{"id":4267,"date":"2013-02-03T02:07:37","date_gmt":"2013-02-03T02:07:37","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4267"},"modified":"2017-11-19T09:58:44","modified_gmt":"2017-11-19T12:58:44","slug":"bruxas-na-noite","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4267","title":{"rendered":"Bruxas na noite"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.odiario.info\/b2-img\/AUTORESMIGUELHUERTASMAESTRO.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Miguel Huertas Maestro*<\/p>\n<p>Entre as m\u00faltiplas faces do hero\u00edsmo manifestado pelo Ex\u00e9rcito Vermelho no decurso da 2\u00aa Guerra Mundial \u2013 a Grande Guerra P\u00e1tria \u2013 existem muitos rostos de mulher, nomeadamente das mulheres piloto da avia\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica. Devem ser recordadas n\u00e3o apenas como hero\u00ednas, mas tamb\u00e9m como exemplos de conquista da igualdade, que apenas a sociedade socialista poder\u00e1 efectivamente concretizar.<\/p>\n<p><em>\u201cPara n\u00f3s era simplesmente incompreens\u00edvel que os pilotos sovi\u00e9ticos que nos criavam tantos problemas fossem \u2026 mulheres. Estas mulheres n\u00e3o temiam nada: vinham, noite ap\u00f3s noite, nos seus desajeitados avi\u00f5es e n\u00e3o nos deixavam dormir\u201d.<\/em><\/p>\n<p>(Hauptmann Johannes Steihoff, piloto de guerra nazi)<\/p>\n<p>A Alemanha invade a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica a 22 de Junho de 1941, e boa parte da avia\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica foi destru\u00edda nos primeiros momentos. Enquanto os avi\u00f5es nazis continuam a dominar os c\u00e9us, milhares de jovens, muitos membros dos clubes civis de avia\u00e7\u00e3o, acorrem a alistar-se para lutar contra os ataques fascistas.<\/p>\n<p>Muitas eram mulheres e depararam-se com uma rejei\u00e7\u00e3o inicial, mas em Outubro de 1941 j\u00e1 estavam, como recrutas, a treinar na base a\u00e9rea do povo de Engels, a norte de Stalingrado. Sob as ordens da sua instrutora, a Major das For\u00e7as A\u00e9reas Sovi\u00e9ticas Marina Raskova, as futuras aviadoras come\u00e7aram a treinar.<\/p>\n<p>Enfrentaram muitas dificuldades, a primeira das quais foi a desconfian\u00e7a e desd\u00e9m de alguns dos seus companheiros, que consideravam que eram de fiar e que, inclusivamente, recusavam voar juntamente com elas. Al\u00e9m disso, os uniformes estavam feitos para homens, e houve que faz\u00ea-los de novo para que elas os pudessem vestir; o mesmo aconteceu com as botas, que tiveram que ser cheias com papel de jornal para que se adaptassem ao p\u00e9, normalmente mais pequeno, das combatentes. Em muitos casos tamb\u00e9m os avi\u00f5es tiveram de ser modificados pois as novas recrutas n\u00e3o chegavam aos pedais. E ainda tiveram que cortar o cabelo at\u00e9 um m\u00e1ximo \u00abde duas polegadas\u00bb, quando em muitas regi\u00f5es da URSS era tradi\u00e7\u00e3o deix\u00e1-lo crescer at\u00e9 \u00e0 cintura. Embora nos nossos dias possa parecer trivial uma mulher cortar o cabelo muito curto, em 1941 isso revelava um compromisso total.<\/p>\n<p>Treinavam mais de dez horas por dia, pois com as tropas alem\u00e3s a avan\u00e7ar na Frente Oriental, tinham que aprender em dias o que outros se podiam dar ao luxo de aprender em meses ou anos.<\/p>\n<p>Depois de seis meses de dur\u00edssimos treinos, Marina Raskova enviou as jovens recrutas para a linha da frente em tr\u00eas regimentos: o 586\u00ba de Ca\u00e7as, o 587\u00ba de Bombardeamento e o 588\u00ba de Bombardeamento Nocturno.