{"id":4391,"date":"2013-03-01T13:32:59","date_gmt":"2013-03-01T13:32:59","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4391"},"modified":"2017-08-25T01:11:06","modified_gmt":"2017-08-25T04:11:06","slug":"egito-notas-sobre-a-revolucao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4391","title":{"rendered":"EGITO: NOTAS SOBRE A REVOLU\u00c7\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p><strong> \u201c<a href=\"http:\/\/weekly.ahram.org.eg\/News\/1157\/31\/Mastering-the-art-of-revolution.aspx\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mastering the art of revolution<\/a>\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Traduzido p[elo pessoal da\u00a0<strong>Vila Vudu<\/strong><\/p>\n<p><strong>TAHRIR<\/strong><\/p>\n<p>A Pra\u00e7a Tahrir, no Cairo, foi o lar ic\u00f4nico da Revolu\u00e7\u00e3o desde que irrompeu, dia 25\/1\/2011. Durante os 18 dias de revolta, antes da deposi\u00e7\u00e3o do ex-presidente Hosni Mubarak, Tahrir deu voz \u00e0s demandas de todos os grupos da opini\u00e3o p\u00fablica revolucion\u00e1ria, que pediam p\u00e3o, liberdade, justi\u00e7a social e o fim de um regime que se arrastava por 30 anos, j\u00e1 decadente. Gente de todo o espectro social, pol\u00edtico e econ\u00f4mico acorreu ao epicentro da cidade do Cairo, \u00e0s vezes, aos milh\u00f5es. Estavam decididos. Eram unidos.<\/p>\n<p>Durante os \u00faltimos dois anos, Tahrir viveu dias de celebra\u00e7\u00e3o e dias de luto. Muitos foram mortos ali pelas for\u00e7as de seguran\u00e7a de Mubarak. Montaram-se hospitais de campanha na pra\u00e7a e em torno da pra\u00e7a para tratar manifestantes contra os quais se lan\u00e7avam bombas lacrimog\u00eaneas, canh\u00f5es de \u00e1gua e tiros de muni\u00e7\u00e3o real, ou feridos pela pol\u00edcia ou por soldados do ex\u00e9rcito. Os funerais dos m\u00e1rtires da Revolu\u00e7\u00e3o \u2013 os mortos nos sangrentos eventos da Batalha do Camelo, nos confrontos na rua Mohamed Mahmoud e diante do pr\u00e9dio do Gabinete \u2013 tamb\u00e9m v\u00e1rias vezes cruzaram a pra\u00e7a. Tahrir foi o centro de uma na\u00e7\u00e3o tomada de euforia quando Mubarak foi afinal expulso da presid\u00eancia, dia 11\/2\/2011.<\/p>\n<p>Durante 18 dias, at\u00e9 que Mubarak afinal partisse, Tahrir mostrou uma face do Egito que o mundo jamais vira. Durante o dia, a multid\u00e3o enfrentava os ataques das for\u00e7as de seguran\u00e7a; \u00e0 noite, as pessoas sentavam-se em c\u00edrculos, discutindo o futuro e as mudan\u00e7as que a revolu\u00e7\u00e3o teria de trazer. Cozinhavam, lavavam as panelas e tomavam banho na pra\u00e7a. Cantavam, \u00e0s vezes\u00a0<em>a capella<\/em>, \u00e0s vezes acompanhando um viol\u00e3o, ou assistiam a concertos improvisados de Rami Essam, que ficou conhecido como \u201co cantor da Revolu\u00e7\u00e3o\u201d. Recitavam poemas em que denunciavam a injusti\u00e7a e a corrup\u00e7\u00e3o do governo Mubarak, o assassinato de companheiros, ou que pintavam um futuro risonho, otimista, do amanh\u00e3, j\u00e1 sem Mubarak.<\/p>\n<table border=\"0\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/4.bp.blogspot.com\/-aNHt6upQaVM\/US0oJG8ua4I\/AAAAAAAAchE\/dLeawBJlLAI\/s1600\/Egito_Pra%C3%A7a_Tahrir_11-2-2013.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/4.bp.blogspot.com\/-aNHt6upQaVM\/US0oJG8ua4I\/AAAAAAAAchE\/dLeawBJlLAI\/s1600\/Egito_Pra%C3%A7a_Tahrir_11-2-2013.jpg?w=747\" border=\"0\" \/><\/a><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Pra\u00e7a Tahrir em 11\/2\/2013 no segundo anivers\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>A Pra\u00e7a Tahrir realmente conquistou a imagina\u00e7\u00e3o do mundo, ainda mais depois que os revolucion\u00e1rios, em gesto civilizado, limparam e repintaram a pra\u00e7a antes de, afinal, partirem, dia 12\/2\/ 2011. Contudo, poucos meses depois, j\u00e1 surgiam fissuras entre os revolucion\u00e1rios. Come\u00e7aram as divis\u00f5es pol\u00edticas, e Tahrir nunca mais ecoou demandas unificadas. Passou a manifestar, isso sim, o grito de uma na\u00e7\u00e3o dividida entre, de um lado, um governo de religiosos, da Fraternidade Mu\u00e7ulmana, dos salafistas e de outras for\u00e7as islamistas e de militares do Conselho Supremo das For\u00e7as Armadas [orig.\u00a0<em>Supreme Council of the Armed Forces (SCAF)<\/em>, que estava encarregado da fase de transi\u00e7\u00e3o, mas que, de fato, era a continua\u00e7\u00e3o de 60 anos de governo militar; e, de outro lado, um governo civil. E todos, sempre, sob amea\u00e7as de que o pa\u00eds despencava num abismo econ\u00f4mico. Cada um desses dois grandes blocos organizou seus com\u00edcios e \u201cmarchas de milh\u00f5es\u201d na Pra\u00e7a Tahrir, os dois lados decididos a mostrar que era o mais forte.<\/p>\n<p>A \u201cSexta-feira da Reuni\u00e3o\u201d, dia 29\/7\/2011 foi organizada para unir todas as for\u00e7as, sob plataforma \u00fanica de demandas. Mas, naquele dia, desde cedo, centenas de milhares de afiliados das for\u00e7as islamistas tomaram a pra\u00e7a, cercando-a e impedindo a entrada dos demais grupos. Ergueram bandeiras negras e chamaram de ateus os que falavam de democracia e os liberais em geral. O dia terminou com a m\u00eddia falando de uma \u201cSexta-feira de Kandahar\u201d \u2013 cidade afeg\u00e3 governadas por islamistas conservadores, e para onde convergiam, atra\u00eddos como por um im\u00e3, organiza\u00e7\u00f5es como a Al-Qaeda e os Talib\u00e3. Dia 2\/11\/2011, aconteceu o segundo ato organizado pelos islamistas, sob o mote de \u201c6\u00aa-feira de aplicar a Xaria\u201d, que outros chamaram de \u201cKandahar II\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/4.bp.blogspot.com\/-hF3t4YTi8N4\/US0m8VwVXeI\/AAAAAAAAcgw\/oZt9sOwHlY0\/s1600\/Egito.MultidaoDoisMilhoes.gif\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/4.bp.blogspot.com\/-hF3t4YTi8N4\/US0m8VwVXeI\/AAAAAAAAcgw\/oZt9sOwHlY0\/s1600\/Egito.MultidaoDoisMilhoes.gif?w=747\" border=\"0\" \/><\/a><\/p>\n<p>No primeiro anivers\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o, a Pra\u00e7a Tahrir viu chegar mais marchas organizadas por for\u00e7as revolucion\u00e1rias. Repetiram os cantos da Revolu\u00e7\u00e3o, a qual ainda n\u00e3o atendera nenhuma das demandas revolucion\u00e1rias. Do outro lado da pra\u00e7a, for\u00e7as islamistas celebravam uma recente vit\u00f3ria no n\u00famero de eleitos para o Parlamento. E, organizados pelos militares do SCAF, outros manifestantes exigiam, tamb\u00e9m na Pra\u00e7a Tahrir, a antecipa\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es presidenciais, com muitos ainda sem terem definido o que queriam que viesse antes, as elei\u00e7\u00f5es, ou a reda\u00e7\u00e3o