{"id":4380,"date":"2013-02-26T15:54:34","date_gmt":"2013-02-26T15:54:34","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4380"},"modified":"2013-02-26T15:54:34","modified_gmt":"2013-02-26T15:54:34","slug":"e-o-oscar-vai-paraa-cia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4380","title":{"rendered":"E O \u00d3SCAR VAI PARA&#8230; A CIA"},"content":{"rendered":"\n<p>Nem nesse mundo chapado, tempos de doidos varridos, Jack Nicholson algum dia imaginou que faria duplinha com a Primeira Dama dos EUA para apresentar um \u00d3scar de Melhor Filme.[1]<\/p>\n<p>Est\u00e1 mais para Hunter S Thompson[2] que para Academia \u2013 e nada tem de presidencial. Mas marcou \u2013 lindamente \u2013 o casamento de Washington com Hollywood. Se George Clooney casa-se com o Sud\u00e3o (mas n\u00e3o com a Palestina), por que Jack n\u00e3o poderia trocar fofoquinhas com Michelle? Depois disso, vir\u00e1 o qu\u00ea? Obama partilhando intelig\u00eancia com Jessica Chastain?<\/p>\n<p>O casamento que realmente conta \u2013 doravante \u2013 pode estar no cora\u00e7\u00e3o do complexo militar-industrial-Hollywood-de seguran\u00e7a, como em A hora mais escura e em infind\u00e1veis varia\u00e7\u00f5es do etos Marvel (ver \u201c\u00d3scar hora mais escura\u201d,<a href=\"http:\/\/redecastorphoto.blogspot.com.br\/2013\/02\/pepe-escobar-oscar-hora-mais-escura_22.html\" target=\"_blank\">http:\/\/redecastorphoto.blogspot.com.br\/2013\/02\/pepe-escobar-oscar-hora-mais-escura_22.html<\/a>). Mas por hora, em termos de justi\u00e7a po\u00e9tica, nada faz mais sentido que o \u00d3scar para Argo, dirigido por Ben Affleck (e coproduzido por Clooney).<\/p>\n<p>Aqueles mais de 6.000 votantes da Academia simplesmente n\u00e3o puderam resistir a um roteiro s\u00f3 muito frouxamente apoiado em fatos, no qual uma Hollywood cheia de recursos salva a CIA. E com certificado de aprova\u00e7\u00e3o by Hollywood, de b\u00f4nus. Assim, como se poderia prever, foi Hollywood premiando-se, ela mesma, com um \u00d3scar, premiando o hiper nacionalismo, her\u00f3is dos EUA e, claro, a vit\u00f3ria dos bons (americanos) sobre os p\u00e9ssimos (iranianos).<\/p>\n<p>E o quanto se torna monumentalmente po\u00e9tica essa justi\u00e7a, quando um filme sobre filme falso, que engana iranianos revolucion\u00e1rios durante a crise dos ref\u00e9ns que se arrastou por 444 dias, \u00e9 coroado como Melhor Filme, s\u00f3 dois dias antes de os EUA e outros membros do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU mais a Alemanha voltarem \u00e0 mesa para discutir se o Ir\u00e3 os estaria enganando \u2013 e construindo uma bomba at\u00f4mica.<\/p>\n<p>Argo obra para provar que o Ir\u00e3 odeia o Sat\u00e3 norte-americano, mas os iranianos amam Hollywood. Tr\u00eas d\u00e9cadas depois, os iranianos n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o facilmente engambel\u00e1veis. Convers\u00e1veis. V\u00e3o at\u00e9 filmar seu contra-Argo. E a absoluta maioria da popula\u00e7\u00e3o \u2013 apesar das dur\u00edssimas san\u00e7\u00f5es impostas por EUA e Uni\u00e3o Europeia \u2013 apoia um programa nuclear civil. Paralelamente, ser\u00e1 engra\u00e7ado observar a performance de Argo de Karachi a Caracas.