{"id":443,"date":"2010-05-06T02:41:32","date_gmt":"2010-05-06T02:41:32","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=443"},"modified":"2010-05-06T02:41:32","modified_gmt":"2010-05-06T02:41:32","slug":"gilmar-mauro-lula-nao-fez-reforma-agraria-mas-somente-politica-de-assentamentos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/443","title":{"rendered":"Gilmar Mauro: \u2018Lula n\u00e3o fez reforma agr\u00e1ria, mas somente pol\u00edtica de assentamentos\u2019"},"content":{"rendered":"\n<p><em>O m\u00eas de abril se encerra e com ele mais uma edi\u00e7\u00e3o da Jornada Nacional de Luta pela Reforma Agr\u00e1ria organizada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Em entrevista ao Correio da Cidadania, <strong>Gilmar Mauro, dirigente nacional do movimento<\/strong>, analisa mais essa jornada, que reivindica o cumprimento das antiq\u00fc\u00edssimas promessas de promo\u00e7\u00e3o de reforma agr\u00e1ria e apoio aos assentamentos. <\/em><\/p>\n<p><em>No entanto, Gilmar ressalta que n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel manter as reivindica\u00e7\u00f5es por distribui\u00e7\u00e3o de terras dentro dos par\u00e2metros antigos, uma vez que o agroneg\u00f3cio e seus grandes grupos econ\u00f4micos est\u00e3o no controle de todo o processo produtivo, n\u00e3o se limitando somente \u00e0 propriedade da terra. <\/em><\/p>\n<p><em>Tal constata\u00e7\u00e3o nos leva \u00e0 crucial quest\u00e3o de rediscutirmos que tipo de produ\u00e7\u00e3o e alimenta\u00e7\u00e3o queremos para a humanidade, hoje \u00e0s voltas com a forte presen\u00e7a dos agrot\u00f3xicos e a destrui\u00e7\u00e3o ambiental proporcionada por tal modelo. Al\u00e9m disso, destaca que o movimento ainda n\u00e3o discute o pleito presidencial exatamente para evitar que a jornada seja tratada como eleitoreira, quando na verdade se baseia em toda uma \u2018amarelada\u2019 pauta de necessidades e exig\u00eancias. <\/em><\/p>\n<p>A entrevista completa com Gilmar Mauro pode ser conferida a seguir.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania: Os cr\u00edticos mais \u00e0 direita levantam insistentemente contra a reforma agr\u00e1ria o argumento de que a conclus\u00e3o da urbaniza\u00e7\u00e3o a tornou desnecess\u00e1ria, uma vez que teria impulsionado o mercado interno. Ademais, a diversifica\u00e7\u00e3o do mundo rural, incrementando a oferta de alimentos de forma a suprir a demanda, teria deixado sem sentido a id\u00e9ia de uma reforma agr\u00e1ria, vez que n\u00e3o se poderia imaginar o futuro de um pa\u00eds como o Brasil sem a agricultura de grande escala, atraindo as massas urbanas novamente para o campo. O que voc\u00ea responderia a estes cr\u00edticos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Gilmar Mauro: Em primeiro lugar, toda a l\u00f3gica da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola no Brasil e no mundo responde \u00fanica e exclusivamente \u00e0 l\u00f3gica do grande capital, ou seja, do lucro.<\/strong><\/p>\n<p>As empresas investem na agricultura como mais um espa\u00e7o de valoriza\u00e7\u00e3o do capital, por isso que hoje toda a produ\u00e7\u00e3o &#8211; terra, comercializa\u00e7\u00e3o, ind\u00fastria, patente, tecnologia etc. &#8211; \u00e9 controlada apenas por alguns grupos econ\u00f4micos. Causando, conseq\u00fcentemente, impactos grav\u00edssimos ao tipo de alimentos que a humanidade consome (\u00e0 custa de horm\u00f4nios e antibi\u00f3ticos, j\u00e1 que a l\u00f3gica do capital \u00e9 tentar diminuir os custos para ganhar mais dinheiro). Em suma, n\u00e3o h\u00e1 qualquer preocupa\u00e7\u00e3o com o tipo de alimenta\u00e7\u00e3o que a humanidade ter\u00e1.