{"id":4360,"date":"2013-02-21T16:25:01","date_gmt":"2013-02-21T16:25:01","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4360"},"modified":"2013-02-21T16:25:01","modified_gmt":"2013-02-21T16:25:01","slug":"o-inverno-arabe-e-os-ilusionistas-revolucionarios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4360","title":{"rendered":"O Inverno \u00c1rabe e os Ilusionistas Revolucion\u00e1rios"},"content":{"rendered":"\n<p>Uma quest\u00e3o nos \u00e9\u00a0colocada em face das revoltas \u00e1rabes: como avaliar tudo isso? A resposta exige uma vis\u00e3o s\u00f3bria dos eventos.<\/p>\n<p>Vamos come\u00e7ar com a S\u00edria. H\u00e1\u00a0quase dois anos um movimento de oposi\u00e7\u00e3o foi formado, sendo ent\u00e3o atropelado pela hist\u00f3ria em um tempo muito curto. Diferentes interesses internos e externos converteram insatisfa\u00e7\u00e3o social em uma feroz guerra civil.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1\u00a0nenhum sinal de revolu\u00e7\u00e3o (n\u00e3o mais). Toda a regi\u00e3o est\u00e1 no meio de um processo de transforma\u00e7\u00e3o territorial e econ\u00f4mica. E com a ajuda de uma regress\u00e3o \u00a0mon\u00e1rquica, os estados ocidentais est\u00e3o interferindo na situa\u00e7\u00e3o em busca de vantagens. Isso \u00e9 v\u00e1lido tamb\u00e9m para T\u00fanis, Cairo e Tr\u00edpoli, onde autocratas mais ou menos orientados secularmente foram removidos para dar a \u00abcartada isl\u00e2mica\u00bb como uma \u00abreserva pol\u00edtica\u00bb. Esta \u00abcartada isl\u00e2mica\u00bb apareceu pela primeira vez na paisagem geopol\u00edtica como um parceiro dos Estados Unidos no in\u00edcio dos anos 1980, durante a guerra contra as tropas sovi\u00e9ticas no Afeganist\u00e3o. Hoje, as diferentes alas pol\u00edticas da Irmandade Mu\u00e7ulmana representam a express\u00e3o de massas mais eficaz desta \u00abcartada isl\u00e2mica\u00bb.<\/p>\n<p>A percep\u00e7\u00e3o cr\u00edtica europeia do &#8220;Arabellion&#8221; tem de ser responsabilizada por conta de dois problemas principais: o menosprezo do fator externo e a subestima\u00e7\u00e3o da car\u00eancia de um programa econ\u00f4mico-social das for\u00e7as revoltosas. Mas uma coisa \u00e9 certa: o amplo movimento de oposi\u00e7\u00e3o descontentou o sistema autocr\u00e1tico, que acabou por intensificar os v\u00e1rios bloqueios sociais e o impacto social da crise econ\u00f4mica mundial na periferia. Este \u00faltimo \u00e9, claro, tamb\u00e9m devido a influ\u00eancias externas.<\/p>\n<p>O potencial log\u00edstico e financeiro de atores externos \u00e9\u00a0muitas vezes ignorado quando falamos de mobiliza\u00e7\u00e3o oposicionista ao redor do mundo. Vamos falar sobre as chamadas grandes Organiza\u00e7\u00f5es N\u00e3o-Governamentais (ONGs) primeiro: National Endowment for Democracy, National Democratic Institute, Instituto Republicano Internacional, Funda\u00e7\u00e3o Konrad Adenauer, Westminster Foundation&#8230; A grande maioria desses institutos levam o \u201cN\u201d de ONG injustamente. Desde que Bill Clinton apoiou grupos s\u00e9rvios locais, tais como \u201cOtpor\u201d (\u201cresist\u00eancia\u201d) contra os ditadores impopulares, uma verdadeira ind\u00fastria de interventores da sociedade civil se desenvolveu. Essas O\u201dN\u201dGs viajam de um ponto a outro enchendo suas contas de dinheiro; identificam o descontentamento local, organizam semin\u00e1rios e recrutam l\u00edderes de opini\u00e3o que sejam simp\u00e1ticos aos planos de reconstru\u00e7\u00e3o dos EUA e UE. Seu objetivo comum \u00e9 a chamada mudan\u00e7a de regime. Onde os lutadores civis n\u00e3o correspondem \u00e0 tarefa de conduzir adiante a\u00a0democracia liberal com uma garantia suficiente para o liberalismo econ\u00f4mico, os meios de interven\u00e7\u00e3o civis s\u00e3o complementados militarmente. Isso aconteceu (e ainda acontece) contra os dois \u00fanicos regimes seculares com remanesc\u00eancias socialistas, L\u00edbia e S\u00edria. Isso mostra abertamente a dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das interven\u00e7\u00f5es externas, quando as for\u00e7as militares s\u00e3o usadas nos casos da L\u00edbia e da S\u00edria e nem mesmo s\u00e3o levadas em considera\u00e7\u00e3o nos casos da Ar\u00e1bia Saudita ou I\u00eamen.<\/p>\n<p>Uma coisa que qualquer observador do &#8220;Arabellion&#8221; poderia facilmente constatar, mas contudo \u00e9\u00a0ignorada na maior parte das vezes: a falta de programa s\u00f3cio-econ\u00f4mico da\u00a0insurrei\u00e7\u00e3o. Bashar al-Assad estava certo quando afirmou, no in\u00edcio da \u00d3pera de Damasco, em janeiro de 2013, \u00a0n\u00e3o ver qualquer &#8220;revolu\u00e7\u00e3o \u00e1rabe\u201d, pois uma revolu\u00e7\u00e3o precisa de uma id\u00e9ia. Essa ideia est\u00e1 realmente faltando.