{"id":4359,"date":"2013-02-21T16:21:36","date_gmt":"2013-02-21T16:21:36","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4359"},"modified":"2013-02-21T16:21:36","modified_gmt":"2013-02-21T16:21:36","slug":"iraque-vitima-do-colonialismo-feroz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4359","title":{"rendered":"Iraque: v\u00edtima do colonialismo feroz"},"content":{"rendered":"\n<p>Um pa\u00eds de civiliza\u00e7\u00e3o antiga e rica \u00e9\u00a0sucessivamente destru\u00eddo, ao longo de s\u00e9culos, por pa\u00edses imperialistas do Ocidente. Um relato sentido e belo da hist\u00f3ria do Iraque \u00e9\u00a0feito pelo escritor e jornalista Ramzy Baroud.<\/p>\n<p>Autor de v\u00e1rios livros sobre o Oriente M\u00e9dio e de artigos publicados no\u00a0Washington Post e em dezenas de outros \u00f3rg\u00e3os de m\u00eddia de diversos pa\u00edses, o palestino-estadunidense Baroud publicou no s\u00edtio Counter Punch o documento-reportagem sobre o Iraque que est\u00e1 no original <a href=\"http:\/\/www.counterpunch.org\/2013\/02\/15\/iraq-on-the-brink\/\" target=\"_blank\">aqui <\/a>e na tradu\u00e7\u00e3o divulgada por Vila Vudu a seguir.<\/p>\n<p>Uma d\u00e9cada depois da invas\u00e3o<\/p>\n<p>Iraque \u00e0 beira do abismo<\/p>\n<p>Ramzy Baroud, Countercurrents, ed. de fim de semana, 15-17\/2\/2013<\/p>\n<p>Pouco depois da campanha de bombardeio conjunto conhecida como \u201cOpera\u00e7\u00e3o Raposa do Deserto\u201d, quando EUA e Gr\u00e3-Bretanha devastaram partes do Iraque em dezembro de 1998, lembro-me de reclamar com um amigo, no sagu\u00e3o do Palestine Hotel em Bagd\u00e1.<\/p>\n<p>Incomodava-me muito que, por causa de nossa agenda sobrecarregada no Iraque \u2013 principalmente com visitas a hospitais superlotados de v\u00edtimas de ur\u00e2nio baixo-enriquecido no Iraque \u2013 n\u00e3o me sobrava tempo para comprar livros \u00e1rabes para minha filha pequena que me esperava nos EUA. Quando j\u00e1 me preparava para embarcar na longa viagem de \u00f4nibus de volta \u00e0 Jord\u00e2nia, um iraquiano de grandes bigodes e barba cuidadosamente aparada aproximou-se. \u201cLeve para sua menina\u201d \u2013 disse ele sorrindo, entregando-me uma sacola de pl\u00e1stico. Na sacola havia uma d\u00fazia de livros com imagens coloridas de hist\u00f3rias infantis iraquianas tradicionais. N\u00e3o conhecia o homem e nunca voltei a v\u00ea-lo. Estava hospedado no hotel e, sabe-se l\u00e1 como, soubera das minhas dificuldades. Agradeci-lhe o mais que pude, na correria para tomar meu \u00f4nibus, com o homem insistindo que n\u00e3o havia o que agradecer. \u201cSomos irm\u00e3os. Sua filha \u00e9 como minha filha\u201d \u2013 disse ele.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode dizer que o gesto tenha sido completa surpresa. A generosidade de esp\u00edrito e de a\u00e7\u00e3o \u00e9 tra\u00e7o t\u00edpico dos iraquianos, que todos os \u00e1rabes conhecemos bem. Dentre outras qualidades, os iraquianos s\u00e3o orgulhosos e perseverantes; orgulhosos, porque a Mesopot\u00e2nia \u2013 que corresponde hoje a quase todo o Iraque moderno \u2013 \u00e9 \u2018o ber\u00e7o da civiliza\u00e7\u00e3o\u2019; perseverantes, porque sobreviveram a experi\u00eancias terr\u00edveis em sua hist\u00f3ria moderna.<\/p>\n<p>Os brit\u00e2nicos dispararam a trag\u00e9dia moderna do Iraque, come\u00e7ando pela tomada de Bagd\u00e1\u00a0em 1917 e a modelagem perversa do pa\u00eds para que se encaixasse perfeitamente nas necessidades coloniais e nos interesses econ\u00f4micos de Londres. Pode-se dizer que a confus\u00e3o e os desmandos inigual\u00e1veis criados pelos invasores brit\u00e2nicos continuaram ativados, sempre se manifestando sob diferentes modalidades \u2013 fazendo aumentar o sectarismo,\u00a0 a viol\u00eancia pol\u00edtica e disputas de fronteiras entre o Iraque e seus vizinhos \u2013 at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Evidentemente, cabem hoje aos EUA os cr\u00e9ditos por ter destru\u00eddo toda e qualquer conquista que os iraquianos tenham obtido na luta para construir uma sempre elusiva soberania. O secret\u00e1rio de Estado dos EUA James Baker, ao que se sabe, amea\u00e7ou o ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores do Iraque Tariq Aziz, em reuni\u00e3o em Genebra em 1991, dizendo que os EUA destruiriam o pa\u00eds e \u201cdevolveriam o Iraque \u00e0 idade da pedra\u201d. A guerra dos EUA, que se estendeu de 1990 a 2011, incluiu bloqueio devastador e terminou na invas\u00e3o brutal que o mundo viu. Essas guerras tiveram de inescrupulosas o que tiveram de violentas. Al\u00e9m do inconceb\u00edvel pre\u00e7o que cobraram em vidas humanas, foram feitas conforme uma horrenda estrat\u00e9gia pol\u00edtica que visou sempre a explorar e a aprofundar o sectarismo j\u00e1 existente no pa\u00eds e outros pontos fr\u00e1geis, para provocar guerras civis e \u00f3dio sect\u00e1rio crescente dos quais o Iraque dificilmente se recuperar\u00e1 ainda por muitos anos.