{"id":4318,"date":"2013-02-13T23:01:41","date_gmt":"2013-02-13T23:01:41","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4318"},"modified":"2013-02-13T23:01:41","modified_gmt":"2013-02-13T23:01:41","slug":"nuremberg-a-memoria-na-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4318","title":{"rendered":"Nuremberg, a Mem\u00f3ria na Hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"\n<p>N\u00e3o obstante algumas insufici\u00eancias do veredicto &#8211; nomeadamente as tr\u00eas absolvi\u00e7\u00f5es \u2013 o Processo de Nuremberg foi um acontecimento hist\u00f3rico positivo. Relembrar esse processo e os crimes monstruosos que condenou \u00e9 tanto mais necess\u00e1rio quando prosseguem e se alargam campanhas de falsifica\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria e de branqueamento do fascismo. Quando o imperialismo volta a utilizar processos semelhantes de genoc\u00eddio em massa. Quando for\u00e7as de extrema-direita e fascistas refor\u00e7am a influ\u00eancia eleitoral e em v\u00e1rios casos ascendem ao poder ou participam nele.<\/p>\n<p>Na Europa, as campanhas de branqueamento do fascismo ganharam amplitude nos \u00faltimos anos. Em livros, na televis\u00e3o e em mesas redondas, historiadores, polit\u00f3logos e soci\u00f3logos esfor\u00e7am-se por negar, em Portugal, na Espanha, na Hungria, na Rom\u00e9nia que Salazar, Franco, Horthy e Antonesco tenham sido ditadores e qualificam os seus regimes de \u00abautorit\u00e1rios\u201d, afirmando que praticaram politicas musculadas. A pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o das pol\u00edcias pol\u00edticas \u00e9 minimizada. Os fascismos ib\u00e9ricos, nomeadamente, teriam sido uma inven\u00e7\u00e3o dos comunistas.<\/p>\n<p>Na It\u00e1lia os pol\u00edticos de direita v\u00e3o mais longe. Partidos neofascistas t\u00eam exercido o poder e Mussolini \u00e9 apresentado por destacados intelectuais como um estadista progressista, autor de uma obra revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Assim se tenta apagar a mem\u00f3ria em agress\u00e3o \u00e0 Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Reli h\u00e1 dias um livro que adquiri na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e que ent\u00e3o me lan\u00e7ou em profunda medita\u00e7\u00e3o sobre a \u00abelite nazi\u00bb respons\u00e1vel pela trag\u00e9dia da II Guerra Mundial: \u201cO Processo de Nuremberg\u00bb, de Arkadi Poltorak, o juiz que foi chefe do secretariado sovi\u00e9tico do Tribunal Internacional que julgou os grandes criminosos de guerra nazis naquela cidade alem\u00e3.*<\/p>\n<p>Foram 22 os militares e civis ent\u00e3o julgados. Onze, entre os quais Goering, Keitel, Jodl, Ribbentrop, Rosenberg, Streicher, Kaltenbrunner, Seyss Inquart, Sauckel, Frank e Frick foram condenados \u00e0 morte e enforcados.**<\/p>\n<p>Rudolf Hess foi condenado a cumprir pris\u00e3o perp\u00e9tua.<\/p>\n<p>Os almirantes Raeder e Doenits, e Albert Speer, Schirach e Neurath, condenados em penas pesadas, foram mais tarde amnistiados e faleceram em liberdade.<\/p>\n<p>Hitler, Goebbels, Himmler suicidaram-se nos \u00faltimos dias da guerra para escapar ao castigo. Ley suicidou-se no carcere nas v\u00e9speras da audi\u00eancia. Bormann, foragido, foi tamb\u00e9m condenado \u00e0 morte.<\/p>\n<p>Schacht, Von Papen, Fritzsche foram absolvidos apesar da oposi\u00e7\u00e3o dos magistrados sovi\u00e9ticos.<\/p>\n<p>Durante a audi\u00eancia, que durou 250 dias, o tribunal examinou os originais de mais de 3000 documentos, interrogou 200 testemunhas e recebeu 300 000 depoimentos sob juramento. Muitas das provas eram documentos confiscados pelos ex\u00e9rcitos aliados nos estados-maiores alem\u00e3es, em reparti\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, e esconderijos em minas de sal, paredes falsas e subterr\u00e2neos. Os advogados de defesa defenderam os r\u00e9us sem restri\u00e7\u00f5es, como ent\u00e3o nos tribunais ocidentais.