<\/p>\n<p>As mulheres do 588\u00ba pilotavam avi\u00f5es Polikarpov U-2, biplanos desenhados originalmente para treino e fumiga\u00e7\u00e3o, que s\u00f3 tinham capacidade para duas bombas (pelo que tinham de fazer v\u00e1rias viagens) e n\u00e3o podiam comparar-se nem em velocidade nem em pot\u00eancia de fogo com os avi\u00f5es alem\u00e3es.<\/p>\n<p>No entanto, rapidamente se tornaram num pesadelo para os aviadores nazis.<\/p>\n<p>As combatentes do 588\u00ba mostravam grande capacidade de manobra dos U-2 e combinavam-na com t\u00e1cticas extremamente arriscadas. Apareciam de noite, com o motor desligado para n\u00e3o serem detectadas pelo som, e faziam bombardeamentos de precis\u00e3o e de fustigamento contra o ex\u00e9rcito alem\u00e3o. Em combate contra os avi\u00f5es nazis, estas aviadoras costumavam p\u00f4r-se no campo de tiro dos alem\u00e3es enquanto as suas companheiras aproveitavam a distrac\u00e7\u00e3o para apontar aos alvos.<\/p>\n<p>Devido \u00e0 sua habilidade e ast\u00facia, e \u00e0 ferocidade dos ataques, os soldados nazis come\u00e7aram a cham\u00e1-las<em>Nachthexen:<\/em> as \u00abBruxas na Noite\u00bb.<\/p>\n<p>Em Fevereiro de 1943, o 588\u00ba Regimento reorganizou-se dentro do 46\u00ba Regimento de Avia\u00e7\u00e3o de Bombardeamento Nocturno, que em Outubro de 1943 era conhecido como a \u00abGuarda de Taman\u00bb, pelas vit\u00f3rias conquistadas pelo Ex\u00e9rcito Vermelho na pen\u00ednsula de Taman.<\/p>\n<p>Foi o regimento de mulheres com mais condecora\u00e7\u00f5es, e no seu apogeu chegou a ter quarenta tripula\u00e7\u00f5es duplas. No final da Guerra as Bruxas tinham feito cerca de 23.000 sa\u00eddas e despejado aproximadamente tr\u00eas mil toneladas de bombas. Calcula-se que cada aviadora tenha feito mais mil miss\u00f5es de combate, e 23 delas foram condecoradas com o t\u00edtulo de hero\u00ednas da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, a mais alta distin\u00e7\u00e3o da URSS.<\/p>\n<p>Trinta das \u00abBruxas da Noite\u00bb morreram em combate; muitas delas eram muito novas, algumas eram mesmo adolescentes.<\/p>\n<p><strong>Marina Raskova<\/strong><\/p>\n<p>Nasceu numa fam\u00edlia da classe m\u00e9dia em 1913, filha de uma professora e de um professor de m\u00fasica. Apesar da inten\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia ser que fosse cantora l\u00edrica, ela come\u00e7ou a estudar qu\u00edmica, e depois de se licenciar come\u00e7ou a trabalhar numa f\u00e1brica de tintas.<\/p>\n<p>Um ano depois casou com o seu companheiro, Sergei, e tiveram uma filha chamada T\u00e2nia. Em 1931 come\u00e7ou a trabalhar como desenhadora no Laborat\u00f3rio de Aeronavega\u00e7\u00e3o da Academia da For\u00e7a A\u00e9rea. Em 1933 tornou-se a primeira aviadora sovi\u00e9tica com o t\u00edtulo oficial, e um ano depois era instrutora da Academia A\u00e9rea Zhukovsky. Em 1935 divorciou-se do seu marido, e em 37, juntamente com Valentina Grizodubova, bateu o recorde feminino de voo sem escalas.