{"id":4321,"date":"2013-02-14T14:09:06","date_gmt":"2013-02-14T14:09:06","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4321"},"modified":"2013-02-14T14:09:06","modified_gmt":"2013-02-14T14:09:06","slug":"um-pure-de-sonhos-esfacelados-chamado-espanha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4321","title":{"rendered":"Um pur\u00ea de sonhos esfacelados chamado Espanha"},"content":{"rendered":"\n<p>At\u00e9 um ou dois anos atr\u00e1s, seria impens\u00e1vel. Mas aconteceu, no domingo 10 de fevereiro. Na final do torneio nacional de basquete espanhol, a Copa del Rey, o rei em pessoa foi vaiado. E muito vaiado. O Barcelona derrotou o Valencia por 85 a 69. Mas o jogo n\u00e3o ser\u00e1 lembrado por esse resultado: ser\u00e1 lembrado pela primeira vaia p\u00fablica ao monarca que foi considerado, por d\u00e9cadas, uma esp\u00e9cie de guardi\u00e3o da democracia reconquistada ap\u00f3s a morte do sinistro Francisco Franco, \u2018caudillo de Espa\u00f1a por la gracia de Dios\u2019, em 1975.<\/p>\n<p>Vaiar um rei n\u00e3o \u00e9 comum nos pa\u00edses que t\u00eam reis e rainhas. Quest\u00e3o de educa\u00e7\u00e3o, de boa conduta. Na Espanha, nunca tinha acontecido. Agora aconteceu, e n\u00e3o por um s\u00fabito surto de m\u00e1 educa\u00e7\u00e3o dos s\u00faditos de sua majestade real (que, ali\u00e1s, gastam milh\u00f5es de euros por ano para manter a fam\u00edlia do monarca). Aconteceu numa demonstra\u00e7\u00e3o cabal de que o desencanto e a desesperan\u00e7a alcan\u00e7aram seu limite m\u00e1ximo no pa\u00eds de Pablo Picasso e de Joan Mir\u00f3.<\/p>\n<p>H\u00e1 dois anos, quando explodiu em seu esplendor na Espanha o movimento dos \u2018indignados\u2019, o pa\u00eds tinha quatro milh\u00f5es de desempregados e todos diziam que estavam vivendo uma crise tremenda. Pois bem: hoje, os desempregados superam a marca dos seis milh\u00f5es. Isso quer dizer que 26% da for\u00e7a de trabalho do pa\u00eds est\u00e3o desempregados. Entre os jovens com menos de 30 anos, o panorama \u00e9 ainda mais desolador: 55% deles n\u00e3o t\u00eam esperan\u00e7a alguma de conseguir um emprego. Jovens rec\u00e9m formados em universidades falsificam a pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o para disputar um posto de lixeiro ou entregador de correios. Dizem ter educa\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria. \u00c9 que o que restou da legisla\u00e7\u00e3o trabalhista, dizimada pelo governo direitista do Partido Popular, ainda prev\u00ea certas regalias para quem tem curso superior \u2013 progredir na carreira, por exemplo.<\/p>\n<p>A sa\u00fade p\u00fablica, que j\u00e1 foi considerada uma das melhores da Europa, foi para o brejo. M\u00e9dicos da rede p\u00fablica pedem demiss\u00e3o e buscam emprego em outros pa\u00edses. Eles se negam a restringir a aten\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, conforme determina o governo.<\/p>\n<p>A educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica est\u00e1 virando mingau. As fam\u00edlias passaram a vender o que t\u00eam ou tinham: a quantidade de ouro, joias familiares passadas de gera\u00e7\u00e3o a gera\u00e7\u00e3o, que a Espanha exporta para mercadores internacionais ganhou vulto em 2012, a ponto de chamar a aten\u00e7\u00e3o dos especuladores do mundo. E como se tudo isso fosse pouco, pipocam, com intensidade cada vez maior, as den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O rei Juan Carlos I foi vaiado pelo que fez e pelo que fizeram membros da fam\u00edlia real. Seu genro I\u00f1aki Urdangar\u00edn, por exemplo, est\u00e1 sendo acusado de ter desviado pelo menos oito milh\u00f5es de euros de recursos p\u00fablicos. O pr\u00f3prio rei foi pilhado numa viagem clandestina (dizem as leis que quando quiser sair do pa\u00eds o monarca tem que pedir autoriza\u00e7\u00e3o aos parlamentares) para ca\u00e7ar elefantes na \u00c1frica, em companhia de sua jovem amiga alem\u00e3. Pois o desastrado rei caiu, quebrou a bacia, e foi um deus-nos-acuda, j\u00e1 que, formalmente, ele estava em casa e n\u00e3o num saf\u00e1ri ilegal. A rainha Sofia fechou a cara, os s\u00faditos espanh\u00f3is abriram sorrisos: afinal, n\u00e3o \u00e9 todo dia que se pega um rei safado numa escapadela conjugal \u2013 e matando elefantes, justo ele, que presidia v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es de defesa da natureza e do reino animal.<\/p>\n<p>O esfacelamento maior da Espanha, por\u00e9m, se d\u00e1 na descoberta de um sistema de compra de parlamentares, por grandes empreiteiras, grandes empresas e pela banca, que atinge, entre outros, o puritano galego Mariano Rajoy, primeiro-ministro e estrela at\u00e9 agora fulgurante do Partido Popular, de direita.<\/p>\n<p>Na verdade, e pensando bem, Rajoy at\u00e9 que era baratinho: 25 mil euros anuais. Uns 6 mil reais por m\u00eas. Para tentar se defender e negar a lamban\u00e7a, ele divulgou suas declara\u00e7\u00f5es de renda dos \u00faltimos dez anos. Pior a emenda que o p\u00e9ssimo soneto: ficou claro que ele n\u00e3o pagava a devida contribui\u00e7\u00e3o da previd\u00eancia social. E mais: que ganhou 30% de aumento enquanto os sal\u00e1rios do funcionalismo p\u00fablico eram recortados em 25%.<\/p>\n<p>Conforme crescem as den\u00fancias contra o Partido Popular, fica mais claro que os instrumentos de fiscaliza\u00e7\u00e3o e controle da Espanha s\u00e3o de uma inefic\u00e1cia formid\u00e1vel. E assim, o que agora caiu em descr\u00e9dito foi a pr\u00f3pria Justi\u00e7a espanhola.