{"id":4342,"date":"2013-02-18T18:39:09","date_gmt":"2013-02-18T18:39:09","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4342"},"modified":"2013-02-18T18:39:09","modified_gmt":"2013-02-18T18:39:09","slug":"os-estranhos-visitantes-do-dops","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4342","title":{"rendered":"Os estranhos visitantes do Dops"},"content":{"rendered":"\n<p>O que um representante da Federa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias do Estado de S\u00e3o Paulo (Fiesp) faria em um centro de torturas da ditadura civil-militar (1964-1985) duran\u00adte madrugadas? O que levaria um c\u00f4nsul dos Estados Unidos a esse mesmo lugar repetidas vezes, por longas horas?<\/p>\n<p>\u00c9 sobre essas quest\u00f5es se que se de\u00adbru\u00e7am atualmente os membros da Co\u00admiss\u00e3o da Verdade do Estado de S\u00e3o Paulo \u201cRubens Paiva\u201d. Por meio de in\u00advestiga\u00e7\u00f5es, a Comiss\u00e3o apurou que pessoas ligadas \u00e0 Fiesp e ao Consula\u00addo eram presen\u00e7a constante durante os dias e as noites do Departamento Esta\u00addual de Ordem Pol\u00edtica e Social de S\u00e3o Paulo (Dops), um dos \u00f3rg\u00e3os represso\u00adres criados pelo regime.<\/p>\n<p>Para tentar esclarecer esses fatos, a Comiss\u00e3o Estadual da Verdade realiza\u00adr\u00e1 uma audi\u00eancia p\u00fablica na pr\u00f3xima segunda-feira (18), \u00e0s 14h, na Assembleia Legislativa (Alesp), onde apresentar\u00e1 os documen\u00adtos que embasaram as investiga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Visitas frequentes <\/strong><\/p>\n<p>A chave para a descoberta foi uma pesquisa no \u201cCoincid\u00eancia\u201d? C\u00f4nsul estadunidense entra no Dops cinco minutos depois do capit\u00e3o \u00canio Pimentel Silveira, um dos torturadores mais famosos do per\u00edodo &#8211; Foto: Documentos do Arquivo P\u00fablico do Esta\u00addo de S\u00e3o Paulo. Ao checar os livros de registro de entrada e sa\u00edda do pr\u00e9\u00addio do Dops, localizado no centro da ca\u00adpital paulista, integrantes da Comiss\u00e3o Estadual da Verdade perceberam a fre\u00adqu\u00eancia de dois nomes, que n\u00e3o faziam parte das equipes policiais: \u201cDr. Geral\u00addo Rezende de Matos\u201d, que se apresen\u00adtava no formul\u00e1rio como \u201cFiesp\u201d, e \u201cDr. Halliwell\u201d, que assinava como \u201cConsula\u00addo Americano\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da assiduidade, despertaram aten\u00e7\u00e3o os hor\u00e1rios em que os represen\u00adtantes da Fiesp e do consulado estaduni\u00addense se dirigiam ao pr\u00e9dio do Dops e as longas horas em que permaneciam ali.<\/p>\n<p>Somente nos meses de abril a setem\u00adbro de 1971 (os livros com os outros me\u00adses deste ano desapareceram), Geral\u00addo Rezende de Matos, da Fiesp, dirigiu\u00adse ao local 40 vezes. Em uma dessas vi\u00adsitas, sua entrada ocorreu \u00e0s 17h30min, mas n\u00e3o consta hor\u00e1rio de sa\u00edda. Como os funcion\u00e1rios da portaria trabalhavam apenas at\u00e9 22h, os movimentos feitos de\u00adpois deste hor\u00e1rio n\u00e3o eram anotados. Signica, ent\u00e3o, que Matos teria cado al\u00e9m das 22h.<\/p>\n<p>J\u00e1 em outro registro, de 24 de abril de 1972, o representante da Fiesp entra no pr\u00e9dio \u00e0s 18h20 e sai \u00e0s 12h35 do dia se\u00adguinte, 25 de abril. Foram cerca de 18 ho\u00adras no local.