de uma nova Constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<table border=\"0\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/3.bp.blogspot.com\/-cbU5jDFbHlk\/US0olSRLxyI\/AAAAAAAAchU\/UGaRV10tGcg\/s1600\/Mohamed_Mursi1.jpeg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/3.bp.blogspot.com\/-cbU5jDFbHlk\/US0olSRLxyI\/AAAAAAAAchU\/UGaRV10tGcg\/s1600\/Mohamed_Mursi1.jpeg?w=747\" border=\"0\" \/><\/a><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Mohamed Mursi<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Quando o candidato da Fraternidade Mu\u00e7ulmana, Mohamed Mursi, foi anunciado presidente, dia 24\/6\/2012, com pequena margem de 49% dos votos, os islamistas acorreram \u00e0 Pra\u00e7a Tahrir para celebrar. O pr\u00f3prio Mursi l\u00e1 esteve, foi empossado \u00e0 vista do povo e anunciou que \u201cos objetivos da Revolu\u00e7\u00e3o foram, afinal, conquistados\u201d. As for\u00e7as revolucion\u00e1rias, liberais em geral e outras, deixaram-se ficar \u00e0 margem da cena, chorando o que chamavam de \u201ca morte da Revolu\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Dia 22\/11\/2012, a Pra\u00e7a Tahrir voltou a brilhar. As pessoas outra vez convergiram para o ponto onde a Revolu\u00e7\u00e3o nascera, para rejeitar furiosamente a declara\u00e7\u00e3o constitucional, assinada por Mursi, que lhe dava poderes ditatoriais e o punha acima da lei. A declara\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m blindava a Assembleia Constituinte, super recheada de islamistas, encarregada de redigir a nova Constitui\u00e7\u00e3o, e o Conselho da\u00a0<em>Shura<\/em>, contra qualquer processo judicial que contestasse sua legitimidade; e expulsava ilegalmente o Procurador-Geral do pa\u00eds, Abdel-Meguid Mahmoud; para seu lugar foi nomeado Tallat Abdallah, da Fraternidade Mu\u00e7ulmana.<\/p>\n<p>Organizou-se imediatamente um\u00a0<em>sit-in<\/em>, ou acampamento: montaram-se cerca de 250 tendas, na pra\u00e7a e em torno da pra\u00e7a. Mais de 30 partidos pol\u00edticos, al\u00e9m de grupos civis e movimentos revolucion\u00e1rios e sindicatos de todos os governoratos eg\u00edpcios integraram-se \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o. Havia ali at\u00e9 indiv\u00edduos e grupos sem qualquer filia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Eram pelo menos 1.500 manifestantes acampados na Pra\u00e7a Tahrir; o n\u00famero dobrou depois que se intensificaram os ataques das for\u00e7as de seguran\u00e7a; e ultrapassou 1 milh\u00e3o de manifestantes em ocasi\u00f5es especiais, como, dia 30\/11, na \u201cSexta-feira do Sonho do M\u00e1rtir\u201d.<\/p>\n<p>Os protestos cresceram quando Mursi deu \u00e0 Assembleia Constituinte \u2013 da qual j\u00e1 se haviam retirado representantes da sociedade civil e da mesquita de Al-Azhar, em sinal de protesto contra a domina\u00e7\u00e3o pelos islamistas \u2013 prazo de dois meses para acabar de redigir a nova Constitui\u00e7\u00e3o, para dar tempo de os partidos renitentes reconsiderarem e voltarem \u00e0 Assembleia. Mas passadas apenas 48 horas, a Assembleia Constituinte deu por conclu\u00eddos os seus trabalhos e exibiu projeto de Constitui\u00e7\u00e3o, de 236 artigos, pondo fim a qualquer esperan\u00e7a de outras for\u00e7as, al\u00e9m dos islamistas, participassem do trabalho de redigir a nova Constitui\u00e7\u00e3o do Egito. Mursi, imediatamente, convocou um referendo, para dia 15\/12, ignorando todas as demandas de grupos n\u00e3o isl\u00e2micos, que contavam com adiar o referendo at\u00e9 que fosse poss\u00edvel construir algum consenso popular.<\/p>\n<p>Esse clima pol\u00edtico foi o combust\u00edvel que voltou a energizar os protestos em Tahrir. Dessa vez, havia unidade nas demandas: ou Mursi revogava a declara\u00e7\u00e3o constitucional e adiava o referendo, ou \u201cFora Mursi\u201d. Mas nada aconteceu. O referendo foi realizado na data prevista, e a Constitui\u00e7\u00e3o foi aprovada com 63,8% de votos a favor.<\/p>\n<p>Hoje, os manifestantes continuam na Pra\u00e7a. E Mursi continua de costas viradas para eles.<\/p>\n<p><strong>O PAL\u00c1CIO PRESIDENCIAL AL-ITTIHADIYA<\/strong><\/p>\n<p>Localizado na rua Al-Mirghani, no elegante bairro de Heli\u00f3polis, o pal\u00e1cio presidencial Al-Ittihadiya n\u00e3o havia sido local de protestos at\u00e9 recentemente (na noite em que Mubarak foi deposto, houve celebra\u00e7\u00f5es frente ao pal\u00e1cio), quando j\u00e1 haviam fracassado todas as demais tentativas de chamar a aten\u00e7\u00e3o do presidente.<\/p>\n<p>A controversa declara\u00e7\u00e3o constitucional que Mursi assinou dia 22\/11 incomodou muita gente, fora dos c\u00edrculos islamistas. Houve uma primeira manifesta\u00e7\u00e3o, exigindo que Mursi anulasse o decreto. Duas semanas depois, nada mudara. Estava acabando o tempo, sobretudo depois que Mursi marcou para 15\/12 o referendo para aprovar a nova Constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Dia 4\/11, v\u00e1rias marchas, de v\u00e1rios pontos do Cairo, dirigiram-se para o pal\u00e1cio presidencial. Esperavam-se poucas centenas de manifestantes. Mas \u00e0s 20h, quando todas as marchas j\u00e1 haviam chegado, a cena era impressionante. Operadores de celulares informaram que registraram mais de 700 mil chamadas da regi\u00e3o pr\u00f3xima ao pal\u00e1cio. Homens, mulheres, jovens e velhos, ricos, pobres, maltrapilhos, de todo o espectro social e econ\u00f4mica estavam \u00e0 frente de Al-Ittihadiya. J\u00e1 n\u00e3o cantavam nem exigiam a revoga\u00e7\u00e3o da declara\u00e7\u00e3o constitucional: pediam o fim do governo Mursi e da Fraternidade Mu\u00e7ulmana.<\/p>\n<table border=\"0\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/3.bp.blogspot.com\/-b-dqzf-x0BU\/US0pg9yQ--I\/AAAAAAAAciA\/ZKEku8AYZB8\/s1600\/Egito_protesto_em_Al-Ittihadiya%2Bem%2B4-12-2013.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/3.bp.blogspot.com\/-b-dqzf-x0BU\/US0pg9yQ--I\/AAAAAAAAciA\/ZKEku8AYZB8\/s1600\/Egito_protesto_em_Al-Ittihadiya%2Bem%2B4-12-2013.jpg?w=747\" border=\"0\" \/><\/a><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Protesto em frente o pal\u00e1cio de Al-Ittihadiya (sede do governo eg\u00edpcio) em 4\/12\/2012<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>As for\u00e7as de seguran\u00e7a, a pol\u00edcia antitumultos, a Guarda Presidencial e funcion\u00e1rios do Minist\u00e9rio do Interior estavam no pal\u00e1cio. O pal\u00e1cio estava muito fortemente protegido, com rolos de arame farpado que mantinham os manifestantes \u00e0 dist\u00e2ncia. Correndo grave risco, jovens manifestantes puseram-se a empurrar os rolos de arame farpado; as for\u00e7as de seguran\u00e7a responderam com bombas de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo. Por um momento, o pa\u00eds prendeu a respira\u00e7\u00e3o, vendo delinear-se ali um cen\u00e1rio dos mais desastrosos. A multid\u00e3o recuou, procurando abrigo nas ruelas estreitas\u00a0em volta de Al-Mirghani. Na\u00a0cabe\u00e7a de todos havia medo e morte.