o do crescimento econ\u00f3mico&#8221; \u2013 Foster, 2009. Estas propostas e outras similares t\u00eam uma caracter\u00edstica comum: n\u00e3o se referem elas mesmas a quem deveria financiar estas pol\u00edticas. Mas, \u00e0 parte o seu defeito macrosc\u00f3pico, dado que a economia sai da crise atrav\u00e9s de destrui\u00e7\u00e3o de capital, estas pol\u00edticas atrasam mais do previnem o desencadear da crise.<\/p>\n<p>5: N\u00e3o existe afinidade entre esta conclus\u00e3o e a &#8220;escola austr\u00edaca&#8221;. As diferen\u00e7as s\u00e3o irreconcili\u00e1veis. Para mencionar apenas duas das mais importantes: para a &#8220;escola austr\u00edaca&#8221; a economia, se n\u00e3o for estorvada, tende para o equil\u00edbrio (em vez de tender para crises, como com Marx) e a interven\u00e7\u00e3o estatal \u00e9 a causa das crises (em vez de ser uma das m\u00faltiplas contra-tend\u00eancias, como com Marx).<\/p>\n<p>6: Ver Carchedi, 2011b.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias <\/strong><\/p>\n<p>Carchedi, Guglielmo, 2011a, Behind the Crisis: Marx&#8217;s Dialectics of Value and Knowledge (Brill).<\/p>\n<p>Carchedi, Guglielmo, 2011b, &#8220;Behind and Beyond the Crisis&#8221;, International Socialism 132, (autumn),\u00a0<a href=\"http:\/\/www.isj.org.uk\/?id=761\" target=\"_blank\">www.isj.org.uk\/?id=761<\/a><\/p>\n<p>Foster, John Bellamy, 2009, &#8220;Keynes, Capitalism and the Crisis&#8221;, interview by Brian Ashley,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.zcommunications.org\/keynes-capitalism-and-the-crisis-by-john-bellamy-foster\" target=\"_blank\">www.zcommunications.org\/keynes-capitalism-and-the-crisis-by-john-bellamy-foster<\/a><\/p>\n<p>Freeman, Alan, 2009, &#8220;Investing in Civilization&#8221;, MPRA,\u00a0<a href=\"http:\/\/mpra.ub.uni-muenchen.de\/26807\/1\/MPRA_paper_26807.pdf\" target=\"_blank\">http:\/\/mpra.ub.uni-muenchen.de\/26807\/1\/MPRA_paper_26807.pdf<\/a><\/p>\n<p>Roberts, Michael, 2012, &#8220;A World Rate of Profit&#8221;,\u00a0<a href=\"http:\/\/thenextrecession.files.wordpress.com\/2012\/07\/roberts_michael-a_world_rate_of_profit.pdf\" target=\"_blank\">thenextrecession.files.wordpress.com\/&#8230;<\/a><\/p>\n<p>Shaikh, Anwar, 2011, &#8220;The First Great Depression of the 21st Century&#8221;, Socialist Register 2011 (Merlin).<\/p>\n<p>08\/Outubro\/2012<\/p>\n<p><strong>[*] Investigador do Departamento de Teoria Econ\u00f3mica e Econometria da Universidade de Amsterdam.\u00a0<a href=\"http:\/\/www.bookdepository.co.uk\/search?searchTerm=Guglielmo+Carchedi&amp;search=Find+book\" target=\"_blank\">Obras do autor<\/a> . <\/strong><\/p>\n<p><strong>O original encontra-se em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.isj.org.uk\/index.php4?id=849&amp;issue=136\" target=\"_blank\">http:\/\/www.isj.org.uk\/index.php4?id=849&amp;issue=136<\/a> . Tradu\u00e7\u00e3o de JCG. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Este artigo encontra-se em\u00a0<a href=\"http:\/\/resistir.info\/\" target=\"_blank\">http:\/\/resistir.info\/<\/a> .<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\njimdo.com\n\n\n\n\n\n\n\n\nO multiplicador marxista apresenta-se\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4207\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-4207","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-15R","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4207","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4207"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4207\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4207"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4207"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4207"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}