<\/p>\n<p>Voltando a Hollywood: como Orson Welles ensinou, \u00e9 tudo falso. At\u00e9 o ex-presidente Jimmy Carter admitiu, na CNN, que tudo que se v\u00ea no roteiro de Argo foi obra dos canadenses \u2013 ajudados pelo ent\u00e3o embaixador no Ir\u00e3, Ken Taylor.[3] No Canad\u00e1, todo mundo sabe que foi trabalho dos canadenses. Obviamente, ningu\u00e9m sabe de nada, nos EUA.<\/p>\n<p><strong>Pergunte a Christoph Shultz<\/strong><\/p>\n<p>O que realmente interessa nos \u00d3scars \u00e9 o tapete vermelho \u2013 e a frase imortal \u201cO que voc\u00ea est\u00e1 vestindo?\u201d. Num festival de desastres de guarda-roupa que bem valeriam uma investiga\u00e7\u00e3o do FBI, havia pelo menos Charlize Theron em Dior, Naomi Watts em Armani Priv\u00e9 e Anne Hathaway em Prada para alegrar pupilas fatigadas. \u00c9 o que rodar\u00e1 pelo mundo digital por todo o planeta \u2013 com a maioria os vencedores j\u00e1 esquecidos.<\/p>\n<p>N\u00e3o houve surpresas. Se Daniel Day-Lewis encarnando o Deus dos EUA, tamb\u00e9m conhecido por Lincoln, n\u00e3o levasse seu (3\u00ba) \u00d3scar, a culpa seria de um ciberataque chin\u00eas. Na verdade, houve, sim, uma surpresa: o Zeus de Hollywood, Steven Spielberg, foi descartado, para beneficiar Ang Lee, diretor de Life of Pi. Os mais c\u00e9ticos imediatamente se puseram a dizer que teria a ver com Hollywood estar pivoteando-se na dire\u00e7\u00e3o do lucrativo mercado asi\u00e1tico.<\/p>\n<p>Quentin Tarantino disse que foi o ano dos escritores, no \u00d3scar. Foi mesmo. Faz total sentido que seu cl\u00e1ssico de vingan\u00e7a, Django liberto, tenha recebido os pr\u00eamios de Melhor Roteiro e Melhor Ator Coadjuvante (o mestre vienense Christoph Waltz).<\/p>\n<p>Para Tarantino, s\u00f3 um n\u00famero gigante de cad\u00e1veres pode levar-nos \u00e0 Justi\u00e7a. Pode-se, vez ou outra, desgostar de seus excessos. Mas fato \u00e9 que a sua receita para os EUA \u2013 quando o mal est\u00e1 \u00e0 sua frente, olho no olho, voc\u00ea sai e manda bala \u2013 \u00e9 cr\u00edvel, porque seus personagens s\u00e3o t\u00e3o esplendidamente escritos. N\u00e3o surpreende que o lobby das armas e fan\u00e1ticos de v\u00e1rios calibres da National Rifle Association estejam usando Django como material de divulga\u00e7\u00e3o entre os afro-americanos. Se seguissem Django (\u201co D \u00e9 mudo\u201d) ao p\u00e9 da letra, os EUA p\u00f3s-apocalipse seriam bem parecidos com essa par\u00f3dia de Django Sem Freios.<\/p>\n<p>A Academia pode, sim, ter-se redimido, pelo menos em parte, do caso de amor com a CIA, ao dar o pr\u00eamio de Melhor Roteiro a Tarantino, n\u00e3o a Tony Kushner pelo tot\u00eamico Lincoln. Afinal, Kushner \u2013 e Spielberg \u2013 constru\u00edram seu \u00e9pico antiescravid\u00e3o sem sequer um olhar na dire\u00e7\u00e3o de Frederick Douglass[4] ou de Black Reconstruction in America de W E B DuBois,[5] onde se l\u00ea, bem claramente, que \u201cforam os escravos fugidos que for\u00e7aram os donos de escravos a encarar a alternativa de render-se ao Norte ou render-se aos negros.\u201d<\/p>\n<p>Com pelo menos 200 mil negros no Ex\u00e9rcito e outros 200 mil como coadjuvantes, o norte teria perdido a guerra. Ou, no m\u00ednimo, o sul branco suprematista teria continuado como antes \u2013 escravos e tudo. Nada disso se v\u00ea em Lincoln.