{"id":4486,"date":"2013-03-17T16:16:55","date_gmt":"2013-03-17T16:16:55","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4486"},"modified":"2013-03-17T16:16:55","modified_gmt":"2013-03-17T16:16:55","slug":"pacotes-do-governo-vao-completar-processo-que-fhc-nao-conseguiu-terminar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4486","title":{"rendered":"\u2018Pacotes do governo v\u00e3o completar processo que FHC n\u00e3o conseguiu terminar\u2019"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Iniciado o terceiro ano de Dilma Rousseff \u00e0 frente da Rep\u00fablica, o pa\u00eds encontra-se em uma consider\u00e1vel sinuca econ\u00f4mica. As reiteradas tentativas de fazer a economia decolar, referendando a ideia de que o Brasil n\u00e3o seria atingido pela crise mundial, seguem dando no muro, apesar dos cada vez mais robustos subs\u00eddios oferecidos pelo governo ao empresariado, nacional e internacional.<\/em><\/p>\n<p><em>Para debater o atual cen\u00e1rio, o Correio da Cidadania entrevistou o\u00a0<strong>engenheiro e professor da USP<\/strong> <strong>Ildo Sauer, ex-diretor de petr\u00f3leo e g\u00e1s da Petrobras<\/strong> e implac\u00e1vel cr\u00edtico dos governos tucanos e petistas. com a respectiva metamorfose pol\u00edtica do segundo grupo. Para ele, o atual momento retrata uma disputa \u201cintercapitalista\u201d entre os diversos grupos de apoio ao governo, subsidiada por bilh\u00f5es de reais do BNDES, \u00e1vidos em conquistarem espa\u00e7os nos mais diversos segmentos econ\u00f4micos. \u201cOs pacotes de subs\u00eddios certamente v\u00e3o completar o processo que FHC n\u00e3o conseguiu terminar\u201d, afirma.<\/em><\/p>\n<p><em>Em uma an\u00e1lise mais estrutural, Sauer constata que os anos petistas no governo central promoveram a fus\u00e3o de dois projetos nacionais colocados \u00e0 mesa no s\u00e9culo 20. Preservando a \u201cbem vinda heran\u00e7a maldita de FHC\u201d, de associa\u00e7\u00e3o capitalista subordinada, Lula tentou tamb\u00e9m aplicar parte da vis\u00e3o cepalina, isto \u00e9, criar atores privados nacionais portentosos, a disputarem mercados e se tornarem hegem\u00f4nicos em seu setor. J\u00e1 a ideia de uma sociedade com \u201ctra\u00e7os nitidamente socialistas\u201d, um terceiro projeto que desde o s\u00e9culo passado ronda a esquerda e que ajudou a embasar o Partido dos Trabalhadores, caiu no esquecimento.<\/em><\/p>\n<p><em>Desse modo, aliado a um \u201ccompl\u00f4 midi\u00e1tico contra a intelig\u00eancia nacional\u201d, o governo tenta de todas as formas criar incentivos para que o atual projeto econ\u00f4mico mantenha seu f\u00f4lego e evite a crise social que est\u00e1 \u00e0 espreita. Na vis\u00e3o de Sauer, o governo Dilma prossegue fiel aos paradigmas neoliberais e trata de \u201cdestruir tudo que ainda resta de capacidade de planejamento p\u00fablico\u201d, o que se comprova numa desastrosa gest\u00e3o do setor el\u00e9trico e na campanha de desmoraliza\u00e7\u00e3o da Petrobras. Tudo em nome dos interesses da enorme base de sua sustenta\u00e7\u00e3o do governo.<\/em><\/p>\n<p><em>Quanto aos sempre pol\u00eamicos debates energ\u00e9ticos, Sauer reafirma a inefici\u00eancia no planejamento. Sempre pautado pelos grupos privados que o patrocinam, o governo faz \u201cpopulismo\u201d no setor com dinheiro do Tesouro Nacional, sem tocar na enorme lucratividade privada. As estatais est\u00e3o sendo levadas ao abismo sem gerar qualquer excedente econ\u00f4mico com destina\u00e7\u00e3o social. \u201cSob a \u00f3tica capitalista, o pa\u00eds vive em crise. Sob a \u00f3tica socialista, \u00e9 um desastre\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em>A entrevista completa com Ildo Lu\u00eds Sauer pode ser conferida na \u00edntegra a seguir.