{"id":4476,"date":"2013-03-15T16:12:31","date_gmt":"2013-03-15T16:12:31","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4476"},"modified":"2013-03-15T16:12:31","modified_gmt":"2013-03-15T16:12:31","slug":"o-debate-que-ha-hoje-nas-farc-ep-nao-e-sobre-a-validade-ou-nao-da-luta-armadaq","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4476","title":{"rendered":"\u201cO debate que h\u00e1 hoje nas FARC-EP n\u00e3o \u00e9 sobre a validade ou n\u00e3o da luta armada&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Por: La\u00a0Silla\u00a0Vac\u00eda<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Carlos\u00a0Lozano: l\u00edder do Partido Comunista Colombiano, dirigente da Marcha Patri\u00f3tica e, acima de tudo, uma das pessoas a quem os governos sempre t\u00eam recorrido para fazer uma ponte com as\u00a0FARC.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Na \u00e9poca do movimento estudantil,\u00a0Lozano\u00a0conheceu muitos dos l\u00edderes das\u00a0FARC\u00a0que como ele pertenciam \u00e0 Juventude Comunista (JUCO), come\u00e7ando por Alfonso Cano.\u00a0Tamb\u00e9m\u00a0militou com Andr\u00e9s Paris e Pablo\u00a0Catatumbo. Assim, durante as negocia\u00e7\u00f5es de paz em\u00a0Cagu\u00e1n,\u00a0Lozano, que era editor do jornal comunista Voz, estabeleceu contato com as\u00a0FARC\u00a0novamente e conseguiu a \u00fanica entrevista que\u00a0Tirofijo\u00a0concedeu a um meio de comunica\u00e7\u00e3o colombiano. Em seguida, a guerrilha o designou como membro da comiss\u00e3o de not\u00e1veis que contribu\u00edram para esse processo de paz. Depois de seu fracasso, quando grande parte do pa\u00eds assistia \u00e0 derrota militar por meio da Seguran\u00e7a Democr\u00e1tica,\u00a0Lozano\u00a0continuou insistindo em uma solu\u00e7\u00e3o negociada. Quando este cen\u00e1rio novamente ganhou for\u00e7a,\u00a0Lozano\u00a0foi procurado mais uma vez. Desta vez, pelo Governo cubano.\u00a0Timochenko\u00a0tamb\u00e9m lhe concedeu a \u00fanica entrevista dada na Col\u00f4mbia. Esta entrevista, como v\u00e1rias de suas reflex\u00f5es sobre a paz, aparece em um livro publicado recentemente por\u00a0Lozano.<\/p>\n<p>Agora que retornam as trocas de declara\u00e7\u00f5es destemperadas entre o governo e as\u00a0FARC, La\u00a0Silla\u00a0Vac\u00eda\u00a0entrevistou\u00a0Lozano\u00a0para obter uma perspectiva\u00a0de mais longo prazo sobre essa negocia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>La\u00a0Silla\u00a0Vac\u00eda: Em seu livro, voc\u00ea conta que foi Cuba que o procurou para facilitar os contatos com as\u00a0FARC. Como foi esse processo?<\/strong><\/p>\n<p>Na verdade, os contatos do presidente Santos come\u00e7aram antes de sua posse atrav\u00e9s de um empres\u00e1rio\u00a0vallecaucano, e isso inicialmente gerou certa expectativa nas \u00a0FARC\u00a0e em alguns dos pa\u00edses que estavam acompanhando o governo. Essa etapa foi o aquecimento. O ritmo de todo o processo foi lento e os cubanos tinham a d\u00favida de at\u00e9 onde as\u00a0FARC\u00a0estavam dispostas a se comprometer em um processo s\u00e9rio. Foi quando eu apareci. Queriam, atrav\u00e9s de mim, que eu tentasse estabelecer com Alfonso Cano se era uma decis\u00e3o tomada pelas\u00a0FARC\u00a0e se Cuba iria se envolver em um processo que tinha\u00a0perspectivas\u00a0de sucesso.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea chegou \u00e0 conclus\u00e3o de que as\u00a0FARC\u00a0o estavam levando a s\u00e9rio?