{"id":4272,"date":"2013-02-03T17:06:21","date_gmt":"2013-02-03T17:06:21","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4272"},"modified":"2013-02-03T17:06:21","modified_gmt":"2013-02-03T17:06:21","slug":"as-farc-nao-sao-uma-organizacao-inexperiente-que-a-outra-parte-pode-levar-a-rendicao-a-entrega-de-armas-e-a-desmobilizacao-com-simples-promessas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4272","title":{"rendered":"\u201cAs FARC n\u00e3o s\u00e3o uma organiza\u00e7\u00e3o inexperiente, que a outra parte pode levar \u00e0 rendi\u00e7\u00e3o, \u00e0 entrega de armas e \u00e0 desmobiliza\u00e7\u00e3o com simples promessas\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>\u00abPoder participar da vida pol\u00edtica sem sermos massacrados pelo regime \u00e9 um sonho e uma bandeira de nossa luta desde o in\u00edcio. A proximidade desse dia depende da vontade do Estado colombiano. Na mesa de negocia\u00e7\u00f5es \u00e9 necess\u00e1rio buscar, objetivamente, meios que garantam essa participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. S\u00e3o esses os assuntos que esperamos serjam discutidos e solucionados. N\u00e3o teria o menor sentido lutar durante 48 anos para entregar os fuzis e, logo, enfrentarmos \u2013 desarmados \u2013 o mesmo terrorismo de Estado que reina h\u00e1 tantos anos\u00bb.<\/p>\n<p>Alexandra Nari\u00f1o ou Tanja Nijmeijer, seu verdadeiro nome, \u00e9\u00a0guerrilheira das FARC-EP h\u00e1\u00a0dez anos. Em sua chegada \u00e0\u00a0Col\u00f4mbia, ficou impressionada com \u00aba pobreza\u00bb\u00a0que viu ao seu redor. Sentiu vergonha de si pr\u00f3pria e de sua aliena\u00e7\u00e3o. Essa foi \u00aba ponte que me levou a investigar mais profundamente as coisas\u00bb e, tempos depois, a ingressar na guerrilha. Atualmente, \u00e9 um dos rostos mais vis\u00edveis e mais midi\u00e1ticos da delega\u00e7\u00e3o das FARC na mesa de di\u00e1logo, em Havana.<\/p>\n<p>A incorpora\u00e7\u00e3o da guerrilheira holandesa Alexandra Nari\u00f1o \u00e0 mesa de di\u00e1logo entre as FARC-EP e o Governo colombiano gerou grande alvoro\u00e7o nos meios de comunica\u00e7\u00e3o, que viajaram para Oslo, em meados de outubro. Problemas de \u00faltima hora impediram sua presen\u00e7a na capital norueguesa, unindo-se, dias depois, ao resto da delega\u00e7\u00e3o da guerrilha em Havana.<\/p>\n<p>Sobre ela, s\u00e3o escritos livros e reportagens de todo tipo. Seu nome de nascimento, Tanja Nijmeijer, possui cerca de 496.000 entradas na internet. Alexandra Nari\u00f1o, o nome que adotou ao entrar na guerrilha, reafirma suas convic\u00e7\u00f5es e ressalta os valores constru\u00eddos no contato com \u00aba mis\u00e9ria em que vive o povo colombiano\u00bb. Ela foi testemunha da morte de Jorge Brice\u00f1o, ou Mono Jojoy, em um bombardeio e de outros ataques a\u00e9reos do Ex\u00e9rcito. Da capital cubana, relata \u00e0 GARA sua experi\u00eancia, enfatizando a aposta das FARC \u00abpela paz e por um pa\u00eds mais igualit\u00e1rio\u00bb.<\/p>\n<p>O que a guerrilha influenciou na sua vida em termos ideol\u00f3gicos e pessoais?<\/p>\n<p>No n\u00edvel ideol\u00f3gico, o materialismo dial\u00e9tico e hist\u00f3rico me abriu os olhos, no sentido de que me fez entender por que o mundo est\u00e1 como est\u00e1. Aprendi a ver a realidade do ponto de vista da luta de classe para, assim, entender os processos hist\u00f3ricos. Penso que \u2013 inconscientemente \u2013 eu tinha uma mentalidade eurocentrista, tomando como ponto de partida sempre a socialdemocracia europeia. Agora, mudei essa vis\u00e3o. Acredito que todos os povos do mundo buscam suas pr\u00f3prias formas de exercer a democracia e a