{"id":4341,"date":"2013-02-18T18:35:58","date_gmt":"2013-02-18T18:35:58","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4341"},"modified":"2013-02-18T18:35:58","modified_gmt":"2013-02-18T18:35:58","slug":"qual-o-papel-do-chefao-da-cbf-no-assassinato-de-vladimir-herzog","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4341","title":{"rendered":"Qual o papel do chef\u00e3o da CBF no assassinato de Vladimir Herzog?"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>O rep\u00f3rter investigativo brit\u00e2nico Andrew\u00a0Jennings\u00a0relembra os pecados do atual presidente da CBF, Jos\u00e9 Maria Marin, durante a ditadura brasileira.<\/strong><\/p>\n<p><em>Bras\u00edlia, 11 de dezembro de 2012<\/em>: O deputado Rom\u00e1rio chega de mansinho na sala da Comiss\u00e3o. Uma centena de pares de olhos seguem o ic\u00f4nico Baixinho que se dirige primeiro \u00e0 imprensa. \u201cAndrew\u00a0Jennings, meu amigo, como vai\u201d, diz, enquanto aperta minha m\u00e3o entre as suas.<\/p>\n<p>Ele parece estar em grande forma, leve, relaxado, sorridente, e um brilho no olhar que promete: um dos maiores goleadores do mundo est\u00e1 prestes a marcar mais um tento. Sem fazer alarde, como sempre.\u00a0Romario\u00a0simplesmente marca: Gol!<\/p>\n<p>\u201cMelhor agora que encontrei voc\u00ea, companheiro\u201d, respondo. Ele d\u00e1 risada e vai embora, driblando as mesas para tomar assento na Comiss\u00e3o de Esporte e Turismo da C\u00e2mara, da qual faz parte.<\/p>\n<p>Romario aguarda pacientemente por alguns minutos. Ent\u00e3o, o presidente da mesa lhe passa a bola: \u00e9 sua vez de falar. Ele n\u00e3o sorri agora.<\/p>\n<p>\u201cAs pessoas me param na rua para dizer: \u2018Traga o Teixeira de volta, o novo presidente da CBF \u00e9 pior\u2019\u201d.<\/p>\n<p>Pronto. Com apenas uma frase ele agarrou a bola e: gol!<\/p>\n<p>Durante 23 anos Ricardo Teixeira desviou dinheiro da FIFA e da CBF. O peso da corrup\u00e7\u00e3o finalmente o for\u00e7ou a renunciar nove meses atr\u00e1s e os torcedores puderam recolher as faixas \u201cFora Teixeira\u201d que estendiam nos est\u00e1dios.<\/p>\n<p>Como o cara que assumiu a CBF, o octogen\u00e1rio Jos\u00e9 Maria Marin, poderia ser pior que o antecessor? Certamente ele vai fundo saqueando o futebol brasileiro, mas Marin n\u00e3o tem como superar as d\u00e9cadas de roubo de Ricky Vigarista.<\/p>\n<p>A resposta est\u00e1 fora do campo do futebol, em uma hist\u00f3ria s\u00f3rdida que vem do tempo da ditadura militar. Por isso a indigna\u00e7\u00e3o em S\u00e3o Paulo \u2013 onde manifestantes protestaram diante de sua casa- nas colunas dos jornais, no Congresso, onde foi acusado de ter \u201cas m\u00e3os sujas de sangue\u201d<\/p>\n<p>* * * * * * * *<\/p>\n<p><em>Bras\u00edlia, 13 de dezembro de 1968:<\/em> Quatro anos depois do golpe militar que implantou a ditadura no Brasil veio uma lei \u2013 o famigerado AI-5 \u2013 que dava ao milico que estivesse na cadeira da presid\u00eancia o poder de fazer o que lhe desse na telha. O Congresso estava amorda\u00e7ado, os partidos pol\u00edticos, banidos e os direitos humanos, extintos. A censura corria solta nos jornais, na m\u00fasica, no teatro, no cinema.<\/p>\n<p>Sabendo-se ileg\u00edtimos e odiados pelo povo, os generais declararam a guerra suja contra os opositores. Torturava-se e matava-se na Opera\u00e7\u00e3o Bandeirantes \u2013 a OBAN \u2013 executada por policiais civis e militares e secretamente financiada por empres\u00e1rios brasileiros e corpora\u00e7\u00f5es americanas \u2013 que pagavam b\u00f4nus para tirar os sindicalistas de suas f\u00e1bricas.