<\/p>\n<p>\u201cO que o cara da Fiesp ia fazer l\u00e1? Essa \u00e9 a pergunta que fazemos\u201d, explica o co\u00adordenador da Comiss\u00e3o Estadual da Ver\u00addade, Ivan Seixas.<\/p>\n<p>Seixas, que tamb\u00e9m \u00e9 ex-preso pol\u00edti\u00adco e membro da Comiss\u00e3o de Familiares dos Mortos e Desaparecidos Pol\u00edti\u00adcos, conta que a Comiss\u00e3o j\u00e1 pediu escla\u00adrecimentos \u00e0 Fiesp sobre o assunto. A fe\u00addera\u00e7\u00e3o, por sua vez, alega n\u00e3o ter regis\u00adtros de Geraldo Rezende de Matos.<\/p>\n<p>De acordo com investiga\u00e7\u00f5es da Co\u00admiss\u00e3o, Matos era um empres\u00e1rio ligado aos ramos de metalurgia, al\u00e9m de pos\u00adsuir uma empresa de seguros e repara\u00ad\u00e7\u00e3o que atendia militares.<\/p>\n<p>\u201cA Fiesp tem que explicar isso, n\u00e3o es\u00adtamos inventando nada\u201d, destaca o pre\u00adsidente da Comiss\u00e3o Estadual da Verda\u00adde, o deputado Adriano Diogo (PT-SP). \u201cQueremos saber por que uma pessoa que ia ao Dops, [onde] permanecia horas e madrugadas, assinava como represen\u00adtante da Fiesp\u201d, completa.<\/p>\n<p>A Fiesp foi convidada para prestar es\u00adclarecimentos sobre o caso na audi\u00ean\u00adcia p\u00fablica do dia 18. A reportagem en\u00adtrou em contato com a assessoria de im\u00adprensa da federa\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o soube in\u00adformar se a institui\u00e7\u00e3o estar\u00e1 representa\u00adda.<\/p>\n<p><strong>Empresariado <\/strong><\/p>\n<p>Os v\u00ednculos do empresariado com os agentes da ditadura s\u00e3o assunto antigo de pesquisas e estudos. O tema \u00e9 a ba\u00adse do document\u00e1rio Cidad\u00e3o Boilesen (2009), dirigido por Chaim Litewski. O lme, que resgata a vida do empres\u00e1rio dinamarqu\u00eas Henning Boilesen, desve\u00adla n\u00e3o apenas as contribui\u00e7\u00f5es nancei\u00adras do protagonista (ent\u00e3o presidente do grupo Ultra) ao aparato militar, mas de diversas guras ligadas a organiza\u00e7\u00f5es multinacionais e institui\u00e7\u00f5es, incluindo a Fiesp.<\/p>\n<p>Em novembro, o coordenador da Co\u00admiss\u00e3o da Verdade, Cl\u00e1udio Fonteles, di\u00advulgou um texto em que relaciona a Fiesp \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de armas para os militares que derrubaram Jo\u00e3o Goulart da presi\u00add\u00eancia em 1964. No documento, Fonte\u00adles cita um relat\u00f3rio con dencial produ\u00adzido pelo Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00ad\u00e7\u00f5es (SNI), hoje sob guarda do Arquivo Nacional, que descreve a cria\u00e7\u00e3o do Gru\u00adpo Permanente de Mobiliza\u00e7\u00e3o Indus\u00adtrial (GPMI) em 31 de mar\u00e7o de 1964, da\u00adta do golpe. De acordo com o documento, o \u00f3rg\u00e3o teve a fun\u00e7\u00e3o de fornecer \u201carmas e equipamentos militares aos revolucio\u00adn\u00e1rios paulistas\u201d.<\/p>\n<p>O caso de Geraldo Rezende de Matos, no entanto, desperta na Comiss\u00e3o outra suspeita. Para Seixas, \u00e9 prov\u00e1vel que as idas de Matos ao Dops visassem a troca de informa\u00e7\u00f5es entre empres\u00e1rios, a po\u00adl\u00edcia e o Ex\u00e9rcito. \u201cVem \u00e0 cabe\u00e7a de todo mundo, quando se fala em empres\u00e1rios e repress\u00e3o, o financiamento. Mas n\u00f3s n\u00e3o estamos trabalhando com essa hip\u00f3tese. Para n\u00f3s, a Fiesp ia l\u00e1 entregar nomes de oper\u00e1rios para serem reprimidos\u201d, escla\u00adrece Seixas.