<\/p>\n<p>Aos poucos, com a fuma\u00e7a das bombas j\u00e1 dispersa no ar, ouviram-se gritos de que j\u00e1 era poss\u00edvel voltar \u00e0 frente do pal\u00e1cio. Para surpresa geral, as for\u00e7as de seguran\u00e7a haviam sumido, deixando o pal\u00e1cio presidencial sem qualquer prote\u00e7\u00e3o. A multid\u00e3o festejou, aos gritos, a not\u00edcia de que Mursi, aparentemente, escapulira pela porta dos fundos, realmente assustado ante a amea\u00e7a daquela enorme multid\u00e3o. Em minutos, os manifestantes formaram uma corrente humana em torno do pal\u00e1cio Al-Ittihadiya. Quisessem, poderiam ter invadido e ocupado o pal\u00e1cio, mas decidiram n\u00e3o faz\u00ea-lo. Em vez disso, grafitaram as paredes externas com imagens dos m\u00e1rtires e slogans contra Mursi e seu grupo.<\/p>\n<p>Enquanto parte dos manifestantes anunciavam que permaneceriam acampados em frente ao pal\u00e1cio at\u00e9 que Mursi respondesse suas exig\u00eancias, a Frente de Salva\u00e7\u00e3o Nacional, de oposi\u00e7\u00e3o, deu um ultimato ao presidente: 48 horas para anular a declara\u00e7\u00e3o constitucional.<\/p>\n<p>No dia seguinte, \u00e0s 3h da tarde, com dezenas manifestantes pacificamente acampados \u00e0 frente do pal\u00e1cio, as mil\u00edcias islamistas atacaram. Rasgaram as tendas e espancaram os manifestantes, inclusive mulheres. No in\u00edcio da noite, o n\u00famero de islamista aumentara; e tamb\u00e9m aumentara o n\u00famero de manifestantes. As mil\u00edcias portavam facas, porretes, pistolas e muni\u00e7\u00e3o real e g\u00e1s lacrimog\u00eaneo. Os manifestantes portavam pedras. As For\u00e7as da Seguran\u00e7a Central foram chamadas, mas n\u00e3o intervieram. L\u00e1 ficaram, assistindo a uma batalha sangrenta entre os dois grupos, que continuou at\u00e9 as primeiras horas do dia seguinte. Houve oito mortos e mais de 750 feridos.<\/p>\n<table border=\"0\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/1.bp.blogspot.com\/-cKoigh7hdWA\/US0sA1tH8HI\/AAAAAAAAci0\/1QLn5w6Kgrk\/s1600\/Egito_batalha_campal_entre_manifestantes-e-for%3Bcas-armadas-Minist%C3%A9rio_da_defesa_no_Cairo.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/1.bp.blogspot.com\/-cKoigh7hdWA\/US0sA1tH8HI\/AAAAAAAAci0\/1QLn5w6Kgrk\/s1600\/Egito_batalha_campal_entre_manifestantes-e-for%3Bcas-armadas-Minist%C3%A9rio_da_defesa_no_Cairo.jpg?w=747\" border=\"0\" \/><\/a><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Batalha Campal entre manifestantes e FFAA, em frente ao Minist\u00e9rio da Defesa<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Dia 7\/12, os manifestantes voltaram, dessa vez\u00a0em maior n\u00famero. Outra\u00a0vez, grafitaram as paredes externas do pal\u00e1cio \u2013 que haviam sido pintadas pelos islamistas, n\u00e3o por funcion\u00e1rios municipais \u2013, com slogans contra Mursi. E outra vez acamparam frente ao pal\u00e1cio, erguendo cartazes que diziam \u201cfora a Fraternidade Mu\u00e7ulmana\u201d e \u201cfora o supremo l\u00edder\u201d. Esse acampamento l\u00e1 est\u00e1, frente ao pal\u00e1cio presidencial, at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p><strong>O JUDICI\u00c1RIO<\/strong><\/p>\n<p>O pr\u00e9dio da Suprema Corte Constitucional [orig.\u00a0<em>Supreme Constitutional Court (SCC)<\/em>] d\u00e1 frente para a Corniche Maadi. Como a mais alta autoridade judicial no Egito, a SCC \u00e9 respeitada em todo o mundo, mas \u00e9 vista pelos islamistas eg\u00edpcios como institui\u00e7\u00e3o que se mant\u00e9m fiel a Mubarak. A SCC deu posse a Mursi na presid\u00eancia dia 30\/6\/2012, mas, para grande desgosto dos islamistas, logo no m\u00eas seguinte ordenou que o Parlamento, no qual os islamistas s\u00e3o maioria, fosse desconstitu\u00eddo. Desde ent\u00e3o, os islamistas vivem \u00e0s turras com o SCC. Come\u00e7ou na noite de 1\u00ba\/12, quando Mursi marcou o referendo da nova Constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Durante a manifesta\u00e7\u00e3o que os islamistas chamam de \u201cprotesto de um milh\u00e3o\u201d na pra\u00e7a Al-Nahda em Giz\u00e9 \u2013 espa\u00e7o onde n\u00e3o cabem nem 50 mil pessoas, segundo o governador de Giz\u00e9 \u2013 e que n\u00e3o passou de manifesta\u00e7\u00e3o de for\u00e7a, sob o pretexto de apoio ao presidente e \u00e0s suas decis\u00f5es, l\u00edderes islamistas convocaram seus seguidores para uma manifesta\u00e7\u00e3o em frente ao pr\u00e9dio da SCC, dia seguinte, antes de a Corte dar seu veredicto em dois processos muito discutidos: um contestava a constitucionalidade da lei sobre elei\u00e7\u00f5es para o Conselho da\u00a0<em>Shura<\/em> \u2013 dominado pelos islamistas; o outro contestava a legitimidade da Assembleia Constituinte que, dia 29\/11, havia atropeladamente aprovado o projeto de nova Constitui\u00e7\u00e3o (depois que for\u00e7as civis, crist\u00e3s e da mesquita Al-Azhar desligaram-se da Assembleia , em protesto contra a domina\u00e7\u00e3o pelos islamistas.<\/p>\n<p>Dezenas de islamistas partiram imediatamente para o pr\u00e9dio da SCC; mas, na manh\u00e3 seguinte, na manh\u00e3 de 2\/12, j\u00e1 eram milhares. Apesar da presen\u00e7a de for\u00e7as policiais, os ju\u00edzes da SCC nem conseguiram entrar no pr\u00e9dio, cujas entradas foram bloqueadas pelos islamistas, alguns dos quais escalaram as cercas externas e pularam para dentro do p\u00e1tio de entrada. A SCC descreveu aquele domingo como \u201co pior dia de toda a hist\u00f3ria do judici\u00e1rio\u201d. Pela primeira vez na hist\u00f3ria, a Corte Suprema eg\u00edpcia decidiu suspender seus trabalhos por tempo indefinido; disseram que \u201cn\u00e3o voltaremos a trabalhar at\u00e9 que os ju\u00edzes possam julgar sem press\u00f5es psicol\u00f3gicas ou materiais\u201d.<\/p>\n<p>Na cal\u00e7ada, em frente ao pr\u00e9dio, os islamistas celebraram sua \u201cvit\u00f3ria\u201d, com cantos e slogans em que atacavam os ju\u00edzes e as for\u00e7as de oposi\u00e7\u00e3o. Um desses cantos dizia \u201cMursi nos deu a pista. Vamos levar p\u2019r\u00e1 voc\u00eas, num caix\u00e3o\u201d. Exibindo fotos do presidente, descreviam-se como \u201cos verdadeiros revolucion\u00e1rios\u201d e Mursi, seu leg\u00edtimo representante. Para os islamistas, a Corte Suprema deveria ter encerrado os dois processos imediatamente depois de Mursi assinar o decreto constitucional que tornava imunes a qualquer contesta\u00e7\u00e3o judicial o Conselho da\u00a0<em>Shura<\/em> e a Assembleia Constituinte.