<\/p>\n<p>Para os norte-americanos, foi mera estrat\u00e9gia orientada para aliviar a press\u00e3o sobre os pr\u00f3prios soldados e ex\u00e9rcitos aliados, que sempre encontraram feroz resist\u00eancia desde o primeiro momento em que puseram o p\u00e9\u00a0no Iraque. Mas para os iraquianos, foi sempre um terr\u00edvel pesadelo que n\u00e3o se consegue expressar nem em palavras nem em n\u00fameros. Mas, sim, tamb\u00e9m faltam n\u00fameros. Conforme estimativas da ONU citadas pela BBC, entre maio e julho de 2006 \u201cforam mortos por efeito da viol\u00eancia no Iraque, por dia, mais de 100 civis.\u201d Estimativas n\u00e3o divulgadas da ONU calculam em 34 mil o n\u00famero de civis mortos no Iraque em 2006. Foi o ano durante o qual a estrat\u00e9gia norte-americana de dividir para conquistar provou-se mais eficiente.<\/p>\n<p>Ao longo dos anos, muita gente fora do Iraque \u2013 como aconteceu em rela\u00e7\u00e3o a outros conflitos de alta viol\u00eancia prolongada, com cad\u00e1veres contados aos milhares \u2013 foi-se insensibilizando. Quanto maior o n\u00famero de cad\u00e1veres, menos importantes as vidas que se percam.<\/p>\n<p>EUA e Gr\u00e3-Bretanha destru\u00edram o Iraque moderno, sem qualquer remorso ou arrependimento \u2013 nem jamais cogitaram de arrependimentos nem de pedir desculpas, nem arrependimentos ou desculpas alterariam coisa alguma. Os ex-colonizadores do Iraque, assim como os novos, jamais tiveram qualquer amparo legal ou moral que os autorizassem a invadir o Iraque j\u00e1 devastado pelas san\u00e7\u00f5es. Jamais manifestaram tampouco qualquer piedade, enquanto destru\u00edam uma gera\u00e7\u00e3o inteira de iraquianos e preparavam o cen\u00e1rio para conflito futuro, que j\u00e1 se apresenta, hoje, t\u00e3o sangrento quanto o anterior.<\/p>\n<p>Quando, segundo relatos oficiais, a \u00faltima brigada de combate dos EUA deixou o Iraque em dezembro de \u00a02011, previa-se que fosse o fim de uma era. Mas historiadores sabem que os conflitos n\u00e3o terminam por decreto presidencial ou deslocamento de soldados. O Iraque, simplesmente, entrou em nova fase do mesmo conflito; e EUA, Gr\u00e3-Bretanha e outros continuam a ser partes ativas desse conflito.<\/p>\n<p>Uma das realidades p\u00f3s-invas\u00e3o e p\u00f3s-guerra \u00e9\u00a0que o Iraque foi dividido em \u00e1reas de influ\u00eancia segundo linhas exclusivamente sect\u00e1rias e \u00e9tnicas. Na classifica\u00e7\u00e3o de vitoriosos e derrotados inventada pela imprensa-empresa ocidental, os sunitas, culpados de serem os preferidos do ex-presidente Saddam Hussein, aparecem como maiores perdedores. Enquanto as novas elites pol\u00edticas iraquianas foram divididas entre pol\u00edticos xiitas e pol\u00edticos curdos (cada partido com seu ex\u00e9rcito privado pr\u00f3prio, alguns reunidos em Bagd\u00e1, outros na regi\u00e3o aut\u00f4noma do Curdist\u00e3o), a popula\u00e7\u00e3o xiita organizava-se em v\u00e1rios grupos militantes sempre responsabilizados pelos infort\u00fanios dos sunitas. Dia 8 de fevereiro, cinco carros bombas explodiram em regi\u00e3o rapidamente identificada como \u201c\u00e1reas xiitas\u201d, matando 34 pessoas. Poucos dias antes, dia 4 de fevereiro, outra explos\u00e3o semelhante deixara 22 mortos.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia sect\u00e1ria no Iraque, que j\u00e1\u00a0provocou dezenas de milhares de mortos, est\u00e1\u00a0de volta. Sunitas iraquianos, incluindo grandes tribos e partidos pol\u00edticos, exigem igualdade e o fim da segrega\u00e7\u00e3o que sofrem hoje no relativamente novo sistema pol\u00edtico iraquiano comandado pelo primeiro-ministro Nouri al-Maliki. Protestos massivos e greves t\u00eam sido organizados e v\u00eam com mensagem pol\u00edtica clara de unifica\u00e7\u00e3o. Mas, no outro campo, v\u00e1rios partidos exploram tamb\u00e9m a polariza\u00e7\u00e3o: para acertar velhas rixas, para empurrar o pa\u00eds para uma guerra civil, para aumentar os desmandos e o descalabro j\u00e1 reinantes em outros pa\u00edses \u00e1rabes, sobretudo na S\u00edria; e, em alguns casos, para \u2018ajustar\u2019 os limites sect\u00e1rios de modo a criar boas oportunidades de neg\u00f3cios.