{"id":4386,"date":"2013-02-27T21:49:09","date_gmt":"2013-02-27T21:49:09","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4386"},"modified":"2017-08-25T00:58:04","modified_gmt":"2017-08-25T03:58:04","slug":"milhares-de-bolivianos-sao-escravos-em-sp-em-nome-de-kevin-corinthians-podia-gritar-por-eles","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4386","title":{"rendered":"Milhares de bolivianos s\u00e3o escravos em SP. Em nome de Kevin, Corinthians podia gritar por eles"},"content":{"rendered":"\n<p>A \u00f3bvia ideia de que a morte de algu\u00e9m muito jovem \u00e9 uma aberra\u00e7\u00e3o, algo absolutamente sem prop\u00f3sito, absurdo, veio pela primeira vez l\u00e1 atr\u00e1s para mim de forma pouco usual. Pelos versos de Ednardo, com seu belo \u201cPav\u00e3o Misterioso\u201d, parei pra pensar naquele pedido. \u201cMe poupe do vexame\/de morrer t\u00e3o mo\u00e7o\u201d. O complemento do verso \u00e9 absolutamente arrebatador: \u201cMuita coisa ainda quero olhar\u201d.<\/p>\n<p>A estupidez de poucos e a omiss\u00e3o de muitos (ou quem sabe de todos n\u00f3s) n\u00e3o pouparam Kevin Espada de morrer t\u00e3o mo\u00e7o. Catorze anos. Muita coisa ainda pra olhar&#8230;<\/p>\n<p>Nem \u00e9 preciso repetir o chav\u00e3o de que nada a ser feito traz essa vida de volta. Mas \u00e9 poss\u00edvel que muita coisa se fa\u00e7a em nome de Kevin.<\/p>\n<p>Aqui j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o em quest\u00e3o eventuais decis\u00f5es da justi\u00e7a, o destino do Corinthians em uma competi\u00e7\u00e3o, uma eventual puni\u00e7\u00e3o para o San Jose. Tudo isso deve ser exemplar. Mas \u00e9 poss\u00edvel ir al\u00e9m, muito al\u00e9m.<\/p>\n<p>Alguns pronunciamentos foram exemplares e transpiravam sentimento de nobreza no dia da trag\u00e9dia. Ainda que a vida e a profiss\u00e3o tenham me ensinado a desconfiar muito de tudo o que se fala diante das c\u00e2maras e de bons mo\u00e7os do pau oco com os quais cruzei por esses anos todos e me ensinaram a preferir os gauches, n\u00e3o dava para n\u00e3o se impressionar ou n\u00e3o acreditar nas palavras e posicionamento de Tite, Edu Gaspar e outros. E ainda tamb\u00e9m que jamais me pare\u00e7a correto cobrar de algu\u00e9m gestos que devem ser espont\u00e2neos ou naturais, tais posturas me inspiram a pedir algo mais para eles, muito al\u00e9m das decis\u00f5es esportivas. Junto a eles o zagueiro Paulo Andr\u00e9, sujeito de ideias claras e sempre disposto a boas causas, poderia se engajar nisso.<\/p>\n<p>Desde que a not\u00edcia explodiu, n\u00e3o paro de pensar na esta\u00e7\u00e3o de \u00f4nibus de El Alto, perto de La Paz. Os \u00f4nibus partindo para Oruro, Cochabamba&#8230;Kevin deve ter passado naquele peda\u00e7o esquecido de mundo quando ia em busca do sonho em ver seu time.<\/p>\n<p>Passei por l\u00e1 quando fiz o document\u00e1rio \u201cEscravos do S\u00e9culo XXI\u201d, para mostrar onde eram arregimentados os bolivianos que vinham para o Brasil, onde viram escravos. \u00c9 isso mesmo, trabalho em regime an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o, em pleno s\u00e9culo XXI. Em S\u00e3o Paulo. Milhares de bolivianos no auge de sua for\u00e7a. Escravizados. Em Itaquera, no Braz, na Mooca, Pari, Liberdade. Na cara de onde teremos uma Copa do Mundo. Ladeado por escravos. Vi tudo isso e digo: que ningu\u00e9m pense que falar em escravid\u00e3o \u00e9 exagero. Fica o convite para quem tiver d\u00favida para o link no you