<\/p>\n<p>Enquanto isso, os espanh\u00f3is desassossegados se perguntam quando e como tudo aquilo que havia sido conquistado e consolidado desde o fim da ditadura franquista come\u00e7ou a virar pur\u00ea. Considerada, por anos, como exemplo de uma transi\u00e7\u00e3o entre ditadura cruel e democracia promissora, a Espanha de hoje \u00e9 o p\u00e1lido reflexo de uma imagem que se esfumou.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Capital financeiro e mudan\u00e7a clim\u00e1tica<\/p>\n<p>SinPermiso<\/p>\n<p>As for\u00e7as do capital financeiro dificultar\u00e3o muito o enfrentamento das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Alguns dizem que a estrutura do setor financeiro n\u00e3o facilitar\u00e1 a transi\u00e7\u00e3o para uma economia de baixo n\u00edvel de carbono. O problema \u00e9 mais grave: o sistema financeiro \u00e9 um potente obst\u00e1culo para prevenir uma cat\u00e1strofe derivada do aquecimento global.<\/p>\n<p>Para avaliar a dimens\u00e3o do perigo, \u00e9 importante recordar alguns dados. Na atualidade, a concentra\u00e7\u00e3o de di\u00f3xido de carbono (CO2) na atmosfera alcan\u00e7a as 394 partes por milh\u00e3o (ppm). O CO2 \u00e9 o g\u00e1s de efeito estufa mais comum (n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico, nem o mais potente). Os modelos mais desenvolvidos sobre mudan\u00e7a clim\u00e1tica indicam que s\u00f3 abaixo das 450 ppm de CO2 se tem uma probabilidade de manter o aumento de temperatura dentro da classe dos graus cent\u00edgrados. Os cientistas consideram que esse patamar n\u00e3o deve ser rebaixado caso se queira evitar uma mudan\u00e7a clim\u00e1tica catastr\u00f3fica.<\/p>\n<p>Estudos cient\u00edficos consideram que para aumentar significativamente a probabilidade de permanecer abaixo deste patamar a economia mundial deveria limitar suas emiss\u00f5es para o per\u00edodo 2000-2050 a 886 gigatoneladas de di\u00f3xido de carbono (GtCO2). Na primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo se emitiram 321 GtCO2, de modo que s\u00f3 nos resta um volume dispon\u00edvel de 565 gigatoneladas para o per\u00edodo 2010-2050.<\/p>\n<p>Dados da organiza\u00e7\u00e3o Carbontracker Initiative revelam que se se extra\u00edssem e queimassem as reservas mundiais conhecidas de combust\u00edveis f\u00f3sseis (carv\u00e3o, petr\u00f3leo e g\u00e1s) ter\u00edamos emiss\u00f5es superiores as 2.795 GtCO2. Ou seja, essas reservas cont\u00e9m cinco vezes mais carbono do que o teto acima mencionado de 565 GtCO2. Extrair e usar essas reservas poderia levar \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o de CO2 na atmosfera para as 700 ppm, o que mudaria o planeta tal como o conhecemos.<\/p>\n<p>Agora, as reservas de combust\u00edveis f\u00f3sseis das 200 empresas mais importantes de carv\u00e3o, petr\u00f3leo e g\u00e1s no mundo (empresas cotizadas em bolsas de valores) tem reservas com um potencial de carbono de 745 GtCO2. Isso quer dizer que se estas empresas extra\u00edrem e queimarem suas reservas estaremos rebaixando para 180 GtCO2 o volume que nos resta dispon\u00edvel para o per\u00edodo 2010-2050 (as 565 GtCO2 acima mencionadas). O problema \u00e9 ainda mais s\u00e9rio porque estas cifras n\u00e3o incluem as empresas estatais e tampouco levam em conta as gigantescas reservas de g\u00e1s natural que existem no xisto nos Estados Unidos e em v\u00e1rios outros pa\u00edses.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que as reservas nas m\u00e3os destas companhias j\u00e1 est\u00e3o anotadas em seus balan\u00e7os com um enorme valor monet\u00e1rio. Uma avalia\u00e7\u00e3o destas empresas admite que essas reservas ser\u00e3o efetivamente realizadas, o que significa que ser\u00e3o extra\u00eddas e utilizadas. Do ponto de vista cont\u00e1bil, ningu\u00e9m est\u00e1 preocupado se a utiliza\u00e7\u00e3o dessas reservas \u00e9 suficiente para ultrapassar o perigoso patamar dos graus cent\u00edgrados. A mudan\u00e7a clim\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 um conceito cont\u00e1bil.<\/p>\n<p>Para diz\u00ea-lo de outro modo, se existisse uma autoridade capaz de aplicar a restri\u00e7\u00e3o das 565 GTCO2 para os pr\u00f3ximos quarenta anos, estas empresas somente poderiam queimar umas 150 GtCO2. O restante, carbono n\u00e3o injetado na atmosfera, seria de ativos sem valor e se traduziria em perdas colossais para os investidores que comprometeram recursos nessas empresas.<\/p>\n<p>Essas 200 empresas do mundo da energia f\u00f3ssil t\u00eam um valor em bolsa equivalente a 7,4 trilh\u00f5es de d\u00f3lares. Os pa\u00edses com maior potencial de gases de efeito estufa nas reservas de empresas que operam em bolsas s\u00e3o R\u00fassia, Estados Unidos e Reino Unido. E nas bolsas de valores de Londres, S\u00e3o Paulo, Moscou, Toronto e do mercado australiano at\u00e9 30% da capitaliza\u00e7\u00e3o de mercado est\u00e1 vinculada a combust\u00edveis f\u00f3sseis.<\/p>\n<p>Estamos na presen\u00e7a de um conflito de dimens\u00f5es hist\u00f3ricas: de um lado est\u00e1 a comunidade cient\u00edfica advertindo para n\u00e3o se queimar essas reservas de combust\u00edveis f\u00f3sseis e do outro est\u00e3o as empresas e investidores que tem interesse em realizar seus ativos (extrair e usar essas reservas). Quem prevalecer\u00e1? Nos \u00faltimos 30 anos, o setor financeiro do mundo foi capaz de dominar a pol\u00edtica macroecon\u00f4mica. Com efeito, as prioridades da pol\u00edtica monet\u00e1ria e fiscal do mundo inteiro respondem hoje (inclusive em meio \u00e0 crise) \u00e0s necessidades do capital financeiro. Por que seria diferente no que diz respeito \u00e0s pol\u00edticas sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas?<\/p>\n<p>Hoje carecemos de um regime regulat\u00f3rio internacional que permita pensar que a economia mundial poder\u00e1 reduzir sua pegada de carbono na atmosfera na velocidade exigida. O Protocolo de Kioto \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o e a \u00fanica coisa que resta \u00e9 um \u201ccompromisso\u201d para se chegar a um acordo em 2015 que dever\u00e1 entrar em vigor em 2020. No setor financeiro est\u00e3o concentradas for\u00e7as que se opor\u00e3o com tudo a um acordo que evite o perigo da mudan\u00e7a clim\u00e1tica catastr\u00f3fica.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Agita\u00e7\u00e3o global no m\u00e9dio prazo<\/p>\n<p>Esquerda.net<\/p>\n<p>Fazer previs\u00f5es no curto prazo (os pr\u00f3ximos um ou dois anos) \u00e9 um jogo de doidos. H\u00e1 demasiadas reviravoltas imprevis\u00edveis no mundo real pol\u00edtico\/cultural\/econ\u00f3mico. Mas podemos tentar fazer afirma\u00e7\u00f5es plaus\u00edveis para o m\u00e9dio prazo (uma d\u00e9cada ou mais), baseados num quadro te\u00f3rico vi\u00e1vel, combinado com uma s\u00f3lida an\u00e1lise emp\u00edrica de tend\u00eancias e de condicionamentos.<\/p>\n<p>Que sabemos do sistema-mundo no qual vivemos? Em primeiro lugar, sabemos que \u00e9 uma economia-mundo capitalista, cujo princ\u00edpio b\u00e1sico \u00e9 a incessante acumula\u00e7\u00e3o de capital. Em segundo lugar, sabemos que \u00e9 um sistema hist\u00f3rico, o qual, como todos os sistemas (desde o universo como um todo aos menores nano-sistemas) tem uma vida. Come\u00e7a a existir, vive a sua vida \u201cnormal\u201d de acordo com regras e estruturas que cria, at\u00e9 que, em determinado ponto, o sistema fica demasiado longe do equil\u00edbrio e entra numa crise estrutural. Em terceiro lugar, sabemos que o nosso presente sistema-mundo tem sido um sistema polarizado, no qual houve um crescimento constante da brecha entre os Estados e dentro dos Estados.<\/p>\n<p>Estamos numa destas crises estruturais atualmente, que j\u00e1 decorre h\u00e1 40 anos. Vamos continuar a estar durante outros 20 a 40 anos. Esta \u00e9 a dura\u00e7\u00e3o m\u00e9dia para uma crise estrutural de um sistema social hist\u00f3rico. O que acontece numa crise estrutural \u00e9 que o sistema se bifurca, o que significa essencialmente que emergem duas formas alternativas de p\u00f4r fim \u00e0 crise estrutural \u201cescolhendo\u201d coletivamente uma de duas alternativas.<\/p>\n<p>A caracter\u00edstica principal de uma crise estrutural \u00e9 a s\u00e9rie de flutua\u00e7\u00f5es ca\u00f3ticas e selvagens que atinge tudo \u2013 os mercados, as alian\u00e7as geopol\u00edticas, a estabilidade das fronteiras dos Estados, o emprego, as d\u00edvidas, os impostos. A incerteza, mesmo no curto prazo, torna-se cr\u00f3nica. E a incerteza tende a congelar a decis\u00e3o econ\u00f3mica, o que, evidentemente, torna tudo pior.<\/p>\n<p>Eis algumas coisas que podemos esperar no m\u00e9dio prazo. A maioria dos Estados enfrentam, e v\u00e3o continuar a enfrentar, um aperto entre a redu\u00e7\u00e3o da arrecada\u00e7\u00e3o e os gastos crescentes. O que a maioria dos Estados tem feito \u00e9 reduzir os gastos de duas formas. Uma \u00e9 cortar (at\u00e9 mesmo eliminar) uma grande quantidade de redes de seguran\u00e7a que foram constru\u00eddas no passado para ajudar as pessoas comuns a enfrentar as m\u00faltiplas conting\u00eancias com que se deparam. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m uma segunda forma. Muitos Estados est\u00e3o a cortar as transfer\u00eancias de dinheiro para entidades estatais subordinadas \u2013 estruturas federadas, se o Estado \u00e9 uma federa\u00e7\u00e3o, e governos locais. O que isto faz \u00e9 apenas transferir para estas unidades subordinadas a necessidade de aumentar impostos. Se consideram isto imposs\u00edvel, podem ir \u00e0 bancarrota, o que elimina outras partes das redes de seguran\u00e7a (nomeadamente as pens\u00f5es).<\/p>\n<p>Isto tem um impacto imediato sobre os Estados. Por um lado, enfraquece-os, na medida em que mais e mais unidades procuram separar-se, se o consideram economicamente vantajoso. Mas, por outro lado, os Estados s\u00e3o mais importantes que nunca, na medida em que as popula\u00e7\u00f5es procuram ref\u00fagio nas pol\u00edticas de prote\u00e7\u00e3o estatais (mantenha o meu emprego, n\u00e3o o teu). As fronteiras estatais sempre mudaram. Mas prometem mudar com mais frequ\u00eancia agora. Ao mesmo tempo, novas estruturas regionais ligando Estados existentes (ou as suas subunidades) \u2013 tais como a Uni\u00e3o Europeia (UE) e a nova estrutura sul-americana (UNASUR) \u2013 v\u00e3o continuar a florescer e a desempenhar um papel geopol\u00edtico crescente.<\/p>\n<p>As rela\u00e7\u00f5es entre os m\u00faltiplos atores do poder geopol\u00edtico tornar-se-\u00e3o ainda mais inst\u00e1veis numa situa\u00e7\u00e3o na qual nenhum destes atores estar\u00e1 em posi\u00e7\u00e3o de ditar as regras entre os Estados. Os Estados Unidos s\u00e3o um antigo poder hegem\u00f3nico com p\u00e9s de barro, mas ainda com poder suficiente para causar danos ao dar passos em falso. A China parece ter a posi\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica emergente mais forte, mas \u00e9 menos forte do que a pr\u00f3pria e outros pensam. O grau em que a Europa ocidental e a R\u00fassia se v\u00e3o aproximar ainda \u00e9 uma quest\u00e3o em aberto, e tem muita import\u00e2ncia na agenda de ambos os lados. A \u00cdndia ainda mant\u00e9m a indecis\u00e3o sobre como vai jogar as suas cartas. O que isto significa para guerras civis como a da S\u00edria, no momento, \u00e9 que os intervenientes externos anulam-se uns aos outros e os conflitos internos tornam-se ainda mais organizados em torno de grupos identit\u00e1rios fratricidas.