{"id":4405,"date":"2013-03-04T18:54:00","date_gmt":"2013-03-04T18:54:00","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4405"},"modified":"2013-03-04T18:54:00","modified_gmt":"2013-03-04T18:54:00","slug":"jose-paulo-netto-fala-sobre-para-uma-ontologia-do-ser-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4405","title":{"rendered":"Jos\u00e9 Paulo Netto fala sobre &#8216;Para Uma Ontologia do Ser Social&#8217;"},"content":{"rendered":"\n<p>Confira a seguir entrevista de Jos\u00e9 Paulo Netto ao rep\u00f3rter Rodrigo Petronio, de\u00a0<em>O Estado de S. Paulo<\/em>, sobre o lan\u00e7amento do livro\u00a0<strong>Para Uma Ontologia do Ser Social<\/strong>, do fil\u00f3sofo h\u00fangaro Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs, pela\u00a0<em>Boitempo Editorial<\/em>.<\/p>\n<p><strong>Na apresenta\u00e7\u00e3o do livro Para Uma Ontologia do Ser Social (1968), o senhor menciona esta obra como fruto de um movimento no qual Luk\u00e1cs tenta um \u201crenascimento do marxismo\u201d. Em que sentido se deu esse renascimento?<\/strong><\/p>\n<p>Depois de 1956, Luk\u00e1cs (que, como se sabe, foi um protagonista importante do processo que culminou na insurrei\u00e7\u00e3o h\u00fangara daquele ano, dirigida contra o stalinismo vigente tamb\u00e9m na Hungria) teve condi\u00e7\u00f5es de explicitar as suas cr\u00edticas ao que esquematicamente se pode designar como a \u201cera stalinista\u201d.<\/p>\n<p>No plano do desenvolvimento do marxismo, o fil\u00f3sofo sustentou que a nota dominante do regime stalinista foi a dogmatiza\u00e7\u00e3o, a sectariza\u00e7\u00e3o \u2013 em suma, o que chamou de \u201cparalisia te\u00f3rica\u201d do pensamento que se reclamava de Marx. Para ele, a supera\u00e7\u00e3o efetiva da pesada heran\u00e7a do per\u00edodo de Stalin implicava um esfor\u00e7o te\u00f3rico n\u00e3o s\u00f3 para recuperar o que julgava ser o aut\u00eantico esp\u00edrito do pensamento marxiano, asfixiado a partir dos anos 1930, mas sobretudo para, a partir desta recupera\u00e7\u00e3o, analisar e compreender a realidade do capitalismo contempor\u00e2neo (e tamb\u00e9m a pr\u00f3pria problem\u00e1tica do socialismo existente).<\/p>\n<p>Precisamente esse esfor\u00e7o \u2013 que, segundo Luk\u00e1cs, deveria envolver a renova\u00e7\u00e3o da pesquisa econ\u00f4mico-pol\u00edtica, filos\u00f3fica e cultural \u2013 resultaria no que ele concebia como um \u201crenascimento do marxismo\u201d, que considerava urgente e necess\u00e1rio se os marxistas quisessem dialogar com o tempo presente e intervir adequadamente nas transforma\u00e7\u00f5es em curso \u00e0 \u00e9poca. E, de fato, parece inconteste que os anos 1960 assistiram \u00e0 emerg\u00eancia de tend\u00eancias neste sentido, tanto nos pa\u00edses do Leste europeu quanto no Ocidente, num processo que foi bastante problematizado, a partir dos anos 1980, com as derrotas do movimento socialista em escala mundial.<\/p>\n<p><strong>Luk\u00e1cs projetou a sua Ontologia de modo articulado \u00e0 sua Est\u00e9tica e \u00e0 sua \u00c9tica. Como ocorre essa articula\u00e7\u00e3o em seu pensamento?<\/strong><\/p>\n<p>Lembremos que a Est\u00e9tica (mais exatamente, a sua primeira parte, conclu\u00edda em 1960) publicou-se em 1963 e a \u00c9tica nunca foi redigida. Luk\u00e1cs concebeu originalmente a Ontologia para ser t\u00e3o somente a \u201cintrodu\u00e7\u00e3o\u201d \u00e0 \u00c9tica.