<\/em><\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania: Aqueles leitores que acompanham a conjuntura pol\u00edtica, econ\u00f4mica e social t\u00eam se deparado com um cen\u00e1rio de muitas ambiguidades: por um lado, est\u00e1 uma grande parte dos interlocutores da grande m\u00eddia, acusando o atual governo Dilma de um aprofundamento inoportuno do \u2018dirigismo\u2019 estatal; de outra parte, h\u00e1 os defensores do atual acirramento daquela que seria uma vis\u00e3o e atua\u00e7\u00e3o mais \u2018desenvolvimentista\u2019 deste governo; e h\u00e1 ainda os que criticam esta que conformaria uma falsa dicotomia, vez que o atual governo pratica novas e mais sorrateiras formas de privatismo na economia. Como voc\u00ea, que participou do governo Lula e j\u00e1 trabalhou com Dilma, se posiciona neste debate?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ildo Sauer:<\/strong> A pergunta \u00e9 bastante arguta no sentido de posicionar o debate p\u00fablico e os conflitos que aparentemente est\u00e3o na m\u00eddia. E posicionar outro debate, que n\u00e3o aparece. Em certa ocasi\u00e3o, afirmei que a grande quest\u00e3o do governo Lula foi que, ao acordarmos no meio de seu mandato, descobrimos que na verdade foi um governo de consolida\u00e7\u00e3o da hegemonia das rela\u00e7\u00f5es sociais capitalistas, como forma de organizar a sociedade brasileira. Foi isso. Um partido que come\u00e7ou se proclamando socialista se converteu em fio condutor da consolida\u00e7\u00e3o definitiva, ou ao menos aprofundada, do capitalismo como rela\u00e7\u00e3o social hegem\u00f4nica para organizar a produ\u00e7\u00e3o e a vida do pa\u00eds.<\/p>\n<p>No entanto, h\u00e1 um conflito intercapitalista neste processo. Num artigo recente, usei tal refer\u00eancia, pois discutia desenvolvimento, energia e recursos naturais. Discutindo o que seria desenvolvimento, usamos tr\u00eas refer\u00eancias te\u00f3ricas de anos anteriores, muitas delas vinculadas \u00e0 vis\u00e3o de mundo de Andre Gunder Frank, Ruy Mauro Marini, Florestan Fernandes etc., em debates que v\u00eam dos anos 50 e 60.<\/p>\n<p>Vou tentar colocar nessa perspectiva: de um lado, a teoria inspirada em Gunder Frank, da depend\u00eancia associada, tamb\u00e9m assinada por Fernando Henrique Cardoso, proclamando que nesses pa\u00edses, como o Brasil e os demais da Am\u00e9rica Latina, n\u00e3o haveria burguesia e estrutura produtiva organizada dentro dos moldes capitalistas, de modo que n\u00e3o haveria solu\u00e7\u00e3o a n\u00e3o ser a associa\u00e7\u00e3o ao capitalismo internacional. Simplificando, nada mais errado que proclamar a frase de FHC \u201cesque\u00e7am o que escrevi\u201d. Ele fez o que escreveu. De fato, ele internacionalizou grandes setores da economia brasileira e promoveu privatiza\u00e7\u00f5es selvagens. N\u00e3o conseguiu completar o processo porque houve uma resist\u00eancia popular, como no caso da Petrobras, e alguns fracassos rotundos, como o racionamento de energia de 2001. Mas come\u00e7ou pelo sistema banc\u00e1rio e financeiro, que n\u00e3o precisava ser privatizado por j\u00e1 estar entranhado \u2013 apenas mudaram as taxas de transfer\u00eancia de valor, a taxa de c\u00e2mbio e os juros, a partir das quais se estrutura o sistema financeiro.<\/p>\n<p>Na infraestrutura, as telecomunica\u00e7\u00f5es foram privatizadas no tapa, com o processo altamente contestado da Embratel; bancos estaduais foram privatizados; a Petrobras virou Petrobrax por um tempo, e tamb\u00e9m sofreu privatiza\u00e7\u00e3o. E tinha uma cunha. At\u00e9 ent\u00e3o, a Petrobras tinha sido criada para servir aos consumidores e tamb\u00e9m \u00e0 cria\u00e7\u00e3o da estrutura produtiva capitalista do Brasil. Porque fornecendo derivados para a circula\u00e7\u00e3o de pessoas e mercadorias, levando essa circula\u00e7\u00e3o de mercadorias por todos os cantos do pa\u00eds \u2013 conforme se permitiu com a ind\u00fastria do petr\u00f3leo e automotiva -, com integra\u00e7\u00e3o ao sistema produtivo, a tend\u00eancia era de que esse capitalismo comercial se desenvolvesse de modo cada vez mais subordinado \u00e0 l\u00f3gica financeira.