soberania. Quanto a isso, n\u00e3o podem existir diretrizes estreitas, limita\u00e7\u00f5es e nem imposi\u00e7\u00f5es. E ainda que existam vozes que digam que me fizeram lavagem cerebral, eu afirmo que tive a felicidade de me colocar em contato com novas vis\u00f5es de mundo, sobretudo aprender a olhar a partir dos cen\u00e1rios onde abunda a mis\u00e9ria, a partir das necessidades daqueles que padecem de fome, da falta de moradia&#8230; Eu tive acesso a importantes ferramentas que me permitem buscar as respostas \u00e0s milhares de perguntas que rondavam minha cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Em termos pessoais, minha milit\u00e2ncia me ajudou a compreender muito melhor as pessoas. Todavia, sou cr\u00edtica, por\u00e9m n\u00e3o julgo t\u00e3o r\u00e1pido como fazia antes. Aprendi a trabalhar coletivamente, pois antes acreditava que as tarefas eram mais bem cumpridas se feitas sozinha. Agora, entendo que n\u00e3o existe nada melhor que o trabalho coletivo, mudando completamente a concep\u00e7\u00e3o que tinha em mente. Aprendi a dividir, inclusive em momentos de escassez. Honestamente, antes me do\u00eda por dentro ter que dividir qualquer coisa. Agora, assim que recebo algo, instintivamente come\u00e7o a pensar em quem necessita, a quem posso alegrar a vida com um pequeno detalhe.<\/p>\n<p>Qual foi sua primeira impress\u00e3o ao chegar \u00e0\u00a0Col\u00f4mbia? Como foi o in\u00edcio de sua vida na selva?<\/p>\n<p>A primeira coisa que me impressionou foi a pobreza. Recordo que, quando estava no \u00f4nibus escolar com as crian\u00e7as do col\u00e9gio onde trabalhava \u2013 crian\u00e7as sem outras preocupa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o fossem suas notas ou qual roupa vestir \u2013 vimos uma fam\u00edlia completa de ind\u00edgenas descal\u00e7os caminhando pela rua, deslocados. As crian\u00e7as riam e gritavam: \u00abN\u00f3s temos dinheiro e voc\u00eas n\u00e3o!\u00bb. Senti vergonha alheia.<\/p>\n<p>Outra lembran\u00e7a: uns homens buscando comida na minha lixeira em uma manh\u00e3, quando estava esperando o \u00f4nibus escolar. Senti vergonha, desta vez n\u00e3o alheia. Esses dias foram de uma constante curiosidade. Queria observar esse novo mundo que me rodeava, me sentia incapaz de resignar-me a essa realidade. A guerrilha \u00e9 a resposta do povo a essa realidade, n\u00e3o s\u00f3 de pobreza, mas tamb\u00e9m de terrorismo de Estado, que eu estava por descobrir. Da exclus\u00e3o pol\u00edtica. A pobreza \u00e9 apenas o sintoma mais palp\u00e1vel desse Estado de exclus\u00e3o das maiorias e, para mim, foi a ponte que me levou a investigar mais profundamente as coisas.<\/p>\n<p>Conhecendo apenas alguns aspectos da sociedade colombiana, a exist\u00eancia de uma guerrilha me pareceu completamente natural. E, ao mesmo tempo, um exemplo de n\u00e3o resigna\u00e7\u00e3o, de combatividade. E senti tamb\u00e9m como natural meu ingresso \u00e0 selva, como consequ\u00eancia do processo que tinha vivido. N\u00e3o o senti como uma decis\u00e3o radical, mas l\u00f3gica.<\/p>\n<p>Identifiquei-me com esta causa e isso foi suficiente. Como tal, assumi minha nova vida como algo natural, que n\u00e3o quer dizer que tenha sido algo f\u00e1cil. Tive minhas dificuldades de adapta\u00e7\u00e3o, f\u00edsicas, lingu\u00edsticas, culturais, de todo tipo. Ficava desesperada com o som dos grilos, que fica mais forte no hor\u00e1rio de quatro da tarde (agora me faz falta). N\u00e3o conhecia o fac\u00e3o, nem muito menos sabia manej\u00e1-lo (agora me faz falta). Ultrapassei muitos obst\u00e1culos. Por\u00e9m, estou aqui.<\/p>\n<p>Como \u00e9\u00a0 a vida na guerrilha?