<\/p>\n<p>Em 1970, entre os milhares de presos estava uma jovem estudante, Dilma Rousseff, que se juntara a um grupo clandestino de guerrilha urbana. Ela descreveu, em uma entrevista de 2011, as pancadas que recebia nua e amarrada, entremeadas por choque el\u00e9tricos nos pontos mais sens\u00edveis do corpo, que chegaram a provocar hemorragia uterina.<\/p>\n<p><em>S\u00e3o Paulo, 15 de mar\u00e7o de 1971:<\/em> Enquanto os torturadores da OBAN davam choques em Dilma, Jos\u00e9 Maria Marin \u2013 que muito depois se tornaria o chef\u00e3o do futebol \u2013 assumia o mandato de deputado estadual. Se quisesse, Marin teria ouvido os gritos dela. Ele tinha conhecimento da tortura mas isso n\u00e3o o incomodava. Os militares n\u00e3o faziam segredo da sua brutalidade; eles precisavam de uma popula\u00e7\u00e3o acuada, intimidada para se impor.<\/p>\n<p>O senhor Marin aderira \u00e0 ARENA, o partido criado para os pol\u00edticos da ditadura. Ele gostava dos militares porque eles o deixavam pertinho do caixa-forte; e os militares o apreciavam porque era a caixinha de m\u00fasica deles. Bastava apertar o bot\u00e3o, e l\u00e1 ia Marin discursar na\u00a0Assembl\u00e9ia, denunciando os comunistas ou qualquer um que a OBAN quisesse, dando o pretexto para prender e torturar.<\/p>\n<p>De vez em quando Marin se encontrava com S\u00e9rgio Fleury nos bastidores pol\u00edticos ou nos restaurantes da moda em S\u00e3o Paulo. Fleury era um s\u00e1dico de primeira, um artista da tortura. O Pr\u00edncipe da Dor supervisionava inqu\u00e9ritos e operava uma rede de cativeiros privados \u2013 em casas, ch\u00e1caras \u2013 onde clandestinamente os presos pol\u00edticos eram torturados dias a fio. Muitos morreram \u2013 ou simplesmente desapareceram.<\/p>\n<p>Seus\u00a0g\u00e2ngsters\u00a0em trajes civis invadiam qualquer casa a qualquer hora e quando queriam se divertir, espancavam o suspeito. As crian\u00e7as assistiam, aterrorizadas. Os rev\u00f3lveres disparavam. Marin tinha Fleury em alta conta.<\/p>\n<p><em>S\u00e3o Paulo, janeiro de 2013<\/em>: \u201cDepois que a ditadura se instalou, ser jornalista se tornou uma ocupa\u00e7\u00e3o prejudicial \u00e0 sa\u00fade. Eu tinha sa\u00eddo do pa\u00eds seis meses antes e estava em Londres, trabalhando para o servi\u00e7o brasileiro da BBC\u201d, lembra o jornalista\u00a0Nem\u00e9rcio\u00a0Nogueira.<\/p>\n<p>\u201cEu e um colega fizemos um lobby para que a BBC oferecesse um emprego ao amigo e jornalista Vladimir Herzog. Em 1965 eles contrataram o\u00a0Vlado, que veio com a mulher, Clarice; eles tiveram os dois filhos em Londres, Ivo e Andr\u00e9\u201d.<\/p>\n<p>Depois de tr\u00eas anos na BBC, em agosto de 1975, ele voltou com a fam\u00edlia para o Brasil, e foi nomeado editor-chefe da TV Cultura, uma emissora do governo do Estado. Agora ele estava na esfera de influ\u00eancia do deputado Jos\u00e9 Maria Marin, porta-voz de Fleury e dos generais.