<\/p>\n<p>Agora se pode argumentar formidavelmente sobre o conceito de revolu\u00e7\u00e3o. Se um levante merece o adjetivo de &#8220;revolucion\u00e1rio\u201d n\u00e3o depende de qu\u00e3o \u00edgneo ou ca\u00f3tico ou planejado ele seja, mas uma revolu\u00e7\u00e3o deve incorporar pelo menos a sua raiz etimol\u00f3gica latina: ela visa a uma transforma\u00e7\u00e3o social e &#8211; como a sociedade \u00e9 conduzida pela economia &#8211; econ\u00f4mica. Revolu\u00e7\u00e3o deve mudar as circunst\u00e2ncias sociais e econ\u00f4micas. Simplesmente reformar alguns elementos pol\u00edticos n\u00e3o traria tais circunst\u00e2ncias \u00e0 baila.<\/p>\n<p>Neste sentido, n\u00f3s precisamos \u2013 excetuando-se pequenos grupos relativamente insignificantes \u2013 de id\u00e9ias revolucion\u00e1rias na oposi\u00e7\u00e3o \u00e1rabe, com objetivo de transformar a sociedade no sentido da justi\u00e7a social e econ\u00f4mica. Na melhor das hip\u00f3teses, um programa cultural pode ser visto, se se compreender o Isl\u00e3 como uma identidade cultural. Em vez de inova\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias para uma sociedade melhor, mais igualit\u00e1ria, a rebeli\u00e3o \u00e9 capturada por um \u00fanico pensamento consensual, que aponta para uma mudan\u00e7a de regime.<\/p>\n<p>Qual \u00e9\u00a0a ideia motriz da virada \u00e1rabe, que ocorre 20 anos ap\u00f3s a transforma\u00e7\u00e3o da Europa Oriental? Depois de quase dois anos de instabilidade, pode-se ver mais e mais claramente: a Irmandade Mu\u00e7ulmana, com todas as suas nuances e conflitos internos, lidera o projeto de transforma\u00e7\u00e3o. For\u00e7as de esquerda e burguesas-ocidentais podem ter inicialmente participado das revoltas, mas n\u00e3o conseguiram se aproveitar da situa\u00e7\u00e3o. Os vencedores s\u00e3o grupos ultraconservadores, o que pode alijar as massas por meio da ideologia religiosa em vista de uma vida melhor ap\u00f3s a morte. A prop\u00f3sito: n\u00e3o \u00e9 surpreendente que as fam\u00edlias l\u00edderes da Irmandade Mu\u00e7ulmana, por exemplo, no Egito, disponham de bons meios financeiros.<\/p>\n<p>O verdadeiro papel geopol\u00edtico da Irmandade Mu\u00e7ulmana parece compar\u00e1vel ao dos jogadores no banco de reservas, que s\u00e3o usados porque o autocrata foi ferido, digamos, por descr\u00e9dito social. Eles s\u00e3o apoiados por institui\u00e7\u00f5es financeiras internacionais e grupos globais de capital porque est\u00e3o dispostos a subordinar-se aos planos ocidentais de transforma\u00e7\u00e3o. Seus pr\u00f3prios interesses econ\u00f4micos como elites garantem a manuten\u00e7\u00e3o ou mesmo a extens\u00e3o das quatro liberdades do capitalismo, que s\u00e3o: a livre circula\u00e7\u00e3o de capitais, mercadorias, servi\u00e7os e (alguns) trabalhadores. A respeito disso, as rebeli\u00f5es de T\u00fanis ao Cairo funcionaram: em nenhum lugar est\u00e3o sendo implementadas novas regula\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, pelo contr\u00e1rio: cada um dos pa\u00edses que nas \u00faltimas d\u00e9cadas operaram com propriedades estatais e medidas para proteger os produtores locais da concorr\u00eancia internacional, podendo ter navegado sob bandeiras socialistas ou nacionalistas, mas que foram de algum modo pervertidos e corrompidos. Ap\u00f3s a chamada Primavera \u00c1rabe, tiveram que abrir seus mercados radicalmente e atravessam um per\u00edodo de dif\u00edcil transi\u00e7\u00e3o em termos de novos propriet\u00e1rios &#8230; Portanto &#8211; semelhante \u00e0s mudan\u00e7as na Europa Oriental &#8211; uma alian\u00e7a do capital operado internacionalmente e da m\u00eddia dominante foi formada. Parece ter tido sucesso at\u00e9 mesmo na redefini\u00e7\u00e3o de termos tradicionais como \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d e \u201csolidariedade\u201d como meios de transforma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica para os participantes globais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nDL\n\n\n\n\n\n\n\n\nHannes HOFBAUER (\u00c1ustria)\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4360\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-4360","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-18k","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4360","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4360"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4360\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4360"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4360"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4360"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}