{"id":4374,"date":"2013-02-25T18:15:08","date_gmt":"2013-02-25T18:15:08","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4374"},"modified":"2013-02-25T18:15:08","modified_gmt":"2013-02-25T18:15:08","slug":"a-palestina-vai-ao-oscar-e-e-detida-no-aeroporto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4374","title":{"rendered":"A Palestina vai ao Oscar. E \u00e9 detida no aeroporto!"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>O filme palestino \u20185 Broken Cameras\u2019 \u00e9 um dos indicados ao Oscar de melhor document\u00e1rio estrangeiro. Mas seu diretor, Emad Burnat, a esposa Soraya e o filho Gibril foram detidos na ter\u00e7a (19) ao desembarcarem no aeroporto de Los Angeles, onde participariam da premia\u00e7\u00e3o. Acabaram levados para uma \u00e1rea fechada nas depend\u00eancias do aeroporto e submetidos a interrogat\u00f3rio.<\/strong><\/p>\n<p>Baby Siqueira Abr\u00e3o<\/p>\n<p>Emad Burnat, diretor de \u20185 Broken Cameras\u2019 [5 c\u00e2meras quebradas], filme indicado ao Oscar de melhor document\u00e1rio estrangeiro, foi detido na noite de 19 de fevereiro ao desembarcar no aeroporto de Los Angeles, Calif\u00f3rnia, para participar da festa do cinema de Hollywood. Ele, a esposa Soraya e o filho Gibril, de 8 anos \u2013 que tamb\u00e9m participam do filme \u2013, foram levados para uma \u00e1rea fechada nas depend\u00eancias do aeroporto e submetidos a interrogat\u00f3rio. Segundo as autoridades de imigra\u00e7\u00e3o, Emad n\u00e3o tinha em seu poder o \u201cconvite apropriado para o Oscar\u201d, seja l\u00e1 o que isso for.<\/p>\n<p>Emad enviou uma mensagem, pelo celular, a Michael Moore, o pol\u00eamico documentarista de \u2018Tiros em Colombine\u2019, \u2018Fahrenheit 11 de setembro\u2019 (filme que questiona a vers\u00e3o oficial do atentado ao World Trade Center) e um dos diretores da Academia de Hollywood. Moore denunciou a deten\u00e7\u00e3o a seus 1,4 milh\u00e3o de seguidores no Twitter e acionou o pessoal da Academia, que por sua vez contatou advogados para cuidar do caso. \u201cPedi a Emad que repetisse meu nome v\u00e1rias vezes aos oficiais da imigra\u00e7\u00e3o e que lhes desse meus n\u00fameros de telefone\u201d, disse Moore. \u201cParece que eles n\u00e3o conseguiam entender como um palestino podia ter sido indicado ao Oscar\u201d, completou, ir\u00f4nico.<\/p>\n<p>Moore tamb\u00e9m deixou claro que faria o que estivesse a seu alcance para impedir a deporta\u00e7\u00e3o que amea\u00e7ava a fam\u00edlia Burnat. E foi bem-sucedido, porque uma hora e meia depois eles foram libertados. \u201cMas s\u00f3 poder\u00e3o ficar em Los Angeles uma semana, at\u00e9 o Oscar\u201d, esclareceu Moore. E, de novo com ironia, acrescentou: \u201cBem-vindos aos Estados Unidos!\u201d<\/p>\n<p>Para Emad, a deten\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nenhuma novidade. \u201cQuando se vive sob ocupa\u00e7\u00e3o militar, sem nenhum direito, esse \u00e9 um acontecimento di\u00e1rio\u201d, declarou. O filme \u20185 Broken Cameras\u2019 \u00e9 o resultado de sete anos de trabalho de Emad, que comprou a primeira c\u00e2mera quando Gibril nasceu e passou a registrar tudo o que acontecia em sua vila natal, Bil\u2019in, na Cisjord\u00e2nia sob ocupa\u00e7\u00e3o militar de Israel. Ajudado pelo israelense Guy Davidi, que esteve ao lado da resist\u00eancia de Bil\u2019in desde os primeiros dias, foi respons\u00e1vel pelo p\u00f3s-roteiro de \u20185 Broken Cameras\u2019 e figura como codiretor, Emad fez um documento fundamental para a compreens\u00e3o, pelo p\u00fablico externo, do cotidiano palestino sob ocupa\u00e7\u00e3o. O t\u00edtulo do filme faz refer\u00eancia \u00e0s cinco c\u00e2meras que o ex\u00e9rcito israelense inutilizou ao atingi-las com tiros. Numa dessas ocasi\u00f5es o equipamento salvou a vida do diretor \u2013 a c\u00e2mera deteve a bala atirada na dire\u00e7\u00e3o da cabe\u00e7a de Emad.