<\/p>\n<p>Vou reiterar a posi\u00e7\u00e3o que defendo h\u00e1 muito. No fim de uma d\u00e9cada, veremos alguns realinhamentos muito importantes. Um \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de uma estrutura confederal ligando o Jap\u00e3o, a (reunificada) China, e a (reunificada) Coreia. O segundo \u00e9 uma alian\u00e7a geopol\u00edtica entre esta estrutura confederal e os Estados Unidos. O terceiro \u00e9 uma alian\u00e7a de facto entre a UE e a R\u00fassia. O quarto \u00e9 a prolifera\u00e7\u00e3o nuclear numa escala significativa. O quinto \u00e9 o protecionismo generalizado. O sexto \u00e9 uma defla\u00e7\u00e3o mundial generalizada, que pode tomar uma de duas formas \u2013 ou uma redu\u00e7\u00e3o nominal de pre\u00e7os, ou infla\u00e7\u00f5es galopantes que t\u00eam a mesma consequ\u00eancia.<\/p>\n<p>Obviamente, n\u00e3o s\u00e3o desenlaces felizes para a maioria das pessoas. O desemprego mundial vai subir, n\u00e3o cair. E as pessoas comuns v\u00e3o sentir o aperto de forma muito aguda. J\u00e1 demonstraram que est\u00e3o prontos a reagir em m\u00faltiplas formas, e esta resist\u00eancia popular vai crescer. Encontrar-nos-emos no meio de uma vasta batalha pol\u00edtica para determinar o futuro do mundo.<\/p>\n<p>Os que gozam hoje de riqueza e privil\u00e9gios n\u00e3o v\u00e3o ficar parados. Contudo, vai-se tornar crescentemente evidente para eles que n\u00e3o podem garantir o futuro no sistema capitalista existente. V\u00e3o procurar implementar um sistema baseado n\u00e3o no papel central do mercado mas antes numa combina\u00e7\u00e3o da for\u00e7a bruta e de engano. O objetivo chave \u00e9 assegurar que no novo sistema permane\u00e7am tr\u00eas elementos chave do presente \u2013 hierarquia, explora\u00e7\u00e3o e polariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No outro lado, haver\u00e1 for\u00e7as populares, em todo o mundo, que v\u00e3o procurar criar um novo tipo de sistema hist\u00f3rico, que nunca existiu at\u00e9 agora, baseado na democracia relativa e na relativa igualdade. \u00c9 quase imposs\u00edvel prever o que isto significa em termos de institui\u00e7\u00f5es que o mundo criar\u00e1. Vamos aprender na d\u00e9cadas futuras a construir este sistema.<\/p>\n<p>Quem vai ganhar esta batalha? Ningu\u00e9m pode prever. Ser\u00e1 o resultado de uma infinidade de nano-a\u00e7\u00f5es por uma infinidade de nano-atores numa infinidade de nano-momentos. Nalgum ponto, a tens\u00e3o entre as duas solu\u00e7\u00f5es alternativas vai inclinar-se definitivamente a favor de uma ou de outra. \u00c9 isto que nos d\u00e1 esperan\u00e7a. O que cada um de n\u00f3s faz em cada momento acerca de cada quest\u00e3o imediata \u00e9 de grande import\u00e2ncia. Alguns chamam-lhe o \u201cefeito borboleta\u201d. A vibra\u00e7\u00e3o das asas de uma borboleta afeta o clima do outro lado do mundo. Neste sentido, somos todos, hoje, pequenas borboletas.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Ind\u00fastria em 2012: Crise na Produ\u00e7\u00e3o e no Emprego<\/p>\n<p>Iedi<\/p>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o industrial, com exce\u00e7\u00e3o de 1992 e 2009, anos em que o PIB brasileiro caiu, a retra\u00e7\u00e3o de 2,7% registrada em 2012 \u00e9 o pior resultado observado na s\u00e9rie hist\u00f3rica do IBGE, iniciada em 1992. Ou seja, desconsiderando aqueles dois anos de recess\u00e3o da economia brasileira, a ind\u00fastria n\u00e3o amargava, nos \u00faltimos vinte anos, uma queda de sua produ\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o e da natureza (retra\u00e7\u00e3o generalizada) como a vista no ano passado.<\/p>\n<p>A ind\u00fastria fechou 2012 com retra\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o em nove dos catorze locais pesquisados pelo IBGE. Em S\u00e3o Paulo, a queda da produ\u00e7\u00e3o (\u20133,9%) foi generalizada (atingindo treze dos vinte segmentos industriais pesquisados) e maior que a da m\u00e9dia nacional (\u20132,7%). No Rio de Janeiro, outro estado com grande participa\u00e7\u00e3o na ind\u00fastria nacional, o recuo da produ\u00e7\u00e3o industrial foi mais acentuado (\u20135,6%) e representou o pior resultado da sua s\u00e9rie hist\u00f3rica dos \u00faltimos vinte anos.<\/p>\n<p>Ainda no sudeste, a produ\u00e7\u00e3o industrial encolheu 6,3% no Esp\u00edrito Santo no ano passado, em decorr\u00eancia das quedas nas atividades da ind\u00fastria extrativa (\u20131,6%) e, sobretudo, da metalurgia b\u00e1sica (\u201339,5%). Por sua vez, a produ\u00e7\u00e3o industrial de Minas Gerais andou em sentido contr\u00e1rio e colaborou para que os resultados n\u00e3o fossem ainda mais desfavor\u00e1veis. Valendo-se dos segmentos de outros produtos qu\u00edmicos (16,6%), de ve\u00edculos automotores (5,4%) e de refino de petr\u00f3leo e produ\u00e7\u00e3o de \u00e1lcool (8,1%), a produ\u00e7\u00e3o industrial mineira cresceu de 1,4% em 2012.