<\/p>\n<p>O que os dois \u00d3scars de Django provam mais uma vez \u00e9 que Hollywood \u00e9 doida por vingan\u00e7a. Mesmo que venha sob a forma de um western-spaghetti cripto-psicod\u00e9lico que faria John Ford vomitar. Bem&#8230; ainda \u00e9 um Oeste Selvagem. Mais selvagem que os mais selvagens sonhos selvagens de Jack Nicholson.<\/p>\n<p>Tarantino talvez n\u00e3o seja o roteirista mais qualificado para decodificar Barack Obama, o neo-Lincoln. Que tal um western-gourmet que mostre a transi\u00e7\u00e3o da Guerra Global ao Terror para a guerra invis\u00edvel, de sombras, enquanto, no plano interno, o neo-Lincoln faz, do controle de armas misturado com drones de vigil\u00e2ncia, meio de vida.<\/p>\n<p>Ou Christoph Waltz, no papel do transviado John Brennan \u2013 confessor do ent\u00e3o diretor da CIA, George Tenet, absolutamente bem informado e atualizado sobre \u201cfatos e intelig\u00eancia adaptados em torno da pol\u00edtica\u201d para justificar a guerra contra o Iraque, e, depois, definindo os par\u00e2metros para a tortura e buscando, para eles, a aprova\u00e7\u00e3o do Departamento de Justi\u00e7a .<\/p>\n<p>Imaginem uma cena, com Waltz, e o talento que \u00e9 sua marca registrada \u2013 em depoimento ante a Comiss\u00e3o de Intelig\u00eancia do Senado \u2013, como Brennan, no in\u00edcio desse m\u00eas \u2013, dizendo que \u201cos regimes em Teer\u00e3 e Piongueangue continuam empenhados em construir armas at\u00f4micas e sistemas de transporte e disparo de m\u00edsseis bal\u00edsticos intercontinentais.&#8221;<\/p>\n<p>Argo \u00e9 para mariquinhas. O neg\u00f3cio agora \u00e9 Obamabomber Desembestado.<\/p>\n<hr \/>\n<p>[1] Sobre a \u2018apari\u00e7\u00e3o surpresa\u2019 de Michelle Obama, em\u00a0<a href=\"http:\/\/goo.gl\/rJn5N\" target=\"_blank\">http:\/\/goo.gl\/rJn5N<\/a><\/p>\n<p>[2] Sobre ele, em\u00a0<a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Hunter_S._Thompson\" target=\"_blank\">http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Hunter_S._Thompson<\/a><\/p>\n<p>[3]\u00a0<a href=\"http:\/\/goo.gl\/Jt8Cs\" target=\"_blank\">http:\/\/goo.gl\/Jt8Cs<\/a><\/p>\n<p>[4] Sobre ele, em\u00a0<a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Frederick_Douglass\" target=\"_blank\">http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Frederick_Douglass<\/a><\/p>\n<p>[5] W. E. B. Du Bois, Black Reconstruction in America (1935). Sobre o livro, ver\u00a0<a href=\"http:\/\/goo.gl\/SG9VN\" target=\"_blank\">http:\/\/goo.gl\/SG9VN<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.patrialatina.com.br\/editorias.php?idprog=d41d8cd98f00b204e9800998ecf8427e&amp;cod=11054\" target=\"_blank\">http:\/\/www.patrialatina.com.br\/editorias.php?idprog=d41d8cd98f00b204e9800998ecf8427e&amp;cod=11054<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\ncloudfront.net\n\n\n\n\n\n\n\n\nPepe Escobar, Asia Times Online\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4380\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-4380","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-18E","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4380","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4380"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4380\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4380"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4380"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4380"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}