<\/p>\n<p>Isso sem falar no impacto ambiental, com a monocultura e a utiliza\u00e7\u00e3o em grande escala de agrot\u00f3xicos contaminando os rios, lagos, len\u00e7\u00f3is fre\u00e1ticos e tamb\u00e9m o ar. Peguemos um exemplo brasileiro: h\u00e1 informa\u00e7\u00f5es de que estamos com 175 milh\u00f5es de cabe\u00e7as de boi no Brasil, quase uma por pessoa. Na medida em que ocorre a crise energ\u00e9tica e se investe bastante em cana e etanol, cidades como S\u00e3o Paulo viram um mar de cana e toda a pecu\u00e1ria se estende para o Centro-Oeste e Norte do pa\u00eds. O Centro- Oeste \u00e9 nascedouro de v\u00e1rios mundos, portanto, isso causa impacto ambiental grav\u00edssimo. E a destrui\u00e7\u00e3o da mata da Amaz\u00f4nia tamb\u00e9m ter\u00e1 um impacto que dificilmente conseguiremos reverter.<\/p>\n<p><strong>CC: Qual \u00e9, portanto, em sua opini\u00e3o, o significado da reforma agr\u00e1ria hoje no Brasil? De outro modo, existe uma quest\u00e3o agr\u00e1ria no Brasil de hoje?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GM: <\/strong>A l\u00f3gica anteriormente destacada destr\u00f3i a natureza, o meio ambiente e assim por diante. E uma reforma agr\u00e1ria na atualidade n\u00e3o pode ser pensada a partir da vis\u00e3o dos anos 60, ao estilo distributivo-produtivista.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que a reforma agr\u00e1ria hoje tem de dar resposta a que tipo de alimenta\u00e7\u00e3o a humanidade quer consumir, se quer consumir produtos com agrot\u00f3xicos ou optar por uma alimenta\u00e7\u00e3o mais saud\u00e1vel; ter\u00e1 de responder tamb\u00e9m a que tipo de uso queremos dar ao solo e aos recursos naturais, incluindo subsolo e toda a biodiversidade; e, por fim, que tipo de paradigmas tecnol\u00f3gicos queremos para o futuro.<\/p>\n<p>Portanto, uma reforma agr\u00e1ria \u00e9 atual\u00edssima para o modelo agr\u00edcola do Brasil e do mundo.<\/p>\n<p><strong>CC: O governo Lula fez avan\u00e7ar de alguma forma a quest\u00e3o agr\u00e1ria no Brasil? Que compara\u00e7\u00e3o voc\u00ea faria entre o seu governo e o governo anterior do PSDB?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GM:<\/strong> Primeiramente, n\u00e3o existe Plano Nacional de Reforma Agr\u00e1ria. S\u00f3 existe uma pol\u00edtica de assentamentos. Isso vem sendo aplicado desde o governo Sarney at\u00e9 hoje; uma pol\u00edtica de assentamentos focalizada em algumas desapropria\u00e7\u00f5es aqui e acol\u00e1, sem alterar a estrutura fundi\u00e1ria.<\/p>\n<p>Portanto, continuamos com a mesma concentra\u00e7\u00e3o da propriedade no pa\u00eds e avan\u00e7amos muito pouco no per\u00edodo. Evidentemente, houve conquistas importantes da classe trabalhadora, mas n\u00e3o podemos chamar isso de reforma agr\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>CC: V\u00e1rios l\u00edderes do movimento j\u00e1 avaliaram que, em fun\u00e7\u00e3o da impossibilidade de se proceder a uma reforma capitalista cl\u00e1ssica \u2013 ao estilo daquelas que foram perpetradas na maioria dos pa\u00edses capitalistas avan\u00e7ados, para as quais o pacto com a burguesia industrial foi fundamental \u2013, e tamb\u00e9m a uma reforma socialista &#8211; o que somente se sucederia em uma conjuntura revolucion\u00e1ria -, o que se busca hoje \u00e9 uma reforma popular. Voc\u00ea poderia especificar melhor essa quest\u00e3o, no sentido de definir qual \u00e9 o modelo de reforma agr\u00e1ria a ser perseguido na atual conjuntura hist\u00f3rica? <\/strong><\/p>\n<p><strong>GM: <\/strong>Esse ponto da reforma agr\u00e1ria popular \u00e9 um processo em constru\u00e7\u00e3o e elabora\u00e7\u00e3o. Mas a id\u00e9ia em si \u00e9 neste sentido, pois a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as impede uma reforma agr\u00e1ria socialista, ao mesmo tempo em que a reforma agr\u00e1ria cl\u00e1ssica estaria superada.