<\/p>\n<p>No sul, a produ\u00e7\u00e3o industrial tamb\u00e9m caiu fortemente em seus tr\u00eas estados: Paran\u00e1 (\u20134,8%), Santa Catarina (\u20132,7%) e Rio Grande do Sul (\u20134,6%). Nos estados do Norte, a produ\u00e7\u00e3o industrial caiu 7,0% no Amazonas e 1,1% no Par\u00e1. Por sua vez, ao crescer 1,7% em 2012, a ind\u00fastria no Nordeste se saiu melhor, devido principalmente ao desempenho dos segmentos de produtos qu\u00edmicos (8,0%), refino de petr\u00f3leo e produ\u00e7\u00e3o de \u00e1lcool (3,6%), minerais n\u00e3o\u2013met\u00e1licos (4,6%).<\/p>\n<p>No que diz respeito ao emprego, tr\u00eas pontos podem ser destacados a partir dos dados do IBGE para 2012. Primeiro, a retra\u00e7\u00e3o de 1,4% do n\u00famero de ocupados em 2012 com rela\u00e7\u00e3o a 2011 foi relativamente pequena se comparada com o desempenho da produ\u00e7\u00e3o industrial no mesmo per\u00edodo (\u20132,7%, como supracitado). Isso significa que os empres\u00e1rios industriais, por conta da escassez da m\u00e3o-de-obra, sobretudo a qualificada, ainda est\u00e3o mantendo os postos de trabalho das suas empresas, na expectativa de que seus neg\u00f3cios melhorem. Evidentemente, n\u00e3o se est\u00e1 dizendo aqui que a queda de 1,4% \u00e9 desprez\u00edvel \u2013 com exce\u00e7\u00e3o de 2009, essa \u00e9 a pior taxa de varia\u00e7\u00e3o do emprego industrial da s\u00e9rie hist\u00f3rica do IBGE, iniciada em 1992. O que se est\u00e1 dizendo \u00e9 que, dada a magnitude da retra\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o industrial, poder-se-ia esperar que o emprego industrial apresentasse resultados mais desfavor\u00e1veis em 2012.<\/p>\n<p>Segundo, os dados do IBGE deixam claro que a queda do emprego industrial \u00e9 geral e n\u00e3o \u00e9 consequ\u00eancia de um processo fortuito, ligado ao mau desempenho de um setor ou de uma regi\u00e3o do Pa\u00eds. Ao contr\u00e1rio, taxas negativas de emprego foram registradas em 12 dos 14 locais e em 14 dos 18 setores investigados pelo IBGE em todo o Brasil no ano de 2012. Portanto, juntamente com os dados da produ\u00e7\u00e3o industrial, esse desempenho negativo do emprego industrial confirma o cen\u00e1rio de crise vivido pela ind\u00fastria brasileira em 2012.<\/p>\n<p>Terceiro, os resultados do final do ano passado n\u00e3o trazem boas perspectivas para o emprego industrial neste in\u00edcio de 2013. Nos \u00faltimos tr\u00eas meses de 2012, o n\u00famero de ocupados apresentou a seguinte evolu\u00e7\u00e3o: 0,4%, 0,1% e \u20130,2%, respectivamente, em outubro, novembro e dezembro (taxas calculadas com rela\u00e7\u00e3o ao m\u00eas imediatamente anterior, com ajuste sazonal). Ou seja, al\u00e9m de desacelerar, o emprego industrial fechou 2012 em queda. Na compara\u00e7\u00e3o de dezembro de 2012 com o mesmo m\u00eas de 2011, a taxa de varia\u00e7\u00e3o dos ocupados na ind\u00fastria tamb\u00e9m foi negativa, de \u20131,3%. O n\u00famero de horas pagas registrado em dezembro de 2012 tamb\u00e9m n\u00e3o traz nenhum sinal mais alentador: varia\u00e7\u00e3o de 0,0% frente a novembro (com ajuste sazonal) e de \u20131,2% frente a dezembro de 2011.<\/p>\n<p>Vale tamb\u00e9m anotar a queda do emprego industrial em S\u00e3o Paulo: \u20132,6%. Esse resultado negativo \u00e9 o pior desempenho registrado na s\u00e9rie hist\u00f3rica do IBGE para o estado paulista, com exce\u00e7\u00e3o de 2009; com um agravante: em 2011, o n\u00famero de ocupados na ind\u00fastria em S\u00e3o Paulo havia ca\u00eddo 1,0%. Ou seja, 2012 foi o segundo ano consecutivo de queda (e mais expressiva!) do emprego no principal parque da ind\u00fastria brasileira.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Escassez pauta a nova geopol\u00edtica dos alimentos<\/p>\n<p>IPS<\/p>\n<p>Os alimentos s\u00e3o o novo petr\u00f3leo. A terra \u00e9 o novo ouro. Esta nova era se caracteriza pela carestia dos alimentos e propaga\u00e7\u00e3o da fome.<\/p>\n<p>Do lado da demanda, o aumento demogr\u00e1fico, uma crescente prosperidade e a convers\u00e3o de alimentos em combust\u00edvel para autom\u00f3veis elevam o consumo a um grau sem precedentes.<\/p>\n<p>Do lado da oferta, a extrema eros\u00e3o do solo, o aumento da escassez h\u00eddrica e temperaturas cada vez mais altas tornam mais dif\u00edcil expandir a produ\u00e7\u00e3o. A n\u00e3o ser que seja poss\u00edvel reverter essas tend\u00eancias, os pre\u00e7os dos alimentos continuar\u00e3o subindo, e a fome continuar\u00e1 se propagando, derrubando o atual sistema social. \u00c9 poss\u00edvel reverter estas tend\u00eancias a tempo? Ou acaso os alimentos s\u00e3o o elo fr\u00e1gil da civiliza\u00e7\u00e3o de in\u00edcios do s\u00e9culo XXI, em boa medida como foi em tantas civiliza\u00e7\u00f5es anteriores, cujos vest\u00edgios arqueol\u00f3gicos s\u00e3o estudados agora? Esta redu\u00e7\u00e3o das provis\u00f5es alimentares do mundo contrasta drasticamente com a segunda metade do s\u00e9culo XX, quando os problemas dominantes na agricultura eram a superprodu\u00e7\u00e3o, os enormes excedentes de gr\u00e3os e o acesso aos mercados por parte dos exportadores desses produtos.<\/p>\n<p>Nesse tempo, o mundo tinha duas reservas estrat\u00e9gicas: grandes sobras de gr\u00e3os (indo uma quantidade para o lixo ao se iniciar a nova colheita) e uma ampla superf\u00edcie de terras de cultivo sem ser utilizadas, no marco de programas agr\u00edcolas estadunidenses para evitar a superprodu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando as colheitas mundiais eram boas, os Estados Unidos faziam com que mais terras ficassem ociosas. Ao contr\u00e1rio, quando eram inferiores ao esperado, voltava a colocar as terras para produzir.