{"id":432,"date":"2010-04-30T21:36:18","date_gmt":"2010-04-30T21:36:18","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=432"},"modified":"2010-04-30T21:36:18","modified_gmt":"2010-04-30T21:36:18","slug":"o-aniversario-do-nascimento-de-lenine","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/432","title":{"rendered":"O anivers\u00e1rio do nascimento de L\u00eanin"},"content":{"rendered":"\n<p>Mas como a ideologia dominante (mesmo \u00e0 &#8220;esquerda&#8221;) gosta de opor Gandhi, campe\u00e3o da n\u00e3o-viol\u00eancia, a Lenine, dedicado ao culto da viol\u00eancia, chamo a aten\u00e7\u00e3o do leitor para duas pequenas p\u00e1ginas do meu livro <strong>[1]<\/strong> que demonstram algo radicalmente diferente. Por ocasi\u00e3o do primeiro conflito mundial, Gandhi orgulha-se de ser o &#8220;recrutador chefe&#8221; ao servi\u00e7o do ex\u00e9rcito brit\u00e2nico e celebra as virtudes da vida militar. Qual \u00e9, em contrapartida, a atitude assumida pelo grande revolucion\u00e1rio russo?<\/p>\n<p>Com o desencadeamento da guerra, ainda que partindo de posi\u00e7\u00f5es bastante diferentes, Lenine presta homenagem aos c\u00edrculos do &#8220;pacifismo ingl\u00eas&#8221; e em particular a E. D. Morel, um &#8220;burgu\u00eas excepcionalmente honesto e corajoso&#8221;, membro da Associa\u00e7\u00e3o contra a conscri\u00e7\u00e3o e autor de um ensaio que desmascara a ideologia &#8220;democr\u00e1tica&#8221; da guerra brandida pelo governo brit\u00e2nico. Neste momento, o dirigente bolchevique encontra-se bem mais pr\u00f3ximo do pacifismo do que Gandhi, situado em posi\u00e7\u00f5es anti-t\u00e9ticas.<\/p>\n<p>Constrangido a verificar que, apesar das propostas de pacifismo combativo expressas na v\u00e9spera da guerra, mesmo o movimento socialista acabou em grande parte por se acomodar \u00e0 carnificina e \u00e0 uni\u00e3o sagrada patri\u00f3tica destinada a legitim\u00e1-la, Lenine nota com desgosto a &#8220;imensa confus\u00e3o&#8221;, a &#8220;imensa crise provocada pela guerra mundial no socialismo europeu&#8221; e exprime uma &#8220;profunda amargura&#8221; pela &#8220;bacanal de chauvinismo&#8221; que grassa doravante. Sim, &#8220;a confus\u00e3o foi grande&#8221; junto \u00e0queles que viam na Segunda Internacional um vislumbre de esperan\u00e7a contra o \u00f3dio chauvinista e o furor belicista. Neste sentido, &#8220;a coisa mais entristecedora da crise actual \u00e9 a vit\u00f3ria do nacionalismo burgu\u00eas&#8221;, \u00e9 a atitude de ades\u00e3o ou de submiss\u00e3o ao banho de sangue; sim, &#8220;mais que os horrores da guerra&#8221;, ainda mais mesmo do que a &#8220;carnificina&#8221;, aquilo que \u00e9 dolorosamente ressentido s\u00e3o &#8220;os horrores da trai\u00e7\u00e3o perpetrada pelos chefes do socialismo contempor\u00e2neo&#8221; que, engolindo seus compromissos anteriores, contribuem activamente para a legitima\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia guerreira, para o retorno \u00e0 barb\u00e1rie cultural geral e para o envenenamento dos esp\u00edritos. &#8220;O imperialismo jogou os destinos da civiliza\u00e7\u00e3o europeia&#8221; e p\u00f4de fazer isso servindo-se da cumplicidade daqueles que estavam destinados a fazer valor as raz\u00f5es da paz e da coabita\u00e7\u00e3o entre os povos.<\/p>\n<p>Para confirmar a sua an\u00e1lise, Lenine cita <em> in extenso <\/em> a declara\u00e7\u00e3o difundida por c\u00edrculos crist\u00e3os de Zurique, os quais exprimem a sua consterna\u00e7\u00e3o face a uma vaga chauvinista e belicista que n\u00e3o encontra obst\u00e1culos: &#8220;Mesmo a grande internacional oper\u00e1ria [&#8230;] extermina-se reciprocamente nos campos de batalha&#8221;. Cinco anos antes, em 1909, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 &#8220;bancarrota&#8221; do &#8220;ideal do imperialismo&#8221; belicista, Kautsky havia celebrado &#8220;a imensa superioridade moral&#8221; do proletariado (e do movimento socialista), o qual &#8220;odeia a guerra com todas as suas for\u00e7as&#8221; e &#8220;far\u00e1 tudo para impedir que as paix\u00f5es militaristas ganhem terreno&#8221;. Este precioso capital de &#8220;superioridade moral&#8221; verifica-se agora que est\u00e1 completamente dissipado. Se, pelo menos na sua primeira fase, a guerra e a participa\u00e7\u00e3o na guerra configuram-se, no quadro de uma ideologia \u00e0 qual mesmo o primeiro Gandhi n\u00e3o \u00e9 estranho, como uma esp\u00e9cie de <em> plenitudo temporum <\/em> no plano moral (pela motiva\u00e7\u00e3o espiritual e a fus\u00e3o comunit\u00e1rias que implicam), aos olhos de Lenine a explos\u00e3o do conflito fratricida (que tamb\u00e9m lacera a pr\u00f3pria classe oper\u00e1ria) aparece em contraste como alguma coisa semelhante \u00e0 &#8220;\u00e9poca da culpabilidade reconhecida&#8221;: utilizo aqui a express\u00e3o que Lukacs retoma de Fichte em 1916, ao passo que ele \u00e9 dilacerado por um profundo trabalho destinado a concluir, na vaga de protestos contra a imensa carnificina, com a sua ades\u00e3o \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro. Evidentemente, o revolucion\u00e1rio russo \u00e9 demasiado laico para recorrer a uma linguagem teol\u00f3gica. E, contudo, a subst\u00e2ncia n\u00e3o muda: para al\u00e9m da indigna\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, a explos\u00e3o da guerra provoca nele uma consterna\u00e7\u00e3o moral.