tube:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=D2TbuieIW1k\" target=\"_blank\">http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=D2TbuieIW1k<\/a><\/p>\n<p>Quando uma trag\u00e9dia dessas acontece, ficamos sempre a pensar no absurdo da morte aos 14 anos. No que um menino desses podia se transformar. M\u00e9dico, engenheiro, jogador, advogado. N\u00e3o conhe\u00e7o a hist\u00f3ria pessoal de Kevin, se \u00e9 de uma minoria que tem alguma condi\u00e7\u00e3o para tanto. Assim, sem conhecer, pensando em milhares de jovens de seu pa\u00eds, digo que uma imensa possibilidade para Kevin era tragicamente virar um escravo numa f\u00e9tida confec\u00e7\u00e3o clandestina de S\u00e3o Paulo. Que revenderia o produto de seu trabalho ilegalmente tomado para uma grande corpora\u00e7\u00e3o. Que em busca dos lucros fingiria n\u00e3o saber de onde vem os frutos da \u201cflexibiliza\u00e7\u00e3o laboral\u201d que alimentam. Milhares de meninos e meninas de La Paz, Cochabamba, Oruro viram escravos aqui. Em pleno s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>Como est\u00e1 no impressionante depoimento de Maria Eugenia (que segue com parte transcrita abaixo) , que conseguiu fugir de uma dessas senzalas e chegou at\u00e9 a Pastoral do Migrante, (cujo trabalho t\u00e3o maravilhoso nos faz ainda acreditar na esp\u00e9cie) s\u00e3o de jovens do interior como Oruro que os escroques que escravizam mais gostam, pela ingenuidade deles. (O depoimento parece cena de novela das oito e den\u00fancias de tr\u00e1fico humano mas est\u00e3o no nosso nariz).<\/p>\n<p>\u00c9 claro que o exerc\u00edcio de falar em tal destino para Kevin \u00e9 algo torto. Mas aqui se justifica. Porque me ocorre que algo que daria um pouco de sentido ao que n\u00e3o tem sentido (\u201cnem nunca ter\u00e1&#8230;\u201d), \u00e9 que alguns desses corintianos t\u00e3o l\u00facidos como Tite, Paulo Andr\u00e9, Edu Gaspar, viessem a se mobilizar contra a escravid\u00e3o de bolivianos em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Tenham certeza de que muitos deles a essa hora nos por\u00f5es do Braz, Bom Retiro, Mooca, Pari, Itaquera, se apegaram ao Corinthians. Kevin poderia acabar ali. Cada voz que se levante contra isso, uma faixa entrando em campo contra o trabalho escravo de bolivianos em S\u00e3o Paulo, uma entrevista contra essa aberra\u00e7\u00e3o&#8230; Seria em nome de quem morreu t\u00e3o mo\u00e7o e n\u00e3o pode olhar muita coisa que queria, como ensinou Ednardo.<\/p>\n<p>Kevin n\u00e3o volta. Mas h\u00e1 muito para se fazer por ele. No futebol e muito al\u00e9m dele.<\/p>\n<p>TRECHOS DO DEPOIMENTO DE MARIA EUGENIA \u2013 BOLIVIANA V\u00cdTIMA DE TRABALHO ESCRAVO EM OFICINA DE ITAQUERA<\/p>\n<p>\u201cEu trabalhava na cozinha em Bol\u00edvia, e veio uma senhora, 2, 3 vezes se fez de amiga. Eu ganhava uns 100 reais l\u00e1. Ela falou que ia pagar 300 d\u00f3lares no Brasil. Eu achei que era boa oportunidade. Tenho seis filhos, falei com eles, era boa oportunidade.\u201d<\/p>\n<p>\u201cdisse que ia pagar 350 dolares pra uma filha que viesse, s\u00e3o 650 d\u00f3lares ao m\u00eas. Ela pagou a vacina de febre amarela\u201d<\/p>\n<p>\u201cpagou as passagens de La Paz\u201d<\/p>\n<p>\u201cquando entramos na sua casa, apenas passamos pela porta, ela passou o cadeado na porta. Botou o cadeado e eu perguntei. Ela disse que entra muitos ladr\u00f5es, eu disse t\u00e1 bom&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u201cuma semana, s\u00e1bado, n\u00e3o pod\u00edamos sair, est\u00e1vamos presa. Trabalh\u00e1vamos desde as 7 da manha at\u00e9 meia-noite, uma da manh\u00e3, quando tinha que se entregar o trabalho. Eu cozinhava pra muitas pessoas. \u201c<\/p>\n<p>\u201cquando se cumpriu 1 m\u00eas, ela n\u00e3o quis me pagar, a despeito deu ter trabalhado. A comida era muito ruim, n\u00e3o me dava coisas pra cozinhar. Me dava um pouco de carne pra 20 pessoas\u201d<\/p>\n<p>\u201cvoc\u00ea tem que ficar 2, 3 meses pra que paguem a passagem, mas fechadas, sem ir a nenhum lugar.