<\/p>\n<p>A capacidade de produ\u00e7\u00e3o excessiva foi usada para manter a estabilidade nos mercados mundiais de gr\u00e3os. As grandes reservas de gr\u00e3os amortizaram a escassez de cultivos no planeta.<\/p>\n<p>Quando as mon\u00e7\u00f5es n\u00e3o chegaram \u00e0 \u00cdndia, em 1965, por exemplo, os Estados Unidos enviaram a quinta parte de sua colheita de trigo ao pa\u00eds asi\u00e1tico para evitar uma fome de potencial catastr\u00f3fico. E gra\u00e7as \u00e0s abundantes reservas, isto teve pouco impacto sobre o pre\u00e7o mundial dos gr\u00e3os.<\/p>\n<p>Quando iniciou este per\u00edodo de abund\u00e2ncia alimentar, o mundo tinha 2,5 bilh\u00f5es de pessoas. Atualmente tem 7 bilh\u00f5es. Entre 1950 e 2000, houve ocasionais altas no pre\u00e7o dos gr\u00e3os em raz\u00e3o de eventos como uma seca severa na R\u00fassia ou uma intensa onda de calor no M\u00e9dio Oeste dos Estados Unidos. Entretanto, seus efeitos sobre o pre\u00e7o tiveram vida curta. No prazo de um ano, as coisas voltaram \u00e0 normalidade. A combina\u00e7\u00e3o entre reservas abundantes e terras de cultivo ociosas converteu esse per\u00edodo num dos que se gozou de maior seguran\u00e7a alimentar na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>No entanto, isso n\u00e3o duraria. Em 1986, o constante aumento da demanda mundial de gr\u00e3os e os custos or\u00e7ament\u00e1rios, inaceitavelmente altos, fizeram que se eliminasse o programa estadunidense de reserva de terras agr\u00edcolas. Atualmente, os Estados Unidos t\u00eam algumas terras ociosas, no marco de seu Programa de Reserva para a Conserva\u00e7\u00e3o, mas, tratam-se de solos muito suscept\u00edveis \u00e0 eros\u00e3o. Acabaram-se os dias em que se contava com \u00e1reas, com potencial produtivo, prontas para produzirem rapidamente, caso fosse apresentada uma necessidade.<\/p>\n<p>Agora o mundo vive apenas mirando no ano seguinte, sempre esperando produzir o suficiente para cobrir o aumento da demanda. Os agricultores de todas as partes realizam denodados esfor\u00e7os para cadenciar esse acelerado crescimento da demanda, mas possuem dificuldades para isto.<\/p>\n<p>A escassez de alimentos conspirou contra civiliza\u00e7\u00f5es anteriores. A dos sum\u00e9rios e dos maias foram apenas duas entre as muitas cujo declive, aparentemente, deveu-se \u00e0 incurs\u00e3o numa vereda agr\u00edcola que era ambientalmente insustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>No caso dos sum\u00e9rios, o aumento da salinidade do solo, em consequ\u00eancia de um defeito em seu sistema de irriga\u00e7\u00e3o, que a n\u00e3o ser por isso era bem planejado, terminou devastando seu sistema alimentar e, por conseguinte, sua civiliza\u00e7\u00e3o. Em rela\u00e7\u00e3o aos maias, a eros\u00e3o do solo foi uma das chaves de seu desmoronamento, como tamb\u00e9m foi para tantas outras civiliza\u00e7\u00f5es antigas.<\/p>\n<p>A nossa tamb\u00e9m est\u00e1 nesse caminho. Por\u00e9m, diferente dos sum\u00e9rios, a agricultura moderna sofre o aumento dos n\u00edveis de di\u00f3xido de carbono na atmosfera. E, como os maias, tamb\u00e9m est\u00e1 lidando mal com a terra, gerando perdas sem precedentes do solo, a partir da eros\u00e3o.<\/p>\n<p>Na atualidade, tamb\u00e9m enfrentamos tend\u00eancias mais novas, como o esgotamento dos aqu\u00edferos, o estancamento nos rendimentos dos gr\u00e3os, em pa\u00edses mais avan\u00e7ados, a partir do ponto de vista agr\u00edcola e do aumento da temperatura.<\/p>\n<p>Neste contexto, n\u00e3o surpreende o fato da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas apontar, agora, que os pre\u00e7os dos alimentos dobraram em rela\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo 2002-2004.<\/p>\n<p>Para a maioria dos cidad\u00e3os dos Estados Unidos, que gastam em m\u00e9dia 9% de suas receitas em alimentos, isto n\u00e3o \u00e9 o maior problema. Contudo, para os consumidores que gastam entre 50 e 70% de suas receitas em comida, o fato dos pre\u00e7os dos alimentos dobrarem \u00e9 um assunto muito s\u00e9rio. A propaga\u00e7\u00e3o da fome est\u00e1 estreitamente ligada com a redu\u00e7\u00e3o das reservas de gr\u00e3os e aumento no pre\u00e7o dos alimentos.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo passado, a quantidade de pessoas famintas no mundo foi reduzida, caindo para 792 milh\u00f5es em 1997. Depois come\u00e7ou a aumentar, chegando a 1 bilh\u00e3o. Lamentavelmente, caso continuem fazendo as coisas como de costume, o n\u00famero de pessoas que passam fome continuar\u00e1 crescendo.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 que para os agricultores do mundo est\u00e1 se tornando cada vez mais dif\u00edcil cadenciar a produ\u00e7\u00e3o, diante da crescente demanda de gr\u00e3os. Os estoques mundiais de gr\u00e3os diminu\u00edram h\u00e1 uma d\u00e9cada e n\u00e3o foi poss\u00edvel reverter a situa\u00e7\u00e3o. Caso n\u00e3o se consiga mudar isto, o que se espera \u00e9 que, com a pr\u00f3xima m\u00e1 colheita, os alimentos se encare\u00e7am, a fome se intensifique e os dist\u00farbios vinculados \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o sejam propagados.<\/p>\n<p>O mundo est\u00e1 ingressando numa era de escassez alimentar cr\u00f4nica, que conduz a uma intensa concorr\u00eancia pelo controle da terra e dos recursos h\u00eddricos. Em outras palavras, est\u00e1 come\u00e7ando uma nova geopol\u00edtica dos alimentos.