<\/p>\n<p>A ditadura come\u00e7ava a rachar. A luta armada tinha sido sufocada, os guerrilheiros eliminados. Alguns generais pregavam um retorno gradual e cauteloso \u00e0 democracia. Mas os linha-dura n\u00e3o queriam ouvir falar nisso; para continuar nos neg\u00f3cios precisavam da \u201camea\u00e7a vermelha\u201d. Os soldados da tortura concordavam do fundo do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eles conseguiram ajuda externa. Os servi\u00e7os de seguran\u00e7a da Argentina, Bol\u00edvia, Chile, Paraguai e Uruguai lan\u00e7aram a Opera\u00e7\u00e3o Condor, sincronizada atrav\u00e9s de uma base da CIA no Panam\u00e1, prendendo e assassinando lideran\u00e7as de esquerda e opositores da ditadura em toda a Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Vlado era mais do que um respeitado\u00a0ex-rep\u00f3rter\u00a0e produtor da BBC. Graduado em Filosofia, era um documentarista bem sucedido e professor de jornalismo na Universidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Outros colegas jornalistas recordam: \u201cVlado\u00a0tinha um estilo direto e despojado de falar e escrever, e n\u00e3o era dado \u00e0 ret\u00f3rica. Uma frase que usava com frequ\u00eancia, que resume o pensamento dele \u2013 e est\u00e1 gravada em sua l\u00e1pide \u2013 era: \u201cQuando perdemos a capacidade de nos indignarmos com as atrocidades praticadas contra outros, perdemos tamb\u00e9m o direito de nos considerarmos seres humanos civilizados\u201d.<\/p>\n<p>Sua fam\u00edlia conhecia o medo, o medo das atrocidades. Judeus, eles fugiram da Cro\u00e1cia quando ele era menino por causa dos nazistas.<\/p>\n<p>Ivo Herzog me disse: \u201cSim, meu pai era membro do Partido Comunista Brasileiro. Mas n\u00e3o era um grupo armado. Era mais como um grupo de debates.\u201d<\/p>\n<p>As den\u00fancias serviam ao que Fleury e seus s\u00e1dicos queriam. Eles come\u00e7aram a prender os suspeitos de serem comunistas e tortur\u00e1-los para obter mais nomes.<\/p>\n<p>* * * * * * *<\/p>\n<p><em>S\u00e3o Paulo, Setembro de 1975:<\/em> Claudio Marques era um provocador barato, um porta-voz dos torturadores que entrava nos lares da cidade pela TV.<\/p>\n<p>\u201cConheci o Claudio pessoalmente, como jornalista, e ele me parecia um canalha. Acho que ele n\u00e3o era mais do que um oportunista que viu na ditadura uma forma de obter favores, patroc\u00ednio para sua coluna, seu programa de TV, um emprego, qualquer coisa\u201d, lembra o jornalista\u00a0Nem\u00e9rcio\u00a0Nogueira, amigo e colega de\u00a0Vlado\u00a0na BBC.<\/p>\n<p>Claudio fazia tudo que podia para conseguir a gratid\u00e3o dos generais. Fleury queria vermelhos? Claudio proveria. Ele come\u00e7ou a escrever sua \u201cColuna Um\u201d.<\/p>\n<p>\u201cViram o notici\u00e1rio de ontem na TV Cultura? Falando do esquerdista vietnamita\u00a0Ho\u00a0Chi\u00a0Min?\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o interessava que a\u00a0materia\u00a0tivesse vindo da BBC\u00a0Visnews, ali estava a prova de que o canal estatal tinha sido tomado pelos vermelhos! E o governo vai ficar parado assistindo a isso?<\/p>\n<p>Isso foi na primeira semana de setembro. Dois dias depois, a coluna de Claudio espalharia o veneno pela segunda vez.<\/p>\n<p>As pris\u00f5es dos comunistas suspeitos come\u00e7ou na \u00faltima semana de setembro. Amarrados na Cadeira de Drag\u00e3o, com eletrodos no nariz e no p\u00eanis, e afogados em baldes de \u00e1gua, eles estavam gritando nomes.<\/p>\n<p>A campanha se mudou para o Congresso.<\/p>\n<p>* * * * * * *<\/p>\n<p><em>S\u00e3o Paulo, 9 de outubro, 1975:<\/em> O fantoche escolhido para fazer o aquecimento era o deputado\u00a0Wadih\u00a0Helu, outra criatura da ditadura. Ele tomou assento nas fileiras da Arena enquanto providenciava lugares discretos para os interrogat\u00f3rios dos torturadores de Fleury.<\/p>\n<p>Helu trazia \u201cden\u00fancias graves\u201d a seus colegas na\u00a0Assembl\u00e9ia.