{"id":4307,"date":"2013-02-10T00:50:37","date_gmt":"2013-02-10T00:50:37","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4307"},"modified":"2017-08-25T00:58:04","modified_gmt":"2017-08-25T03:58:04","slug":"o-carnaval-espetacular","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4307","title":{"rendered":"O carnaval \u201cespetacular\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>Meu cora\u00e7\u00e3o socialista tem muitas saudades do futuro, mas os signos de metamorfose do carnaval \u2018espetacular\u2019 de Bruzundanga n\u00e3o podem ser ignorados<\/p>\n<p>08\/02\/2013<\/p>\n<p>Luiz Ricardo Leit\u00e3o<\/p>\n<p>Quem ainda se lembra do samba-enredo campe\u00e3o do desfile de 2012 no Rio de Janeiro? Alguns foli\u00f5es da Tijuca talvez o cantem na sua quadra \u2013 e mais ningu\u00e9m lograr\u00e1 tal proeza. Contudo, a letra e a melodia de Bum bum paticumbum prugurundum seguem vivas em nossa mem\u00f3ria musical, assim como outras joias do Imp\u00e9rio \u2013 basta lembrar a antol\u00f3gicaAquarela Brasileira, do genial Silas de Oliveira, que encantou a passarela em 1964.<\/p>\n<p>Dos mais recentes, eu pr\u00f3prio s\u00f3\u00a0 recordo a bela homenagem de Martinho da Vila a Noel Rosa, no centen\u00e1rio do Poeta, em 2010. Os leitores devem supor que este cronista padece de uma crise aguda de nostalgia, por\u00e9m est\u00e3o enganados. Meu cora\u00e7\u00e3o socialista tem muitas saudades do futuro, mas os signos de metamorfose do carnaval \u2018espetacular\u2019 de Bruzundanga n\u00e3o podem ser ignorados.<\/p>\n<p>Como j\u00e1\u00a0escrevi aqui nesta coluna, a convers\u00e3o do desfile em um evento televisivo s\u00f3 fez real\u00e7ar o peso dos elementos visuais na Sapuca\u00ed \u2013 e, de fato, a \u00faltima escola a vencer impulsionada pelo samba foi o Salgueiro, em 1993 (!), com o seu Ita do Norte, cujo esfuziante refr\u00e3o (Explode, cora\u00e7\u00e3o, na maior felicidade&#8230;) at\u00e9 hoje agita as ruas do pa\u00eds.<\/p>\n<p>A l\u00f3gica irracional do mercado ditou, em grande parte, essa agonia do g\u00eanero. Por imposi\u00e7\u00e3o das gravadoras, acelerou-se em muito a harmonia dos sambas, para que todos coubessem em um s\u00f3 disco. Com isso, a velha cad\u00eancia de Mano D\u00e9cio, Silas, Z\u00e9 Katimba, Martinho &amp; Cia. cedeu vez a uma batida fren\u00e9tica, de melodias padronizadas, em que raros refr\u00f5es logram seduzir o p\u00fablico.<\/p>\n<p>E quem se habituou a cantar os belos e alegres sambas da Ilha nos anos 70\/80 (Domingo, O amanh\u00e3, O que ser\u00e1?, Bom, bonito e barato) s\u00f3 pode lamentar o que se ouve hoje, \u2018colchas de retalho\u2019 compostas por \u2018firmas\u2019 que concorrem em v\u00e1rias quadras \u2013 e de que logo se esquecer\u00e1 em meio a tamanha pasteuriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A suposta \u201cnostalgia\u201d, pelo visto, n\u00e3o se restringe a este escriba. O sambista Zeca Pagodinho, de forma ainda mais clara e contundente, acaba de declarar, em entrevista, que n\u00e3o vai ao samb\u00f3dromo em 2013: \u201cN\u00e3o tem Carnaval! Roubaram tudo. Acabaram com tudo o que \u00e9 da cultura. N\u00e3o sei que doideira deu nesse mundo a\u00ed.\u201d<\/p>\n<p>Mas a festa vai rolar em Xer\u00e9m, no s\u00edtio de um amigo, com banda de m\u00fasica, decora\u00e7\u00e3o e as crian\u00e7as todas enfeitadas, cantando Mam\u00e3e, eu quero, \u00cdndio quer apito e outros sucessos dos antigos carnavais. Assim como Zeca, o povo continua a fazer da festa sua forma de contesta\u00e7\u00e3o. Cresce o n\u00famero de foli\u00f5es fantasiados, expressando seus sonhos, suas revoltas e, sobretudo, sua enorme criatividade.<\/p>\n<p>Conforme escrevi em 2012, o carnaval volta a cumprir seu papel dentro de uma sociedade excludente e perversa, liberando as energias reprimidas pelo capital e desnudando a farsa do poder em Bruzundanga. \u00c9 \u00f3bvio, tamb\u00e9m, que o \u201cmercado\u201d n\u00e3o subestima essa energia colossal e tenta coopt\u00e1-la por diversas vias \u2013 que o diga a Basf, empresa aliada do latif\u00fandio, com os milh\u00f5es investidos no desfile da Vila Isabel.<\/p>\n<p>Certos tiros, por\u00e9m, podem sair pela culatra \u2013 e a iniciativa da Campanha contra os Agrot\u00f3xicos de entregar uma carta \u00e0 Vila foi mais que oportuna: \u201co agroneg\u00f3cio, que n\u00e3o \u201cpartilha, nem protege e muito menos aben\u00e7oa a terra\u201d, quer se apropriar da imagem dos camponeses e da agricultura familiar\u201d.<\/p>\n<p>Em realidade, o epis\u00f3dio s\u00f3\u00a0 reitera o dilema das escolas em Bruzundanga: com as verbas do Estado e dos bicheiros, n\u00e3o logram mais fazer um carnaval espetacular. Por isso, a S\u00e3o Clemente exaltar\u00e1 as novelas da TV Globo, a Mocidade cantar\u00e1 o Rock in Rio (!) e a Beija-Flor, o Manga-larga Marchador&#8230; Quem d\u00e1 mais, caro leitor? S\u00f3 mesmo o sarc\u00e1stico Noel para cantar a moral dessa hist\u00f3ria: \u201cQuanto \u00e9 que vai ganhar o leiloeiro \/ Que \u00e9 tamb\u00e9m brasileiro \/ E em tr\u00eas lotes vendeu o Brasil inteiro?\u201d<\/p>\n<p>Luiz Ricardo Leit\u00e3o \u00e9 escritor e professor adjunto da UERJ. Doutor em Estudos Liter\u00e1rios pela Universidade de La Habana, \u00e9 autor de Noel Rosa \u2013 Poeta da Vila, Cronista do Brasil e de Lima Barreto \u2013 o rebelde imprescind\u00edvel.<\/p>\n<p>Publicado no blog do Brasil de Fato<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\n4.bp.blogspot\n\n\n\n\n\n\n\n\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4307\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-4307","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-17t","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4307","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4307"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4307\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4307"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4307"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4307"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}