<\/p>\n<p>O sentido era a cria\u00e7\u00e3o de um outro capitalismo no Brasil. O que se cria, no entanto, quando FHC tenta privatizar a Petrobras e n\u00e3o consegue (apesar de ter vendido boa parte das a\u00e7\u00f5es) \u00e9, de certa forma, um conflito intercapitalista. De um lado, os capitalistas nacionais, aqueles que se beneficiaram da a\u00e7\u00e3o do Estado, ou do fundo p\u00fablico, como dizia Chico de Oliveira, pra reduzir a reprodu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho, com gasolina, transporte de alimentos e urbano mais baratos, al\u00e9m do insumo material, no que foram ajudados. Por\u00e9m, de outro lado, ao vender as a\u00e7\u00f5es da Petrobras na bolsa de Nova York, o capital financeiro que comprou tais a\u00e7\u00f5es passou a cobrar cada vez mais lucro, de modo que exige uma Petrobras puramente capitalista, voltada ao interesse dos acionistas, n\u00e3o mais como um instrumento do Estado.<\/p>\n<p>A vis\u00e3o Fernandiana, de tentar criar aqui uma burguesia e hegemonia capitalistas, caminhava nessa dire\u00e7\u00e3o, dando \u00eanfase ao capital financeiro internacional. Nem tanto no caso da Petrobras, que tem muitas nuances. Mas nas telecomunica\u00e7\u00f5es, em muitas \u00e1reas do saneamento, em bancos estaduais como Banespa e BANERJ&#8230; Tudo isso foi internacionalizado. Uma terra arrasada pra privatizar tudo, estradas, rodovias, hidrel\u00e9tricas. N\u00e3o conseguiram privatizar todas as el\u00e9tricas por conta do racionamento de 2001 e da resist\u00eancia dos movimentos sociais.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania: Ou seja, a era FHC mais que corroborou os estudos e infer\u00eancias te\u00f3ricas do presidente soci\u00f3logo, certo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ildo Sauer:<\/strong> Cert\u00edssimo. E \u00e9 ao lado de tal constata\u00e7\u00e3o que est\u00e1 a primeira vis\u00e3o, que acabo de relatar. A segunda vis\u00e3o \u00e9 a cepalina, que tamb\u00e9m entendia que um dos primeiros caminhos para a produ\u00e7\u00e3o e desenvolvimento seria a cria\u00e7\u00e3o de uma esp\u00e9cie de burguesia nas cadeias produtivas da Am\u00e9rica Latina e, especialmente, no Brasil. Por\u00e9m, criando atores nacionais. Pautava-se na substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es, pra gerar mercado e cadeias produtivas. Tal vis\u00e3o foi derrubada por Collor e Fernando Henrique imediatamente. Mas tamb\u00e9m se trata de uma vis\u00e3o que enxergava um desenvolvimento que, em sua primeira etapa, passaria necessariamente por uma estrutura capitalista de produ\u00e7\u00e3o. Essas eram as duas vis\u00f5es hegem\u00f4nicas.<\/p>\n<p>J\u00e1 a terceira vis\u00e3o, que se embasava na an\u00e1lise de Ruy Mauro Marini, mas teve muita express\u00e3o com Milton Santos e Florestan Fernandes, \u00e9 a que deu origem a grande parte da inspira\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica que, pelo menos no discurso, estava por tr\u00e1s do PT. Significava o seguinte: n\u00e3o h\u00e1 estrutura capitalista consolidada no pa\u00eds, e desenvolv\u00ea-la n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio. Poder\u00edamos ir direto a outras formas de constru\u00e7\u00e3o de estruturas sociais, baseadas em outros valores e princ\u00edpios, como a solidariedade, a fraternidade, a igualdade, algo cooperativo. Ou seja, uma estrutura nitidamente socialista. Era isso que estava na base de grande parte das tend\u00eancias e grupos do partido, at\u00e9 pouco antes de chegarem ao poder. Embora j\u00e1 se vissem prefeituras, como a de Ribeir\u00e3o Preto, S\u00e3o Paulo e outras, com exce\u00e7\u00e3o de Porto Alegre, onde essa vis\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o era presente na pr\u00e1tica. O Or\u00e7amento Participativo tamb\u00e9m fazia parte de tal vis\u00e3o. Assim, o PT era um misto em 2000 \u2013 quando, por exemplo, Marta chegou ao poder em S\u00e3o Paulo, Palocci j\u00e1 tinha ocupado o poder em Ribeir\u00e3o Preto, e por l\u00e1 j\u00e1 havia feito privatiza\u00e7\u00f5es&#8230; Enfim, o PT j\u00e1 se encontrava em metamorfose.