<\/p>\n<table border=\"0\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/1.bp.blogspot.com\/-IJWbx1XWvRU\/US0qYgOqUDI\/AAAAAAAAciI\/6JV2xWxQUoI\/s1600\/Egito-Manifestantes_islamistas_na_frente_da_suprema_corte_no%2BCairo_em2-12-2012.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/1.bp.blogspot.com\/-IJWbx1XWvRU\/US0qYgOqUDI\/AAAAAAAAciI\/6JV2xWxQUoI\/s1600\/Egito-Manifestantes_islamistas_na_frente_da_suprema_corte_no%2BCairo_em2-12-2012.jpg?w=747\" border=\"0\" \/><\/a><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Manifestantes islamistas em frente \u00e0 Suprema Corte no Cairo em 12\/2\/2013<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Os ju\u00edzes entraram em greve, seguindo o exemplo de outros ju\u00edzes e procuradores que pararam de trabalhar em protesto contra o decreto de Mursi que, para eles, \u201cmina a autoridade judicial\u201d. O Clube dos Ju\u00edzes, sindicato com 9.500 membros, solidarizou-se com os demais ju\u00edzes e anunciou que n\u00e3o supervisionaria o referendo constitucional. Os c\u00edrculos judiciais j\u00e1 enfrentavam forte turbul\u00eancia nesse\u00a0<em>front<\/em>, sobretudo depois que for\u00e7as islamistas organizaram manifesta\u00e7\u00f5es\u00a0em frente Supremo Tribunal Judicial, exigindo a demiss\u00e3o do Procurador-Geral, Abdel-Meguid Mahmoud, indicado por Mubarak, o qual, afinal, foi demitido pela declara\u00e7\u00e3o de 22\/11. Comentando as manifesta\u00e7\u00f5es contra a Corte Suprema, o pesquisador pol\u00edtico Amr Hamzawy disse que \u201co presidente e seu grupo est\u00e3o arrastando o Egito para um per\u00edodo<em>par excellence<\/em> de obscurantismo (&#8230;) Tomou uma decis\u00e3o ditatorial de fazer um referendo para legalizar um projeto ilegal de constitui\u00e7\u00e3o que divide a sociedade. E, agora, p\u00f4s o Judici\u00e1rio sob s\u00edtio, para aterroriz\u00e1-lo\u201d.<\/p>\n<p>Apesar de os islamistas terem, em boa parte, conseguido o que queriam, nem por isso desocuparam a \u00e1rea que cerca o pr\u00e9dio da Corte Suprema. Havia barracas em torno do cord\u00e3o de seguran\u00e7a instalado pela Pol\u00edcia, e algumas centenas de islamistas permaneceram l\u00e1, para garantir que a Corte Suprema n\u00e3o voltasse a reunir-se. Depois de 24 dias de manifesta\u00e7\u00f5es, o resultado do referendo sobre a Constitui\u00e7\u00e3o foi afinal anunciado: 63,8% dos votantes votaram \u201csim\u201d. S\u00f3 depois disso, e depois de terem comemorado o resultado\u00a0<em>in situ<\/em>, os islamistas afinal levantaram acampamento.<\/p>\n<p>A \u00faltima vez que os ju\u00edzes eg\u00edpcios declararam-se em greve geral foi durante a Revolu\u00e7\u00e3o de 1919, quando se uniram ao levante popular contra o governo colonial brit\u00e2nico.<\/p>\n<p><strong>A M\u00cdDIA<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/2.bp.blogspot.com\/-_aKjhFbu3uo\/US0vL_2rlRI\/AAAAAAAAcjo\/XVo2mNtafjE\/s1600\/egito_media_production_city.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/2.bp.blogspot.com\/-_aKjhFbu3uo\/US0vL_2rlRI\/AAAAAAAAcjo\/XVo2mNtafjE\/s200\/egito_media_production_city.jpg?resize=200%2C140\" width=\"200\" height=\"140\" border=\"0\" \/><\/a><\/p>\n<p>Dia 6\/12\/2012, centenas de islamistas fizeram uma manifesta\u00e7\u00e3o na\u00a0<em>Media Production City<\/em>[aprox. \u201cCidade de Produ\u00e7\u00e3o\u201d], localizada nos arredores da cidade do Cairo. Foram 17 grupos fundamentalistas comandados pelo movimento Hazemoun, de seguidores do salafista Hazem Salah Abu Ismail, derrotado nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais de mar\u00e7o. Os islamistas declararam que a manifesta\u00e7\u00e3o era \u201cprotesto contra a corrup\u00e7\u00e3o da m\u00eddia at\u00e9ia\u201d, e exigiram \u201co expurgo dos ve\u00edculos hostis, sem raz\u00e3o compreens\u00edvel, aos islamistas\u201d, nas palavras do pr\u00f3prio Abu Ismail. Os manifestantes anunciaram que n\u00e3o deixariam o local at\u00e9 que a nova Constitui\u00e7\u00e3o estivesse confirmada pelo referendo.<\/p>\n<p>As manh\u00e3s dos islamistas ali reunidos come\u00e7avam com rezas e cita\u00e7\u00f5es do Cor\u00e3o; e as tardes eram dedicadas a cantos contra a m\u00eddia, n\u00e3o raras vezes insultantes. Figuras de destaque a imprensa eg\u00edpcia como Ibrahim Eissa, Lamis Al-Hadidi e Amr Adib receberam a parte mais substanciosa das amea\u00e7as e insultos. E \u00e0 noite os manifestantes matavam ovelhas e camelos; um dos camelos mortos fora usado num filme de publicidade e havia queixa de que teria sido roubado de dentro da Cidade de Produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A manifesta\u00e7\u00e3o e acampamento dos islamistas provocou f\u00faria entre jornalistas e figuras da m\u00eddia, que os denunciaram como \u201ctentativa de intimidar a m\u00eddia e faz\u00ea-la calar\u201d. Denunciaram-nos tamb\u00e9m como amea\u00e7a direta \u00e0 seguran\u00e7a de jornalistas, no trajeto de chegar e sair do trabalho. Os islamistas insistiram que a manifesta\u00e7\u00e3o seria pac\u00edfica, apesar de o carro do diretor Khaled Youssef ter sido apedrejado, no percurso para chegar \u00e0 Cidade de Produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<table border=\"0\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/1.bp.blogspot.com\/-YlhZjH04p2I\/US0w8CGdWTI\/AAAAAAAAcj0\/eO5KzOFedw4\/s1600\/egito_MPC_entrada.JPG\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/1.bp.blogspot.com\/-YlhZjH04p2I\/US0w8CGdWTI\/AAAAAAAAcj0\/eO5KzOFedw4\/s1600\/egito_MPC_entrada.JPG?w=747\" border=\"0\" \/><\/a><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Entrada da\u00a0<em>Egyptian Media \u00a0Production City<\/em><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Poucos dias depois de iniciada a manifesta\u00e7\u00e3o dos islamistas na Cidade de Produ\u00e7\u00e3o, um dos canais por sat\u00e9lite que transmitem de l\u00e1 recebeu um telefonema \u2013 retransmitido ao vivo \u2013 de um l\u00edder islamista que participava da manifesta\u00e7\u00e3o. A voz amea\u00e7ava que as for\u00e7as islamistas \u201catacar\u00e3o a Cidade de Produ\u00e7\u00e3o, se canais privados continuarem a divulgar ideias enviesadas contra os islamistas\u201d. Dia seguinte, Gamal Saber, organizador do movimento Hazemoun e porta-voz dos manifestantes disse ao jornal\u00a0<em>Al-Masry Al-Youm<\/em> que \u201cn\u00e3o passou de amea\u00e7a. N\u00e3o planejamos qualquer ataque. S\u00f3 queremos encostar a espada do medo e do terror no pesco\u00e7o dos corruptos da m\u00eddia, essa gente que escreve contra o presidente Mursi e os islamistas\u201d.