<\/p>\n<p><strong>Cineasta por acaso \u2013 e por necessidade<\/strong><\/p>\n<p>Emad Burnat nunca pensou em se tornar cineasta. Foi a necessidade de registrar a ocupa\u00e7\u00e3o \u2013 para proteger os vizinhos, pois os soldados, receosos de um dia enfrentar o Tribunal Penal Internacional, evitam agir com muita viol\u00eancia diante das c\u00e2meras \u2013, de mostrar ao mundo, pela internet, a realidade na Palestina, at\u00e9 poucos anos atr\u00e1s oculta pela narrativa sionista, e de ter provas para apresentar aos tribunais de Israel, aos quais o ex\u00e9rcito conta hist\u00f3rias implaus\u00edveis mas levadas a s\u00e9rio, que levaram Emad a filmar.<\/p>\n<p>Ele comprou sua primeira c\u00e2mera em 2005, ano do nascimento de Gibril, para gravar seu crescimento e a vida em fam\u00edlia. Mas era imposs\u00edvel limitar-se a temas dom\u00e9sticos numa vida sob ocupa\u00e7\u00e3o militar. As incurs\u00f5es noturnas dos soldados, os ataques aos moradores durante as manifesta\u00e7\u00f5es n\u00e3o violentas, as pris\u00f5es, as invas\u00f5es dos colonos, a constru\u00e7\u00e3o do primeiro muro e seu desmantelamento em 2011, bem como a execu\u00e7\u00e3o do segundo muro, tudo era muito impactante no cotidiano de Bil\u2019in e merecia ser registrado.<\/p>\n<p>Essa opini\u00e3o era compartilha por Guy Davidi, professor de cinema, que em 2005 passou a ir com frequ\u00eancia \u00e0 vila palestina e chegou a morar l\u00e1 por alguns meses, para sentir como era viver sob ocupa\u00e7\u00e3o. Guy produziu alguns curtas sobre Bil\u2019in, onde filmou, entre 2005 e 2008, \u2018Interrupted streams\u2019 [\u2018Fluxos interrompidos\u2019], sobre o confisco das fontes de \u00e1gua palestinas por Israel. Muitas vezes Emad e Guy filmavam juntos as manifesta\u00e7\u00f5es, os ataques dos soldados, as deten\u00e7\u00f5es. Corriam os mesmos riscos. Tornaram-se amigos.<\/p>\n<p>Foi ao longo desses anos que Emad come\u00e7ou a pensar em reunir seu material num longa-metragem sobre a resist\u00eancia em Bil\u2019in. Estimulado pela fam\u00edlia, pelos amigos e por Guy, ele conseguiu tocar o projeto. S\u00f3 n\u00e3o esperava o sucesso que se seguiu ao lan\u00e7amento. Cineasta por intui\u00e7\u00e3o, Emad ganhou o respeito e a admira\u00e7\u00e3o de seus pares ao redor do mundo.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancia ao Brasil e v\u00e1rios pr\u00eamios<\/strong><\/p>\n<p>Uma das cinco c\u00e2meras quebradas exibe um adesivo da bandeira brasileira, s\u00edmbolo tamb\u00e9m presente na porta da casa da fam\u00edlia Burnat, em Bil\u2019in \u2013 um modo de demonstrar o carinho que eles sentem por nosso pa\u00eds. Soraya, esposa de Emad, \u00e9 palestina criada no Brasil. O casal e os filhos mais velhos falam um portugu\u00eas impec\u00e1vel e sem sotaque.<\/p>\n<p>\u20185 Broken Cameras\u2019 \u00e9 o primeiro filme palestino a concorrer a um Oscar. Al\u00e9m de muito elogiado pela cr\u00edtica, vem tendo uma trajet\u00f3ria de sucesso em todo o mundo. Em 2012, foi indicado para o \u2018Asian Pacific Screen Award\u2019 e ganhou o pr\u00eamio de melhor document\u00e1rio no \u2018Jerusalem Film Festival\u2019; o de melhor diretor de document\u00e1rio no Sundance (tamb\u00e9m foi indicado para o Grande Pr\u00eamio do J\u00fari desse festival), nos Estados Unidos, e o Busan Cinephile, do Busan International Film Festival, da Coreia. Em 2011 recebeu o Pr\u00eamio Especial do J\u00fari e o Pr\u00eamio Especial do P\u00fablico no International Documentary Film Festival Amsterdam (IDFA), na Holanda. A. O. Scott, cr\u00edtico de \u2018The New York Times\u2019, considerou-o uma \u201ccomovente e rigorosa obra de arte\u201d.