<\/p>\n<p>A p\u00e1 de cal sobre tal vis\u00e3o se deu com a Carta aos Brasileiros, de 2002, com o teatro de aparente contragosto do candidato Lula, pedindo ao l\u00edder Mercadante que a lesse. Um teatro ao qual assisti pessoalmente, quando tamb\u00e9m estava \u00e0 mesa um Chico de Oliveira assombrado com o que se dizia, assim como muitos de n\u00f3s. De qualquer maneira, com o entusiasmo da vit\u00f3ria eleitoral, parecia que se deixaria a Carta de lado, que tudo n\u00e3o passava de algo pra marcar uma rela\u00e7\u00e3o garantidora de governabilidade, com o posterior retorno do velho discurso, que se tornaria pr\u00e1tica. Por\u00e9m, o tempo foi passando e viu-se, definitivamente, que a grande miss\u00e3o de Lula, no discurso e na pr\u00e1tica, era abandonar essa terceira vis\u00e3o aqui mencionada.<\/p>\n<p>E a metamorfose que Lula incorporou foi dupla. Assumiu e absorveu toda a heran\u00e7a de FHC da depend\u00eancia associada, da hegemonia financeira no pa\u00eds, de setores privatizados, cujos objetivos s\u00e3o obviamente a acumula\u00e7\u00e3o mais r\u00e1pida, na escala mais veloz poss\u00edvel, vinculada ao sistema financeiro internacional. Com os grupos econ\u00f4micos presentes aqui e l\u00e1 fora, atrav\u00e9s dessa rede de grandes empresas, variadas cadeias produtivas, da abertura no setor petr\u00f3leo e em outros mais.<\/p>\n<p>Tanto no governo FHC como no governo Lula, o debate\u00a0<em>privatizar empresas versus abertura do espa\u00e7o econ\u00f4mico<\/em> parece colocar posi\u00e7\u00f5es diferentes. E existem mesmo diferentes posi\u00e7\u00f5es. Por\u00e9m, n\u00e3o privatizar a Petrobras e, ao mesmo tempo, entregar os campos onde \u00e9 poss\u00edvel encontrar petr\u00f3leo ao sistema financeiro internacional \u00e9 t\u00e3o grave quanto privatiz\u00e1-la. N\u00e3o privatizar a Eletrobras, mas deix\u00e1-la eunuca, incapaz, tornando-a praticamente inoperante, pra manter o velho discurso, tem o mesmo efeito econ\u00f4mico que entregar todas as hidrel\u00e9tricas e o espa\u00e7o das e\u00f3licas. O governo Lula fez esse hibridismo, de manter a heran\u00e7a que no discurso era maldita, mas bem-vinda na pr\u00e1tica, agora aprofundada em todas as formas de organizar e gerir empresas estatais, num modelo de subordina\u00e7\u00e3o, deixando-as associadas a grandes empresas multinacionais. E tamb\u00e9m brasileiras \u2013 a grande novidade do Lula.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania: E quem s\u00e3o, a seu ver, estas \u2018brasileiras, a grande novidade de Lula\u2019?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ildo Sauer:<\/strong> A Petrobras, por press\u00e3o interna, foi obrigada a se associar aos grupos internacionais na explora\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo, o que foi mantido nos anos Lula. Houve uma tentativa de v\u00e1rios grupos, de dentro da Petrobras, de reverter o processo. Mas a press\u00e3o de Bras\u00edlia, comandada pela ent\u00e3o ministra de Minas e Energia, era na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria. O que Lula e seu governo, em s\u00edntese, fizeram? Mantiveram esse sistema, de interesses claros e definidos, ainda que em contradi\u00e7\u00e3o, e incorporaram os conflitos ao governo. De outro lado, resolveu recuperar parte do discurso cepalino, e criar atores nacionais. E a\u00ed aparece algo interessante, not\u00e1vel, sutil: o discurso (de Lula em 2003) era fortalecer e criar tais atores, pois \u201cse h\u00e1 multinacionais no Brasil, temos de criar as nossas\u201d. E quem seriam as candidatas? Havia a Petrobras, mas o grosso eram as empreiteiras contratistas, que s\u00e3o as grandes patrocinadoras dos quatro ou cinco grandes partidos do pa\u00eds. N\u00e3o s\u00f3 pra fazer obras e exercer certo subimperialismo na \u00c1frica e Am\u00e9rica Latina, financiadas pelo BNDES, mas tamb\u00e9m, como ocorrido na Cor\u00e9ia e Jap\u00e3o p\u00f3s-guerra, crescendo e se tornando grandes conglomerados.