<\/p>\n<p>Em 1938, juntamente com outras aviadoras (Grizodubova e P. Osipenko), estabeleceu um novo recorde. Voaram desde Moscovo at\u00e9 Komsomolsk-no-Amur num voo de mais de 26 horas sem escalas, a bordo do Rodina (\u00abP\u00e1tria\u00bb). Marina n\u00e3o teve d\u00favidas em saltar do avi\u00e3o com p\u00e1ra-quedas, quando a visibilidade impedia a aterragem, tendo sido encontrada por um ca\u00e7ador em plena estepe. Nesse mesmo ano foram condecoradas com o t\u00edtulo de Hero\u00ednas da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, sendo as primeiras mulheres a conquistar tal distin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando rebentou a Segunda Guerra Mundial na Frente Oriental, muitas mulheres com experi\u00eancia civil de voo acorreram a alistar-se. No Ex\u00e9rcito Vermelho n\u00e3o havia nenhuma norma que impedisse as mulheres de combater na primeira linha mas, na pr\u00e1tica deparavam-se com in\u00fameros obst\u00e1culos, sendo relegados para ocupa\u00e7\u00f5es de tipo auxiliar.<\/p>\n<p>Marina Raskova recorreu \u00e0 sua autoridade como aviadora de fama mundial para mudar a situa\u00e7\u00e3o, e com a aprova\u00e7\u00e3o directa de Stalin p\u00f4de convencer as autoridades militares a organizar e treinar tr\u00eas regimentos de avia\u00e7\u00e3o onde as mulheres seriam aviadoras, engenheiras e pessoal de apoio.<\/p>\n<p>Raskova comandou pessoalmente o Regimento 587\u00ba de Bombardeiros, que em 1943 foi reorganizado como o 125\u00ba Regimento. Estas aviadoras, que combateram em Stalinegrado, voavam em modernos Petlyakov Pe-2, enquanto as outras unidades compostas por homens utilizavam avi\u00f5es mais velhos.<\/p>\n<p>Marina Raskova morreu a 4 de Janeiro de 1943, quando o seu avi\u00e3o se estatelou no ch\u00e3o devido a uma tempestade. Como estava numa miss\u00e3o militar foi considerada morte em combate e teve um funeral de Estado. As suas cinzas foram colocadas no Muro do Kremlin, e foi condecorada a t\u00edtulo p\u00f3stumo com a Ordem da Guerra Patri\u00f3tica de Primeira Classe.<\/p>\n<p><strong>A Rosa Branca de Stalinegrado<\/strong><\/p>\n<p><em>\u00abEra uma pessoa muito agressiva\u2026 Nascida para o combate\u00bb, <\/em><\/p>\n<p>(Boris Eremin, Oficial da For\u00e7a A\u00e9rea Sovi\u00e9tica).<\/p>\n<p>Lydia Litvak (1921-1943), de origem moscovita, entrou para um clube de avia\u00e7\u00e3o popular com catorze anos, e aos quinze fez o seu primeiro voo sozinha.<\/p>\n<p>Um ano depois j\u00e1 tinha licen\u00e7a de instrutora de voo.<\/p>\n<p>Quando come\u00e7ou a invas\u00e3o da URSS pelos nazis, alistou-se numa unidade de avia\u00e7\u00e3o militar mas foi rejeitada. Alterou o seu historial de voo, acrescentou-lhe mais de cem horas de voo do que realmente tinha feito, e foi admitida na base a\u00e9rea de Engels, pr\u00f3ximo de Stalinegrado.<\/p>\n<p>Ali foi treinada por marina Raskova e, seis meses depois j\u00e1 combatia no 587\u00ba Regimento de Ca\u00e7as, uma unidade exclusivamente composta por mulheres.<\/p>\n<p>Fez os seus primeiros voos de combate no Ver\u00e3o de 1942, sobre Saratov. Em Setembro foi transferida, juntamente com outras seis aviadoras do 587\u00ba e algum pessoal civil para o 437\u00ba Regimento. Esta unidade, que at\u00e9 \u00e0 sua chegada era exclusivamente composta por homens, combatia nos c\u00e9us de Stalingrado. Tr\u00eas dias depois da sua chegada fez o seu primeiro derrube, tornando-se provavelmente na primeira mulher na Hist\u00f3ria a derrotar um avi\u00e3o inimigo em combate. Poucos minutos depois derrubou um segundo ca\u00e7a que perseguia a comandante do seu esquadr\u00e3o. O piloto nazi p\u00f4de saltar a tempo do avi\u00e3o e foi capturado pelas tropas sovi\u00e9ticas. Era Erwin Maier, um \u00c1s alem\u00e3o com onze vit\u00f3rias, tr\u00eas vezes condecorado com a Cruz de Ferro. Maier pediu para conhecer ao piloto russo que o tinha superado e, quando o apresentaram a Lydia Litvak indignou-se, pensando que os oficiais sovi\u00e9ticos o estavam a vexar. At\u00e9 ela descrever todos os pormenores do combate, o piloto nazi n\u00e3o aceitou que tinha sido derrubado por uma mulher.