<\/p>\n<p>Contudo, a imposta\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica do marxismo de Luk\u00e1cs emerge j\u00e1 nos anos 1930 e, desde ent\u00e3o, percorre toda a sua obra, embora s\u00f3 tenha a sua centralidade afirmada abertamente e exponenciada na d\u00e9cada de 1960 (inclusive por raz\u00f5es pol\u00edticas \u2013 n\u00e3o se esque\u00e7a que, para Luk\u00e1cs, o stalinismo expressa uma \u201cinvas\u00e3o\u201d neopositivista no marxismo e sabe-se do car\u00e1ter anti-ontol\u00f3gico do pensamento neopositivista). \u00c9 apenas no segundo ter\u00e7o dos anos 1960 que Luk\u00e1cs evidencia claramente a urg\u00eancia da tematiza\u00e7\u00e3o da ontologia \u2013 e o faz porque, sem uma teoria do ser social (exatamente uma ontologia do ser social), n\u00e3o haveria como fundar, de modo materialista e dial\u00e9tico, uma \u00e9tica. Compreende-se, pois, por que ele pensou aquela como \u201cintrodu\u00e7\u00e3o\u201d a esta.<\/p>\n<p>As bases da Est\u00e9tica configuram nitidamente uma concep\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica do marxismo, ainda que esta n\u00e3o seja explicitada como tal. Por isto, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma rela\u00e7\u00e3o excludente (ou mesmo colidente) ou, ainda, externa entre a Est\u00e9tica e a elabora\u00e7\u00e3o dos \u00faltimos anos de Luk\u00e1cs, salvo no plano terminol\u00f3gico. Antes, o que de fato se verifica \u00e9 uma articula\u00e7\u00e3o \u00edntima e medular entre a Est\u00e9tica e a Ontologia: nesta, os pressupostos daquela s\u00e3o expostos e tratados enquanto fundantes de toda a reflex\u00e3o marxiana (n\u00e3o por acidente, Luk\u00e1cs enfatiza os \u201cprinc\u00edpios ontol\u00f3gicos fundamentais\u201d de Marx).<\/p>\n<p><strong>Qual seria ent\u00e3o, para Luk\u00e1cs, a consequ\u00eancia pol\u00edtica mais evidente dessa \u201cinvas\u00e3o neopositivista no marxismo\u201d?<\/strong><\/p>\n<p>Uma das caracter\u00edsticas que, conforme Luk\u00e1cs, marcam o marxismo pr\u00f3prio \u00e0 era stalinista foi a sua convers\u00e3o numa ideologia rasteiramente pragm\u00e1tica e taticista; para Luk\u00e1cs, esta verdadeira pervers\u00e3o se vinculou estreitamente \u00e0 matriz neopositivista \u2013 n\u00e3o se trata, aqui, de eventuais influxos das formula\u00e7\u00f5es dos pensadores neopositivistas, mas da incorpora\u00e7\u00e3o de um quadro te\u00f3rico-conceitual, socialmente determinado, cujo vi\u00e9s epistemologista e anti-ontol\u00f3gico se adapta \u00e0 legitima\u00e7\u00e3o de uma pr\u00e1xis essencialmente instrumental. No plano imediatamente pol\u00edtico, isto se traduziu numa concep\u00e7\u00e3o administrativa do processo social, derivando no burocratismo e no comportamento manipulador pr\u00f3prio das inst\u00e2ncias pol\u00edtico-partid\u00e1rias do regime stalinista.<\/p>\n<p><strong>Em que sentido a renova\u00e7\u00e3o do marxismo proposta na abordagem ontol\u00f3gica de Luk\u00e1cs se distingue de sua contribui\u00e7\u00e3o inovadora em uma de suas obras de juventude e uma das obras mais influentes do marxismo,Hist\u00f3ria e Consci\u00eancia de Classe, de 1923?