<\/strong><\/p>\n<p>Cheguei \u00e0 conclus\u00e3o porque troquei mensagens com\u00a0Timole\u00f3n\u00a0uma vez tendo ele assumido ap\u00f3s a morte de Cano, e eu percebi que j\u00e1 haviam tomado uma decis\u00e3o. O fato \u00e9 que eles permaneceram dispostos a continuar o processo de aproxima\u00e7\u00e3o apesar da morte de Cano, que ao meu entender foi vista como uma trai\u00e7\u00e3o de Santos. Quando vejo que persistem com a ideia do processo, percebo que pode ser feito. Sem d\u00favida, havia debates nas\u00a0FARC, estas quest\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o tomadas por unanimidade, mas estavam unidos no fundamental, em continuar o legado de Cano e abrir um espa\u00e7o para o di\u00e1logo. Ent\u00e3o, cheguei \u00e0 conclus\u00e3o de que seria assim. Acho que eu estava certo.<\/p>\n<p><strong>Como as\u00a0FARC\u00a0decidiram que estavam prontas para entrar em uma negocia\u00e7\u00e3o que pode conduzir \u00e0 deposi\u00e7\u00e3o das armas?<\/strong><\/p>\n<p>At\u00e9 onde eu entendo, houve discuss\u00f5es dentro das\u00a0FARC, mas n\u00e3o tanto sobre sentar-se ou n\u00e3o \u00e0 mesa de di\u00e1logo, mas se este era o momento ou n\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 algo qualquer que aconteceu com a morte de\u00a0Jojoy\u00a0e, especialmente, com a morte de Alfonso Cano. Era um trof\u00e9u de guerra muito importante para o governo, um duro golpe para as\u00a0FARC. N\u00e3o foi f\u00e1cil seguir neste processo. Houve discuss\u00e3o no secretariado e no Estado-Maior. Mas no final conseguiu-se tomar a decis\u00e3o de ir todos juntos, e tem sido mais ou menos assim. N\u00e3o se tem visto nas\u00a0FARC\u00a0atitudes para minar o processo. Eles t\u00eam um roteiro \u00fanico.<\/p>\n<p><strong>Por que os cubanos estavam interessados em facilitar o processo de paz com as\u00a0FARC-EP?<\/strong><\/p>\n<p>Os cubanos h\u00e1 tempos est\u00e3o \u00a0interessados numa solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para o conflito armado na Col\u00f4mbia. N\u00e3o por uma decep\u00e7\u00e3o com a luta armada, mas pela realidade pol\u00edtica. Os processos da Am\u00e9rica Latina est\u00e3o passando por um outro patamar e assim entendem os cubanos.<\/p>\n<p><strong>Como eles entram na negocia\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Como as\u00a0FARC\u00a0se opuseram ao di\u00e1logo na Su\u00e9cia e na Noruega, porque era muito longe, Cuba surgiu como uma alternativa. Para as\u00a0FARC\u00a0poderia ter sido a Venezuela, mas n\u00e3o foi f\u00e1cil para o governo colombiano aceit\u00e1-lo. Assim, abre-se espa\u00e7o para Havana e por isso o presidente Santos j\u00e1 havia feito contato com Cuba. Eles foram convidados pelo governo, n\u00e3o entraram pela porta dos fundos.<\/p>\n<p><strong>Cuba n\u00e3o tem influ\u00eancia sobre as\u00a0FARC?<\/strong><\/p>\n<p>Mais do que influ\u00eancia, creio que as\u00a0FARC\u00a0t\u00eam respeito por Cuba e isso \u00e9 muito importante. Cuba tem autoridade para falar com as\u00a0FARC\u00a0porque tem sido solid\u00e1ria com todas essas lutas armadas e de alguma maneira a sua voz \u00e9 ouvida. N\u00e3o estou dizendo que seja atendida, mas pelo menos h\u00e1 facilidade de se encontrar receptividade a essa ajuda de Cuba.<\/p>\n<p><strong>Que condi\u00e7\u00f5es favorecem a paz agora e que n\u00e3o existiam no passado?