{"id":4369,"date":"2013-02-24T01:58:18","date_gmt":"2013-02-24T01:58:18","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4369"},"modified":"2013-02-24T01:58:18","modified_gmt":"2013-02-24T01:58:18","slug":"mariategui-e-o-jornalismo-que-ilumina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4369","title":{"rendered":"Mari\u00e1tegui e o jornalismo que ilumina"},"content":{"rendered":"\n<p><em><strong>Hist\u00f3ria e exemplo de um jornalista peruano pouco conhecido<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Em raz\u00e3o do tipo violento e constante processo de invas\u00e3o cultural norte-americana e, em certa parte, europeia, este pa\u00eds acabou, literalmente, dando as costas para o povo e a cultura da Am\u00e9rica Latina. Um dos resultados mais tr\u00e1gicos dessa exclus\u00e3o deliberada \u00e9 o desconhecimento e, consequentemente, a desvaloriza\u00e7\u00e3o da intensa e rica produ\u00e7\u00e3o intelectual de nossos vizinhos. S\u00e3o in\u00fameros pensadores, escritores, lutadores do povo que entraram para n\u00f3s na categoria de intelectualmente invis\u00edveis. Mari\u00e1tegui \u00e9 uma dessas personagens que precisa ser conhecido.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Carlos Mari\u00e1tegui \u00e9 peruano, nascido em 14 de junho de 1894, em Moquegua, uma cidadezinha ao sul de Lima. Foi jornalista e, segundo Luiz Bernardo Peric\u00e1s\u00a0<strong>(1)<\/strong>, \u201c\u00e9 um dos mais criativos e originais pensadores marxistas de nosso continente\u201d. Dedicou-se, na teoria e na pr\u00e1tica, a quest\u00e3o educacional. Teve participa\u00e7\u00e3o ativa na forma\u00e7\u00e3o das universidades populares, no movimento estudantil, nas a\u00e7\u00f5es com camponeses e ind\u00edgenas, na funda\u00e7\u00e3o da Central Geral dos Trabalhadores e do Partido Socialista do Peru. Mas Mari\u00e1tegui \u00e9 tamb\u00e9m um intenso produtor de um outro tipo de comunica\u00e7\u00e3o: a que ilumina e liberta \u00e0s consci\u00eancias.<\/p>\n<p>Desde crian\u00e7a, Jos\u00e9 Carlos Mari\u00e1tegui teve grandes dificuldades com sua sa\u00fade. \u201cSofrera de inani\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o f\u00edsica defeituosa, com cansa\u00e7o, febres e dores constantes \u2013 teve pouco acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o formal. Foi basicamente autodidata por toda vida\u201d. Nas muitas horas de solid\u00e3o e isolamento, era nos livros de bibliotecas que mergulhava. Uma de seu bisav\u00f4, que foi jornalista, pol\u00edtico, e outra do intelectual Manoel Gonz\u00e1lez Prada, que acaba sendo uma esp\u00e9cie de mestre para Mari\u00e1tegui. Essa condi\u00e7\u00e3o de autodidata ter\u00e1 forte influ\u00eancia em quase toda sua produ\u00e7\u00e3o intelectual. Ele torna-se um cr\u00edtico feroz da letargia e do conservadorismo nas universidades.<\/p>\n<p><strong>REVISTA AMAUTA <\/strong>&#8211; Mesmo com sa\u00fade muito fr\u00e1gil, come\u00e7a a trabalhar como gr\u00e1fico em jornais e revistas, c\u00edrculos povoados de intelectuais anarquistas, rebeldes, comunistas, antiolig\u00e1rquicos. Inicia como entregador, assistente gr\u00e1fico e linotipista em La Prensa. Em pouco tempo passa a escrever e publicar artigos, inicialmente cr\u00f4nicas do cotidiano. Mari\u00e1tegui colaborou com v\u00e1rias revistas e jornais, como\u00a0<em>El Tiempo, El T\u00farf e Lul\u00fa<\/em>. Junto com Abraham Valdelomar, Percy Gibson e Jos\u00e9 Maria Eguren cria a revista modernista<em> Col\u00f3nia<\/em>, onde publica poemas. Ele tamb\u00e9m foi um dos criadores da revista\u00a0<em>Nuestra \u00c9poca <\/em>e, em seguida, do jornal\u00a0<em>La Raz\u00f3n<\/em>, instrumento fundamental de apoio aos trabalhadores que realizavam v\u00e1rios movimentos grevistas pelo pa\u00eds.<\/p>\n<p>Mais tarde faz sua pr\u00f3pria revista, a\u00a0<em>Amauta<\/em>, que em qu\u00e9chua significa sacerdote, s\u00e1bio. A publica\u00e7\u00e3o divulga as ideias socialistas, na qual colaboram os mais importantes intelectuais de vanguarda do Peru. Anos mais tarde, o pr\u00f3prio Mari\u00e1tegui, que chegou a ser vice-presidente do C\u00edrculo de Periodistas do Peru, tamb\u00e9m come\u00e7ar\u00e1 a ser chamado de &#8220;Amauta&#8221; pelos intelectuais progressistas e socialistas de todo o continente. A revista circulava nas \u00e1reas urbanas e rurais no Peru. No campo, por exemplo, os textos da Amauta eram lidos em voz alta para os camponeses e depois ocorriam debates sobre o tema abordado. A revista n\u00e3o era apenas destinada a um p\u00fablico intelectualizado, mas aos camponeses e ind\u00edgenas, muitas vezes analfabetos ou com pouca instru\u00e7\u00e3o formal.