<\/p>\n<p>Dessa forma, \u00e9 um per\u00edodo intermedi\u00e1rio de constru\u00e7\u00e3o de organicidade, de ac\u00famulo de for\u00e7as do movimento social. A id\u00e9ia de uma reforma popular vem no sentido de execut\u00e1-la por conta pr\u00f3pria, sem deixar, evidentemente, de questionar o Estado, fazer demandas e pression\u00e1-lo a cumprir sua parte. Mas construindo por conta pr\u00f3pria experi\u00eancias de produ\u00e7\u00e3o agro-ecol\u00f3gica, de educa\u00e7\u00e3o, novas formas de organiza\u00e7\u00e3o dos assentamentos em termos de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e organiza\u00e7\u00e3o do poder popular nos locais onde se constroem os assentamentos.<\/p>\n<p>Portanto, \u00e9 uma reforma agr\u00e1ria de resist\u00eancia neste ponto hist\u00f3rico em que n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de avan\u00e7armos numa perspectiva socializante planejada, seja dos recursos naturais, meios de produ\u00e7\u00e3o ou a terra.<\/p>\n<p><strong>CC: Em entrevista concedida h\u00e1 alguns meses ao Portal Uol de Not\u00edcias, Jo\u00e3o Pedro St\u00e9dile declarou que o latif\u00fandio se modernizou, associando-se a grandes grupos de multinacionais e adotando o agroneg\u00f3cio, tornando insuficientes as ocupa\u00e7\u00f5es como forma de luta. Afinal, enfrentar um grande fazendeiro \u00e9 bem diferente do que enfrentar o entrela\u00e7amento entre grandes grupos econ\u00f4micos. Qual \u00e9, portanto, a seu ver, a import\u00e2ncia das ocupa\u00e7\u00f5es atualmente? S\u00e3o uma forma de chamar a aten\u00e7\u00e3o? <\/strong><\/p>\n<p><strong>GM: <\/strong>As ocupa\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o uma inven\u00e7\u00e3o nossa, mas constru\u00e7\u00f5es que a classe desenvolveu ao longo da hist\u00f3ria. Mesmo que o MST decidisse acabar com as ocupa\u00e7\u00f5es, n\u00e3o \u00e9 por decreto que elas cessar\u00e3o. Enquanto existirem demandas por terra, por reforma agr\u00e1ria, haver\u00e1 v\u00e1rias formas de luta, entre elas as ocupa\u00e7\u00f5es. E as ocupa\u00e7\u00f5es continuam sendo um instrumento fundamental na luta pela reforma agr\u00e1ria, como provou a \u00faltima jornada nacional do MST.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que elas n\u00e3o s\u00e3o suficientes para alterar a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as em favor da reforma agr\u00e1ria. \u00c9 preciso desenvolver lutas em conjunto com outros setores da classe trabalhadora. O projeto teria de vir acompanhado, como disse no in\u00edcio, das respostas sobre o uso que queremos dar ao solo, \u00e0s terras, aos recursos naturais, que tipo de alimenta\u00e7\u00e3o vamos produzir.<\/p>\n<p>Os sem terra, sozinhos, n\u00e3o t\u00eam for\u00e7as para alterar esse cen\u00e1rio atual. Portanto, devemos construir novas formas de luta. Por\u00e9m, elas n\u00e3o se inventam em gabinetes, trata-se de um processo que a classe vai construindo, experimentando no seu cotidiano, tentando conjugar duas coisas: as lutas pelas necessidades imediatas e pelas mudan\u00e7as estruturais que se pretendem fazer no Brasil.<\/p>\n<p>As ocupa\u00e7\u00f5es continuar\u00e3o sempre e quando houver grupos interessados na reforma agr\u00e1ria e enquanto este pa\u00eds n\u00e3o a fizer.<\/p>\n<p><strong>CC: Essas ocupa\u00e7\u00f5es n\u00e3o t\u00eam, de todo modo, deixado de produzir os resultados esperados?