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Construtora de Belo Monte descumpre condicionantes socioambientais e Ibama n\u00e3o pune<\/p>\n<p>Ag\u00eancia Rep\u00f3rter Brasil<\/p>\n<p>Mais caro projeto de infraestrutura do pa\u00eds em andamento, a hidrel\u00e9trica de Belo Monte, no rio Xingu (PA), tem sido alvo nos \u00faltimos anos de uma s\u00e9rie de a\u00e7\u00f5es na Justi\u00e7a em fun\u00e7\u00e3o dos problemas sociais e ambientais da obra \u2013 levantamento do Movimento Xingu Vivo para Sempre, sediado em Altamira (PA), aponta que tramitam atualmente 56 processos contra Belo Monte. Apesar dos problemas, por\u00e9m, as a\u00e7\u00f5es de mitiga\u00e7\u00e3o e compensa\u00e7\u00e3o dos impactos \u2013 as chamadas condicionantes e o Plano B\u00e1sico Ambiental \u00a0(PBA) \u2013, previstas no licenciamento ambiental, t\u00eam sido negligenciadas pelo Cons\u00f3rcio Norte Energia, respons\u00e1vel pela usina.<\/p>\n<p>Publicada na \u00faltima semana, uma an\u00e1lise do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renov\u00e1veis) sobre o status do cumprimento das condicionantes da Licen\u00e7a de Instala\u00e7\u00e3o e do PBA de Belo Monte mostra um quadro grave de irregularidades na implanta\u00e7\u00e3o tanto das medidas antecipat\u00f3rias (que deviam ter sido realizadas antes das obras para evitar a ocorr\u00eancia de impactos) quanto de mitiga\u00e7\u00e3o (compensa\u00e7\u00e3o de danos sofridos).<\/p>\n<p>De acordo com o documento do Ibama, passados quase tr\u00eas anos do leil\u00e3o da obra, a Norte Energia ainda n\u00e3o concluiu o Cadastro Socioecon\u00f4mico (CSE) das fam\u00edlias afetadas pelo empreendimento \u2013 n\u00e3o sabendo, portanto, quantos e quem s\u00e3o os atingidos por Belo Monte \u2013, n\u00e3o implantou os aterros sanit\u00e1rios em Altamira e Vit\u00f3ria do Xingu, n\u00e3o fez as obras de saneamento b\u00e1sico nesses munic\u00edpios e nas comunidades afetadas por Belo Monte, n\u00e3o construiu hospitais e n\u00e3o implantou equipamentos de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o reassentou fam\u00edlias de comunidades desapropriadas, n\u00e3o fez a recomposi\u00e7\u00e3o das atividades produtivas de \u00e1reas remanescentes, n\u00e3o terminou o sistema de transposi\u00e7\u00e3o de embarca\u00e7\u00f5es no local onde o barramento do Xingu impede a navega\u00e7\u00e3o do rio, n\u00e3o informou a popula\u00e7\u00e3o como se dar\u00e1 esse processo, e n\u00e3o implementou os projetos de recomposi\u00e7\u00e3o da infraestrutura vi\u00e1ria como previsto, entre in\u00fameras outras irregularidades.<\/p>\n<p>Grosso modo, apenas 9,7% das obriga\u00e7\u00f5es da Licen\u00e7a de Instala\u00e7\u00e3o foram devidamente cumpridas, avalia o corpo de advogados do Instituto Socioambiental (ISA), que tem monitorado o andamento das condicionantes das licen\u00e7as pr\u00e9via e de instala\u00e7\u00e3o de Belo Monte desde o in\u00edcio das obras. Muitas delas tiveram seus prazos renegociados e, de acordo com o relat\u00f3rio do Ibama, outras foram postergadas pela Norte Energia sem pr\u00e9vio conhecimento ou concord\u00e2ncia do \u00f3rg\u00e3o ambiental, o que \u00e9 grave tendo em vista as consequ\u00eancias sobre a popula\u00e7\u00e3o afetada.<\/p>\n<p>Ou seja, como as condicionantes foram estipuladas como medidas pr\u00e9vias \u00e0s obras justamente para evitar impactos mais graves, explica a advogada Biviany Garz\u00f3n, do ISA, estender prazos deixa os afetados pela usina numa situa\u00e7\u00e3o de extrema vulnerabilidade. \u201cO Ibama deveria embargar a obra at\u00e9 o cumprimento das condicionantes e do Plano B\u00e1sico Ambiental. N\u00e3o terem cumprido as a\u00e7\u00f5es referentes ao saneamento, por exemplo, afeta diretamente a sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o\u201d, afirma a advogada.<\/p>\n<p>Na \u00e1rea rural, as principais v\u00edtimas da neglig\u00eancia s\u00e3o fam\u00edlias que, desapropriadas, n\u00e3o foram reassentadas ou indenizadas devidamente. Em um trecho do documento, os t\u00e9cnicos do Ibama chegam a considerar a situa\u00e7\u00e3o de uma das comunidades desapropriadas \u2013 Santo Ant\u00f4nio, localizada no epicentro das obras do s\u00edtio Belo Monte \u2013 como \u201ctraum\u00e1tica\u201d. \u201cO processo por que passa a comunidade da Vila Santo Ant\u00f4nio \u00e9 traum\u00e1tico. A demora em proceder ao reassentamento deixa as fam\u00edlias em meio a casas demolidas, terrenos antes cuidados pelos antigos moradores que agora est\u00e3o tomados por mato, e tr\u00e2nsito de caminh\u00f5es e pessoas estranhas \u00e0 comunidade, que tornam mais dolorida a mudan\u00e7a de vida nesta fase\u201d.<\/p>\n<p>De acordo com a Defensoria P\u00fablica de Altamira, correm atualmente 67 a\u00e7\u00f5es contra a Norte Energia por problemas referentes a Santo Ant\u00f4nio. Algumas fam\u00edlias, explica a defensora Andr\u00e9ia Barreto, chegaram a receber apenas R$ 3,1 mil pelas suas casas e terras, valor com o qual claramente n\u00e3o puderam recompor a vida em outra localidade, sobretudo diante da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria nos munic\u00edpios afetados pela hidrel\u00e9trica.