<\/p>\n<p>A vida \u00e9\u00a0imprevis\u00edvel, pela pr\u00f3pria din\u00e2mica da guerra. Hoje voc\u00ea est\u00e1 aqui, amanh\u00e3 l\u00e1. Somos m\u00f3veis, carregamos nossa casa nas costas como os carac\u00f3is. N\u00e3o nos apegamos \u00e0s coisas materiais. Por conta da dureza da guerra, os guerrilheiros n\u00e3o se deixam abater por nada. Nos acampamentos existe um ambiente de alegria e camaradagem. Trabalhamos at\u00e9 \u00e0s 15 horas, depois nos banhamos e temos a hora cultural, com canto, poesia, leitura de documentos e discuss\u00f5es sobre as not\u00edcias ou documentos. Durante a tarde, existe a rela\u00e7\u00e3o militar, onde se informam os problemas ocorridos nas \u00faltimas 24 horas. E, uma vez por semana, reuni\u00e3o do partido, onde existe educa\u00e7\u00e3o, an\u00e1lise pol\u00edtica, cr\u00edticas e autocr\u00edticas. As tarefas s\u00e3o muito diversas: organiza\u00e7\u00e3o de massas, educa\u00e7\u00e3o, alfabetiza\u00e7\u00e3o, cozinhar, fazer a guarda, guerrear, fazer intelig\u00eancia, transportar alimentos, carregar lenha e muitas coisas mais. Nunca \u00e9 mon\u00f3tona: hoje voc\u00ea est\u00e1 em uma emboscada, amanh\u00e3 em treinamento pol\u00edtico-militar e, depois de amanh\u00e3, cozinhando.<\/p>\n<p>Nestes dez anos, voc\u00ea testemunhou bombardeios do Ex\u00e9rcito. Como voc\u00ea os descreve?<\/p>\n<p>Estive presente no bombardeio onde assassinaram o camarada Jorge Brice\u00f1o e tamb\u00e9m em dois outros bombardeios anteriores. \u00c9\u00a0dif\u00edcil descrev\u00ea-los. A \u00fanica coisa que posso dizer \u00e9\u00a0que vejo como uma forma de ataque t\u00e3o covarde, que voc\u00ea sai com uma for\u00e7a renovada para combater o terrorismo de Estado. S\u00e3o momentos como esse que faz sentido o conceito de terrorismo de Estado. \u00c9 quando voc\u00ea se d\u00e1 conta de que esse Estado est\u00e1 disposto a fazer qualquer coisa para assassinar seus pr\u00f3prios cidad\u00e3os, aqueles que, simplesmente, possuem outras ideias sobre pol\u00edtica, economia ou democracia. Imagine o contr\u00e1rio, se a guerrilha tivesse avi\u00f5es e bombardeasse a for\u00e7a p\u00fablica intensamente, durante a noite, quando estivessem dormindo. O que diria o mundo? Tamb\u00e9m diria que essas bombas de 500 quilos s\u00e3o \u00abarmas convencionais\u00bb? Penso que todos os organismos de direitos humanos cairiam em cima de n\u00f3s, denunciando semelhante crime de guerra.<\/p>\n<p>A tamb\u00e9m delegada das FARC, Sandra Ram\u00edrez, denunciou \u00abo menosprezo pelas mulheres\u00bb por parte do inimigo, ao qual acusa de torturas e, inclusive, mutila\u00e7\u00f5es. Qual papel desempenha a mulher na guerra? E dentro da guerrilha?<\/p>\n<p>Existem muitas den\u00fancias de mulheres prisioneiras de guerra nas m\u00e3os do regime, desde torturas at\u00e9 viola\u00e7\u00f5es por parte do Ex\u00e9rcito e dos carcereiros. \u00c9 o mesmo machismo t\u00e3o latente na sociedade latino-americana, que na guerra aparece sob as formas mais espantosas. Na guerrilha, homem e mulher s\u00e3o iguais. Qualquer forma de discrimina\u00e7\u00e3o \u00e0 mulher \u00e9 fortemente combatida. As mulheres que est\u00e3o na guerrilha tentam ser um exemplo para a mulher colombiana, oprimida de diversas maneiras, mostrando, na pr\u00e1tica, que as mulheres s\u00e3o parte ativa nesta luta, que \u00e9 a luta do povo em seu conjunto, homens e mulheres.<\/p>\n<p>Foram escritos v\u00e1rios livros e reportagens de todo tipo sobre voc\u00ea. Como se sentiu ao longo destes anos sendo foco de tamanha aten\u00e7\u00e3o, ainda mais agora?