<\/strong><\/p>\n<p>Estamos em outro momento. O debate que h\u00e1 agora na esquerda e nas pr\u00f3prias guerrilhas colombianas, inclusive no\u00a0ELN, n\u00e3o \u00e9 a validade ou n\u00e3o da luta armada, que era a discuss\u00e3o dos anos 70. Hoje, o debate \u00e9 baseado na experi\u00eancia concreta da Am\u00e9rica Latina. O processo de renova\u00e7\u00e3o vai pelo caminho da luta desarmada. Isso pesa. Por si s\u00f3, as\u00a0FARC\u00a0reconheceram algo de que antes n\u00e3o gostavam muito: que se falasse de um conflito degradado; agora, em seus textos, falam de um conflito degradado. O debate \u00e9 que temos de p\u00f4r fim a um conflito que n\u00e3o tem futuro, n\u00e3o tem um desfecho r\u00e1pido e que se deve procurar alternativas para evitar tanto sofrimento a este pa\u00eds, por conta do conflito e de outras raz\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea vislumbra o acordo perfeito que poderia sair agora do processo de paz?<\/strong><\/p>\n<p>O tema agr\u00e1rio \u00e9 fundamental. Quanto a isso o governo n\u00e3o pode fechar qualquer possibilidade. N\u00e3o est\u00e1 em discuss\u00e3o a propriedade privada, mas a excessiva\u00a0concentra\u00e7\u00e3o\u00a0da propriedade da terra. As Na\u00e7\u00f5es Unidas alertaram: a Col\u00f4mbia tem as vacas mais confort\u00e1veis do mundo enquanto se amea\u00e7a a soberania alimentar. O governo n\u00e3o pode dizer que o modelo n\u00e3o \u00e9 objeto de discuss\u00e3o. Em mat\u00e9ria pol\u00edtica,\u00a0 mesma coisa. Tenho a impress\u00e3o de que o governo tem uma posi\u00e7\u00e3o reducionista sobre o tema pol\u00edtico. Limita-se a ida de\u00a0M\u00e1rquez\u00a0ou\u00a0Timole\u00f3n\u00a0para o Senado. Essa n\u00e3o \u00e9 a quest\u00e3o fundamental.<\/p>\n<p><strong>Concretamente, a que voc\u00ea acha que aspiram as\u00a0FARC\u00a0no \u00e2mbito pol\u00edtico?<\/strong><\/p>\n<p>As reformas pol\u00edticas: um estatuto da oposi\u00e7\u00e3o, as reformas que garantam a igualdade de todos perante a lei, garantias para poder participar da vida nacional. Deve haver uma reforma de fundo que n\u00e3o pode ser reduzida, como cr\u00ea o\u00a0<em>establishment<\/em>, a discuss\u00e3o de se a cl\u00e1usula de barreira deve ser de 3 por cento. Esse n\u00e3o \u00e9 o ponto &#8211; \u00e9 de garantias, de facilidades, que a pol\u00edtica tradicional se liberte de tantos v\u00edcios. Deve haver um sistema que favore\u00e7a mais as garantias democr\u00e1ticas em todo o \u00e2mbito nacional.<\/p>\n<p><strong>O que voc\u00ea espera sobre a quest\u00e3o das v\u00edtimas?<\/strong><\/p>\n<p>O Dr. De la\u00a0Calle\u00a0diz todo o tempo \u00e0s\u00a0FARC\u00a0que \u00e9 necess\u00e1rio resolver a quest\u00e3o das v\u00edtimas. Eu me pergunto: n\u00e3o h\u00e1 v\u00edtimas do Estado? Na Uni\u00e3o Patri\u00f3tica houve total impunidade e sobre isso n\u00e3o se pode dizer que foi Rodr\u00edguez Gacha. Vejo que v\u00e3o fazer um filme de Carlos\u00a0Casta\u00f1o\u00a0e o argumento \u00e9 de que foi tudo uma vingan\u00e7a de Carlos\u00a0Casta\u00f1o. Deve haver um crit\u00e9rio para que todos tragam essa verdade.<\/p>\n<p><strong>Acredita que as\u00a0FARC\u00a0estariam dispostas a pagar alguns anos de pris\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>At\u00e9 agora t\u00eam dito que n\u00e3o. Mas eu acredito que isso tem que ser parte do debate. Vejo que outros come\u00e7am a se movimentar, via\u00a0Le\u00f3n\u00a0Valencia, para que haja anistia e indultos para os militares. E assim se abre a brecha para que todos saiam livres.<\/p>\n<p><strong>O que voc\u00ea acha disso?<\/strong><\/p>\n<p>Devem discut\u00ed-lo, n\u00e3o digo que n\u00e3o. Mais importante do que isso, que o governo n\u00e3o quer debater, \u00e9 criar uma nova doutrina democr\u00e1tica para as For\u00e7as Armadas. Que os militares compreendam que o seu papel de defender a democracia n\u00e3o passa pela conviv\u00eancia com os paramilitares ou narcotraficantes.