<\/p>\n<p>Veja s\u00f3: o governo tinha acabado de inaugurar um novo sistema de esgoto e quem assiste \u00e0 TV Cultura n\u00e3o ficou sabendo disso. Eles n\u00e3o mandaram equipe! (<em>controle sua vontade de rir, o fim da hist\u00f3ria \u00e9 funesto<\/em>).<\/p>\n<p>Fingindo tremer de raiva, o deputado\u00a0Helu\u00a0prosseguiu: \u201cA aus\u00eancia da equipe da TV Cultura nas inaugura\u00e7\u00f5es do governo n\u00e3o \u00e9 novidade para quem tem acompanhado a coluna de Cl\u00e1udio Marques, denunciando a infiltra\u00e7\u00e3o de elementos comunistas na TV do estado\u201d.<\/p>\n<p>Helu subiu o tom: \u201cEles s\u00f3 mostram not\u00edcias negativas, nada de positivo. Est\u00e3o fazendo proselitismo do comunismo subserviente, tornando-se, como diz Claudio Marques, \u2018a TV Cultura vietnamita de S\u00e3o Paulo\u2019, usando dinheiro do povo para prestar um desservi\u00e7o ao governo e \u00e0 P\u00e1tria\u201d.<\/p>\n<p>Helu sentou. Era a vez do deputado arenista Jos\u00e9 Maria Marin.<\/p>\n<p>\u201cAcho estranho que apesar da imprensa estar levantando o problema h\u00e1 tempos, pedindo provid\u00eancias aos \u00f3rg\u00e3os competentes em rela\u00e7\u00e3o ao que est\u00e1 acontecendo no canal 2, n\u00e3o tenha acontecido nada at\u00e9 agora\u201d.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma quest\u00e3o daquilo que eles publicam mas o desconforto que provocam n\u00e3o apenas aqui, nem apenas nos c\u00edrculos pol\u00edticos, mas que se comenta em quase todos os lares paulistas\u201d.<\/p>\n<p>Alguma coisa\u00a0<em>tinha <\/em>que ser feita.<\/p>\n<p>\u201cGostaria de chamar a aten\u00e7\u00e3o da Secretaria de Cultura de S\u00e3o Paulo, do governador do Estado que devem definitivamente apurar as den\u00fancias publicadas na imprensa de S\u00e3o Paulo, em especial, pelo corajoso jornalista Claudio Marques\u201d.<\/p>\n<p>\u201cFa\u00e7o um apelo ao governador do Estado: ou jornalista est\u00e1 errado ou est\u00e1 certo. Essa omiss\u00e3o por parte da Secretaria do Estado e do governador n\u00e3o pode persistir. Mais do que nunca \u00e9 necess\u00e1rio agir para que a tranquilidade reine novamente nesta Casa e, principalmente, nos lares de S\u00e3o Paulo\u201d.<\/p>\n<p>S\u00e9rgio Fleury e seus gorilas agora tinham carta branca para trabalhar. Essa era a mensagem do discurso de Marin. O rel\u00f3gio estava correndo depressa no sentido de abreviar a vida de Herzog.<\/p>\n<p>\u201cNaquele tempo a gente vivia no olho do furac\u00e3o\u201d, lembra o amigo e colega de\u00a0Vlado, Paulo\u00a0Markun. Oito dias depois,Markun\u00a0foi preso. \u201cFui torturado e confessei que era membro do Partido Comunista\u201d, disse.<\/p>\n<p>Na noite de 24 de outubro, 15 dias depois dos discursos raivosos de\u00a0Helu\u00a0e Marin na\u00a0Assembl\u00e9ia, os policiais chegaram na TV Cultura querendo levar\u00a0Vlado. Os colegas de reda\u00e7\u00e3o argumentaram que ele estava fechando o jornal da noite e que, se o levassem naquele momento, o programa n\u00e3o iria ao ar.\u00a0Vlado\u00a0se ofereceu para ir voluntariamente \u00e0 pol\u00edcia no dia seguinte.<\/p>\n<p>Vlado foi incauto? Era ing\u00eanuo? Um colega e amigo dele me disse: \u201cMinha interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 que, morando em endere\u00e7o bem conhecido, sendo um jornalista renomado, com um cargo alto na TV estatal, e sem envolvimento na luta armada, ele n\u00e3o tinha muito o que temer\u201d.