<\/p>\n<p>Ele tem raz\u00e3o. No document\u00e1rio, com sensibilidade, Emad funde sua vida e a de sua fam\u00edlia com a hist\u00f3ria da ocupa\u00e7\u00e3o de Bil\u2019in. \u00c9 uma hist\u00f3ria comum \u00e0 maioria dos milh\u00f5es de palestinos que nasceram nos hoje dezenas de vilarejos \u2013 eram mais de 500 antes que os sionistas os tomassem \u00e0 for\u00e7a, nos anos 1940 \u2013 que circundam as 11 cidades da Cisjord\u00e2nia, compondo as regi\u00f5es distritais daquela parte do Estado da Palestina.<\/p>\n<p>Com texto de Guy Davidi, e narrado por Emad, o filme nos conduz pelas belas paisagens de Bil\u2019in, mostrando a chegada dos agrimensores israelenses para a medi\u00e7\u00e3o das terras que seriam confiscadas; as reuni\u00f5es entre os moradores e o pessoal do grupo Anarquistas Contra o Muro, de Israel, que conseguiu o mapa com o tra\u00e7ado do muro e se uniu aos bilainenses para boicot\u00e1-lo; os primeiros enfrentamentos com o ex\u00e9rcito israelense; as pris\u00f5es, a progress\u00e3o dos desafios e da viol\u00eancia, a consolida\u00e7\u00e3o da resist\u00eancia, o apoio internacional \u00e0 luta n\u00e3o violenta de Bil\u2019in.<\/p>\n<p>H\u00e1 cenas geniais, como a do grupo de moradores que barra o avan\u00e7o dos soldados na \u00e1rea urbana da vila com instrumentos de percuss\u00e3o improvisados, numa \u201cbateria\u201d ruidosa e criativa. H\u00e1 tamb\u00e9m cenas dif\u00edceis, em que Emad se v\u00ea obrigado a filmar a pris\u00e3o dos irm\u00e3os e de um vizinho, um menino, e cenas tr\u00e1gicas, como o assassinato de Bassem Abu-Rahmah, o Fil, at\u00e9 aquele momento um dos l\u00edderes da resist\u00eancia e um dos protagonistas do filme. A sequ\u00eancia \u00e9 dolorosa, embora o p\u00fablico seja poupado das tomadas mais dram\u00e1ticas.<\/p>\n<p>O document\u00e1rio leva o p\u00fablico a participar do cotidiano de Bil\u2019in e a vivenciar um pouco do que significa estar submetido a uma ocupa\u00e7\u00e3o militar. Trata-se de documento hist\u00f3rico, den\u00fancia viva dos abusos cometidos pelo ex\u00e9rcito sionista. Por isso mesmo, a cena em que o pequeno Gibril, mal se sustentando em seus primeiros passos, oferece um ramo de oliveira a um dos soldados israelenses \u2013 que o aceita, com um sorriso culpado e sem jeito \u2013 surpreende e enternece. Num momento assim n\u00e3o h\u00e1 como deixar de questionar o mal que os sionistas t\u00eam feito aos seres humanos que vivem de um lado e de outro do muro. N\u00e3o fossem eles, provavelmente palestinos de todas as religi\u00f5es teriam continuado a conviver em harmonia na Palestina hist\u00f3rica. Os inimigos e a disc\u00f3rdia vieram de fora. Ser\u00e1 poss\u00edvel neutraliz\u00e1-los e resgatar a antiga harmonia, dessa vez juntando ao antigo grupo os cidad\u00e3os de Israel, como prop\u00f5em palestinos e israelenses que defendem a exist\u00eancia de um \u00fanico Estado, democr\u00e1tico e secular, com direitos iguais para todos?<\/p>\n<p><strong>O impacto nos jovens de Israel<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil responder a essa indaga\u00e7\u00e3o sem levar em conta as alian\u00e7as do sionismo e seu papel decisivo nas finan\u00e7as internacionais, na ind\u00fastria b\u00e9lica e na tecnologia nuclear. O movimento praticamente domina os setores estrat\u00e9gicos sobre os quais se desenrola o teatro do mundo. \u00c9 ele que cuida do caixa, do lucro, da produ\u00e7\u00e3o e do roteiro do espet\u00e1culo. Por isso, o combate n\u00e3o se restringe \u00e0 a\u00e7\u00e3o dos sionistas na Palestina. Eles se espalham cada vez mais, controlando governos, territ\u00f3rios e ramos de atividades nos cinco continentes.