<\/p>\n<p>Como para mim foi um processo t\u00e3o natural, a princ\u00edpio, me surpreendia sobremaneira o espanto de muitas pessoas ao ver uma holandesa na guerrilha colombiana. Para mim, francamente, essa aten\u00e7\u00e3o, em muitos casos, se limita com sensacionalismo, direitismo. Todo mundo tem uma opini\u00e3o sobre mim e sobre as FARC, inclusive pessoas que sequer conhecem o conflito ou a situa\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria em que vive o povo colombiano. S\u00e3o r\u00e1pidos em julgar, por\u00e9m muito pregui\u00e7osos na hora de estudar as causas, as raz\u00f5es do levante armado do povo colombiano. De forma submissa, adotam os conceitos doutrin\u00e1rios \u00abterroristas, narcotraficantes, sequestradores\u00bb, sem pensar criticamente.<\/p>\n<p>Preciso dizer que tamb\u00e9m existe o outro lado da moeda. Existe gente que, motivada pelo meu ingresso, come\u00e7ou a ver a import\u00e2ncia do internacionalismo e da luta contra o grande capital, e isso, obviamente, me enche de satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Governo colombiano e as grandes corpora\u00e7\u00f5es midi\u00e1ticas utilizaram contra voc\u00ea\u00a0e contra a guerrilha alguns par\u00e1grafos de um di\u00e1rio seu apreendido durante uma opera\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito. O que voc\u00ea\u00a0aprendeu com isso? Que folhas foram deixadas? Que marcas deixaram?<\/p>\n<p>Meu di\u00e1rio foi um reflexo de todas as minhas viv\u00eancias durante os primeiros anos na guerrilha. Continha alegrias e tristezas, pensamentos cr\u00edticos e ataques de raiva ou de temperamento. Tiraram cinco ou seis frases e com isso fizeram uma grande manipula\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica. Como se fosse um esc\u00e2ndalo o fato de que aqui existem contradi\u00e7\u00f5es, problemas e defeitos. Somos humanos! Por que em meu di\u00e1rio n\u00e3o falo das coisas de que tanto acusam as FARC? Do recrutamento for\u00e7ado de meninos, ataques \u00e0 popula\u00e7\u00e3o civil, narcotr\u00e1fico&#8230;? Ningu\u00e9m se perguntou isso, e mostram como um enorme esc\u00e2ndalo o fato de que tenhamos defeitos. O que aprendi de todo esse epis\u00f3dio foi que o Estado colombiano n\u00e3o poupa esfor\u00e7os nem dinheiro para nos satanizar e que temos de ser cuidadosos com isso. A grande imprensa est\u00e1 a servi\u00e7o das transnacionais. No que diz respeito a nossa atua\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tem a menor inten\u00e7\u00e3o de fazer reluzir a verdade. Visam apenas desprestigiar e criar as distor\u00e7\u00f5es que combatemos.<\/p>\n<p>Um dos cursos que recebeu na selva foi ministrado por Sim\u00f3n Trinidad. As FARC pediram ao presidente estadunidense, Barack Obama, que o indulte. Por que tanta insist\u00eancia? Voc\u00eas ainda possuem esperan\u00e7as de que ele possa participar da mesa mesmo depois da negativa da Casa Branca em indult\u00e1-lo?<\/p>\n<p>Insistimos na participa\u00e7\u00e3o de Sim\u00f3n Trinidad na mesa, porque ele \u00e9, foi e sempre ser\u00e1\u00a0um homem de paz, com uma enorme capacidade pol\u00edtica e firmeza ideol\u00f3gica demonstrada durante todos esses anos. Acreditamos que o Governo estadunidense, ap\u00f3s tantos anos de colabora\u00e7\u00e3o com a guerra na Col\u00f4mbia, com equipamentos b\u00e9licos, assessoramento e tecnologia de ponta, planos militares espec\u00edficos de contrainsurg\u00eancia, reconsidere e tamb\u00e9m d\u00ea uma importante contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 paz deste pa\u00eds.