{"id":4377,"date":"2013-02-26T15:27:39","date_gmt":"2013-02-26T15:27:39","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4377"},"modified":"2013-02-26T15:27:39","modified_gmt":"2013-02-26T15:27:39","slug":"dos-males-de-beber-alem-da-conta-e-lembrar-em-vez-de-esquecer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4377","title":{"rendered":"Dos males de beber al\u00e9m da conta e lembrar em vez de esquecer"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Eric Nepomuceno<\/em><\/p>\n<p>Embalado pelo pr\u00f3prio discurso, acabou contando dos voos da morte. E, mais embalado ainda, justificou tudo. Disse que jogar pessoas vivas de um avi\u00e3o era, at\u00e9 certo ponto, um jeito mais humano de matar algu\u00e9m. As v\u00edtimas, esclareceu, \u2018estavam todas dopadas, n\u00e3o sofriam nada\u2019.<\/p>\n<p>Aqui, a aberra\u00e7\u00e3o da impunidade contou e conta com a cumplicidade dos guardi\u00f5es m\u00e1ximos da nossa corte suprema. Bizarra corte, bizarra decis\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma diferen\u00e7a entre Argentina e Brasil com rela\u00e7\u00e3o ao direito \u00e0 mem\u00f3ria, \u00e0 verdade e \u00e0 justi\u00e7a. Na Argentina, gente como o piloto dos voos da morte Julio\u00a0Poch\u00a0(foto) \u00e9 julgada, se defende e, quando condenada, vai presa. No Brasil, por\u00e9m, uma esdr\u00faxula lei de anistia, imposta pela ditadura, foi confirmada por um bizarro Supremo Tribunal Federal (STF).<\/p>\n<p><strong>Eric Nepomuceno<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Foi numa noite incerta de 2003, em Bali, uma das mais de treze mil ilhas da Indon\u00e9sia. Julio\u00a0Poch, argentino de nascimento, naturalizado holand\u00eas, piloto da companhia a\u00e9rea\u00a0Transavia, uma subsidiaria da KLM, estava bebendo com v\u00e1rios colegas de trabalho. E, no auge da empolga\u00e7\u00e3o, come\u00e7ou a contar algumas de suas fa\u00e7anhas voadoras.<\/p>\n<p>Contou, por exemplo, que durante a ditadura que esmagou seu pa\u00eds entre 1976 e 1983 havia trabalhado como piloto da marinha de guerra. Falou da ESMA, a Escola Mec\u00e2nica da Armada. Tentando ser mais expl\u00edcito,\u00a0Poch\u00a0disse que havia sido piloto em alguns \u2018voos da morte\u2019, quando presos pol\u00edticos eram dopados, levados para os avi\u00f5es e despejados no mar, no rio da Prata ou no delta do rio Paran\u00e1.<\/p>\n<p>Na verdade, ele n\u00e3o tinha falado nada de seu pa\u00eds at\u00e9 que, a certa altura, algu\u00e9m da animada mesa de bar perguntou sobre a princesa M\u00e1xima da Holanda, argentina como ele, filha de Jorge\u00a0Zorreguieta, que foi ministro da Agricultura dos militares. E ent\u00e3o, ao ouvir a palavra ditadura,\u00a0Poch\u00a0come\u00e7ou a falar demais.<\/p>\n<p>Primeiro, disse que seus colegas tinham uma imagem distorcida do que havia acontecido na Argentina. Defendeu o pai de M\u00e1xima, suspeito de crimes de lesa-humanidade em seu pa\u00eds, e que por isso mesmo foi impedido de comparecer ao casamento da filha com o ent\u00e3o pr\u00edncipe, e hoje rei da Holanda, Guilherme Alexandre. E explicou que, na verdade, o que aconteceu na Argentina foi uma guerra contra terroristas. E, numa guerra, como se sabe desde o principio dos tempos, morre gente.