<\/p>\n<table border=\"0\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/3.bp.blogspot.com\/-YawgZdXIzxE\/US0xsjRjhbI\/AAAAAAAAckc\/_HByXdOFJqw\/s1600\/Egito_manifestantes_em_frente_MPC.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/3.bp.blogspot.com\/-YawgZdXIzxE\/US0xsjRjhbI\/AAAAAAAAckc\/_HByXdOFJqw\/s1600\/Egito_manifestantes_em_frente_MPC.jpg?w=747\" border=\"0\" \/><\/a><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Manifestantes em frente ao EMPC<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Dia 14\/12, e contra os planos iniciais, os islamistas decidiram p\u00f4r fim \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o e ao acampamento, para votar, dia seguinte, a favor do projeto de Constitui\u00e7\u00e3o. Por ironia, o dia em que os islamistas acamparam \u00e0 entrada da Cidade de Produ\u00e7\u00e3o de M\u00eddia foi o mesmo dia\u00a0em que Essam Al-Amir, presidente da televis\u00e3o estatal, renunciava ao posto, em protesto contra \u201ca islamiza\u00e7\u00e3o da m\u00eddia\u201d. Um dia antes da ren\u00fancia, houvera confrontos violentos no pal\u00e1cio presidencial, depois que islamistas atacaram manifestantes pac\u00edficos. Al-Amir disse que \u201ca televis\u00e3o estatal apresentou um lado da hist\u00f3ria, claramente enviesada a favor dos islamistas, o que n\u00e3o surpreende ningu\u00e9m, dado que o Ministro da Informa\u00e7\u00e3o, Salah Abdel-Maksoud, \u00e9 membro da Fraternidade Mu\u00e7ulmana\u201d.<\/p>\n<p><strong>CIDADE DE MAHALLA<\/strong><\/p>\n<p>Mahalla, localizada no governadorato de Gharbiya, \u00e9 considerada um dos n\u00facleos da revolta, hoje, no Egito. Cidade industrial, com vasta popula\u00e7\u00e3o de trabalhadores nas ind\u00fastrias t\u00eaxteis, Mahalla teve e tem papel de destaque no Egito pr\u00e9 e p\u00f3s-revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<table border=\"0\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/2.bp.blogspot.com\/-Nund--wAm5M\/US0y2aGp3nI\/AAAAAAAAcko\/yReFdlFPdlw\/s1600\/egito_mahalla.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/2.bp.blogspot.com\/-Nund--wAm5M\/US0y2aGp3nI\/AAAAAAAAcko\/yReFdlFPdlw\/s1600\/egito_mahalla.jpg?w=747\" border=\"0\" \/><\/a><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Trabalhadores t\u00e9xteis em Mahalla &#8220;enterram&#8221; Mursi<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Dia 27\/11\/2012, 5.000 trabalhadores da empresa de fia\u00e7\u00e3o e tecelagem\u00a0<em>Misr Spinning &amp; Weaving Company <\/em>marcharam at\u00e9 a Pra\u00e7a Shon em Mahalla em protesto contra \u201ca declara\u00e7\u00e3o ditatorial de Mursi do dia 22 de novembro, seguida, tr\u00eas dias depois, por seu decreto de interven\u00e7\u00e3o no trabalho\u201d \u2013 disse Sayed Habib, ativista da defesa de direitos trabalhistas do Centro Sindical dos Trabalhadores\u00a0em Mahalla. \u201cO\u00a0decreto relativo ao trabalho favorece a hegemonia da Fraternidade, acima dos sindicatos. Esse \u00e9 o objetivo da ordem para que sindicalistas com idade superior a 60 anos sejam demitidos da Federa\u00e7\u00e3o dos Sindicatos, para serem substitu\u00eddos por novos membros indicados\u201d.<\/p>\n<p>Esse era o contexto sob o qual os trabalhadores de Mahalla marcharam para a Pra\u00e7a Shon, cantando \u201cMursi, espere! Mahalla cavar\u00e1 sua sepultura\u201d e \u201cFora o governo do supremo l\u00edder\u201d. Foram recebidos por apoiadores dos islamistas armados com coquet\u00e9is\u00a0<em>molotov<\/em>, tiros e pedradas.<\/p>\n<p>Os trabalhadores de Mahalla revidaram, e houve batalha feroz, com coquet\u00e9is<em>molotov<\/em> jogados pelos islamistas e jogados de volta, sobre os islamistas, pelos oper\u00e1rios. Nem a chuva de granadas de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo, colabora\u00e7\u00e3o das for\u00e7as de seguran\u00e7a que acorreram ao local, conseguiu dispersar os grupos em luta. A batalha durou toda a noite e fez, pelo menos, 400 feridos.<\/p>\n<p>Dia 7\/12, algumas poucas centenas de oper\u00e1rios sindicalizados de Mahalla marcharam at\u00e9 o pr\u00e9dio do conselho municipal e declararam \u201ca independ\u00eancia de Mahalla\u201d. A \u201cRep\u00fablica Independente da Grande Mahalla\u201d foi uma rea\u00e7\u00e3o aos sangrentos confrontos do dia 5\/12 no pal\u00e1cio presidencial Al-Ittihadiya. A independ\u00eancia de Mahalla, que n\u00e3o \u00e9 vista como movimento secessionista, foi gesto que manifestou oposi\u00e7\u00e3o ao regime de Mursi e da Fraternidade Mu\u00e7ulmana.<\/p>\n<p>Dois dias depois, sindicatos e moradores de Mahalla reuniram-se na Pra\u00e7a Shon para celebrar seu novo estado aut\u00f4nomo e denunciar o regime reinante. Cantavam \u201cLevante a cabe\u00e7a! Voc\u00ea \u00e9 de Mahalla!\u201d e \u201cFora o governo da Fraternidade Mu\u00e7ulmana\u201d. A pra\u00e7a vibrava. A mensagem, clara, era que \u201cn\u00e3o nos deixaremos aterrorizar pelas mil\u00edcias da Fraternidade\u201d. Em discurso \u00e0 multid\u00e3o, Fathi Abdel-Hamid da Federa\u00e7\u00e3o Independente de Aposentados, disse que \u201cc\u00e1 estamos para declarara que n\u00e3o toleraremos governantes que nos sangrem para manter-se no poder\u201d. George Ishak, ex-l\u00edder do Movimento Kifaya, acrescentou que \u201ca Fraternidade Mu\u00e7ulmana est\u00e1 arrastando o Egito na dire\u00e7\u00e3o de converter-se\u00a0em estado fascista. N\u00e3o\u00a0toleraremos nenhum fascismo.\u201d Pelas paredes da cidade surgiram\u00a0<em>grafittis<\/em>, desenhados por furiosos moradores da cidade, nos quais se lia \u201cMahalla, territ\u00f3rio livre. Aqui a Fraternidade n\u00e3o manda\u201d.<\/p>\n<p>Esse ato nominal de independ\u00eancia nasceu em cidade que tem longa tradi\u00e7\u00e3o de dissid\u00eancia. Mahalla \u00e9 considerada cidade na qual predomina uma cultura j\u00e1 hist\u00f3rica de revolta contra a injusti\u00e7a e a corrup\u00e7\u00e3o. Em dezembro de 2006 e em abril de 2008, dezenas de milhares de oper\u00e1rios do setor t\u00eaxtil conduziram uma<em>intifada<\/em> contra os baixos sal\u00e1rios e as terr\u00edveis condi\u00e7\u00f5es\u00a0em que viviam. A<em>intifada<\/em> alastrou-se, com mais de 650 manifesta\u00e7\u00f5es e\u00a0<em>acampadas<\/em> ao longo de 2007, dos quais participaram quase 200 mil trabalhadores de praticamente todos os setores da economia da regi\u00e3o. \u00c9 opini\u00e3o amplamente difundida e aceita no Egito, que as rebeli\u00f5es de Mahalla est\u00e3o na raiz da Revolu\u00e7\u00e3o de 25 de janeiro, consideradas precursoras.