<\/p>\n<p><strong>Consulado<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 o \u201cDr. Halliwell\u201d dos livros de regis\u00adtros era Claris Rowley Halliwell (1918\/\u00ad2006), c\u00f4nsul estadunidense no Bra\u00adsil entre 1971 e 1974. Junto \u00e0 Universi\u00addade de San Diego, na Calif\u00f3rnia, a Co\u00admiss\u00e3o apurou que Halliwell teria inte\u00adgrado o servi\u00e7o secreto dos Estados Uni\u00addos, a CIA.<\/p>\n<p>Assim como Geraldo Rezende de Ma\u00adtos, ele tamb\u00e9m comparecia com fre\u00adqu\u00eancia ao Dops, sobretudo \u00e0 noite, onde permanecia durante toda a madruga\u00adda. De abril a setembro de 1971, Halliwell esteve no local 31 vezes, de acordo com os registros.<\/p>\n<p>Em uma das idas, em 5 de abril de 1971, seu ingresso no pr\u00e9dio ocorreu \u00e0s 12h40min da tarde, cinco minutos de\u00adpois da entrada do capit\u00e3o \u00canio Pimen\u00adtel Silveira, torturador que ficou conhe\u00adcido como \u201cDr. Ney\u201d. Ambos permanece\u00adram no pr\u00e9dio al\u00e9m das 22h.<\/p>\n<p>As \u201ccoincid\u00eancias\u201d n\u00e3o param por a\u00ed. Nesse mesmo dia, pela manh\u00e3, havia sido preso e levado para o Dops Devanir Jos\u00e9 de Carvalho, dirigente do Movimen\u00adto Revolucion\u00e1rio Tiradentes (MRT). Depois de uma s\u00e9rie de torturas, Carva\u00adlho faleceu em 7 de abril.<\/p>\n<p>Para Ivan Seixas, n\u00e3o h\u00e1 como negar o envolvimento do c\u00f4nsul com os crimes. \u201cNos pr\u00e9dios do Dops e da Oban [Ope\u00adra\u00e7\u00e3o Bandeirante], quando se torturava n\u00e3o era segredo. O pr\u00e9dio inteiro ouvia, a vizinhan\u00e7a tamb\u00e9m. O m\u00ednimo que se pode dizer era que o \u2018cara\u2019 [c\u00f4nsul] era conivente, mas eu acho que [ele] era par\u00adticipante\u201d, diz Seixas.\u00a0Depois de sair do Brasil, Halliwell foi c\u00f4nsul estadunidense no Chile \u2013 onde, um ano antes, um golpe de Estado havia tirado do poder Salvador Allende.<\/p>\n<p>\u201cA gente acha que essas coisas s\u00e3o de filme de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edca, que \u2018na minha terra n\u00e3o tem isso\u2019. O \u2018cara\u2019 n\u00e3o estava le\u00advando os passaportes para a Disneyl\u00e2n\u00addia, era um agente da CIA\u201d, ressalta o de\u00adputado Adriano Diogo, que integrou a milit\u00e2ncia estudantil durante o regime.<\/p>\n<p>Para o deputado, a revela\u00e7\u00e3o desses registros ajudar\u00e1 a contar a hist\u00f3ria desse per\u00edodo e a revelar quem praticou e engendrou os crimes.\u201cOs documentos evidenciam a exist\u00eancia de uma enor\u00adme organiza\u00e7\u00e3o criminosa que se reunia nas depend\u00eancias do Dops para tortu\u00adrar as pessoas, matar e planejar seques\u00adtros\u201d, pontua.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.brasildefato.com.br\/node\/11968\" target=\"_blank\">http:\/\/www.brasildefato.com.br\/node\/11968<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nBDF\n\n\n\n\n\n\n\n\nPatr\u00edcia Benvenuti\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4342\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["post-4342","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-182","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4342","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4342"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4342\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4342"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4342"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4342"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}