<\/p>\n<p>Embalado pelo pr\u00f3prio discurso, acabou contando dos voos da morte. E, mais embalado ainda, justificou tudo. Disse que jogar pessoas vivas de um avi\u00e3o era, at\u00e9 certo ponto, um jeito mais humano de matar algu\u00e9m. As v\u00edtimas, esclareceu, \u2018estavam todas dopadas, n\u00e3o sofriam nada\u2019.<\/p>\n<p>Dois dos que presenciaram aquela confiss\u00e3o macabra,\u00a0Tim\u00a0Weert\u00a0e Erwin\u00a0Brouwer, resolveram denunciar\u00a0Poch. Contaram detalhes do que ouviram: os prisioneiros eram despidos, amarrados, drogados com\u00a0pentotal, conduzidos para um avi\u00e3o e, a certa altura, despejados no ar por uma porta aberta.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi, \u00e9 verdade, a primeira den\u00fancia sobre os voos assassinos. A primeira \u2013 ali\u00e1s, mais que den\u00fancia: confiss\u00e3o \u2013 foi a que o capit\u00e3o da Marinha Adolfo\u00a0Scilingo\u00a0fez em 1995 a Horacio\u00a0Werbitsky, um dos mais talentosos e contundentes jornalistas argentinos. O livro \u2018O voo\u2019, de\u00a0Verbitsky, foi um dos maiores \u00eaxitos da Argentina, e chegou \u00e0s m\u00e3os do juiz espanhol Baltazar\u00a0Gazr\u00f3n.<\/p>\n<p>Naquela altura,\u00a0Garz\u00f3n\u00a0investigava a morte de alguns de seus compatriotas nos voos noturnos da ditadura. Levado pela mar\u00e9 de arrependimento,\u00a0Sicilingo\u00a0viajou para a Espanha para colaborar com suas investiga\u00e7\u00f5es. Contou que participou de dois desses voos, e jogou no ar 30 presos. Depois do arrependimento,\u00a0Sicilingo, diante do tribunal, tentou negar o que havia confessado. N\u00e3o adiantou nada. Acabou condenado, em 2005, a exatos 1.084 anos de pris\u00e3o. Cumprir\u00e1 30, tempo m\u00e1ximo previsto pelas leis espanholas, sem apela\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. Continua preso. Dever\u00e1 sair da cadeia em 2026. Se estiver vivo, ter\u00e1 80 anos.<\/p>\n<p>Agora, quem enfrenta um tribunal \u2013 desta vez, na Argentina \u2013 \u00e9 outro desses pilotos, quase t\u00e3o famoso como\u00a0Sicilingo. \u00c9 o mesmo Julio\u00a0Poch\u00a0que bebeu demais certa noite de 2003 em Bali. O mesmo Julio\u00a0Poch\u00a0que explicou que jogar pessoas vivas de um avi\u00e3o era uma forma humanit\u00e1ria de matar, j\u00e1 que, dopadas, elas n\u00e3o percebiam nada, n\u00e3o sofriam nada.<\/p>\n<p>Nega tudo, claro. Diz que houve um mal-entendido. Que ele disse, naquela malfadada noite em Bali, \u2018n\u00f3s faz\u00edamos\u2019, e n\u00e3o \u2018eu fazia\u2019 voos da morte.<\/p>\n<p>Foram centenas de presos da ESMA atirados em pleno voo. Dos quase 5.200 prisioneiros que passaram pela ESMA, menos de 200 est\u00e3o vivos. \u00c9 o maior s\u00edmbolo do horror que foi a ditadura argentina de 1976 a 1983.<\/p>\n<p>Seis anos depois da noite em Bali,\u00a0Poch\u00a0foi preso em Val\u00eancia, Espanha, em 2009. Tinha ido fazer turismo com a fam\u00edlia. Ali come\u00e7ou a ruir uma nova vida que ele havia constru\u00eddo com esmero em 1980, quando em plena ditadura conseguiu passar para a reserva e meses depois foi contratado pela Aerol\u00edneas Argentinas. Em 1989 passou para a KLM. Imagino que nas duas empresas deve ter sido advertido para n\u00e3o jogar passageiros no oceano.<\/p>\n<p>Em 1995 ganhou a cidadania holandesa. E agora, diante de um tribunal em Buenos Aires, diz que foi uma vergonha ter sido arrancado de seu lar holand\u00eas apenas por ter emitido opini\u00f5es pessoais sobre a pol\u00edtica argentina de uma determinada \u00e9poca. Ou seja, seu \u00fanico delito, diz ele, foi opinar.