<\/p>\n<p><strong>Do que trata realmente este processo?<\/strong><\/p>\n<p>Paz com democracia e justi\u00e7a social.\u00a0L\u00f3pez\u00a0Michelsen\u00a0dizia que a guerrilha n\u00e3o podia aspirar a uma revolu\u00e7\u00e3o por negocia\u00e7\u00e3o. O bom desta agenda \u00e9 que \u00e9 muito concreta, traz um pre\u00e2mbulo que o governo n\u00e3o pode ignorar. Mas com este processo h\u00e1 de se passar para um novo est\u00e1gio de\u00a0prosperidade\u00a0e de garantias, bem como de melhores condi\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p><strong>Mas se for disso que se trata, o processo vai durar anos.<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 um equ\u00edvoco que \u00e9 acreditar que o processo de paz \u00e9 apenas para resolver algumas coisas referente \u00e0s\u00a0FARC\u00a0e o\u00a0ELN. Mas a chave para tudo isso \u00e9 que sejam resolvidas coisas fundamentais na sociedade. O da democracia n\u00e3o \u00e9 para que as\u00a0FARC\u00a0participem das elei\u00e7\u00f5es, mas para que todos os que cremos em uma vis\u00e3o alternativa de sociedade possamos lutar pelas ideias em que acreditamos, sem ter de usar armas para faz\u00ea-lo, com as mesmas garantias com que contam os que se\u00a0apoiam\u00a0no poder. \u00c9 uma nova democracia, algo que soa grandioso.<\/p>\n<p><strong>Se este processo tiver \u00eaxito, como afetaria o processo da esquerda?<\/strong><\/p>\n<p>O processo de paz faz sentido n\u00e3o apenas se avan\u00e7a o progresso no fortalecimento da democracia, mas se influencia para o bem os processos de unidade da esquerda e setores democr\u00e1ticos do pa\u00eds. H\u00e1 um novo alinhamento na esquerda, no sentido de que hoje nenhum partido\u00a0reune\u00a0as possibilidades da esquerda. Ela n\u00e3o est\u00e1 inteiramente no P\u00f3lo, nem no Congresso dos Povos, nem na Marcha Patri\u00f3tica. Temos que entender que, se queremos ter uma op\u00e7\u00e3o de poder, oxal\u00e1 para 2014, devemos nos unir, mas com um programa de esquerda, de mudan\u00e7as no pa\u00eds, rompendo com o mercado neoliberal.<\/p>\n<p><strong>Assim como\u00a0Petro(*)?<\/strong><\/p>\n<p>Com todas as diferen\u00e7as que temos com\u00a0Petro, no debate de fundo, ele tem raz\u00e3o: trata-se de defender o interesse p\u00fablico. O que aconteceu com a esquerda \u00e9 que para vencer havia de se superar a centro-esquerda, tendo que baixar o tom do discurso para sermos mais amenos. Mas n\u00e3o, a esquerda deve ser esquerda, pode ser o projeto pol\u00edtico dessa nova\u00a0configura\u00e7\u00e3o, e oxal\u00e1 todos o entendamos, incluindo o\u00a0Polo.<\/p>\n<p><strong>Como foi o processo de surgimento da Marcha Patri\u00f3tica?<\/strong><\/p>\n<p>A marcha surge no Encontro pela Paz em\u00a0Barrancabermeja, de 2011, que foi organizado pela Associa\u00e7\u00e3o dos Camponeses do\u00a0Carare\u00a0e reuniu mais de mil organiza\u00e7\u00f5es populares, n\u00e3o s\u00f3 agr\u00e1rias, mas de\u00a0personalidades\u00a0como\u00a0Horacio\u00a0Serpa, o padre Francisco de\u00a0Roux, pessoas que podiam comprovar que n\u00e3o era um Congresso de\u00a0guerrilheiros. O que chamou a aten\u00e7\u00e3o deste encontro \u00e9 que a conclus\u00e3o foi que havia de se buscar o caminho da paz antes de se conhecer no pa\u00eds a fase explorat\u00f3ria das conversa\u00e7\u00f5es entre as\u00a0FARC\u00a0e o governo. Na medida em que avan\u00e7ou at\u00e9 o ano passado, quando tomou forma, foi dito que a Marcha poderia ser um movimento social e pol\u00edtico, n\u00e3o s\u00f3 para a paz, mas para promover a unidade da esquerda. Isso \u00e9 muito diferente da Uni\u00e3o Patri\u00f3tica, que surgiu como uma organiza\u00e7\u00e3o proposta pela guerrilha. Ningu\u00e9m interv\u00e9m na forma como este movimento come\u00e7a a se desenvolver. S\u00e3o as organiza\u00e7\u00f5es de base.