<\/p>\n<p>* * * * * * * * *<\/p>\n<p><em>S\u00e3o Paulo, 25 de Outubro de 1975<\/em>: Vladimir Herzog, 38 anos, acordou mais cedo do que de costume na manh\u00e3 de s\u00e1bado. Fez a barba, tomou banho e deu um beijo de despedida em Clarice, que ainda estava na cama.<\/p>\n<p>Ela queria levantar e fazer o caf\u00e9 da manh\u00e3, mas ele lhe disse que n\u00e3o se preocupasse, que no caminho pararia em uma padaria para tomar um caf\u00e9 com leite.<\/p>\n<p>No fundo, no fundo, todos os que n\u00e3o eram aliados do regime tinham medo de \u201cdesaparecer\u201d. Afinal, naquela \u00e9poca isso acontecia mesmo.\u00a0Vlado\u00a0combinou de encontrar um colega que o acompanhou at\u00e9 o n\u00famero 921 da rua\u00a0Tut\u00f3ia, no bairro do Para\u00edso, hoje o 36o distrito policial. Eles chegaram por volta das 8 horas da manh\u00e3.<\/p>\n<p>Por tr\u00e1s dos muros altos guardados por sentinelas funcionava a OBAN.\u00a0Vlado\u00a0cruzou o port\u00e3o de entrada e disse ao recepcionista seu nome completo, profiss\u00e3o, n\u00famero de RG.<\/p>\n<p>E esperou sentado em um dos bancos de madeira no amplo hall que conduzia a um vidro e uma porta de ferro. Minutos depois, foi levado para interrogat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Vlado recebeu a ordem de tirar as roupas e colocar os trajes de prisioneiro. Na sala de interrogat\u00f3rio j\u00e1 estavam dois prisioneiros com os rostos cobertos por capuzes pretos.<\/p>\n<p>Um deles, Rodolfo\u00a0Konder, reconheceu o amigo: \u201cConsegui erguer um pouco o capuz e reconheci seus sapatos, osmocassins\u00a0pretos do\u00a0Vlado\u201d.<\/p>\n<p>Vlado negou ser membro do Partido Comunista.\u00a0Konder\u00a0e o outro prisioneiro foram levados. Pouco tempo depois, eles ouviram os gritos de\u00a0Vlado\u00a0quando os choques el\u00e9tricos come\u00e7aram.<\/p>\n<p>Os gritos duraram boa parte da manh\u00e3. \u201cOs choques eram t\u00e3o violentos, que\u00a0Vlado\u00a0uivava de dor\u201d, diz\u00a0Konder. \u201cEles ligaram um r\u00e1dio para abafar o som\u201d.<\/p>\n<p>\u201cCerca de uma hora depois, eles me levaram para outra sala onde pude tirar o capuz e eu vi o\u00a0Vlado. O homem que fazia o interrogat\u00f3rio, aparentava uns 35 anos, era magro, musculoso, com uma tatuagem de \u00e2ncora no bra\u00e7o, disse-me para falar para ele que era in\u00fatil resistir\u201d, lembra\u00a0Konder.<\/p>\n<p>\u201cVlado\u00a0estava com o capuz enfiado na cabe\u00e7a, tremendo, desfigurado. Tive que ajud\u00e1-lo a escrever uma confiss\u00e3o dizendo que ele tinha sido convencido por mim a entrar no PCB e listar outros membros do partido\u201d.<\/p>\n<p>Sobre isso, Ivo Herzog me disse: \u201cEles interromperam os choques e ditaram uma nota para ele escrever. Ele obedeceu, escreveu, ent\u00e3o refletiu e rasgou a nota. Eles aumentaram a voltagem, os gritos dele voltaram a ser ouvidos e os choques o mataram\u201d.<\/p>\n<p>Ele hesita um pouco e para de falar. \u201cMinha fam\u00edlia n\u00e3o gosta de recordar a tortura. Eles n\u00e3o tinha necessidade de matar meu pai \u2013 foi sem inten\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Fleury estava na sala? \u2013 perguntei.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o sabemos\u201d, diz Ivo. \u201cMas sei que o Marin estava bem preparado para colocar a vida do meu pai em perigo e assim ficar bem com os militares\u201d.<\/p>\n<p>Tarde da noite, Clarice Herzog recebeu as not\u00edcias da morte do marido.