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que a obra do \u201cjovem\u201d Luk\u00e1cs \u2013 e me refiro \u00e0 obra de Luk\u00e1cs anterior \u00e0 sua ades\u00e3o ao comunismo (1918) \u2013 \u00e9 importante e valiosa, como, ali\u00e1s, Max Weber corretamente avaliou. E tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que Hist\u00f3ria e Consci\u00eancia de Classe, seu primeiro livro marxista de enorme relev\u00e2ncia (embora n\u00e3o se deva esquecer T\u00e1tica e \u00c9tica, de 1919), marca uma \u00f3bvia ruptura com o que ele produziu at\u00e9 1918. Mas o marxismo revolucion\u00e1rio de Hist\u00f3ria e Consci\u00eancia de Classe \u00e9 \u2013 inclusive na ulterior aprecia\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Luk\u00e1cs \u2013 elaborado a partir de uma concep\u00e7\u00e3o n\u00e3o ontol\u00f3gica (mais exatamente: anti-ontol\u00f3gica) da obra de Marx. Neste sentido, o \u201c\u00faltimo\u201d Luk\u00e1cs, o da Est\u00e9tica e da Ontologia, opera num quadro de refer\u00eancia essencialmente distinto daquele do \u201cjovem\u201d Luk\u00e1cs e, igualmente, do Luk\u00e1cs de Hist\u00f3ria e Consci\u00eancia de Classe. Apenas para indicar um ponto nevr\u00e1lgico: no genial livro de 1923, a categoria trabalho, fundante do pensamento do \u201c\u00faltimo\u201d Luk\u00e1cs (e n\u00e3o s\u00f3), \u00e9 residual; as implica\u00e7\u00f5es te\u00f3rico-filos\u00f3ficas deste giro s\u00e3o decisivas para as concep\u00e7\u00f5es de sociabilidade, de hist\u00f3ria e de cultura.<\/p>\n<p>Penso, todavia, que se deve ter o cuidado para n\u00e3o absolutizar a no\u00e7\u00e3o de \u201cruptura\u201d no pensamento de Luk\u00e1cs. Uma an\u00e1lise rigorosa da sua obra revela, para al\u00e9m de pontos de ruptura (a maior, indiscutivelmente, foi a decorrente da sua ades\u00e3o ao comunismo e ao marxismo), continuidades profundas. N\u00e3o me parece casual, por exemplo, que o \u201c\u00faltimo\u201d Luk\u00e1cs retome, \u00e9 \u00f3bvio que noutro registro, exatamente as suas tem\u00e1ticas juvenis \u2013 a est\u00e9tica e a \u00e9tica.<\/p>\n<p><strong>Nesse sentido, poder\u00edamos dizer que a preocupa\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica demarca a passagem do jovem Luk\u00e1cs a um Luk\u00e1cs maduro?<\/strong><\/p>\n<p>Concordo com esta afirma\u00e7\u00e3o, se ela expressa a ideia de que, com a imposta\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica, Luk\u00e1cs supera o seu marxismo dos anos que v\u00e3o de 1918 a 1923 e desde que fa\u00e7amos duas observa\u00e7\u00f5es. Primeira: essa passagem, verific\u00e1vel na abertura dos anos 1930, \u00e9 um processo, que pode ser rastreado na segunda metade da d\u00e9cada anterior (o giro que se concretizar\u00e1 entre 1930-1932 \u00e9 detect\u00e1vel j\u00e1 a partir do ensaio Moses Hess e o Problema da Dial\u00e9tica Idealista, de 1926); segunda: o Luk\u00e1cs posterior a 1930 n\u00e3o evolui e avan\u00e7a de modo unilinear; entre os anos 1930 e o fim dos anos 1950, registram-se momentos diferenciados na sua obra. Com efeito, se h\u00e1 um fio vermelho que unifica o conjunto da produ\u00e7\u00e3o lukacsiana posterior a 1918, esta unidade n\u00e3o elude est\u00e1gios distintos na sua evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O senhor menciona que a reflex\u00e3o de Luk\u00e1cs sobre a ontologia come\u00e7a a se desenvolver na d\u00e9cada de 1930, embora de modo mais cr\u00edtico-negativo do que propositivo. Quais os fatores dessa guinada da import\u00e2ncia da ontologia no pensamento de Luk\u00e1cs?<\/strong><\/p>\n<p>De fato, penso que devemos localizar o giro do pensamento de Luk\u00e1cs na dire\u00e7\u00e3o da ontologia na entrada dos anos 1930, quando ele teve a oportunidade de conhecer, em Moscou, os at\u00e9 ent\u00e3o in\u00e9ditos manuscritos marxianos de 1844 e, em seguida, de prosseguir numa nova leitura de Lenin.