<\/p>\n<p><strong>BAIRRO DE<\/strong> <strong>ABBASIYA<\/strong><\/p>\n<p>O bairro de Abbasiya, no Cairo, foi cen\u00e1rio de v\u00e1rios eventos graves. Em novembro de 2011, aconteceram em Abbasiya as manifesta\u00e7\u00f5es pr\u00f3-SCAF, promovidas pelo jornalista e \u00e2ncora de notici\u00e1rios de televis\u00e3o Tawfik Okasha, do canal Faraeen de TV por sat\u00e9lite. Um m\u00eas depois, durante outra manifesta\u00e7\u00e3o pr\u00f3-SCAF, os altofalantes tocavam m\u00fasica e grupos dan\u00e7avam em c\u00edrculo, enquanto, no mesmo momento, em outro ponto do bairro, na rua Qasr Al-Aini, aconteciam confrontos mortais entre manifestantes e for\u00e7as do ex\u00e9rcito.<\/p>\n<table border=\"0\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/1.bp.blogspot.com\/-snwR8_-vJYg\/US01fiUASrI\/AAAAAAAAcl0\/-TXRS3gtfv8\/s1600\/egito_abbasiyas%2Bfriday%2Bincidents.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/1.bp.blogspot.com\/-snwR8_-vJYg\/US01fiUASrI\/AAAAAAAAcl0\/-TXRS3gtfv8\/s1600\/egito_abbasiyas%2Bfriday%2Bincidents.jpg?w=747\" border=\"0\" \/><\/a><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Abbasiya, no Cairo, foi cen\u00e1rio de v\u00e1rios eventos graves<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Dia 27\/4\/2012, Abbasiya encaminhava-se para mais um confronto sangrento, o qual, contudo, s\u00f3 aconteceria uma semana depois. Apoiadores de Hazem Salah Abu Ismail, islamista e candidato \u00e0 presid\u00eancia, e outras for\u00e7as islamistas e de esquerda haviam-se reunido aos milhares em Abbasiya, pr\u00f3ximos de onde est\u00e1 localizado o Minist\u00e9rio da Defesa, sempre pesadamente fortificado, para protestar contra o fim da candidatura de Abu Ismail \u00e0 presid\u00eancia. Exigiam a dissolu\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o para Elei\u00e7\u00f5es Presidenciais (PEC); e a anula\u00e7\u00e3o do artigo 28 da declara\u00e7\u00e3o constitucional provis\u00f3ria, do SCAF, que proibira qualquer tipo de recurso judicial contra decis\u00f5es da PEC.<\/p>\n<p>No in\u00edcio da manifesta\u00e7\u00e3o e acampada, instalada sem data para terminar, os manifestantes de Abbasiya atra\u00edram algumas simpatias, mas n\u00e3o dos moradores e residentes da \u00e1rea. Houve in\u00fameros confrontos entre grupos, praticamente todos os dias. Mas ao amanhecer do dia 1\u00ba de maio, grupos de milicianos armados com facas, punhais e armas de v\u00e1rios calibres, atacaram os manifestantes: houve 11 mortos. O clamor entre os manifestantes aumentou, convocando para a \u201c6\u00aa-feira da Grande Marcha\u201d sobre o Minist\u00e9rio da Defesa, agendada para o dia 4 de maio. E os generais do SCAF, que at\u00e9 a\u00ed se haviam limitado a observar \u00e0 dist\u00e2ncia, lan\u00e7aram dura declara\u00e7\u00e3o, na qual amea\u00e7avam contra qualquer tentativa de algu\u00e9m se aproximar daquela \u201ctoca dos le\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Na 6\u00aa-feira, o n\u00famero de manifestantes reunidos em Abbasiya havia aumentado. Cantavam slogans a favor da derrubada do SCAF e de seu l\u00edder Hussein Tantawi. Um manifestante pulou a cerca de arame farpado que cercava o pr\u00e9dio do Minist\u00e9rio da Defesa. Era o que os soldados esperavam, para atacar. Usaram canh\u00f5es de \u00e1gua e granadas de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo. Os manifestantes reagiram com pedradas. Cerca de 300 manifestantes foram presos; outros foram ca\u00e7ados na fuga pela rua Rams\u00e9s at\u00e9 a mesquita Nour, e espancados; e, segundo relatos dos militares, um soldado foi morto a tiros e centenas de policiais militares e das for\u00e7as antitumultos foram feridos.<\/p>\n<p><strong>RUA MOHAMED MAHMOUD<\/strong><\/p>\n<p>Dia 19\/11\/2011, eclodiram os confrontos na rua Mohamed Mahmoud, uma das ruas que partem da Pra\u00e7a Tahrir, depois que for\u00e7as de seguran\u00e7a tentaram evacuar a pra\u00e7a \u00e0 for\u00e7a. Os combates arrastaram-se por cinco dias; resultaram da\u00ed 42 manifestantes\u00a0 mortos e centenas de feridos. Todos foram atacados com g\u00e1s lacrimog\u00eaneo, porretes, balas revestidas de borracha e muni\u00e7\u00e3o real. Os combates da rua Mohamed Mahmoud foram particularmente terr\u00edveis por causa de atiradores instalados pelas for\u00e7as de seguran\u00e7a em pontos estrat\u00e9gicos e que, ao que parece, atiravam contra os olhos dos manifestantes, usando balas de borracha. O Comando Superior das For\u00e7as Armadas, SCAF, justificou a viol\u00eancia, anunciando que \u201ctodos, na Pra\u00e7a Tahrir, s\u00e3o agitadores e criminosos, n\u00e3o s\u00e3o manifestantes pac\u00edficos\u201d.<\/p>\n<table border=\"0\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/3.bp.blogspot.com\/-LpyZVxtOYq0\/US02o-Xj07I\/AAAAAAAAcl8\/o-HExGNCmcg\/s1600\/Egito_MOHAMED%2BMAHMOUD_street.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/3.bp.blogspot.com\/-LpyZVxtOYq0\/US02o-Xj07I\/AAAAAAAAcl8\/o-HExGNCmcg\/s1600\/Egito_MOHAMED%2BMAHMOUD_street.jpg?w=747\" border=\"0\" \/><\/a><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Confrontos na rua Mohamed Mahmoud<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Um ano depois desses confrontos, as feridas permaneciam abertas no cora\u00e7\u00e3o e na mente dos manifestantes. Organizaram manifesta\u00e7\u00e3o para a rua Mohamed Mahmoud, que aconteceu dia 19\/11\/ 2012, para homenagear os m\u00e1rtires e sua contribui\u00e7\u00e3o para a Revolu\u00e7\u00e3o, e para exigir puni\u00e7\u00e3o para os agressores. Os agressores do ano anterior, novamente se posicionaram. Um dos manifestantes, de 17 anos, Gaber Salah, conhecido como \u201cJika\u201d, recebeu um tiro na cabe\u00e7a, nos combates que imediatamente se reiniciaram contra as for\u00e7as de seguran\u00e7a; morreu alguns dias adiante. A morte de Jika foi prova, para muitos, de que, fosseem governo de Mubarak\u00a0ou\u00a0em governo de Mursi, nada mudara nem no SCAF nem no Egito.<\/p>\n<p><strong>O GABINETE<\/strong><\/p>\n<p>Depois dos combates na rua Mohamed Mahmoud em 2011, manifestantes reuniram-se em nova acampada frente ao pr\u00e9dio do Gabinete, na rua Qasr Al-Aini, para protestar contra a nomea\u00e7\u00e3o de Kamal Al-Ganzouri para o cargo de primeiro-ministro, pelo SCAF. Na terceira semana dessas manifesta\u00e7\u00f5es, na madrugada do dia 16\/12, um manifestante foi espancado por for\u00e7as militares dentro do pr\u00e9dio do Gabinete, a\u00e7\u00e3o que reacendeu a ira dos manifestantes.<\/p>\n<p>Milhares de manifestantes convergiram para a entrada do pr\u00e9dio, exigindo a deposi\u00e7\u00e3o do SCAF. Seguiu-se batalha feroz entre soldados armados e manifestantes. A viol\u00eancia do ex\u00e9rcito provocou a morte de quatro manifestantes, entre os quais o Xeique Emad Effat, cl\u00e9rigo de Dar Al-Iftaa, e ferimentos em mais de 250. Nesse dia, a brutalidade do ex\u00e9rcito contra os manifestantes ficou manifesta quando soldados arrastaram uma mulher pela rua, de modo que ela teve expostas partes de seu corpo e roupas \u00edntimas, para os que l\u00e1 estavam e, tamb\u00e9m, para as c\u00e2meras de televis\u00e3o.