<\/p>\n<p>Sim. Os neg\u00f3cios e as divis\u00f5es sect\u00e1rias no Iraque de hoje andam de m\u00e3os dadas. Mat\u00e9ria da Reuters noticiava que a empresa Exxon Mobil contratou Jeffrey James, ex-embaixador dos EUA no Iraque (2010-12) como \u2018consultor\u2019. \u00c9 exemplo de como a diplomacia de p\u00f3s-guerra e os neg\u00f3cios s\u00e3o aliados naturais. Mas h\u00e1 mais nessa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Tirando vantagem da autonomia do Curdist\u00e3o, a gigante multinacional de petr\u00f3leo e g\u00e1s j\u00e1\u00a0armou lucrativos neg\u00f3cios independentes do governo central em Bagd\u00e1 \u2013 que desde o ano passado re\u00fane seus ex\u00e9rcitos em \u00e1rea pr\u00f3xima dessa regi\u00e3o rica em petr\u00f3leo. O governo curdo fez o mesmo. Incapaz de definir que partido tem mais poder, definir\u00e1 o rumo do novo conflito e, portanto, quem controlar\u00e1 o petr\u00f3leo, a Exxon est\u00e1 dividida entre honrar seus contratos com os curdos ou partir em busca de neg\u00f3cios talvez mais lucrativos no sul. James talvez tenha alguma boa ideia, sobretudo se mobilizar o prest\u00edgio pol\u00edtico que acumulou no tempo em que foi embaixador dos EUA.<\/p>\n<p>O futuro do Iraque est\u00e1\u00a0sendo hoje determinado por v\u00e1rias for\u00e7as; praticamente em nenhuma delas os iraquianos com alguma vis\u00e3o de unidade t\u00eam alguma voz. Colhido entre ricas elites movidas a sectarismo, extremismo, sede de poder, atores regionais, interesses ocidentais e o violento legado da guerra, o povo iraquiano padece tanto, que praticamente j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 an\u00e1lises pol\u00edticas ou estat\u00edsticas que capturem toda a ang\u00fastia. Uma na\u00e7\u00e3o orgulhosa, de impressionante potencial humano e not\u00e1veis possibilidades econ\u00f4micas foi rasgada em farrapos.<\/p>\n<p>Hussein Al-alak, escritor iraniano que vive na Gr\u00e3-Bretanha, escreveu, a prop\u00f3sito do pr\u00f3ximo d\u00e9cimo anivers\u00e1rio da invas\u00e3o do Iraque, sobre as \u2018v\u00edtimas mudas\u2019 do pa\u00eds: as crian\u00e7as. Segundo o Ministro do Trabalho e Assuntos Sociais do Iraque, h\u00e1 hoje cerca de 4,5 milh\u00f5es de crian\u00e7as \u00f3rf\u00e3s no pa\u00eds, \u201cchocantes 70% das quais perderam os pais depois da invas\u00e3o de 2003\u201d.<\/p>\n<p>Desse total, cerca de 600 mil crian\u00e7as vivem nas ruas, sem teto ou alimento\u201d \u2013 escreveu Al-alak. \u2013 \u201cE as poucas que vivem em orfanatos mantidos pelo estado n\u00e3o recebem nem o m\u00ednimo indispens\u00e1vel para atender suas necessidades b\u00e1sicas.\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o me sai da cabe\u00e7a aquele iraniano gentil e generoso que trouxe uma sacola de hist\u00f3rias infantis iraquianas para a minha filha. Penso tamb\u00e9m nos filhos dele. Um dos livros que o homem trouxe era \u201cSimbad, o marujo\u201d, apresentado na hist\u00f3ria como um menino bonito e valente, que amava aventuras como amava sua terra. Por pior e mais tr\u00e1gico que fosse o desfecho das suas aventuras, Sinbad sempre voltava ao Iraque para renovar as energias. E recome\u00e7ava. Como se nada tivesse acontecido.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/revistamirante.wordpress.com\/author\/revistamirante\/\" target=\"_blank\">Mirante<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nDL\n\n\n\n\n\n\n\n\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4359\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-4359","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-18j","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4359","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4359"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4359\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4359"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4359"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4359"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}