<\/p>\n<p>Mostra, imp\u00e1vido, os registros de todos os voos que fez enquanto esteve na Marinha. Em nenhum deles aparece um \u2018voo da morte\u2019.<\/p>\n<p>Julio\u00a0Poch\u00a0ter\u00e1 direito ao que as v\u00edtimas da ditadura que ele diz que n\u00e3o houve jamais tiveram: um julgamento justo. Ter\u00e1 direito a se defender. E, se for considerado culpado, ser\u00e1 enfim condenado \u2013 mas n\u00e3o receber\u00e1 a pena de morte que ceifou umas 30 mil vidas em seu pa\u00eds.<\/p>\n<p>E, por falar em registro, lembro que agora mesmo foram descobertos, em S\u00e3o Paulo, registro de visitas \u00e0s masmorras do DOPS \u2013 o nefasto Departamento de Ordem P\u00fablica e Social \u2013 durante a nossa ditadura. Em seus anos mais negros, o DOPS de S\u00e3o Paulo foi um dos centros mais vigorosos da repress\u00e3o. Ou seja: da tortura, da humilha\u00e7\u00e3o, da vexa\u00e7\u00e3o, da morte.<\/p>\n<p>Esses registros mostram que civis passavam horas nos locais onde se torturava, se violava, se massacrava gente. Nomes surgir\u00e3o, claro, e entre eles haver\u00e1 novidades importantes. J\u00e1 se sabe que um funcion\u00e1rio do SESI, que \u00e9 controlado pela FIESP, era visitante ass\u00edduo. J\u00e1 se sabe que o ent\u00e3o c\u00f4nsul dos Estados Unidos em S\u00e3o Paulo tamb\u00e9m frequentava o local. A novidade, ent\u00e3o, ser\u00e1 conhecer os nomes. Das barbaridades, sabemos todos.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma diferen\u00e7a b\u00e1sica e essencial entre o que acontece na Argentina e no Brasil, com rela\u00e7\u00e3o ao passado e ao direito \u00e0 mem\u00f3ria, \u00e0 verdade e \u00e0 justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Na Argentina, gente como\u00a0Poch\u00a0\u00e9 julgada, se defende e, quando condenada, vai presa. Aqui, trata-se de investigar o que aconteceu, e como aconteceu o que aconteceu. Mas uma esdr\u00faxula lei de anistia, imposta por uma ditadura moribunda, foi confirmada por um bizarro Supremo Tribunal Federal. Ou seja, a corte suprema da justi\u00e7a do Brasil assegurou, pat\u00e9tica, o direito \u00e0 impunidade.<\/p>\n<p>Aqui, ningu\u00e9m ser\u00e1 julgado. Ningu\u00e9m ser\u00e1 absolvido, ningu\u00e9m ser\u00e1 condenado, ningu\u00e9m ser\u00e1 punido.<\/p>\n<p>Aqui, a aberra\u00e7\u00e3o da impunidade contou e conta com a cumplicidade dos guardi\u00f5es m\u00e1ximos da nossa corte suprema. Bizarra corte, bizarra decis\u00e3o.<\/p>\n<p><strong><a href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/materiaMostrar.cfm?materia_id=21639\" target=\"_blank\">http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/materiaMostrar.cfm?materia_id=21639<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCM\n\n\n\n\n\n\n\n\nTerrorismo de Estado na Argentina \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4377\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-4377","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-18B","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4377","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4377"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4377\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4377"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4377"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4377"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}