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GM: <\/strong>Acho que elas produzem, sim, resultados. Evidentemente, as situa\u00e7\u00f5es s\u00e3o tratadas pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o, pelo Estado, como uma afronta ao Estado de Direito etc. Claro que se trata de propaganda ideol\u00f3gica, pois, se garantissem o que est\u00e1 na Constitui\u00e7\u00e3o, possivelmente ter\u00edamos avan\u00e7ado muito mais na realiza\u00e7\u00e3o da reforma agr\u00e1ria. O que temos \u00e9 Estado de Direito para alguns e Estado de Mis\u00e9ria e dificuldades para a maioria da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas isso n\u00e3o me preocupa. No dia em que o Estad\u00e3o, a Globo, estiverem falando bem de nossas lutas, \u00e9 porque elas estariam redondamente equivocadas. A direita sempre vai falar mal de n\u00f3s, inclusive das ocupa\u00e7\u00f5es. Sinal de que elas continuam dando certo e mexendo na ferida hist\u00f3rica do problema da terra no Brasil.<\/p>\n<p><strong>CC: \u00c9 a partir deste espectro que temos que, sem d\u00favida, enxergar as acusa\u00e7\u00f5es t\u00e3o insistentemente veiculadas pela grande m\u00eddia sobre a viol\u00eancia do MST. Imagina, no entanto, que as ocupa\u00e7\u00f5es estejam mais intrinsecamente associadas a estas acusa\u00e7\u00f5es, indispondo, de alguma forma, o movimento com a opini\u00e3o p\u00fablica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GM:<\/strong> Sempre fizeram isso. Os setores dominantes fazem o mesmo desde Canudos.<\/p>\n<p>A tentativa foi sempre criar o estigma para depois justificar o processo coercitivo de repress\u00e3o. Qual a novidade dos tempos que vivemos? Aumentaram as duas coisas, coer\u00e7\u00e3o e conceito. A id\u00e9ia do conceito se transmite via meios de comunica\u00e7\u00e3o e outros aparelhos ideol\u00f3gicos privados, tentando estigmatizar e criminalizar o movimento social, assim como fazem com a pobreza, no intuito de justificar a\u00e7\u00f5es coercitivas por parte do Estado.<\/p>\n<p>Penso que continuar\u00e3o a fazer isso. N\u00e3o devemos arredar o p\u00e9 de nossas t\u00e1ticas e a ocupa\u00e7\u00e3o continua sendo instrumento fundamental de luta. Claro que sozinha n\u00e3o resolve, mas a classe jamais abandonar\u00e1 tal instrumento como forma de luta para alcan\u00e7ar nossos objetivos.<\/p>\n<p><strong>CC: H\u00e1, de qualquer forma, um consenso de que fazer uma reforma agr\u00e1ria hoje n\u00e3o implica mais somente em ocupar terra, mas em agir na den\u00fancia do atual modelo econ\u00f4mico. O que se tem agregado, e ainda se pretende agregar, \u00e0s formas mais antigas de luta, de modo a formar um entendimento efetivo sobre a atual situa\u00e7\u00e3o agr\u00e1ria e, conseq\u00fcentemente, agir sobre ela? <\/strong><\/p>\n<p><strong>GM:<\/strong> Eu at\u00e9 comparo metaforicamente a reforma agr\u00e1ria com uma boa feijoada. Para fazer uma boa feijoada, \u00e9 necess\u00e1rio um monte de ingredientes, mas sem feij\u00e3o n\u00e3o tem feijoada.<\/p>\n<p>Na reforma agr\u00e1ria, \u00e9 a mesma coisa. Tem de se trabalhar a id\u00e9ia de um novo modelo agr\u00edcola, voltado \u00e0 agro-ecologia, al\u00e9m de se ter educa\u00e7\u00e3o, cultura, espa\u00e7os de lazer. Os assentamentos e suas comunidades precisam reproduzir a vida em todos os seus aspectos, n\u00e3o apenas como espa\u00e7o de produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>No entanto, sem desapropria\u00e7\u00e3o de terra, n\u00e3o tem reforma agr\u00e1ria. \u00c9 preciso continuar desapropriando terra, mas, evidentemente, precisa ser iniciado um novo ciclo de produ\u00e7\u00e3o e consumo de alimentos, um novo modelo. Que respeite o meio ambiente, atenda \u00e0s necessidades aliment\u00edcias da humanidade e, ao mesmo tempo, ofere\u00e7a espa\u00e7o para o pleno desenvolvimento da educa\u00e7\u00e3o, da sa\u00fade e outras condi\u00e7\u00f5es de sociabilidade, diferentes das estabelecidas pelo mercado.