<\/p>\n<p>A meu ju\u00edzo, estimularam de imediato este giro dois fatos (intimamente relacionados): a rea\u00e7\u00e3o negativa do comunismo oficial \u00e0 Hist\u00f3ria e Consci\u00eancia de Classe e, em 1929, a derrota pol\u00edtica que Luk\u00e1cs experimentou no interior do partido comunista h\u00fangaro \u2013 ambas tinham resultado numa autocr\u00edtica \u201cinsincera\u201d. A necessidade de compreender os verdadeiros equ\u00edvocos te\u00f3ricos de 1923 (n\u00e3o os apontados pelos seus cr\u00edticos comunistas, que ele tentou replicar num texto que ficou in\u00e9dito at\u00e9 1996, Reboquismo e Dial\u00e9tica) e o fracasso pol\u00edtico de 1929 \u00e9 que o conduziram \u00e0 inflex\u00e3o no sentido da ontologia. Como se v\u00ea, fatores imediatos tanto te\u00f3ricos como pol\u00edticos. No plano te\u00f3rico, a primeira grande implica\u00e7\u00e3o deste giro comparece em O Jovem Hegel e os Problemas da Sociedade Capitalista (conclu\u00eddo em 1938 e publicado em 1948); no plano pol\u00edtico, a implica\u00e7\u00e3o foi permanecer no interior do movimento comunista a qualquer pre\u00e7o para combater o fascismo, suportando o stalinismo para, no seu interior, travar a resist\u00eancia poss\u00edvel, com os limites que afetaram a sua obra.<\/p>\n<p>No \u201c\u00faltimo\u201d Luk\u00e1cs, o que explica a centralidade da ontologia \u00e9 o duplo movimento que, segundo o fil\u00f3sofo, determinaria o \u201crenascimento do marxismo\u201d: ela seria o requisito para, de uma parte, operar a cr\u00edtica substantiva \u00e0s deforma\u00e7\u00f5es do pensamento de Marx que foram conaturais \u00e0 era stalinista e, de outra, para a sua renova\u00e7\u00e3o em face das novas exig\u00eancias postas pela din\u00e2mica s\u00f3cio-hist\u00f3rica do s\u00e9culo 20.<\/p>\n<p><strong>Em geral se associa Luk\u00e1cs a outros importantes nomes da renova\u00e7\u00e3o da teoria marxista: Ernst Bloch e Karl Korsch. Quais outros nomes diretamente ligados ao pensamento de Luk\u00e1cs o senhor destacaria?<\/strong><\/p>\n<p>A associa\u00e7\u00e3o a que voc\u00ea se refere tem raz\u00e3o de ser. A d\u00e9cada de 1920 foi, a meu ju\u00edzo, das mais fecundas no desenvolvimento do marxismo \u2013 e esta fecundidade est\u00e1 relacionada \u00e0 din\u00e2mica dos processos revolucion\u00e1rios europeus, desatada pela crise aberta pela Primeira Guerra Mundial e pela Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro.<\/p>\n<p>A amizade que uniu Luk\u00e1cs a Bloch foi, do ponto de vista existencial, absolutamente importante. Mas se ambos tamb\u00e9m tinham uma vis\u00e3o pol\u00edtica da conjuntura muito semelhante (eram \u201cmessi\u00e2nicos\u201d, como o disse Luk\u00e1cs) e partiam teoricamente do reconhecimento da import\u00e2ncia de Hegel para o marxismo, parece-me que suas concep\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas nunca foram inteiramente compat\u00edveis. Diferente foi a rela\u00e7\u00e3o com Korsch (muito menos significativa no plano pessoal): at\u00e9 cerca de 1925 \u2013 e isto se comprova com a leitura de Marxismo e Filosofia, que sai no mesmo ano que Hist\u00f3ria e Consci\u00eancia de Classe \u2013, havia muito de comum entre eles (em especial a postura antipositivista).<\/p>\n<p>Ademais de Lenin, o pensamento de Luk\u00e1cs, \u00e0 \u00e9poca, tamb\u00e9m se nutriu de inspira\u00e7\u00f5es provindas da obra (e da a\u00e7\u00e3o) de Rosa Luxemburgo, a quem o fil\u00f3sofo h\u00fangaro sempre admirou.