<\/p>\n<p>* * * * * * * *<\/p>\n<p><em>25 de outubro de 1975, horas mais tarde<\/em>: Os torturadores vestiram\u00a0Vlado\u00a0apressadamente com as suas roupas, passaram o cinto da cal\u00e7a em volta do pesco\u00e7o, penduraram o corpo na cela e o fotografaram de novo, dessa vez alegando que ele havia se matado. A foto n\u00e3o era nada convincente: os p\u00e9s dele tocavam o ch\u00e3o e seus joelhos estavam dobrados.<\/p>\n<p>Seu corpo foi entregue \u00e0s autoridades religiosas esperando que fosse enterrado \u2013 e as evid\u00eancias do crime tamb\u00e9m. A tradi\u00e7\u00e3o judaica n\u00e3o permite que os suicidas sejam\u00a0interrados\u00a0em seus cemit\u00e9rios. Mas quando o\u00a0<em>Shevra<\/em><em> Kaddish<\/em> \u2013 o comit\u00ea f\u00fanebre judaico \u2013 estava preparando o corpo para o funeral, o rabino Henry\u00a0Sobel\u00a0reparou nas marcas de tortura. Ele ordenou que\u00a0Vlado\u00a0fosse enterrado no centro do cemit\u00e9rio. A vers\u00e3o do suic\u00eddio tinha sido desmentida.<\/p>\n<p>As not\u00edcias da morte de\u00a0Vlado\u00a0se espalharam \u00e0 medida que os jornalistas e opositores gradualmente ocupavam as ruas. A trag\u00e9dia havia levado para a classe m\u00e9dia os fatos que ocorriam em todo o pa\u00eds. Lentamente \u2013 foi preciso outra d\u00e9cada para restabelecer algo que parecesse mais com a democracia \u2013, o golpe militar arrefecia.\u00a0Sobel\u00a0diria depois: \u201cO assassinato de Herzog foi o catalisador da volta da democracia\u201d.<\/p>\n<p>* * * * * * * *<\/p>\n<p><em>S\u00e3o Paulo, 7 de outubro de 1976<\/em>: Um ano e dois dias depois de \u201csalvar\u201d a TV Cultura \u2013 e incitado a pris\u00e3o que terminou com o assassinato de Herzog \u2013 Marin mais uma vez discursava na\u00a0Assembl\u00e9ia\u00a0Legislativa de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>E novamente, o deputado reclamava. N\u00e3o sobre os vermelhos. Dessa vez, estava aborrecido com a falta de reconhecimento p\u00fablico a S\u00e9rgio Fleury, o delegado. Um homem que recentemente tinha emboscado e matado os guerrilheiros corajosos o bastante para enfrentar a ditadura.<\/p>\n<p>Isso foi tirado da grava\u00e7\u00e3o oficial do discurso de Marin: \u201cAqueles que o conhecem de perto, sabem que ele \u00e9 um chefe de fam\u00edlia exemplar, mas, mais do que tudo, ele cumpre seus deveres como policial da maneira mais louv\u00e1vel poss\u00edvel\u201d.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o conseguimos entender como um policial desse calibre, um homem que dedicou sua vida inteiramente ao combate do crime, um homem que muitas vezes p\u00f4s em risco n\u00e3o apenas a sua vida mas a de seus familiares n\u00e3o est\u00e1 recebendo o reconhecimento que merece\u201d.<\/p>\n<p>\u201cConhecendo seu car\u00e1ter como eu conhe\u00e7o, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que S\u00e9rgio Fleury ama sua profiss\u00e3o; de que Sergio Fleury se dedica ao m\u00e1ximo, sem medir esfor\u00e7os nem sacrif\u00edcios para honrar n\u00e3o apenas a pol\u00edcia de S\u00e3o Paulo, mas acima de tudo seu t\u00edtulo de delegado de pol\u00edcia. Ele deveria ser uma fonte de orgulho para a popula\u00e7\u00e3o de nossa cidade\u201d.<\/p>\n<p>\u201cPor isso, senhor relator, na certeza de refletir o pensamento dos moradores de S\u00e3o Paulo, queremos expressar o orgulho que sentimos por ter em nossa pol\u00edcia o delegado S\u00e9rgio Fleury\u201d.