\u201d<\/p>\n<p>\u201cpassou o segundo m\u00eas, agora me pague. N\u00e3o que voc\u00ea n\u00e3o tem direito.\u201d<\/p>\n<p>\u201cem total era 400 reais, que nos dev\u00edamos. Como n\u00e3o pod\u00edamos pagar em dois meses?\u201d<\/p>\n<p>\u201c\u00e9 escravid\u00e3o; voc\u00ea acorda as 6h30, toma caf\u00e9, as 7h est\u00e1 nas m\u00e1quinas de costura, ate as 12h. das 12 as 12h30, almo\u00e7o, meia-hora. Na m\u00e1quina te trazem o caf\u00e9 as 17h. E das 17 a meia-noite, est\u00e1 na maquina. Diga-me: o que se chama isso?<\/p>\n<p>\u201c\u00e9 escravid\u00e3o. N\u00e3o pode imaginar que existem pessoas que v\u00e3o na Bol\u00edvia, botem an\u00fancios na radio, jornal: \u2018viaje para Brasil, 400 dolares,\u201d e quando chega aqui com essa ilus\u00e3o, te p\u00f5e a chave. Isso \u00e9 muito ruim\u201d<\/p>\n<p>\u201celes fechavam o telefone. Abaixo era a oficina, em cima os quartos\u201d<\/p>\n<p>\u201conde eu trabalhava em Itaquera, as mulheres ficavam aqui, os homens aqui. \u201c<\/p>\n<p>\u201cUm banheiro pra 20 pessoas. Um lugar pequeno, voc\u00ea n\u00e3o sabe como \u00e9, sofri muito\u201d<\/p>\n<p>\u201cquando um se resfria, se adoece, todos adoecem. E as trabalhando at\u00e9 meia-noite, as costas doem&#8230;voce n\u00e3o sabe, \u00e9 muito doloroso pros bolivianos. Eu vi muita dor ali\u201d<\/p>\n<p>\u201cimagina quem vem do interior, Oruro, outros estados, chegam a La Paz. A esses s\u00e3o os que buscam, os donos de oficinas, os que n\u00e3o est\u00e3o integrados, por isso eles se calam, abaixam a cabe\u00e7a\u201d<\/p>\n<p>\u201cnos trouxeram n\u00f3s duas. No outro \u00f4nibus, trouxeram 5 meninos, 17, 18 anos, 15 anos. Vieram at\u00e9 santa cruz com a gente, depois passaram por Paraguai. Mas os menores passaram por Paraguai.\u201d<\/p>\n<p>\u201cmuita gente sofrendo, presa. Mais do que tudo, eles procuram meninos, o que me mais me d\u00f3i \u00e9 que eles procuram meninos de 15 anos, 18 anos, 17, 15 anos. \u00c9 muito ruim, n\u00e3o pode ser&#8230;Quando eu voltar a Bol\u00edvia, vou fazer uma den\u00fancia, a todos&#8230;Eles anunciam nas r\u00e1dios, na tv, nos jornais, oferecendo 400, 500 dolares&#8230;\u201d<\/p>\n<p><em>Texto do jornalista L\u00facio de Castro (ESPN)<\/em><\/p>\n<p> <object width=\"100%\" height=\"385\"><param name=\"movie\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/D2TbuieIW1k\" \/><param name=\"allowFullScreen\" value=\"true\" \/><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\" \/><\/object> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\n  \n\n\n\n\n\n\n\n\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4386\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-4386","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-18K","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4386","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4386"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4386\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4386"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4386"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4386"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}