<\/p>\n<p>J\u00e1 outros atingidos sequer foram reconhecidos como tal. \u201c\u00c9 o caso do seu Amadeu. Um dos moradores mais antigos de Santo Ant\u00f4nio, o pescador n\u00e3o tinha t\u00edtulo de propriedade e a Norte Energia se negou a indeniz\u00e1-lo at\u00e9 que entramos com um processo. Ele finalmente foi inclu\u00eddo no Plano de Atendimento \u00e0 Popula\u00e7\u00e3o Atingida e hoje vive de aluguel em uma casinha paga pela empresa\u201d, conta a defensora. Segundo ela, foram impetradas sete a\u00e7\u00f5es somente envolvendo casos de fam\u00edlias agroextrativistas exclu\u00eddas do Plano de Atendimento, mas, no total, at\u00e9 dezembro de 2012 estavam correndo 20 processos por repara\u00e7\u00e3o de danos a fam\u00edlias ribeirinhas ajuizados pela Defensoria. A maioria pede revis\u00e3o dos valores pagos a t\u00edtulo de indeniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Responsabilidade do Ibama<\/p>\n<p>Procurado pela reportagem, o Ibama n\u00e3o quis comentar os atrasos e n\u00e3o cumprimentos das condicionantes de Belo Monte. Segundo a assessoria de imprensa, o \u00f3rg\u00e3o apenas \u201cencaminhou of\u00edcio notificando o empreendedor a resolver as pend\u00eancias apontadas no parecer t\u00e9cnico 168\/2012, estabelecendo prazos para que sejam atendidas\u201d, mas n\u00e3o estipulou nenhuma penalidade \u00e0 Norte Energia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de n\u00e3o aplicar medidas cab\u00edveis previstas por lei, como o embargo das obras da usina, o Ibama sinaliza que considera fato consumado a instala\u00e7\u00e3o de outro projeto que deve multiplicar os impactos socioambientais da regi\u00e3o afetada por Belo Monte: a mineradora Belo Sun, que pleiteia licen\u00e7a de lavra de ouro por 12 anos na Volta Grande do Xingu, exatamente a regi\u00e3o mais impactada pela usina. No documento sobre as condicionantes, o \u00f3rg\u00e3o recomenda \u00e0 Norte Energia aten\u00e7\u00e3o \u201c\u00e0 influ\u00eancia que o empreendimento de minera\u00e7\u00e3o da Belo Sun pode causar \u00e0 regi\u00e3o da Transassurini, evitando que fam\u00edlias que optem por carta de cr\u00e9dito adquiram suas novas propriedades em \u00e1rea que possa ser diretamente afetada pela Belo Sun\u201d.<\/p>\n<p>A mineradora est\u00e1 em fase de licenciamento pela Secretaria de Meio Ambiente do Estado, mas j\u00e1 foi alvo de duas recomenda\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias por parte do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal e de um pedido de declara\u00e7\u00e3o de inviabilidade por parte do ISA.<\/p>\n<p>Segundo o procurador do Minist\u00e9rio Publico Federal no Par\u00e1, Ubiratan Cazetta, o MPF ainda est\u00e1 estudando o documento do Ibama, mas a princ\u00edpio a conclus\u00e3o cab\u00edvel \u00e9 que condicionantes e licenciamentos ambientais t\u00eam sido tratados como mera formalidade pelo Cons\u00f3rcio Norte Energia e pelo \u00f3rg\u00e3o ambiental, afirma o procurador. \u201cParece que temos dois mundos aqui: o te\u00f3rico, onde as condicionantes resolveriam todos os problemas da obra, e o concreto, onde n\u00e3o se cumpre as condicionantes e, mesmo se cumprisse, os problemas persistiriam.\u201d<\/p>\n<p>Segundo Cazetta, o MPF pode responsabilizar e requerer puni\u00e7\u00e3o tanto ao empreendedor, que falha no cumprimento das condicionantes, quanto ao Ibama, que falha na fiscaliza\u00e7\u00e3o e autua\u00e7\u00e3o das irregularidades. \u201cA postura leniente do Ibama n\u00e3o apenas enfraquece a institui\u00e7\u00e3o da condicionante, como tamb\u00e9m deixa os afetados sem nenhuma defesa em seus direitos\u201d, afirma o procurador.<\/p>\n<p>Procurada pela reportagem, a Norte Energia, atrav\u00e9s de sua assessoria, comunicou que a diretoria da empresa est\u00e1 em planejamento e incomunic\u00e1vel.<\/p>\n<hr \/>\n<p>O decl\u00ednio do Imp\u00e9rio Americano<\/p>\n<p>Imprensa Popular &#8211; PCB<\/p>\n<p>Os n\u00fameros do Com\u00e9rcio Internacional mostram que, em 2012, a China ultrapassou, pela primeira vez, os EUA na esfera comercial e \u00e9, agora a maior pot\u00eancia mundial nesse setor. Os dados referentes ao fluxo comercial (soma de exporta\u00e7\u00f5es e importa\u00e7\u00f5es de bens) contabilizaram US$ 3,82 trilh\u00f5es para os Estados Unidos, de acordo com o Departamento de Com\u00e9rcio daquele pa\u00eds), ao passo que, para a China, o fluxo comercial foi de US$ 3,87 trilh\u00f5es. Ainda superavit\u00e1rio em servi\u00e7os (US$ 195 bilh\u00f5es em 2012), os EUA s\u00e3o deficit\u00e1rios no com\u00e9rcio de bens (cerca de US 700 bilh\u00f5es, no mesmo ano). O super\u00e1vit chin\u00eas, no com\u00e9rcio de bens, somou US$ 231,1 bilh\u00f5es, no mesmo ano.<\/p>\n<p>Os EUA s\u00e3o, ainda, a maior economia do mundo, como confirma o PIB alcan\u00e7ado em 2011, de US&amp; 15 trilh\u00f5es, contra os US$ 8,3 trilh\u00f5es da China. Entretanto, dadas as tend\u00eancias significativas apresentadas nas taxas de crescimento do dois pa\u00edses, tudo indica quem, em poucos anos, a China ser\u00e1 a maior economia do mundo, pondo abaixo a posi\u00e7\u00e3o de dom\u00ednio dos EUA no plano financeiro e comercial internacional conquistada ap\u00f3s a \u00a0 Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Carta Maior\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4321\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[106],"tags":[],"class_list":["post-4321","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c119-olhovivo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-17H","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4321","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4321"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4321\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4321"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4321"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4321"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}