<\/p>\n<p>* * * * * * *<\/p>\n<p><em>St<\/em><em> Helier, Jersey,17 de novembro de 2012<\/em>: Antigo amigo dos militares, ainda amigo de Jos\u00e9 Maria Marin e ainda procurado pela Interpol por lavagem de dinheiro, Paulo Maluf d\u00e1 risada diante da decis\u00e3o judicial de que ele \u00e9 um ladr\u00e3o que desviou 10,5 milh\u00f5es de d\u00f3lares da obra de uma estrada em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Por que ele deveria se importar? Tem 81 anos agora, o governo nunca conseguir\u00e1 o dinheiro de volta enquanto ele estiver vivo nem conseguir\u00e1 obter provas suficientes para recuperar os estimados 1,7 bilh\u00f5es de d\u00f3lares desviados por ele no decorrer de anos.<\/p>\n<p>Maluf se aproximou dos cofres p\u00fablicos pela primeira vez quando os generais o nomearam prefeito de S\u00e3o Paulo em 1969. Tr\u00eas anos depois ascendeu ao governo do estado de S\u00e3o Paulo, fez de Jos\u00e9 Maria Marin seu deputado, e lhe passou as chaves do tesouro estadual em 1982.<\/p>\n<p>O acontecimento mais memor\u00e1vel durante os dez meses de governo de Marin em S\u00e3o Paulo foi ser vaiado na\u00a0Assembl\u00e9iaLegislativa depois que veio \u00e0 tona empr\u00e9stimos suspeitos feitos por um banco federal. Os amigos o indicaram para dirigir a se\u00e7\u00e3o S\u00e3o Paulo da CBF.<\/p>\n<p>O desempenho de Marin foi suficiente para impressionar Ricardo Teixeira que o nomeou vice-presidente da CBF em 2008. Quando as revela\u00e7\u00f5es que fiz a respeito das propinas de Teixeira o for\u00e7aram a sair da FIFA e da CBF, Marin era o substituto conveniente. Ele havia provado que compartilhava dos pontos de vista de Teixeira sobre o futebol; se pode ser roubado, roube. Marin foi flagrado na TV afanando uma medalha do campeonato juvenil.<\/p>\n<p>Tr\u00eas meses depois, o brilhante jornalista esportivo Juca\u00a0Kfouri\u00a0desenterrou o discurso de Marin na\u00a0Assembl\u00e9ia\u00a0em outubro de 1975, denegrindo\u00a0Vlado\u00a0Herzog. Juca culpou Marin pela pris\u00e3o e morte do\u00a0journalista. Juca tamb\u00e9m apresentou aos leitores o discurso\u00a0inacredit\u00e1ve\u00a0de Marin elogiando o torturador S\u00e9rgio Fleury.<\/p>\n<p>Um jornalista de S\u00e3o Paulo, que acompanha a carreira de Marin, diz, \u201cMarin n\u00e3o \u00e9 nem um rato, \u00e9 um\u00a0camondongo\u201d.<\/p>\n<p>* * * * * * * * * *<\/p>\n<p><em>S\u00e3o Paulo, domingo, 11 de Novembro de 2012<\/em>: Um grupo de manifestantes est\u00e1 na frente da casa de Jos\u00e9 Maria Marin, nos Jardins. Carregando faixas, tambores, tamborins, microfones e um carro de som, os que protestam cantam m\u00fasicas compostas especialmente compostas para a ocasi\u00e3o. Uma delas pergunta: \u201cOlha a ficha suja do Marin, ser\u00e1 que ele \u00e9? Ser\u00e1 que ele \u00e9? Ser\u00e1 que ele \u00e9 dedo-duro?\u201d<\/p>\n<p>Entre eles est\u00e1 Adriano Diogo, do PT, 63 anos que tamb\u00e9m foi preso e torturado pela OBAN em 1971 e ficou na cadeia alguns anos.<\/p>\n<p>* * * * * * * * *<\/p>\n<p><em>S\u00e3o Paulo, Quinta-feira, 27 de Novembro de 2012<\/em>: Adriano Diogo est\u00e1 discursando novamente mas agora como parte de seu trabalho cotidiano. Ele \u00e9 deputado da\u00a0Assembl\u00e9ia\u00a0Legislativa de S\u00e3o Paulo como era Jos\u00e9 Maria Marin 37 anos antes quando ele atacou a\u00a0<em>TV Cultura<\/em>.<\/p>\n<p>\u201cSenhores e senhoras, primeiro eu quero congratular-me com essa nova gera\u00e7\u00e3o que faz escrachos (nomeando e envergonhando) na porta dos torturadores pela ideia brilhante de ir \u00e0 casa de Jos\u00e9 Maria Marin\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO senhor Jos\u00e9 Maria Marin, o delator da ditadura, \u00e9 respons\u00e1vel pela pris\u00e3o e assassinato de Vladimir Herzog.