<\/p>\n<p>Assim, a Camargo Correa se expandiu para as redes el\u00e9tricas, em associa\u00e7\u00e3o com Bradesco e CPFL, tendo cada vez mais distribuidoras el\u00e9tricas, e caminhando para as rodovias e infraestruturas. A Odebrecht foi beneficiada pelo longo processo de consolida\u00e7\u00e3o da petroqu\u00edmica no pa\u00eds, custeado pela Petrobras, tendo, ao final, a hegemonia na Braskem. A maior benefici\u00e1ria deste processo nas telecomunica\u00e7\u00f5es, a partir de rela\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas e de longa data com a presidente da Rep\u00fablica, foi a Andrade Gutierrez. Todo o grande imbr\u00f3glio e luta intestina no governo, com italianos, o grupo TIM, Daniel Dantas, ministros em lados opostos da disputa, e Lula nos dois lados, acabou consolidando a hegemonia de um grande monop\u00f3lio nas telecomunica\u00e7\u00f5es, na telefonia celular.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma s\u00edntese poss\u00edvel do governo Lula, mantendo o espa\u00e7o do sistema internacional e tamb\u00e9m criando grandes atores privados nacionais. O mesmo se v\u00ea na siderurgia, que j\u00e1 vinha de vento em popa, com os grupos de FHC na CSN (Companhia Sider\u00fargica Nacional), com Steinbruch, depois Gerdau e outros, chegando at\u00e9 a tentar as redes de atacado e varejo no supermercado. No setor frigor\u00edfico, usou dinheiro do BNDES, sabe-se l\u00e1 sob qual justificativa estrat\u00e9gica, para um grupo econ\u00f4mico monopolizar todas as redes brasileiras e comprar as mais importantes dos EUA e Austr\u00e1lia e se proclamar grande e hegem\u00f4nico. O mesmo se viu nas bebidas. Tudo isso sempre apoiado por dinheiro do BNDES. Eis a l\u00f3gica do que aconteceu em v\u00e1rios segmentos no governo Lula. Com a sutileza de que foi apoiado, em grande parte, por movimentos sindicais atrelados ao PT e aos dirigentes partid\u00e1rios que, em geral, vinham de estratos do trabalho, n\u00e3o do capital.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do mais, h\u00e1 os fundos de pens\u00e3o, outra muleta importante. Podem atuar pela regra da agilidade privada, mas podem ser comandados de forma paraestatal desde o Pal\u00e1cio do Planalto, onde se escolhem seus dirigentes, delegados, prepostos do governo central, utilizando-se toda a poupan\u00e7a gerada pelos sal\u00e1rios dos trabalhadores das estatais e pelas contribui\u00e7\u00f5es das empresas p\u00fablicas. Essa \u00e9 a estrutura h\u00edbrida que foi criada.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania: Como voc\u00ea pode, ent\u00e3o, associar toda esta retomada, destacando o hibridismo a que foi conduzido o governo Lula, ao debate que est\u00e1 colocado hoje na imprensa, conforme j\u00e1 citado?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ildo Sauer:<\/strong> O debate colocado hoje \u00e9 que, dentro e fora do governo, vemos o embate intercapitalista, de grupos se enfrentando e tentando monopolizar cada vez mais segmentos com apoio do governo e suas fra\u00e7\u00f5es, de t\u00e3o ampla base. Desde o come\u00e7o, o governo Lula trouxe os conflitos de fora da sociedade pra si, pairando sobre todos. Basta citar o movimento ambientalista comandado por Marina Silva e os conflitos com o setor de Minas e Energia. Pareciam dois governos diferentes, mas era um s\u00f3, sob a arbitragem suprema de Lula, que depois delegou a coroa, parcialmente, \u00e0 princesa sucessora, nomeada e ungida ao Pal\u00e1cio.