<\/p>\n<p>Eu creio que a vontade existe, escutando diversas declara\u00e7\u00f5es que altos funcion\u00e1rios desse pa\u00eds deram em apoio \u00e0\u00a0 paz na Col\u00f4mbia, por\u00e9m o complicado \u00e9\u00a0que o Governo colombiano, que foi quem o extraditou inventando provas falsas, n\u00e3o concede sequer a gra\u00e7a de uma simples solicita\u00e7\u00e3o ao Governo estadunidense no sentido de que analisem o caso, que entre outras coisas comporta uma condena\u00e7\u00e3o por diferentes assuntos aos que se argumentaram para extradit\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Por que Bogot\u00e1\u00a0 colocou obst\u00e1culos a sua inclus\u00e3o na mesa de di\u00e1logo?<\/p>\n<p>Acredito que n\u00e3o foram obst\u00e1culos jur\u00eddicos, como dizem, mas pol\u00edticos. Aqueles que est\u00e3o sob as ordens diretas de Washington, que recebem ajuda militar estrangeira, que fazem concess\u00f5es permanentes ao capital estrangeiros, sentem-se incomodados com esta pedrinha no sapato. Temem que, talvez, minha presen\u00e7a possa despertar um sentimento cr\u00edtico em muita gente, de que talvez as FARC n\u00e3o sejam terroristas como eles afirmam. Por outro lado, eles sabem que minha presen\u00e7a \u00e9 um reflexo da for\u00e7a, da beleza e da profundidade que os conceitos de internacionalismo e solidariedade t\u00eam nos movimentos revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Em qual situa\u00e7\u00e3o se encontra o campesinato? Como \u00e9\u00a0o seu contato com as comunidades mais afetadas pelo conflito?<\/p>\n<p>Todos das FARC concordamos em apontar o problema da terra na Col\u00f4mbia, sua posse, seu uso desigual, sua acumula\u00e7\u00e3o em pouqu\u00edssimas m\u00e3os mediante o despojo violento, como causa fundamental do conflito. 1,15% da popula\u00e7\u00e3o possuem 52% das terras, tema que precisa ser resolvido com urg\u00eancia. A concentra\u00e7\u00e3o e expropria\u00e7\u00e3o da terra deixaram, no \u00faltimo quarto de s\u00e9culo, cerca de 6 milh\u00f5es de hectares arrebatados. Alguns calculam que podem ser 8 milh\u00f5es. Essa acumula\u00e7\u00e3o de terras segue seu curso. Atrav\u00e9s do paramilitarismo, removem camponeses e expropriam as terras para entrega-las \u00e0s grandes empresas multinacionais, para extrair petr\u00f3leo, carv\u00e3o, ouro&#8230; todas as riquezas naturais existentes na Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p>N\u00f3s pensamos que essa livre entrada de investidores tem que ser controlada, que, em primeiro lugar, est\u00e1 a soberania do pa\u00eds, a soberania alimentar e o bem-estar de sua gente. Essa concentra\u00e7\u00e3o e expropria\u00e7\u00e3o da terra faz com que o campon\u00eas viva em um estado de total abandono. N\u00e3o possuem acesso \u00e0 sa\u00fade, estradas por onde passem os alimentos necess\u00e1rios, suas moradias est\u00e3o em estado deplor\u00e1vel, existe muito analfabetismo. E, em sua grande maioria, s\u00e3o eles que chegam \u00e0s fileiras da insurg\u00eancia. O nosso contato com as comunidades \u00e9 muito estreito. Isso se deve ao fato de que s\u00e3o seus filhos, seus irm\u00e3os e irm\u00e3s que est\u00e3o na guerrilha. A guerrilha vai, fala com a popula\u00e7\u00e3o, faz com que ela mesma se organize e eles nos chegam com seus problemas, preocupa\u00e7\u00f5es e conflitos.