<\/p>\n<p><strong>Que porcentagem da milit\u00e2ncia da Marcha tem afinidade com os\u00a0guerrilheiros?<\/strong><\/p>\n<p>Na Marcha Patri\u00f3tica e at\u00e9 mesmo entre os camponeses que n\u00e3o integram a Marcha Patri\u00f3tica h\u00e1 muita gente que tem simpatia pela guerrilha, que n\u00e3o s\u00e3o\u00a0guerrilheiros\u00a0nem milicianos \u00a0\u00c9 que, com a\u00a0precariedade\u00a0da democracia que se faz sentir nas regi\u00f5es, em alguns munic\u00edpios vige o estado de s\u00edtio anterior \u00e0\u00a0Constitui\u00e7\u00e3o\u00a0de 1991. N\u00e3o \u00e9 o prefeito quem manda, mas sim o comandante da brigada. Um dos m\u00e9ritos do Santos \u00e9 reconhecer que a guerrilha \u00e9 uma realidade pol\u00edtica do pa\u00eds. Que ela est\u00e1 l\u00e1 e n\u00e3o pode ser tratada de modo exclusivamente militar, pois tem base social e simpatizantes.<\/p>\n<p><strong>S\u00e3o simp\u00e1ticos a ela os camponeses?<\/strong><\/p>\n<p>Nestes passeios com a Marcha eu me dei conta da fal\u00e1cia de que ningu\u00e9m quer saber delas. V\u00ea-se em regi\u00f5es em que as\u00a0FARC\u00a0estiveram presentes que trata-se de uma fal\u00e1cia a afirma\u00e7\u00e3o de que foram expulsas. Est\u00e3o em\u00a0Cudinamarca, na costa atl\u00e2ntica, em \u00e1reas que supostamente foram declaradas livres da presen\u00e7a da guerrilha. Isso \u00e9 o que me convence da necessidade de um processo de paz. Claro, elas receberam golpes muito fortes, a Seguran\u00e7a Democr\u00e1tica foi muito r\u00edgida em persistir nessa solu\u00e7\u00e3o de for\u00e7a, por\u00e9m n\u00e3o conseguiu derrot\u00e1-las, nem aplac\u00e1-las, os golpes foram assimilados. Nos \u00faltimos dias atacaram\u00a0Yacop\u00ed; em\u00a0Sumapaz\u00a0houve um ataque a soldados. H\u00e1 quanto tempo se disse que as\u00a0FARC tinham desaparecido de\u00a0Sumapaz? N\u00e3o me alegro por estes fatos e lamento as mortes de soldados e policiais, mas \u00e9 a trag\u00e9dia desta guerra.<\/p>\n<p><strong>Por que alguns camponeses t\u00eam simpatia pelas\u00a0FARC?<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 regi\u00f5es onde ocorrem situa\u00e7\u00f5es violentas e de abusos por parte das\u00a0FARC, e n\u00e3o ignoro que h\u00e1 pessoas que perderam a confian\u00e7a neles. Mas h\u00e1 \u00e1reas onde as\u00a0FARC\u00a0s\u00e3o os que dirigem a regi\u00e3o, resolvem os problemas de fronteiras, preservam o meio ambiente, a quem os camponeses recorrem para resolver problemas de relacionamento. S\u00e3o uma autoridade. S\u00e3o muitos anos de coabita\u00e7\u00e3o entre a guerrilha e os camponeses, ajudam a resolver quem ser\u00e1 a professora da escola, cobram ped\u00e1gios, fazem obras p\u00fablicas. Diante do v\u00e1cuo do Estado, que se preocupou com a guerra, mas n\u00e3o com o investimento social, a quem recorrem os camponeses? Aos que est\u00e3o mais perto. Que n\u00e3o s\u00e3o o juiz nem o funcion\u00e1rio p\u00fablico, \u00e9 o comandante da guerrilha.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 poss\u00edvel que a guerrilha financie alguns setores da Marcha?