<\/p>\n<table border=\"0\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/2.bp.blogspot.com\/-vHIPFhi1oNw\/US04uUFkddI\/AAAAAAAAcmQ\/EUelgZxR_8o\/s1600\/egito_protesters-opposing-president-mursi_25-1-2013.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/2.bp.blogspot.com\/-vHIPFhi1oNw\/US04uUFkddI\/AAAAAAAAcmQ\/EUelgZxR_8o\/s1600\/egito_protesters-opposing-president-mursi_25-1-2013.jpg?w=747\" border=\"0\" \/><\/a><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Pra\u00e7a Tahrir, protestos contra o Presidente Mohamed Mursi em 23\/12\/2012<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Os combates \u00e0 frente do pr\u00e9dio do Gabinete continuaram por uma semana, com o ex\u00e9rcito perseguindo manifestantes pela rua Rihan, na pra\u00e7a Tahrir e em Qasr Al-Aini e destruindo e incendiando v\u00e1rios hospitais de campanha. Nesses combates morreram 17 manifestantes e houve mais de 1.000 feridos. No curso desses eventos, o Instituto Eg\u00edpcio de Ci\u00eancias, que tem importante biblioteca de livros raros, foi incendiado. O SCAF acusou manifestantes, pelo inc\u00eandio; e os manifestantes, que se declararam inocentes, acusaram as mil\u00edcias islamistas tamb\u00e9m ativas naqueles confrontos.<\/p>\n<p>Na 6\u00aa-feira, 23\/12, dezenas de milhares de manifestantes reuniram-se na pra\u00e7a, para uma manifesta\u00e7\u00e3o que chamaram de \u201c6\u00aa-feira das Mulheres Livres\u201d, para denunciar crimes contra as mulheres e contra manifestantes em geral, praticados por soldados do ex\u00e9rcito. Levavam esquifes simb\u00f3licos, como homenagem aos m\u00e1rtires.<\/p>\n<p>Simultaneamente, no bairro de Abbasiya, realizava-se com\u00edcio de apoio ao Conselho Superior das For\u00e7as Armadas.<\/p>\n<p><strong>MASPERO<\/strong><\/p>\n<p>Maspero \u00e9 a regi\u00e3o do Cairo onde se localizam a sede da r\u00e1dio e televis\u00e3o estatais. Mas, depois da Revolu\u00e7\u00e3o, passou a ser local de protesto dos coptas contra ataques \u00e0s suas comunidades, inclusive as bombas que explodiram na Igreja dos Dois Santos, em Alexandria, nos primeiros minutos de 2011; o inc\u00eandio na Igreja do Sol em Muqattam; e a profana\u00e7\u00e3o da Igreja de Mar Mina, em Imbaba, em maio do mesmo ano. Os coptas sentiram amea\u00e7ada a sua liberdade de culto e protestavam contra a eros\u00e3o de seus direitos civis.<\/p>\n<table border=\"0\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/4.bp.blogspot.com\/-esN5hhWWLFs\/US06Qbo9R0I\/AAAAAAAAcm8\/X_AkgYwAAvg\/s1600\/Egito_Maspero_building.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/4.bp.blogspot.com\/-esN5hhWWLFs\/US06Qbo9R0I\/AAAAAAAAcm8\/X_AkgYwAAvg\/s320\/Egito_Maspero_building.jpg?resize=240%2C320\" width=\"240\" height=\"320\" border=\"0\" \/><\/a><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Maspero\u00a0<em>Building<\/em><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Obtiveram imediatamente algum consolo, porque mu\u00e7ulmanos logo se aliaram a eles. Ergueram cruzes em Maspero e cartazes em que se lia \u201ccom mu\u00e7ulmanos e coptas, de m\u00e3os dadas, construiremos um Egito grande e forte\u201d.<\/p>\n<p>O mais sangrento dos confrontos em Maspero aconteceu dia 9\/10\/2011, quando uma passeata quase exclusivamente de crist\u00e3os acabou encurralada entre grupos de mil\u00edcias islamistas e de soldados. Atacados com porretes e \u00e0 bala, os manifestantes, como sempre, reagiram com pedradas. Um blindado do ex\u00e9rcito avan\u00e7ou em alta velocidade contra a multid\u00e3o, soldados incendiaram carros e manifestantes incendiaram ve\u00edculos do ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>Enquanto isso, em transmiss\u00f5es ao vivo, a r\u00e1dio e a televis\u00e3o estatal exortavam os \u201ccidad\u00e3os a acorrer a Maspero, para proteger os soldados que estavam sendo atacados pelos coptas.\u201d Naquela noite morrera 27 coptas.<\/p>\n<p>No primeiro anivers\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o, aconteceram em Maspero v\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es anti-SCAF. A Pra\u00e7a Tahrir estava lotada de islamistas que celebravam a vit\u00f3ria nas elei\u00e7\u00f5es parlamentares, sem espa\u00e7o para quem n\u00e3o estivesse convencido de que a Revolu\u00e7\u00e3o alcan\u00e7ara seus objetivos. Para reanimar o \u00edmpeto revolucion\u00e1rio, a esses s\u00f3 restou rumar para Maspero, onde acamparam por duas semanas, a exigir o fim do conselho militar superior; indeniza\u00e7\u00e3o para as fam\u00edlias dos mortos; e antecipa\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es presidenciais, marcadas para junho de 2012.<\/p>\n<p>Os manifestantes tamb\u00e9m exigiam \u201co expurgo dos ve\u00edculos de m\u00eddia, que s\u00f3 fazem obedecer ao que lhes ordena o governo e n\u00e3o passam de porta-vozes dos militares\u201d. No quinto dia desse acampamento, os manifestantes foram atacados por mil\u00edcias com pedras, porretes e garrafas de \u00e1gua; houve grande n\u00famero de feridos. V\u00e1rios grupos foram acusados dessas agress\u00f5es, mas at\u00e9 hoje n\u00e3o se conhece o verdadeiro respons\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>PRA\u00c7A MUSTAFA MAHMOUD E ROXY<\/strong><\/p>\n<p>A\u00ed se realizaram com\u00edcios pr\u00f3-Mubarak ou manifesta\u00e7\u00f5es de apoio ao SCAF em 2011-2012. A\u00a0pra\u00e7a Mustafa Mahmoud em Mohandessin foi onde se reuniram grupos antirrevolucion\u00e1rios dia 28\/1\/2011. Autodenominavam-se \u201cFilhos de Mubarak\u201d e desejavam que seu \u201cpai espiritual\u201d permanecesse no poder, pelo menos at\u00e9 concluir o mandato, em setembro de 2011.<\/p>\n<table border=\"0\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/4.bp.blogspot.com\/-FWL8YT9eQsk\/US08DPY-_aI\/AAAAAAAAcnw\/k9lJnJefliY\/s1600\/egito_MUSTAFA%2BMAHMOUD%2BAND%2BROXY.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/4.bp.blogspot.com\/-FWL8YT9eQsk\/US08DPY-_aI\/AAAAAAAAcnw\/k9lJnJefliY\/s1600\/egito_MUSTAFA%2BMAHMOUD%2BAND%2BROXY.jpg?w=747\" border=\"0\" \/><\/a><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Manifesta\u00e7\u00e3o pr\u00f3-Mursi na Pra\u00e7a Mahmoud<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Mas seus hinos de aviso contra a instabilidade e o caos que viriam se Mubarak partisse acabaram sufocados pelas vozes que vinham da pra\u00e7a Tahrir, exigiam mudan\u00e7as. Durante alguns dias, uns poucos milhares de pessoas reunidas na Pra\u00e7a Mustafa Mahmoud mantiveram agenda leve: apareciam ao meio dia e partiam no final da tarde. Mas, depois, a Pra\u00e7a Mustafa Mahmoud tornou-se ponto de encontro das for\u00e7as revolucion\u00e1rias, antes de partirem para as passeatas ou manifesta\u00e7\u00f5es em outros pontos da cidade.