<\/p>\n<p>A esperan\u00e7a, moral antes mesmo de pol\u00edtica, parece renascer gra\u00e7as uma fen\u00f3meno que poderia talvez avariar a m\u00e1quina infernal da viol\u00eancia: \u00e9 a &#8220;confraterniza\u00e7\u00e3o entre soldados de na\u00e7\u00f5es beligerantes, at\u00e9 nas trincheiras&#8221;. Esta novidade aprofundou contudo a divis\u00e3o do movimento socialista, que j\u00e1 se manifestar com a explos\u00e3o da guerra. Em contraposi\u00e7\u00e3o ao &#8220;ex-socialista&#8221; Plekhanov, o qual assimila a confraterniza\u00e7\u00e3o \u00e0 &#8220;trai\u00e7\u00e3o&#8221;, Lenine escreve: &#8220;Est\u00e1 bem que os soldados maldigam a guerra. Est\u00e1 bem que exijam a paz&#8221;. No &#8220;programa da continua\u00e7\u00e3o da carnificina&#8221; formulado pelo governo provis\u00f3rio russo, do qual tamb\u00e9m fazem parte &#8220;ex-socialistas&#8221;, Lenine responde: &#8220;A confraterniza\u00e7\u00e3o numa frente pode tornar-se confraterniza\u00e7\u00e3o em todas as frentes. O armist\u00edcio de facto numa frente pode e deve tornar-se armist\u00edcio em todas as frentes&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade, a confraterniza\u00e7\u00e3o constitui para os bolcheviques um momento essencial da estrat\u00e9gia visando o abate do sistema social respons\u00e1vel pelo massacre e portanto a transforma\u00e7\u00e3o da guerra em revolu\u00e7\u00e3o. Mas esta passagem \u00e9 tornada inevit\u00e1vel pelas &#8220;ordens draconianas&#8221; com as quais os dois campos opostos enfrentam a confraterniza\u00e7\u00e3o. E \u00e9 uma passagem que, desde o princ\u00edpio do gigantesco conflito, \u00e9 imaginada e de certa forma invocada tamb\u00e9m pelos c\u00edrculos crist\u00e3os su\u00ed\u00e7os que Lenine op\u00f5e positivamente aos socialistas convertidos \u00e0s raz\u00f5es do chauvinismo e da guerra. O revolucion\u00e1rio russo chama a aten\u00e7\u00e3o em particular para isto:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Se a mis\u00e9ria se torna demasiado grande, se o desespero toma a dianteira, se o irm\u00e3o reconhece seu irm\u00e3o sob o uniforme inimigo, talvez factos ainda totalmente inesperados se produzam, talvez as armas retornem contra aqueles que incitam a guerra, talvez os povos, aos quais foi imposto o \u00f3dio, subitamente os esque\u00e7am, unindo-se&#8221;.<\/p><\/blockquote>\n<p>N\u00e3o parece que Gandhi se tenha ocupado do fen\u00f3meno da confraterniza\u00e7\u00e3o, o qual de qualquer forma est\u00e1 em contraste com o seu empenho em recrutar soldados e carne de canh\u00e3o para o governo de Londres.<\/p>\n<p>25\/Abril\/2010<\/p>\n<p>[1] <a href=\"https:\/\/docs.google.com\/fileview?id=0BxbmKn9_U2_xOWFiZDgwZDktYjIyZS00YTM3LTkzNWItNzMwMDgzMDNhOGM5&#038;hl=en\"> <em>La non-violenza. Une storia fuori dal mito<\/em><\/a> , Laterza, 2010.<\/p>\n<p><strong>O original encontra-se em <a href=\"http:\/\/domenicolosurdo.blogspot.com\/2010\/04\/140-anni-dalla-nascita-di-lenin.html\"> domenicolosurdo.blogspot.com<\/a> . A vers\u00e3o em franc\u00eas encontra-se em <a href=\"http:\/\/www.legrandsoir.info\/Anniversaire-de-la-naissance-de-Lenine.html\"> http:\/\/www.legrandsoir.info\/Anniversaire-de-la-naissance-de-Lenine.html<\/a> <\/strong><\/p>\n<p><strong> Este artigo encontra-se em<\/strong> <a href=\"http:\/\/resistir.info\/losurdo\/losurdo_25abr10.html\">http:\/\/resistir.info\/losurdo\/losurdo_25abr10.html<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Resistir.info\n\n\n\n\npor Domenico Losurdo\nO 140\u00ba anivers\u00e1rio do nascimento de Lenine decorreu em 22 de Abril de 2010. Deve-se ao di\u00e1rio alem\u00e3o  Junge Welt  ter chamado a aten\u00e7\u00e3o para esta data: eu pr\u00f3prio contribu\u00ed para isso com um artigo reproduzido no meu  blog.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/432\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[65],"tags":[],"class_list":["post-432","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c78-internacional"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6Y","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/432","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=432"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/432\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=432"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=432"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=432"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}