<\/p>\n<p>O Procurador-Geral americano, Robert Jackson, justificou o Tribunal Internacional com estas palavras:<\/p>\n<p>\u00abO que confere tanta import\u00e2ncia a esta audi\u00eancia \u00e9 o facto de estes r\u00e9us representarem influ\u00eancias nefastas que, muito tempo depois de os seus corpos se terem desfeito em p\u00f3, ainda inquietar\u00e3o o mundo. Eles s\u00e3o o s\u00edmbolo vivo do \u00f3dio racial, do reino do terror, da arrog\u00e2ncia e da crueldade, da vontade de poder, s\u00e3o os s\u00edmbolos de um nacionalismo e de um militarismo selvagens, de intrigas da vontade de poder, s\u00e3o os s\u00edmbolos de um nacionalismo e de um militarismo selvagens, de intrigas e preparativos para uma guerra, no decurso da qual gera\u00e7\u00f5es inteiras foram na Europa transplantadas, em que homens foram exterminados, lares destru\u00eddos e toda a economia levada ao depauperamento.\u00bb<\/p>\n<p>Roman Rudenko, o Procurador-Geral sovi\u00e9tico, sublinhou na caracteriza\u00e7\u00e3o do Processo que era a primeira vez Historia da Humanidade que eram julgados criminosos que se tinham apossado de um Estado para fazerem dele instrumento de monstruosos crimes.<\/p>\n<p>No veredicto emitido, o Tribunal Internacional recordou que \u00abos campos de concentra\u00e7\u00e3o se haviam tornado lugares de exterm\u00ednio organizado e met\u00f3dico\u00bb, lembrando que os assassinos se compraziam em requintes de crueldade. Submetiam com frequ\u00eancia prisioneiros a torturas monstruosas, incluindo \u00abdiferentes experi\u00eancias sobre a rea\u00e7\u00e3o a grandes altitudes, ao tempo de vida na \u00e1gua gelada, ao efeito de balas envenenadas e a certas doen\u00e7as contagiosas\u00bb<\/p>\n<p>Numa inesquec\u00edvel visita a Auschwitz em 1981 tive a oportunidade de ver abajures de pele humana, margarina e sabonetes confecionados com gordura humana, e maquinas que transformavam ossos humanos em adubos.<\/p>\n<p>O livro de Poltorak chama a aten\u00e7\u00e3o para uma realidade esquecida: os magnatas da ind\u00fastria e da finan\u00e7a do III REICH, Krupp, Voegler, Lowenfeld, Schroeder, Tyssen, Schnitzler contribu\u00edram ativamente para a subida de Hitler ao poder, apoiaram as suas guerras de agress\u00e3o, alguns colaboraram na estrat\u00e9gia da \u00absolu\u00e7\u00e3o final\u00bb cujo desfecho foram as camaras de g\u00e1s e os formos cremat\u00f3rios. S\u00f3 um deles, Gustav Krupp, compareceu em Nuremberg como r\u00e9u, mas adoeceu e n\u00e3o foi ali julgado. Os americanos acabaram, ali\u00e1s, por devolver \u00e0 fam\u00edlia Krupp as suas fabulosas ind\u00fastrias que durante a guerra tinham ganho milh\u00f5es utilizando o trabalho escravo nas f\u00e1bricas de armamento.<\/p>\n<p>No pref\u00e1cio ao livro de Poltorak, o procurador sovi\u00e9tico, L. Smirnov, presidente do Supremo Tribunal da URSS, cita os planos de Hitler para eliminar milh\u00f5es de eslavos. A refer\u00eancia \u00e9 oportuna. O genoc\u00eddio dos judeus, amplamente conhecido, \u00e9 justamente condenado pela humanidade.<\/p>\n<p>Mas quantos americanos e europeus leram algo sobre o \u00abplano de despovoamento\u00bb de que Hitler se orgulhava? Poucos.<\/p>\n<p>Em conversa com Raushning, um familiar seu, o F\u00fchrer, apos a invas\u00e3o da URSS, explicou-lhe \u201ca t\u00e9cnica do despovoamento\u201d. O objetivo era exterminar 30 milh\u00f5es de russos e polacos, \u00abseres de ra\u00e7as inferiores que se multiplicam como larvas\u00bb e abrir os territ\u00f3rios ocupados do Leste \u00e0 coloniza\u00e7\u00e3o alem\u00e3.<\/p>\n<p><strong>L\u00c1GRIMAS POR NUREMBERG<\/strong><\/p>\n<p>Transcorridos 66 anos sobre o veredicto de Nuremberg, os dirigentes das grandes pot\u00eancias ocidentais e influentes media internacionais evitam o tema. Tornou-se inc\u00f3modo.<\/p>\n<p>A Alemanha \u00e9 atualmente o motor da Comunidade Europeia. Sucessivos governos da CDU e do SPD amnistiaram criminosos de guerra nazis. Dezenas de milhares nunca foram presos e julgados e muitos ocuparam altos cargos na Administra\u00e7\u00e3o, no Exercito, na Policia, inclusive nos tribunais da Republica Federal. Alguns marechais da Wehrmacht envelheceram rodeados de respeito e admira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na Gr\u00e3- Bretanha e nos Estados Unidos as cr\u00edticas a Nuremberg n\u00e3o se fizeram ali\u00e1s esperar.