<\/p>\n<p><strong>CC: Que avalia\u00e7\u00e3o voc\u00ea faz do atual \u2018abril vermelho\u2019, com as manifesta\u00e7\u00f5es do movimento por todo o pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GM: <\/strong>Acho que foi um momento bastante interessante das lutas, principalmente porque nos acusaram de fazer luta com dinheiro p\u00fablico etc.<\/p>\n<p>Na verdade, o MST j\u00e1 passou por duas CPMI e agora enfrenta mais uma. N\u00e3o h\u00e1 nenhum conv\u00eanio com o MST, sendo que algumas entidades pr\u00f3ximas foram cortadas dos conv\u00eanios. E mesmo assim tivemos uma grande jornada de lutas, com muitas ocupa\u00e7\u00f5es Brasil afora, em clara demonstra\u00e7\u00e3o de que nosso movimento n\u00e3o se guia pela quantidade de recursos e verbas p\u00fablicas liberadas ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, a falta do Estado na sa\u00fade, na educa\u00e7\u00e3o e na assist\u00eancia t\u00e9cnica obrigam alguns setores a fazer projetos que situam aquilo que historicamente \u00e9 tarefa do Estado.<\/p>\n<p>Portanto, essa jornada demonstrou que o MST vai continuar se organizando e lutando, e que a \u00fanica maneira de acabar com o movimento \u00e9 fazer a reforma agr\u00e1ria. De outro jeito, n\u00e3o acabam com o movimento, pois, em determinados momentos, a luta pode diminuir, mas, sem resolv\u00ea-la na ess\u00eancia, sempre retornar\u00e1, e com mais for\u00e7a. \u00c9 uma grande quantidade de \u00e1gua represada e nunca vai ser poss\u00edvel cont\u00ea-la completamente.<\/p>\n<p>Qualquer soci\u00f3logo med\u00edocre sabe que, se n\u00e3o for resolvido o problema na ess\u00eancia, as lutas sempre v\u00e3o aparecer com for\u00e7a, numa demonstra\u00e7\u00e3o de que a reforma agr\u00e1ria continua atual\u00edssima e como uma quest\u00e3o das mais modernas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, quando falei antes da quest\u00e3o da utiliza\u00e7\u00e3o dos solos, da \u00e1gua, da terra, tamb\u00e9m me referi \u00e0 quest\u00e3o das cidades. O processo de urbaniza\u00e7\u00e3o que vivemos traz impactos sociais e ambientais muito graves.<\/p>\n<p>Portanto, repensar a utiliza\u00e7\u00e3o do solo \u00e9 voltar a repensar a agricultura como espa\u00e7o de produ\u00e7\u00e3o e preserva\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n<p><strong>CC: O MST \u00e9 muitas vezes acusado de ser um partido pol\u00edtico, possuindo uma ideologia no que se refere \u00e0s mudan\u00e7as esperadas em nosso pa\u00eds. O que voc\u00ea pensa disso? <\/strong><\/p>\n<p><strong>GM:<\/strong> N\u00e3o se pode separar a luta reivindicat\u00f3ria, social, da luta pol\u00edtica. Se o mundo \u00e9 uma totalidade contradit\u00f3ria em movimento, n\u00e3o h\u00e1 como separar as coisas. A luta social \u00e9 parte da luta pol\u00edtica e a politiza\u00e7\u00e3o da luta social \u00e9 fundamental at\u00e9 mesmo para criar o atendimento \u00e0s necessidades imediatas.<\/p>\n<p>No entanto, n\u00e3o somos um partido nos moldes cl\u00e1ssicos. O MST jamais vai se transformar num partido. \u00c9 um movimento social com essa caracter\u00edstica, de aspecto e reivindica\u00e7\u00f5es populares, com a participa\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as, idosos, jovens, adultos etc., mas tamb\u00e9m com o aspecto de luta econ\u00f4mica, de constru\u00e7\u00e3o das cooperativas, de respostas econ\u00f4micas \u00e0 produ\u00e7\u00e3o. E tamb\u00e9m de aspecto pol\u00edtico, com forma\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica. Tem escola de forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, jornal, revista.