<\/p>\n<p>Muito me tocou a oportunidade de construir pontes com a popula\u00e7\u00e3o. Todo tipo de trabalho \u00e9 feito em conjunto. Lembro que uma vez est\u00e1vamos em uma casinha, fazendo dois panel\u00f5es de sopa quando o Ex\u00e9rcito nos surpreendeu e nos mandou sair. \u00c0s 9 horas da noite, chegamos cansados a um s\u00edtio. Fomos dormir esfomeados e est\u00e1vamos certos de que n\u00e3o \u00edamos comer at\u00e9 o dia seguinte. Quando, \u00e0s 10:30 da noite, os companheiros da casinha nos acordaram, vindos de mula para nos trazer a sopa. Orgulhosos porque nos encontraram e o Ex\u00e9rcito n\u00e3o! S\u00e3o experi\u00eancias muito bonitas que se vivem com a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em Oslo, o chefe negociador do Governo, Humberto de la Calle, disse que s\u00e3o as FARC que est\u00e3o em d\u00edvida com as v\u00edtimas, ignorando a pergunta feita sobre \u00abo terrorismo de Estado\u00bb. Da sua parte, Iv\u00e1n M\u00e1rquez ressaltou que as FARC desejam \u00aba reconcilia\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia colombiana\u00bb. Quais passos a guerrilha estaria disposta a dar nesse sentido?<\/p>\n<p>N\u00f3s sempre pensamos nas v\u00edtimas desta guerra imposta pelo Estado. Nosso levante em armas vem sendo uma rea\u00e7\u00e3o justa, leg\u00edtima, contra o terrorismo de Estado. Por\u00e9m, tamb\u00e9m sabemos que o confronto gerou, em contrapartida, consequ\u00eancias. Assim, existem casos de soldados dos quais suas fam\u00edlias n\u00e3o t\u00eam not\u00edcias e, seguramente, outros tipos de situa\u00e7\u00f5es que necessitam de an\u00e1lise. Sobre isso, as FARC-EP sempre foram claras ao dizer que est\u00e3o dispostas a contribuir com o esclarecimento dos casos, de maneira franca com os familiares e n\u00e3o como os que jogam com a dor alheia, acusando-nos de tudo, sem considerar, por exemplo, que muitos soldados ca\u00eddos em combate, jamais tiveram seus corpos retirados do campo de batalha e s\u00e3o apresentados como desaparecidos a seus familiares.<\/p>\n<p>Em Oslo, v\u00e1rios colombianos exilados comentaram conosco, GARA, que \u00abdeve ser privilegiada uma paz est\u00e1vel e duradoura sobre o castigo\u00bb. Enquanto isso, o jornalista Rom\u00e8o Langlois considerou que \u00aba solu\u00e7\u00e3o passa por um grande processo da verdade\u00bb. O que significam termos como castigo e verdade para voc\u00eas?<\/p>\n<p>N\u00f3s das FARC-EP pensamos que \u00e9\u00a0importante encontrar a verdade, sem manipula\u00e7\u00f5es midi\u00e1ticas, sem a desinforma\u00e7\u00e3o e sem lan\u00e7ar m\u00e3o da propaganda fascista, usada como parte da guerra contrainsurgente. Nessa busca, existe uma responsabilidade fundamental, hist\u00f3rica, sempre s\u00e3o claras em n\u00e3o permitir que a insurg\u00eancia se converta em carrasco de seu pr\u00f3prio povo.<\/p>\n<p>Outro dos pontos da agenda pactuada em Havana, em agosto, com o Governo, \u00e9\u00a0 a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Na entrevista \u00e0\u00a0GARA, Marco Le\u00f3n Calarc\u00e1\u00a0afirmou que quando as causas que deram origem e alimentam o conflito forem resolvidas, as armas perder\u00e3o vig\u00eancia. Esse dia est\u00e1 pr\u00f3ximo? Que garantias exigem para que n\u00e3o aconte\u00e7a novamente o que ocorreu com a Uni\u00e3o Patri\u00f3tica?<\/p>\n<p>Poder participar da vida pol\u00edtica sem sermos massacrados pelo regime \u00e9\u00a0um sonho e uma bandeira de nossa luta desde o in\u00edcio. A proximidade desse dia depende da vontade do Estado colombiano. Na mesa de negocia\u00e7\u00f5es \u00e9 necess\u00e1rio buscar, objetivamente, meios que garantam essa participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. S\u00e3o esses os assuntos que esperamos serem discutidos e solucionados. N\u00e3o teria o menor sentido lutar durante 48 anos para entregar os fuzis e, logo, enfrentarmos \u2013 desarmados \u2013 o mesmo terrorismo de Estado que reina h\u00e1 tantos anos. \u00c9 preciso que se produzam mudan\u00e7as estruturais, pol\u00edticas, sociais de fundo, j\u00e1 que realmente a experi\u00eancia da Uni\u00e3o Patri\u00f3tica foi uma li\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica sobre o car\u00e1ter criminoso e trai\u00e7oeiro do Estado. As FARC n\u00e3o s\u00e3o uma organiza\u00e7\u00e3o inexperiente, que a outra parte pode levar \u00e0 rendi\u00e7\u00e3o, \u00e0 entrega de armas e \u00e0 desmobiliza\u00e7\u00e3o com simples promessas.