\u201d\u00a0saidDiogo. \u201cEle tem as m\u00e3os sujas de sangue, n\u00e3o pode ser o\u00a0president\u00a0da CBF.\u201d<\/p>\n<p>* * * * * * * * * *<\/p>\n<p><em>Quarta-feira, 23 de janeiro de 2013<\/em>: Mensagem oficial. \u201cA Comiss\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos (OEA) vai investigar a responsabilidade do Estado pela morte do jornalista Vladimir Herzog em 1975, durante a ditadura militar (1964-1985).<\/p>\n<p>\u201cDe acordo com a peti\u00e7\u00e3o, o Brasil n\u00e3o cumpriu ainda sua obriga\u00e7\u00e3o de investigar, perseguir e punir os respons\u00e1veis pela morte de Vladimir Herzog.<\/p>\n<p>\u201cO caso Herzog ilustra o fracasso do judici\u00e1rio durante a ditadura militar brasileira e na democracia\u201d, diz\u00a0Viviana\u00a0Krsticevic, diretora executiva do Center for Justice\u00a0and\u00a0International\u00a0Law, sediado em Washington, que veio ao Brasil anunciar a aceita\u00e7\u00e3o da peti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cQueremos saber quem \u00e9 respons\u00e1vel pelo que aconteceu com o meu pai\u201d, diz Ivo Herzog.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m vai chamar Jos\u00e9 Maria Marin para testemunhar? Ele ignorou o convite para comparecer ao encontro do Comit\u00ea de Esporte e Turismo em Bras\u00edlia, deixando o gol livre para\u00a0Romario.<\/p>\n<p><em>Port<\/em><em> Louis, Maur\u00edcio, 30 de maio de 2013<\/em>: Ser\u00e1 o in\u00edcio do 63o Congresso da\u00a0FIFA\u2019s; espera-se dos delegados que endossem as \u201creformas\u201d do presidente Sepp Blatter. Ser\u00e1 que Jos\u00e9 Maria Marin do Brasil ser\u00e1 o \u00fanico acusado de cumplicidade em um crime de assassinato?<\/p>\n<p><strong>O blog Copa P\u00fablica \u00e9 uma experi\u00eancia de jornalismo cidad\u00e3o que mostra como a popula\u00e7\u00e3o brasileira tem sido afetada pelos preparativos para a Copa de 2014 \u2013 e como est\u00e1 se organizando para n\u00e3o ficar de fora.<\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"http:\/\/www.apublica.org\/2013\/02\/qual-papel-chefao-futebol-brasileiro-assassinato-de-herzog\/\" target=\"_blank\">http:\/\/www.apublica.org\/2013\/02\/qual-papel-chefao-futebol-brasileiro-assassinato-de-herzog\/<\/a><\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>A rela\u00e7\u00e3o do futebol com o Governo Militar Brasileiro<\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=5ec0iBbiA6M\" target=\"_blank\">http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=5ec0iBbiA6M<\/a><\/strong><\/p>\n<p> <object width=\"100%\" height=\"385\"><param name=\"movie\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/5ec0iBbiA6M\" \/><param name=\"allowFullScreen\" value=\"true\" \/><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\" \/><\/object> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\n  \n\n\n\n\n\n\n\n\nAndrew\u00a0Jennings\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4341\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["post-4341","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-181","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4341","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4341"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4341\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4341"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4341"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4341"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}