<\/p>\n<p>O movimento \u00e9 mais um instrumento da classe trabalhadora, defendendo sua particularidade, que \u00e9 a reforma agr\u00e1ria, mas entendendo que, para a realiza\u00e7\u00e3o desta, \u00e9 preciso toda uma opera\u00e7\u00e3o na estrutura do sistema. E isso s\u00f3 vir\u00e1 no dia em que as classes trabalhadoras reunirem instrumentos que aglutinem a luta e alterem o Estado burgu\u00eas, que \u00e9 deste estado de coisas que presenciamos.<\/p>\n<p>O MST \u00e9 s\u00f3 mais um parceiro nesta tarefa pol\u00edtica de todo o conjunto da classe trabalhadora.<\/p>\n<p><strong>CC: Como o movimento vai se posicionar nestas elei\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GM: <\/strong>\u00c9 um tema pouco discutido ainda. Possivelmente, faremos um debate interno mais profundo no segundo semestre, at\u00e9 para fugir um pouco desse r\u00f3tulo burgu\u00eas, que colocou a jornada como algo eleitoreiro. Na verdade, n\u00e3o \u00e9 nada eleitoreira, pois temos uma pauta concreta e, por essa raz\u00e3o, n\u00e3o queremos debater a quest\u00e3o eleitoral agora.<\/p>\n<p>Ainda h\u00e1 um cap\u00edtulo a ser resolvido com os governos federal e estaduais, que \u00e9 essa pauta amarelada que n\u00e3o foi atendida.<\/p>\n<p>No segundo semestre, como todo cidad\u00e3o, participaremos do processo eleitoral. Mas n\u00e3o temos uma posi\u00e7\u00e3o clara de defesa a alguma figura candidata \u00e0 presid\u00eancia.<\/p>\n<p>No entanto, \u00e9 evidente que a orienta\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica para a nossa milit\u00e2ncia \u00e9 votar naquele candidato que esteja compromissado com uma reforma agr\u00e1ria profunda e radical.<\/p>\n<p><strong>CC: Sabendo-se da evidente polariza\u00e7\u00e3o do atual cen\u00e1rio eleitoral entre PT e PSDB, a vit\u00f3ria de Dilma ou de Serra n\u00e3o impactaria de forma diferenciada no movimento? <\/strong><\/p>\n<p><strong>GM: <\/strong>Eu acho que ainda \u00e9 cedo para ter a defini\u00e7\u00e3o de que s\u00f3 esses dois v\u00e3o disputar. V\u00e3o sair v\u00e1rios candidatos, figuras interessantes e de hist\u00f3rico pol\u00edtico importante.<\/p>\n<p>Na medida em que estabelecemos que a disputa ser\u00e1 entre Serra e Dilma, ignoramos todo o processo anterior. S\u00f3 depois que se definir o segundo turno teremos de fazer o balan\u00e7o do que \u00e9 melhor para o movimento social, o que faremos no momento certo.<\/p>\n<p><strong>Val\u00e9ria Nader, economista, \u00e9 editora do Correio da Cidadania; Gabriel Brito \u00e9 jornalista.<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.correiocidadania.com.br\/content\/view\/4592\/9\/\" target=\"_blank\">http:\/\/www.correiocidadania.com.br\/content\/view\/4592\/9\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.correiocidadania.com.br\/content\/view\/4592\/9\/\" target=\"_blank\"><\/p>\n<p><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: MST\n\n\n\n\nEscrito por Val\u00e9ria Nader e Gabriel Brito, da Reda\u00e7\u00e3o\n01-Mai-2010\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/443\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[20],"tags":[],"class_list":["post-443","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c1-popular"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-79","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/443","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=443"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/443\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=443"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=443"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=443"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}