<\/p>\n<p>Em finais de Setembro, \u00e0 medida que iam conseguindo mais vit\u00f3rias, Lydia e outras camaradas foram transferidas para o 9\u00ba Regimento de ca\u00e7as da Guarda, tamb\u00e9m em Stalingrado. Diz-se que, ent\u00e3o, j\u00e1 estava pintado na fuselagem do seu ca\u00e7a uma flor branca, pelo que come\u00e7ou a ganhar o nome de Flor Branca de Stalingrado.<\/p>\n<p>Pouco depois, Lydia e a sua companheira Katia Budanova foram novamente transferidas, desta vez para o 296\u00ba Regimento de Ca\u00e7as da Guarda (renomeado depois de 73\u00ba Regimento de Ca\u00e7as da Guarda). A\u00ed, Lydia conseguiu o seu quinto derrube, tornando-se na primeira das duas \u00fanicas mulheres Ases na hist\u00f3ria da avia\u00e7\u00e3o militar (a outra foi a sua camarada de armas Budanova).<\/p>\n<p>Poucos dias depois, em 23 de Fevereiro, foi condecorada com a Orem da Estrela Vermelha, promovida a subtenente, e indicada para um grupo de ca\u00e7as de elite chamado okhotniki (\u00abca\u00e7adores livres\u00bb). Nessa iniciativa, pares de pilotos veteranos movimentavam-se com mais liberdade que dentro do regimento, procurando objectivos de acordo com o seu pr\u00f3prio crit\u00e9rio.<\/p>\n<p>Em Mar\u00e7o fez um ataque sobre um grupo de bombardeiros alem\u00e3es e foi ferida por um dos ca\u00e7as que os escoltavam. Teve for\u00e7as para derrubar outro dos ca\u00e7as, mas quando aterrou na sua base j\u00e1 tinha tido uma grave perda de sangue devido aos ferimentos.<\/p>\n<p>Em Maio, o que tinha sido o seu companheiro de voo em muitas ocasi\u00f5es, o \u00c1s sovi\u00e9tico Solomatin, morreu num acidente. Segundo as palavras posteriores da mec\u00e2nica de Lydia depois da morte de Solomatin, \u00abLitvak s\u00f3 queria voar em miss\u00f5es de combate\u00bb.<\/p>\n<p>Dez dias depois, Lydia apresentou-se como volunt\u00e1ria para derrubar um bal\u00e3o de observa\u00e7\u00e3o alem\u00e3o, utilizado para localizar objectivos para fogo de artilharia. A miss\u00e3o era extremamente arriscada: o bal\u00e3o estava defendido por dezenas de canh\u00f5es antia\u00e9reos que sempre tinha tido \u00eaxito a repelir os ataques da avia\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p>Apesar de ter tido dificuldades, Lydia foi capaz de calcular a hora precisa do dia em que podia aproximar-se do bal\u00e3o, utilizando a luz do sol para camuflar o seu ca\u00e7a, pelo que destruiu o dirig\u00edvel alem\u00e3o.<\/p>\n<p>Em Junho foi nomeada comandante de esquadr\u00e3o. Apesar de em meados de Julho ter sido novamente ferida e ter tido de realizar uma aterragem de emerg\u00eancia, rejeitou a baixa m\u00e9dica e poucos dias depois estava de novo a voar.<\/p>\n<p>A 1 de Agosto saiu quatro vezes em combate no sector sul da Batalha de Kursk. Durante a quarta miss\u00e3o de voo, o seu grupo foi atacado de surpresa por um grupo de ca\u00e7as nazis, e o avi\u00e3o de Lydia foi visto pela \u00faltima vez, desaparecendo por entre as nuvens, fumegando e perseguida por v\u00e1rios ca\u00e7as inimigos. Tinha 21 anos.