<\/strong><\/p>\n<p>A Marcha Patri\u00f3tica se financia como se financiaram todas as organiza\u00e7\u00f5es populares: com as\u00a0contribui\u00e7\u00f5es\u00a0de cada uma dessas organiza\u00e7\u00f5es. Entre outras coisas, a Marcha \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o bastante pobre. Nossas reuni\u00f5es n\u00f3s fazemos de forma modesta. Por que essa mesma pergunta n\u00e3o \u00e9 feita aos partidos que fazem as suas reuni\u00f5es em clubes sociais cheios de luxo? As pessoas que colocamos pra vir de \u00f4nibus de Santa Marta, s\u00e3o a elas que devemos explica\u00e7\u00f5es. Temos tomado medidas de gest\u00e3o financeira. Como n\u00e3o somos um partido pol\u00edtico reconhecido, n\u00e3o estamos sob qualquer controle da CNE e, todavia, temos conseguido estruturar todo nosso sistema financeiro.<\/p>\n<p><strong>Fora ter atingido uma base social, a Marcha tamb\u00e9m penetrou no mundo \u00a0sindical. Dizem que parte da greve do\u00a0Cerrej\u00f3n\u00a0mostra a luta pela dire\u00e7\u00e3o do sindicato entre o P\u00f3lo e a Marcha.<\/strong><\/p>\n<p>A Marcha tem sido muito forte no mundo sindical, alguma coisa disso est\u00e1 no\u00a0Cerrej\u00f3n. Agora vem as elei\u00e7\u00f5es para o Comit\u00e9 Executivo da\u00a0CUT, onde a Marcha vai desempenhar um papel muito importante; nos sindicatos metal\u00fargicos, nos sindicatos de energia h\u00e1 uma presen\u00e7a importante da Marcha. E \u00e9 poss\u00edvel que se mude o mapa da presen\u00e7a sindical. A Marcha tem for\u00e7a entre os professores. A Marcha n\u00e3o vai levar a\u00a0CUT\u00a0sozinha &#8211; quem dera fosse assim \u2013, mas vai alterar as alian\u00e7as&#8230;<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea v\u00ea os tempos pol\u00edticos da Marcha para o processo de paz?<\/strong><\/p>\n<p>Na Marcha n\u00e3o nos angustia tanto o tempo, nisso coincidimos com as\u00a0FARC. N\u00e3o estamos de acordo com os tempos fatais, entendemos o presidente que tem o desejo de reelei\u00e7\u00e3o. Mas a Marcha n\u00e3o decidiu se vai \u00e0s elei\u00e7\u00f5es. Minha posi\u00e7\u00e3o pessoal \u00e9 de que a Marcha tem que ir para as elei\u00e7\u00f5es; Piedade est\u00e1 na mesma t\u00f4nica. Mas at\u00e9 agora est\u00e1 em processo de discuss\u00e3o. As ideias das\u00a0constituintes\u00a0n\u00e3o se transformam em plataformas eleitorais.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 o objetivo das\u00a0Constituintes?<\/strong><\/p>\n<p>S\u00e3o um exerc\u00edcio pedag\u00f3gico que tem duas raz\u00f5es: defender a Mesa de Havana, mobilizar a base social que se incorpora nas regi\u00f5es, com constituintes\u00a0de mulheres,\u00a0constituintes\u00a0de juventude na defesa de Havana. Por isso cabe todo mundo. N\u00e3o \u00e9 um projeto pol\u00edtico: uma pessoa de direita que acredita na paz pode estar nas\u00a0constituintes. O objetivo \u00e9 recolher as reclama\u00e7\u00f5es e inquietudes das pessoas comuns para \u00a0traz\u00ea-las diante da quest\u00e3o da\u00a0participa\u00e7\u00e3o\u00a0cidad\u00e3.<\/p>\n<p><strong>Isso vai de acordo com o que\u00a0Iv\u00e1n\u00a0Marquez\u00a0disse em Oslo, de que o povo marcaria o caminho da negocia\u00e7\u00e3o&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Queremos que se abra o debate, que se entenda que h\u00e1 uma flexibilidade na agenda, que tenha um pre\u00e2mbulo que para n\u00f3s \u00e9 fundamental. N\u00f3s n\u00e3o queremos que a Mesa de Havana defina se deve cobrar valoriza\u00e7\u00e3o, mas se tem que resolver os problemas que as pessoas sentem. Parece-nos sem sentido que o governo esteja falando de mudan\u00e7as e aqui cumpra uma agenda legislativa neoliberal. Temos falado de um f\u00f3rum permanente pela paz.