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o se deve esquecer que, aderindo ao marxismo, Luk\u00e1cs n\u00e3o fez (e felizmente!) tabula rasa da sua forma\u00e7\u00e3o pr\u00e9-marxista, na qual Simmel teve participa\u00e7\u00e3o. Parece-me, todavia, que foi extremamente importante a rela\u00e7\u00e3o (n\u00e3o s\u00f3 intelectual, mas de amizade) que Luk\u00e1cs manteve com Max Weber \u2013 a influ\u00eancia de Weber, indiscutivelmente, foi muito forte sobre o fil\u00f3sofo.<\/p>\n<p><strong>Quais as principais converg\u00eancias e diverg\u00eancias entre dois dos maiores expoentes do marxismo no s\u00e9culo 20, Luk\u00e1cs e Gramsci?<\/strong><\/p>\n<p>Ao que sei, Luk\u00e1cs conheceu o trabalho de Gramsci muito tardiamente \u2013 com certeza, a partir de finais dos anos 1950. Mas, numa oportunidade, chegou a dizer que o marxismo que se renovava nos anos 1920 tivera em Gramsci, Korsch e nele mesmo os seus principais expoentes.<\/p>\n<p>Meu amigo Carlos Nelson Coutinho, recentemente falecido, sem desconhecer as profundas diferen\u00e7as entre Luk\u00e1cs e Gramsci, sempre insistiu na compatibilidade te\u00f3rica entre ambos \u2013 caracterizava como falsa a f\u00f3rmula excludente \u201cLuk\u00e1cs ou Gramsci\u201d, sublinhando a alternativa \u201cLuk\u00e1cs e Gramsci\u201d para o \u201crenascimento do marxismo\u201d.<\/p>\n<p>Claro que h\u00e1 elementos convergentes entre os dois pensadores: a valoriza\u00e7\u00e3o das inst\u00e2ncias da cultura e do di\u00e1logo cr\u00edtico com a heran\u00e7a cultural do passado, a cr\u00edtica radical da ordem burguesa, o protagonismo dos trabalhadores no processo revolucion\u00e1rio, a indispensabilidade do partido na condu\u00e7\u00e3o deste processo&#8230; Afinal, ambos foram marxistas e revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Entretanto, o que me parece distingui-los \u00e9 a sua concep\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica do marxismo e, decisivamente, a fundamenta\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gico-materialista que dela oferece Luk\u00e1cs. Do ponto de vista estritamente filos\u00f3fico \u2013 e sei que esta afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 pol\u00eamica \u2013, o pensamento de Gramsci apresenta insufici\u00eancias e elas t\u00eam implica\u00e7\u00f5es sobre o conjunto de sua obra.<\/p>\n<p><strong>Segundo Luk\u00e1cs, \u201ca pol\u00edtica \u00e9 o meio, a cultura \u00e9 o fim\u201d. Nesse sentido, mesmo partindo de uma estreita rela\u00e7\u00e3o entre cultura e pol\u00edtica, haveria uma distin\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica essencial entre ambos?<\/strong><\/p>\n<p>Voc\u00ea recordou aquele que me parece ser o mote de toda a obra de Luk\u00e1cs, o \u201cn\u00facleo problem\u00e1tico original\u201d (a express\u00e3o \u00e9 de M\u00e9sz\u00e1ros) que sempre vertebrou o pensamento do fil\u00f3sofo h\u00fangaro. E estou convencido de que os v\u00e1rios e diferentes registros te\u00f3ricos em que Luk\u00e1cs tematizou esta quest\u00e3o central \u2013 de 1908 (A Evolu\u00e7\u00e3o do Drama Moderno) \u00e0s suas \u00faltimas interven\u00e7\u00f5es \u2013 tiveram, todos eles, por base uma convic\u00e7\u00e3o que permaneceu inabal\u00e1vel: a hostilidade da ordem do capital \u00e0s objetiva\u00e7\u00f5es an\u00edmicas humanistas (em especial, mas n\u00e3o exclusivamente, \u00e0s da chamada alta cultura).