<\/p>\n<p>Os apoiadores de Mubarak sumiram da Pra\u00e7a Mustafa Mahmoud. S\u00f3 reapareceram no ver\u00e3o, num bairro residencial de classe alta em Heli\u00f3polis, na Pra\u00e7a Roxy. Nessa ressurrei\u00e7\u00e3o, j\u00e1 n\u00e3o eram apoiadores de Mubarak, mas do SCAF. Embora n\u00e3o passassem de poucas d\u00fazias, diziam falar por toda \u201ca maioria silenciosa\u201d. Carregavam faixas exigindo estabilidade e discursavam em termos nost\u00e1lgicos sobre a era Mubarak. Durante algumas semanas, apareceram regularmente na Pra\u00e7a Roxy \u00e0s sextas-feiras. Em seguida, calaram-se ou a voz deles desapareceu no alarido das vozes revolucion\u00e1rias.<\/p>\n<p><strong>ALEXANDRIA<\/strong><\/p>\n<p>Alexandria, cidade mediterr\u00e2nea, desempenhou papel central desde os primeiros momentos da Revolu\u00e7\u00e3o. A Pra\u00e7a Al-Qaed Ibrahim, na Corniche, fazia eco aos cantos que vinham da Pra\u00e7a Tahrir, e repetia as mesmas demandas. Mantiveram ativo ali o esp\u00edrito revolucion\u00e1rio por dois anos, sem se deixar dominar por um ou outro grupo. Na Pra\u00e7a Al-Qaed s\u00f3 se ouviam, incans\u00e1veis, os objetivos da Revolu\u00e7\u00e3o, com cuidado para preservar um equil\u00edbrio moderado. E assim foi, at\u00e9 que, h\u00e1 dois meses, grupos islamistas realizaram ali um com\u00edcio de apoio ao decreto de Mursi.<\/p>\n<table border=\"0\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/2.bp.blogspot.com\/-2iDficfXc1I\/US0tB8-KZWI\/AAAAAAAAcjA\/Xe9iUO2dlKE\/s1600\/Egito_passeata-de-1-milh%C3%A3o_de_pessoas-na-Pra%C3%A7a_Al-Qaed_Ibrahim_Alexandria.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/2.bp.blogspot.com\/-2iDficfXc1I\/US0tB8-KZWI\/AAAAAAAAcjA\/Xe9iUO2dlKE\/s1600\/Egito_passeata-de-1-milh%C3%A3o_de_pessoas-na-Pra%C3%A7a_Al-Qaed_Ibrahim_Alexandria.jpg?w=747\" border=\"0\" \/><\/a><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Passeata de 1 milh\u00e3o de pessoas na Pra\u00e7a Al-Qaed Ibrahim em Alexandria em 2\/12\/2012<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Alexandria teve sua cota de escaramu\u00e7as contra as for\u00e7as de seguran\u00e7a, contra islamistas e contra mercen\u00e1rios armados. Dia 1\/12\/2012, na Pra\u00e7a Sidi Gaber, mil\u00edcias mercen\u00e1rias, armadas com punhais, pedras e garrafas quebradas, atacaram com\u00edcio organizado por movimentos civis solid\u00e1rios \u00e0s acampadas da Pra\u00e7a Tahrir e contra a Constitui\u00e7\u00e3o islamista. As For\u00e7as Centrais de Seguran\u00e7a conseguiram conter os tumultos. O partido Liberdade e Justi\u00e7a, da Fraternidade Mu\u00e7ulmana, negou que tivesse enviado apoiadores para aquele local.<\/p>\n<p>Dia 5\/12, enquanto os que protestavam \u00e0 frente do pal\u00e1cio presidencial no Cairo eram atacados por mil\u00edcias islamistas, em Alexandria v\u00e1rios grupos reuniram-se rapidamente na Pra\u00e7a Sidi Gaber, para denunciar a viol\u00eancia dos islamistas, quando se tratava de enfrentar diferen\u00e7as pol\u00edticas. A bandeira, em Alexandria, era \u201co povo quer verdadeira democracia. P\u00e3o, liberdade e o fim da Assembleia Constituinte\u201d.<\/p>\n<p>Dia 21\/12, irromperam confrontos \u00e0 frente da mesquita Al-Qaed Ibrahim, na Corniche, entre apoiadores e opositores do projeto de Constitui\u00e7\u00e3o. A luta come\u00e7ou depois que o pregador Ahmed Al-Mahalawi conclamou os fi\u00e9is a votar \u201csim\u201d no referendo sobre a Constitui\u00e7\u00e3o; disse que \u201cassim alcan\u00e7aremos a estabilidade t\u00e3o longamente almejada\u201d.<\/p>\n<p>Segundo relato de testemunhas presentes na mesquita, um dos fi\u00e9is levantou-se e cantou \u201cabaixo o governo do supremo l\u00edder\u201d. Pelo que se p\u00f4de ver, foi cercado, espancado e arrastado, com dois que o acompanhavam, para dentro da mesquita, por membros da Fraternidade Mu\u00e7ulmana. Do lado de fora da mesquita, barbudos afiliados a grupos islamistas armados com espadas, punhais, coquet\u00e9is molotov e pedras lutavam contra opositores. Morreram nove, e houve centenas de feridos.<\/p>\n<p>Na 6\u00aa-feira seguinte, declarada \u201cSexta-feira de Proteger Mesquitas e Pregadores\u201d, islamistas de v\u00e1rios governadoratos chegaram \u00e0 mesquita Al-Qaed Ibrahim, em Alexandria, para refor\u00e7ar a defesa contra os inimigos. Impediram que pessoas sem liga\u00e7\u00e3o com os grupos islamistas entrassem na mesquita para orar. Depois das ora\u00e7\u00f5es, a luta irrompeu. Mas os islamistas, quase todos do grupo salafista Hazemoun estavam em minoria. As batalhas de rua prosseguiram at\u00e9 o dia seguinte. \u00c0 noite, quando os islamistas escaparam para ruas laterais, os manifestantes locais incendiaram seus \u00f4nibus.<\/p>\n<p>At\u00e9 a semana passada ainda havia combates em Alexandria. Dia 19 de janeiro, manifestantes anti-Fraternidade Mu\u00e7ulmana e familiares dos m\u00e1rtires enfrentaram a pol\u00edcia em frente ao pr\u00e9dio da Corte Judicial em Manshiya, durante o julgamento de alguns acusados da morte de revolucion\u00e1rios em Alexandria. Bombas de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo foram lan\u00e7adas contra os manifestantes. At\u00e9 agora, a indeniza\u00e7\u00e3o \u00e0s fam\u00edlias dos que morreram durante a Revolu\u00e7\u00e3o Eg\u00edpcia continua a ser demanda sempre repetida e jamais atendida.<\/p>\n<p>Postado:\u00a0<a href=\"http:\/\/redecastorphoto.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/redecastorphoto.blogspot.com.br\/<\/a><\/p>\n<p>&lt;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nPra\u00e7a Tahrir durante o Ramad\u00e3 em setembro de 2012\n\n\n\n\n\n\n\n\n25\/2\/2013, Rasha Sadek, Al-Ahram Weekly, Cairo\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4391\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[177],"tags":[],"class_list":["post-4391","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-18P","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4391","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4391"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4391\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4391"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4391"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4391"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}