<\/p>\n<p><strong>Quer que se convertam em press\u00e3o sobre a Mesa de Havana?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, \u00e9 uma press\u00e3o sobre Havana para se chegar a alguns acordos. As\u00a0constituintes\u00a0t\u00eam de ajudar a dinamizar o processo, dizendo \u201cvamos, resolvam isso\u201d. Falamos de um prazo razo\u00e1vel, que n\u00e3o \u00e9 eterno, nem tampouco perempt\u00f3rio.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 a sua previs\u00e3o quanto ao tempo das negocia\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p>O acordo pode ser alcan\u00e7ado em novembro ou em um ano, eu n\u00e3o creio que v\u00e1 tomar muito tempo. Sinto-me estimulado que em tr\u00eas ou quatro comunicados se fale em\u00a0converg\u00eancias. E isso \u00e9 importante: nos diz que \u00e9 poss\u00edvel chegar a um acordo. Em seguida vem a fase de\u00a0implementa\u00e7\u00e3o dos acordos. Na Irlanda levaram 10 anos implementando os acordos de desarmamento.<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o, voc\u00ea acha que chegar\u00e3o a um acordo e n\u00e3o abandonar\u00e3o as armas at\u00e9 que sejam feitas todas as reformas?<\/strong><\/p>\n<p>Eu n\u00e3o acho que assinar\u00e3o o acordo e entregar\u00e3o as armas. E eu n\u00e3o acho que o governo tenha entendido assim. Quando o governo fala em um cessar-fogo para mais adiante, eu acredito que seja para durante as execu\u00e7\u00f5es dos acordos.<\/p>\n<p><strong>Talvez a \u00fanica entrevista que\u00a0Timoshenko\u00a0concedeu a uma m\u00eddia colombiana foi para voc\u00ea. Como ele \u00e9?<\/strong><\/p>\n<p>Eu o conheci em\u00a0Cagu\u00e1n, muito superficialmente. N\u00e3o tinha uma id\u00e9ia muito clara sobre ele. Agora, quando o vi nesta entrevista, pareceu-me um l\u00edder, um homem inteligente, que sabe para onde est\u00e1 indo, que est\u00e1 consciente da responsabilidade que t\u00eam frente ao pa\u00eds e o mundo, que conseguiu unir o secretariado. Conhece a realidade do pa\u00eds e \u00e9 muito r\u00e1pido para resolver as coisas, isso \u00e9 muito importante.<\/p>\n<p><strong>E como \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre ele e\u00a0Iv\u00e1n\u00a0M\u00e1rquez?<\/strong><\/p>\n<p>De respeito, de carinho \u2013 perguntei-lhe em off sobre todos esses rumores. Ele me disse: \u201ceu converso muito com\u00a0M\u00e1rquez, porque somos os dirigentes mais antigos. E n\u00e3o digo que pensamos igual, mas a conversa \u00e9 fluida em fun\u00e7\u00e3o de tomar decis\u00f5es, mesmo porque foi o pr\u00f3prio Timole\u00f3n\u00a0que o prop\u00f4s para que encabe\u00e7asse a negocia\u00e7\u00e3o..\u201d<\/p>\n<p><strong>As\u00a0FARC-EP\u00a0e o Partido Comunista romperam no final dos anos 80. Como se recomp\u00f4s a rela\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, houve um distanciamento de posi\u00e7\u00f5es, mas nunca houve uma ruptura. O Partido Comunista entendeu que ele n\u00e3o poderia dirigir as\u00a0FARC, que n\u00e3o era a sua miss\u00e3o porque era uma organiza\u00e7\u00e3o p\u00fablica legal, sua condi\u00e7\u00e3o n\u00e3o era de ser aparato pol\u00edtico das\u00a0FARC, e muito menos acreditar que as\u00a0FARC\u00a0seriam o bra\u00e7o militar do partido. No entanto, sempre houve um respeito m\u00fatuo, muitos governos entraram em acordo conosco para buscar solu\u00e7\u00f5es com eles:\u00a0Samper, para n\u00e3o mencionar os mais recentes, incluindo\u00a0Uribe, que nos colocou para trabalhar nisso e depois nos quis colocar na cadeia. Houve profundo distanciamento no tema do seq\u00fcestro, na quest\u00e3o da solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, houve distanciamentos em que durante muito tempo n\u00e3o se teve nenhum tipo de contato. Agora n\u00e3o h\u00e1 uma fluidez de reuni\u00f5es, de poder falar com eles como se quis muitas vezes. H\u00e1 um entendimento de que cada um est\u00e1 no seu espa\u00e7o. O partido aproveita essas oportunidades para insistir em seu tema de paz; escutam e respeitam o partido.