<\/p>\n<p>Lydia j\u00e1 tinha sido condecorada coma Ordem da Bandeira Vermelha, a Ordem da Estrela Vermelha e duas vezes com a Ordem da Guerra Patri\u00f3tica. No entanto, os restos do seu avi\u00e3o nunca foram encontrados, e isso impediu que tamb\u00e9m se lhe concedesse a distin\u00e7\u00e3o m\u00e1xima.<\/p>\n<p>N\u00e3o o foi durante d\u00e9cadas at\u00e9 os restos do seu avi\u00e3o terem sido encontrados e, finalmente, foi condecorada postumamente como Hero\u00edna da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p><strong>Salv\u00e9 \u00e0s que lutam<\/strong><\/p>\n<p>A cren\u00e7a de que o socialismo trar\u00e1 automaticamente a liberta\u00e7\u00e3o da mulher deve ser afastada da cabe\u00e7a dos revolucion\u00e1rios, mas tampouco se deve esquecer que a derrota do patriarcado s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel dentro de um sistema em que a explora\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica da maioria por parte de uma minoria n\u00e3o seja permitida.<\/p>\n<p>A Segunda Guerra Mundial foi um conflito atroz, e muitas mulheres tiveram o seu papel nos respectivos ex\u00e9rcitos de cada territ\u00f3rio. A maioria delas foram relegadas para trabalhos administrativos, auxiliares ou de enfermagem. Apenas na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica estiveram na primeira linha de combate. Mais de oitocentas mil mulheres combateram no Ex\u00e9rcito Vermelho como franco-atiradoras , artilheiras ou aviadoras; vinte mil mulheres foram condecoradas; oitenta e nove receberam a condecora\u00e7\u00e3o m\u00e1xima: Hero\u00edna da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, a \u00abterra das liberdades\u00bb, as mulheres n\u00e3o pilotaram avi\u00f5es de combate at\u00e9 1993.<\/p>\n<p>A crise capitalista em curso, a que ningu\u00e9m consegue ver o fim, pode relegar muitas mulheres exclusivamente ao trabalho n\u00e3o remunerado, o que quer dizer que se agravar\u00e1 a sua depend\u00eancia, sendo poss\u00edvel que acabem dependendo do suporte econ\u00f3mico de um homem. Dar\u00e3o passos atr\u00e1s na sua liberdade.<\/p>\n<p>Vivemos tempos com cheiro a barricadas, e devemos fazer um esfor\u00e7o para combater as atitudes patriarcais dentro da esquerda revolucion\u00e1ria. Dizer que a repress\u00e3o policial \u00e9 mais terr\u00edvel porque \u00abbatem nas mulheres\u201d \u00e9 releg\u00e1-las a uma posi\u00e7\u00e3o de debilidade. Afirmar que as nossas companheiras n\u00e3o devem estar na primeira linha porque \u00abn\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o fortes como um homem\u00bb, \u00e9 insultar milhares de anos de desenvolvimento da humanidade.<\/p>\n<p>Ambos os argumentos se podem ouvir no sector da esquerda revolucion\u00e1ria. O patriarcado anda h\u00e1 centenas de anos a moldar as sociedades e as cabe\u00e7as das pessoas, mas isso n\u00e3o \u00e9 desculpa: \u00e9 motivo para redobrar os esfor\u00e7os na luta.<\/p>\n<p>As Bruxas da Noite n\u00e3o necessitaram de testosterona nem cromossomas XY para se colocarem na primeira linha. O capitalismo caminho lado a lado com a opress\u00e3o patriarcal, e a sua ideologia dominante concentra-se em fazer amar o explorador e odiar o explorado. Devemos ter um esp\u00edrito cr\u00edtico, mas tal n\u00e3o quer dizer que devemos criticar o que o poder estabelecido queira.