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 em Israel que seu controle se estende a toda a sociedade. L\u00e1, o sistema educacional garante apoio e submiss\u00e3o aos princ\u00edpios sionistas nesta e nas futuras gera\u00e7\u00f5es. Assim, quem nasce em Israel aprende, desde a inf\u00e2ncia, que os palestinos s\u00e3o \u201c\u00e1rabes que vivem em territ\u00f3rio israelense\u201d \u2013 e inimigos. A maior parte dos livros did\u00e1ticos faz pouca refer\u00eancia \u00e0 Palestina \u2013 nos mapas, por exemplo, Cisjord\u00e2nia e Gaza s\u00e3o mostradas como territ\u00f3rio de Israel \u2013 e a sua hist\u00f3ria. A grande maioria dos jovens israelenses n\u00e3o sabe que seu pa\u00eds ocupa outro, e tem de seu ex\u00e9rcito uma vis\u00e3o heroica e rom\u00e2ntica, fabricada pela propaganda sionista.<\/p>\n<p>Contribui para essa ilus\u00e3o um programa muito comum nos feriados e nos fins de semana em Israel: os pais costumam levar os filhos pequenos a locais onde s\u00e3o expostos equipamentos de guerra, que as crian\u00e7as podem experimentar, e ve\u00edculos nos quais elas entram e fingem controlar. Tudo sob o olhar complacente da fam\u00edlia e diante das explica\u00e7\u00f5es de jovens soldadas e soldados. Para entender como essa ind\u00fastria da viol\u00eancia funciona, assista ao v\u00eddeo produzido pelo israelense Itamar Rose: <a href=\"http:\/\/youtu.be\/Qp67KehlVGU\" target=\"_blank\">http:\/\/youtu.be\/Qp67KehlVGU<\/a>.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 de admirar, portanto, que as crian\u00e7as de Israel desenvolvam a ideia de que a solu\u00e7\u00e3o de seus problemas \u2013 ou daquilo que lhes \u00e9 ensinado como \u201cproblema\u201d \u2013 passa pela via militar. Foi para desfazer essa cren\u00e7a que Guy Davidi decidiu mostrar \u20185 Broken Cameras\u2019 a um grupo de jovens em Israel e filmar suas rea\u00e7\u00f5es. Suas express\u00f5es, durante a exibi\u00e7\u00e3o do document\u00e1rio, dizem muito sobre a revela\u00e7\u00e3o de como \u00e9 a vida dos palestinos: indicam surpresa, choque, consterna\u00e7\u00e3o, revolta, compaix\u00e3o.<\/p>\n<p>Diante dessa experi\u00eancia, Davidi resolveu elaborar um projeto maior: levar \u20185 Broken Cameras\u2019 ao p\u00fablico israelense em sess\u00f5es que permitam reflex\u00f5es e debates sobre a ocupa\u00e7\u00e3o, a viol\u00eancia imposta aos palestinos de maneira direta e aos israelenses de modo indireto, o dia a dia dos cidad\u00e3os dos dois lados do muro, o pr\u00f3prio muro, o questionamento ao papel do ex\u00e9rcito e \u00e0 ideologia dos soldados \u2013 que, como eu mesma pude comprovar nas muitas conversas que travei com eles, t\u00eam dos palestinos e dos \u00e1rabes uma imagem deturpada, assimilada em uma exist\u00eancia inteira de educa\u00e7\u00e3o dirigida e controlada. Conhe\u00e7a a surpreendente experi\u00eancia de Guy Davidi com os jovens israelenses: <a href=\"http:\/\/youtu.be\/i1wEszQYEzg\" target=\"_blank\">http:\/\/youtu.be\/i1wEszQYEzg<\/a>.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que a arte pode promover compreens\u00e3o e toler\u00e2ncia, aproximando duas popula\u00e7\u00f5es separadas pela agenda b\u00e9lica e expansionista das autoridades sionistas? Ser\u00e1 que a mudan\u00e7a necess\u00e1ria pode come\u00e7ar da base de ambas as sociedades, as \u00fanicas inst\u00e2ncias portadoras de legitimidade para isso? \u00c9 uma aposta ousada, a dos diretores de \u20185 Broken Cameras\u2019. Aguardemos os resultados.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/materiaMostrar.cfm?materia_id=21650&amp;boletim_id=1543&amp;componente_id=26357\" target=\"_blank\">http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/materiaMostrar.cfm?materia_id=21650&amp;boletim_id=1543&amp;componente_id=26357<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\n2.bp.blogspot\n\n\n\n\n\n\n\n\nA Palestina vai ao Oscar. 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