<\/p>\n<p>E, na pr\u00f3pria formula\u00e7\u00e3o, fica evidenciado o diferente estatuto que Luk\u00e1cs atribuiu \u00e0 cultura e \u00e0 pol\u00edtica. Sem ter da pol\u00edtica uma concep\u00e7\u00e3o meramente instrumentalista, Luk\u00e1cs jamais conferiu a ela o significado que adjudicou \u00e0 cultura. Para dizer de maneira breve: a pol\u00edtica \u00e9 t\u00e3o somente um conjunto de meios e atividades atrav\u00e9s dos quais, nas sociedades que ainda n\u00e3o transcenderam a explora\u00e7\u00e3o, a aliena\u00e7\u00e3o e as m\u00faltiplas formas de opress\u00e3o, os homens travam as lutas emancipat\u00f3rias que podem abrir a via ao \u201creino da liberdade\u201d. Neste, que nunca imaginou ser um para\u00edso terrestre livre de tens\u00f5es e conflitos, o pensador h\u00fangaro visualizava a possibilidade de novas modalidades de desenvolvimento cultural pleno.<\/p>\n<p><strong>Qual a maior atualidade de Luk\u00e1cs?<\/strong><\/p>\n<p>Referi-me h\u00e1 pouco \u00e0s derrotas do movimento socialista no per\u00edodo p\u00f3s-1980 e ao fato de elas terem problematizado o \u201crenascimento do marxismo\u201d por que o Luk\u00e1cs se empenhou. Nos \u00faltimos 20 anos do s\u00e9culo 20, a ambi\u00eancia cultural (para n\u00e3o falar j\u00e1 da pol\u00edtica) mostrou-se francamente adversa ao socialismo e ao marxismo \u2013 provam-no a vig\u00eancia das teses sobre o \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d e as teorias p\u00f3s-modernas. Foram anos em que o pensamento de Luk\u00e1cs experimentou o que, noutra oportunidade, chamei de seu \u201cterceiro ex\u00edlio\u201d.<\/p>\n<p>Todas as indica\u00e7\u00f5es mais recentes sugerem que esta conjuntura cultural (a dos \u201ctempos conservadores\u201d, como a designou o injustamente esquecido Agust\u00edn Cueva) est\u00e1 a esgotar-se. A crise sist\u00eamica que vem corroendo a ordem do capital j\u00e1 n\u00e3o pode ser minimizada e, menos ainda, ocultada. Uma das suas implica\u00e7\u00f5es, provavelmente a m\u00e9dio prazo, ser\u00e1 \u2013 se a barb\u00e1rie presente n\u00e3o nos destruir e para conjur\u00e1-la \u2013 a ativa\u00e7\u00e3o do pensamento e da a\u00e7\u00e3o socialista e, no interior do seu diferenciado campo, do marxismo. Para uma tal ativa\u00e7\u00e3o, o contributo de Luk\u00e1cs (e, particularmente, da sua Ontologia) ser\u00e1 indispens\u00e1vel.<\/p>\n<p>A minha hip\u00f3tese de trabalho \u00e9 que somente um marxismo liberado de todo o ran\u00e7o remanescente da era stalinista, aberto ao debate e plural \u2013 mas com fronteiras claras e suscet\u00edveis de pol\u00eamica e dissenso \u2013, somente um tal marxismo ter\u00e1 viabilidade. A obra de Luk\u00e1cs ser\u00e1 constitutiva desse marxismo. Por isto, mais que atual, ela \u00e9 prospectiva.<\/p>\n<p><a href=\"..\/fdr\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=402\">http:\/\/pcb.org.br\/fdr\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=402<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\n2.bp.blogspot\n\n\n\n\n\n\n\n\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4405\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[33],"tags":[],"class_list":["post-4405","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c34-marxismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-193","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4405","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4405"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4405\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4405"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4405"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4405"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}