<\/p>\n<p>Lord Hankey, diplomata prestigiado, definiu o Processo como \u00abperigoso precedente para o futuro\u201d. O jornalista Belgion Montgomery, comentando a audi\u00eancia, escreveu: \u00abse um simples mortal tivesse ca\u00eddo da lua em Nuremberg \u2026havia de pensar que estava no reino do absurdo total\u00bb.<\/p>\n<p>Influentes m\u00e9dia ocidentais, sobretudo nos EUA, n\u00e3o esconderam ao longo do Processo a sua simpatia por alguns dos r\u00e9us.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos promoveram a sa\u00edda clandestina para o seu pa\u00eds de centenas de ex-nazis acusados de crimes graves, incluindo cientistas e militares que desempenharam fun\u00e7\u00f5es importantes em universidades e na pr\u00f3pria Administra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em Nuremberg, ao longo da audi\u00eancia, alguns dos mais destacados nazis, inicialmente arrogantes, mudaram de atitude. Goering, Keitel, Jodl, Doenitz, na esperan\u00e7a de salvarem a pele atribu\u00edram a maioria dos crimes de que eram acusados a outros r\u00e9us, sobretudo a Himmler, a Kaltenbrunner e Bormann. Os aristocratas, Von Papen e Neurath, e o banqueiro Schacht, criticaram Hitler e as SS, elogiaram com frequ\u00eancia os EUA e n\u00e3o dirigiam sequer a palavra ao SS Kaltenbrunner.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante algumas insufici\u00eancias do veredicto &#8211; nomeadamente as tr\u00eas absolvi\u00e7\u00f5es \u2013 o Processo de Nuremberg foi um acontecimento hist\u00f3rico positivo. Conforme salienta Arkadi Poltorak no seu livro, \u00abo perigo que amea\u00e7ara a humanidade uniu no seio do Tribunal Internacional, como nos campos de batalha, homens de diferentes pa\u00edses e continentes, representantes de diferentes sistemas sociais\u00bb.<\/p>\n<p>As nuvens da guerra fria j\u00e1 se formavam, entretanto, no horizonte. Foi durante o julgamento que Churchill pronunciou o famoso discurso de Fulton, impregnado de anticomunismo.<\/p>\n<p>Mas era ent\u00e3o inimagin\u00e1vel que, transcorridas menos de sete d\u00e9cadas, o capitalismo se implantaria na R\u00fassia, ap\u00f3s a desagrega\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, e que crimes monstruosos contra a humanidade voltariam a ser cometidos, desta vez pelas pot\u00eancias que, aliadas \u00e0 URSS, tinham combatido e derrotado o Reich hitleriano.<\/p>\n<p>O imperialismo contempor\u00e2neo empenha-se em apagar da Historia a mem\u00f3ria do fascismo.<\/p>\n<p>Dai a atualidade permanente do belo livro de Arkadi Poltorak sobre o Processo de Nuremberg.<\/p>\n<p>*<em>O Processo de Nuremberg<\/em>, Arkadi Poltorak, Edi\u00e7\u00f5es Progresso, Moscovo 1989<\/p>\n<p>**Durante o Processo de Nuremberg foram julgados somente 22 grandes criminosos de guerra. Posteriormente as quatro pot\u00eancias aliadas &#8211; Reino Unido, EUA,URSS e Fran\u00e7a &#8211; e os tribunais alem\u00e3es julgaram dezenas de civis e militares nazis. As penas foram na maioria dos casos suaves.<\/p>\n<p><em style=\"color: #000000; font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: 10px; line-height: normal; text-align: start;\"><a href=\"http:\/\/www.odiario.info\/b2-img\/300pxDefendants_in_the_dock_at_nuremberg_trials.jpg\" target=\"_blank\">ODiario.info<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nODiario.info\n\n\n\n\n\n\n\n\nMiguel Urbano Rodrigues\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4318\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[71],"tags":[],"class_list":["post-4318","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c84-solidariedade"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-17E","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4318","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4318"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4318\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4318"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4318"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4318"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}