<\/p>\n<p><strong>Mas o Partido Comunista e as\u00a0FARC\u00a0n\u00e3o tinham uma rela\u00e7\u00e3o org\u00e2nica?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, nunca. O que o partido tinha era uma leitura sociol\u00f3gica do movimento\u00a0guerrilheiro. Est\u00e1 longe de acreditar que sejam bandidos ounarcotraficantes. Isso n\u00e3o quer dizer que s\u00e3o a mesma coisa. Muito menos um partido que tinha um bra\u00e7o militar.<\/p>\n<p><strong>Mas voc\u00eas defendiam a combina\u00e7\u00e3o das formas de luta?<\/strong><\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma\u00a0interpreta\u00e7\u00e3o\u00a0que indicava um sentido de que era o mesmo partido que fazia ambas as coisas. N\u00e3o \u00e9 assim. \u00c9 como se quem dirige o partido estiv\u00e9ssemos participando das elei\u00e7\u00f5es pela manh\u00e3 e \u00e0 noite estiv\u00e9ssemos com um fuzil. Na realidade pol\u00edtica, a luta popular se expressava em uma\u00a0multiplicidade de\u00a0formas. A luta armada era uma.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea acha que esta forma de luta ainda se justifica?<\/strong><\/p>\n<p>Acreditamos que a guerra existe por certas causas e enquanto essas n\u00e3o desaparecem ser\u00e1 dif\u00edcil. Como \u00e9 que pode desaparecer? Em um processo de di\u00e1logo. \u00c9 a\u00a0interpreta\u00e7\u00e3o\u00a0de uma realidade.<\/p>\n<p><strong>Seria desej\u00e1vel que n\u00e3o existisse?<\/strong><\/p>\n<p>Exato, nem o Partido Comunista a est\u00e1 incentivando. A guerrilha n\u00e3o vai se submeter pela via da desmobiliza\u00e7\u00e3o, porque existe uma causa, e at\u00e9 que n\u00e3o se erradique essa causa, pode desaparecer ou atrav\u00e9s da luta armada ou pelo processo pol\u00edtico. Por isso n\u00e3o estimulamos a luta armada, defendemos que \u00e9 preciso criar as condi\u00e7\u00f5es para uma guerrilha sem armas.<\/p>\n<p>N\u00e3o creio que assinem o acordo e entreguem as armas.\u00a0<em>&#8220;Quando o governo fala em um cessar-fogo para mais adiante, eu acredito que seja para durante as execu\u00e7\u00f5es dos acordos.&#8221; (Carlos\u00a0Lozano)<\/em><\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: PCB (Partido Comunista Brasileiro<\/p>\n<p><em> (*) Petro \u00e9 o prefeito de Bogot\u00e1, um progressista, ex-guerrilheiro.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\n3.bp.blogspot.com\n\n\n\n\n\n\n\n\n(entrevista com Carlos\u00a0Lozano)\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4476\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[34],"tags":[],"class_list":["post-4476","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c39-colombia"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1ac","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4476","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4476"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4476\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4476"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4476"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4476"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}