<\/p>\n<p>Em jornais e revistas, Mari\u00e1tegui denuncia a mis\u00e9ria do povo peruano, o militarismo e o Governo do Partido Civilista. N\u00e3o se cala diante do atraso econ\u00f4mico de grande parte da popula\u00e7\u00e3o controlada pelo capital imperialista, que mant\u00e9m rela\u00e7\u00f5es sociais injustas para perpetuar seu dom\u00ednio e aumentar seus ganhos. Ele tem participa\u00e7\u00e3o ativa na luta dos camponeses, dos \u00edndios e de uma massa oper\u00e1ria crescente. Mas \u00e9 junto ao movimento estudantil que Mari\u00e1tegui tem maior a\u00e7\u00e3o. Ele defendia a uni\u00e3o entre estudantes e trabalhadores na luta pelo Socialismo.<\/p>\n<p>Antes do ex\u00edlio que ia sofrer por fazer cr\u00edticas ao Governo de Augusto Legu\u00eda, Jos\u00e9 Carlos Mari\u00e1tegui ainda recebeu forte influ\u00eancia do amigo, professor de Direito, diplomata e jornalista Victor Ma\u00fartua, um entusiasta da Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1919 e das doutrinas socialistas. \u00c9 a partir da\u00ed que Mari\u00e1tegui ser\u00e1 um ferrenho defensor do envolvimento dos artistas e cientistas nas lutas do povo no sentido de ajudar a transformar o mundo e a \u201cconstruir um homem novo\u201d. No final de 1919, ele chega exilado \u00e0 Fran\u00e7a, mas logo depois vai \u00e0 It\u00e1lia e depois para Alemanha. Sua passagem pela Europa foi fundamental para consolidar seu preparo intelectual e pol\u00edtico. Na It\u00e1lia, por exemplo, participou do XVII Congresso do Partido Socialista.<\/p>\n<p><strong>UNIVERSIDADES POPULARES<\/strong> &#8211; Em 1923, quando retorna ao Peru, Mari\u00e1tegui vai dar confer\u00eancias nas universidades populares criadas por Abraham G\u00f3mez, Luis Bustamante e Haya de La Torre. \u201cO objetivo desses centros de ensino seria o de promover um ciclo de cultura geral com car\u00e1ter nacionalista, e outro ciclo de especializa\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, abrindo a universidade para o proletariado e para as camadas mais pobres da popula\u00e7\u00e3o e criando a possibilidade de maior democratiza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o e do aprimoramento do n\u00edvel educacional e cr\u00edtico dos trabalhadores\u201d.<\/p>\n<p>Mari\u00e1tegui se tornou diretor da revista\u00a0<em>Claridad<\/em>, \u00f3rg\u00e3o oficial das unidades populares. Essa publica\u00e7\u00e3o, com ele, radicalizou-se na defesa socialista e come\u00e7ou a ser considerada tamb\u00e9m \u00f3rg\u00e3o da Federa\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria Local de Lima e da Juventude Livre do Peru. Mari\u00e1tegui ainda fundou a Sociedade Oper\u00e1ria Claridad, representante das federa\u00e7\u00f5es de trabalhadores e ind\u00edgenas, das Universidades Populares Gonz\u00e1lez Prada e dos intelectuais de vanguarda. A ideia era produzir v\u00e1rias publica\u00e7\u00f5es para disseminar os anseios do proletariado, abrir livrarias oper\u00e1rias e editar livros, folhetos e revistas de propaganda que difundissem a cultura das classes oprimidas. Mari\u00e1tegui se torna provavelmente a figura de esquerda mais conhecida e importante do pa\u00eds. Ao longo dos anos, sua casa se transformou no principal local de encontros de intelectuais, artistas, oper\u00e1rios e estudantes.<\/p>\n<p>Ainda em 1925, fundou, com seu irm\u00e3o Julio C\u00e9sar, a Editora Minerva, por onde publicou seu livro \u201c<em>Sete ensaios de interpreta\u00e7\u00e3o da realidade peruana<\/em>\u201d. Em 7 de outubro de 1928 Mari\u00e1tegui ajuda a fundar o Partido Socialista do Peru, tendo sido eleito Secret\u00e1rio-Geral. No in\u00edcio de 1929 ajudou a organizar a Confedera\u00e7\u00e3o Geral dos Trabalhadores do Peru. At\u00e9 o final da vida dirigiu a revista\u00a0<em>Mundial<\/em> e ainda teve for\u00e7as para fundar o jornal quinzen\u00e1rio Labor. Faleceu a 16 de abril de 1930, deixando sua vida como refer\u00eancia para todos os lutadores do povo, especialmente aqueles que se dedicam a constru\u00e7\u00e3o de um outro tipo de educa\u00e7\u00e3o e de comunica\u00e7\u00e3o, de um outro mundo poss\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Cristian G\u00f3es<\/strong><\/p>\n<p>Refer\u00eancia:<\/p>\n<p>(1) MARI\u00c1TEGUI, Jos\u00e9 Carlos.\u00a0<strong>Mari\u00e1tegui sobre a educa\u00e7\u00e3o<\/strong>. Sele\u00e7\u00e3o de textos. Tradu\u00e7\u00e3o de Luiz Bernardo Peric\u00e1s. S\u00e3o Paulo: Xam\u00e3, 2007.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nInfonet\n\n\n\n\n\n\n\n\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4369\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[33],"tags":[],"class_list":["post-4369","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c34-marxismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-18t","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4369","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4369"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4369\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4369"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4369"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4369"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}