<\/p>\n<p>O diretor da Pol\u00edcia Nacional da Col\u00f4mbia, Jos\u00e9\u00a0Roberto Le\u00f3n Ria\u00f1o, disse que as FARC preparam \u00abuma onda terrorista uma vez que acabe a tr\u00e9gua\u00bb. Como avaliam estas declara\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>\u00abPor tr\u00e1s do ladr\u00e3o, tolo\u00bb, se diz na Col\u00f4mbia. O fato \u00e9 que o Governo n\u00e3o quer criar um ambiente de paz, mediante um cessar fogo bilateral, nem querem acordos para regularizar a guerra para aliviar o sofrimento dos colombianos. Pelo contr\u00e1rio, queixam-se porque \u00abn\u00e3o cumprimos\u00bb ou porque estamos preparando \u00abgrandes ondas terroristas\u00bb. \u00c9 dif\u00edcil levar a s\u00e9rio aqueles que fazem este tipo de coment\u00e1rio. Em outras palavras: se n\u00e3o t\u00eam a coragem de tomar decis\u00f5es de paz, devem ter ao menos a coragem de ficarem calados.<\/p>\n<p>H\u00e1\u00a0mais de um m\u00eas est\u00e3o dialogando em Havana. Qual o ambiente da mesa e entre os delegados de ambas as partes?<\/p>\n<p>A atmosfera \u00e9\u00a0boa, inspira respeito de ambas as partes. Somos duas partes em conflito e, como tal, existem contradi\u00e7\u00f5es e muitos pontos de vista diferentes. Por isso, queremos encontrar solu\u00e7\u00f5es para eles. \u00c9 preciso lembrar que, sobre os pontos da Agenda propriamente dita, n\u00e3o se pode esperar que existam resultados melhores dos que j\u00e1 alcan\u00e7ados, considerando os poucos dias em que se dedicou ao estudo do primeiro ponto, referente \u00e0s pol\u00edticas de desenvolvimento integral rural. Antes estivemos muito centrados em resolver aspectos metodol\u00f3gicos e t\u00e9cnicos que nos servir\u00e3o para abordar os temas com maior fluidez.<\/p>\n<p>Quais s\u00e3o suas previs\u00f5es para este ano que come\u00e7a?<\/p>\n<p>N\u00e3o posso fazer \u00abadivinha\u00e7\u00f5es\u00bb. A \u00fanica coisa que posso fazer \u00e9 reiterar a vontade de paz das FARC-EP em seu conjunto. Sim, posso prever, com certeza, \u00e9 que as FARC voltar\u00e3o a empreender com maior determina\u00e7\u00e3o, com otimismo, com muita esperan\u00e7a as jornadas de di\u00e1logo do pr\u00f3ximo ano. De fato, n\u00f3s estamos estudando, elaborando propostas, discutindo com as pessoas sobre diferentes pontos de vistas para construir iniciativas que permitam que o processo avance. Queremos a paz e queremos um pa\u00eds mais igualit\u00e1rio, queremos que se valorize e respeite as grandes maiorias e seu direito a uma vida digna.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCambiopolitico\n\n\n\n\n\n\n\n\n(Entrevista concedida pela guerrilheira Alexandra Nari\u00f1o \u00e0 GARA)\nPor Ainara Lertxundi\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4272\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[34],"tags":[],"class_list":["post-4272","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c39-colombia"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-16U","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4272","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4272"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4272\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4272"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4272"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4272"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}