<\/p>\n<p>A Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica n\u00e3o foi perfeita; n\u00e3o podia s\u00ea-lo. A cr\u00edtica \u00e9 necess\u00e1ria, mas sempre a partir da esquerda e, em caso algum, deve fazer o jogo do poder estabelecido ou converter-se em pe\u00e7a da engrenagem da propaganda imperialista. E se h\u00e1 muitos erros a aprender com a experi\u00eancia sovi\u00e9tica, tamb\u00e9m h\u00e1 muitos triunfos que reivindicar.<\/p>\n<p>Com o socialismo n\u00e3o se eliminaram as contradi\u00e7\u00f5es de g\u00e9nero por artes m\u00e1gicas, e vimos acima como muitas mulheres lutadoras foram inicialmente rejeitadas, tanto pelo Estado como pelos seus companheiros var\u00f5es, mas n\u00e3o pode negar-se que foi feito um avan\u00e7o.<\/p>\n<p>A URSS do meio dos anos trinta era um pa\u00eds onde uma mulher como Marina Raskova podia decidir divorciar-se e tornar-se numa oficial militar de elevada patente; mais impressionante \u00e9 que era um pa\u00eds que permitia que a mulher concebesse isso n\u00e3o como um milagre, mas como\u00a0<em>uma op\u00e7\u00e3o vi\u00e1vel.<\/em> Isto n\u00e3o surgiu do nada: foi o trabalho organizado de muitas militantes que permitiu haver tais avan\u00e7os na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, deixando claro que a liberta\u00e7\u00e3o das mulheres s\u00f3 pode ser fruto da sua pr\u00f3pria luta, e acontecer num sistema em que a economia esteja ao servi\u00e7o das pessoas e n\u00e3o o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>A ofensiva ideol\u00f3gica do capitalismo esconde-nos os triunfos, para que n\u00e3o possamos record\u00e1-los e agarrarmo-nos a eles, para que nos sintamos desligados e desligadas do passado, daquelas pessoas que lutaram. N\u00e3o podemos permiti-lo.<\/p>\n<p>Tal como a hist\u00f3ria dos povos lutadores, a hist\u00f3ria das mulheres lutadoras \u00e9 inviabilizada pela classe dominante. \u00c9 nosso dever recuperar a nossa hist\u00f3ria, a hist\u00f3ria das que n\u00e3o se renderam. Mulheres lutadoras procedentes de povos lutadores, como as Bruxas da Noite n\u00e3o podem ser esquecidas. Devem ser um exemplo.<\/p>\n<p>Temos que lutar pelo futuro mas sendo herdeiras e herdeiros do passado, recuperando os nossos her\u00f3is e hero\u00ednas.<\/p>\n<p>E as minhas hero\u00ednas atravessaram os c\u00e9us levando bandeiras vermelhas.<\/p>\n<p><strong><em>* Miguel Huertas Maestro, espanhol, \u00e9 estudante de Psicologia.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Este texto foi publicado em:\u00a0<a href=\"http:\/\/%20www.kaosenlared.net\/secciones\/item\/43003-brujas-en-la-noche.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.kaosenlared.net\/secciones\/item\/43003-brujas-en-la-noche.html<\/a><\/p>\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Paulo Gasc\u00e3o<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nODiario.info\n\n\n\n\n\n\n\n\nMiguel Huertas Maestro*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4267\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[74],"tags":[],"class_list":["post-4267","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c87-revolucao-russa"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-16P","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4267","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4267"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4267\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4267"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4267"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4267"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}