<\/p>\n<p>De modo que, das tr\u00eas vertentes e concep\u00e7\u00f5es citadas de desenvolvimento, a que deu origem ao ide\u00e1rio do partido foi abandonada, em nome de um hibridismo das outras duas, subordinadas agora ao capital internacional e ao emergente capitalismo brasileiro, que atua aqui dentro e l\u00e1 fora tamb\u00e9m, sempre ancorado no BNDES e outros recursos p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Assim, o conflito que vemos na m\u00eddia s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es desse processo. H\u00e1 grupos que v\u00eam sendo mais ou menos favorecidos. Com mais apoio, ou n\u00e3o, dentro da estrutura de sustenta\u00e7\u00e3o ao governo. De modo que n\u00e3o sobrou oposi\u00e7\u00e3o. Por qu\u00ea? Porque o projeto da chamada socialdemocracia, que na verdade era neoliberalismo, foi incorporado e plenamente mantido dentro do atual governo.<\/p>\n<p>Portanto, temos a\u00ed a concorr\u00eancia intercapitalista, disputando, por exemplo, a Petrobras. Os acionistas querem pre\u00e7os mais elevados pra terem mais lucros; o governo usa a empresa pra tentar reduzir a infla\u00e7\u00e3o, o custo da reprodu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho, da mobilidade. Em favor de quem? De aumentar a taxa de lucratividade da economia brasileira. N\u00e3o em favor dos trabalhadores, mas dos grupos que est\u00e3o a\u00ed, todos com seus representantes e delegados instalados dentro dos v\u00e1rios \u00f3rg\u00e3os de governo e poder, os chamados crach\u00e1s de aluguel. Que muitas vezes s\u00e3o funcion\u00e1rios de carreira, de longa trajet\u00f3ria, de curr\u00edculo at\u00e9 respeit\u00e1vel, mas que n\u00e3o est\u00e3o l\u00e1 pra cumprir uma fun\u00e7\u00e3o de Estado, de governo, ou de um programa pol\u00edtico transparente; s\u00e3o delegados que est\u00e3o l\u00e1 pra defender seus patrocinadores. Por isso tantos conflitos, trata-se de um espa\u00e7o em disputa.<\/p>\n<p>Disputa pela capacidade produtiva brasileira de gerar excedente econ\u00f4mico no agroneg\u00f3cio, na cadente ind\u00fastria e na \u00e1rea de servi\u00e7os, que em parte se reduz, ap\u00f3s sustentar o surto de crescimento econ\u00f4mico dos anos Lula \u2013 visto que os \u00faltimos dois anos parecem mais a era FHC. Crescimento que teve tudo a ver com a explos\u00e3o dos pre\u00e7os do petr\u00f3leo, dos produtos agroindustriais, os minerais, enfim, as commodities do mercado internacional, em fun\u00e7\u00e3o do processo de expans\u00e3o produtiva na China, que por sua vez tamb\u00e9m est\u00e1 em risco.<\/p>\n<p>Tudo isso passou a gerar uma renda econ\u00f4mica (diferen\u00e7a entre custos de produ\u00e7\u00e3o e renda do capital e trabalho diretamente aplicada); o pre\u00e7o internacional de tais commodities (soja, arroz, milho, carne, frango, min\u00e9rio de ferro, al\u00e9m da autossufici\u00eancia em petr\u00f3leo) proporcionou uma diferen\u00e7a grande entre o custo e o pre\u00e7o, permitindo que tamanha renda fosse reciclada aqui dentro. A taxa de c\u00e2mbio mantida naquele per\u00edodo ajudou a reduzir a infla\u00e7\u00e3o e o custo da reprodu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho, pois grande parte dos produtos da cesta b\u00e1sica est\u00e1 vinculada ao c\u00e2mbio, ao d\u00f3lar, guardando rela\u00e7\u00e3o com o mercado internacional. Como consequ\u00eancia paralela, tivemos a redu\u00e7\u00e3o da capacidade produtiva da ind\u00fastria e agora o Brasil corre o risco de se tornar um pa\u00eds prim\u00e1rio, desindustrializado e ausente de v\u00e1rias cadeias produtivas. Se essa rela\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os das commodities for amea\u00e7ada &#8211; o que pode ocorrer, \u00a0especialmente em fun\u00e7\u00e3o da expans\u00e3o da China em muitos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina e da \u00c1frica, a fim de acessar esses produtos prim\u00e1rios a partir de termos de troca mais favor\u00e1veis -, o pa\u00eds poder\u00e1 passar por uma crise profunda no futuro. \u00c9 algo que est\u00e1 no horizonte.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania: Em face deste cen\u00e1rio, como situa o pacote de infraestrutura que o governo lan\u00e7ou no ano passado, prevendo investimentos de mais de 100 bilh\u00f5es de reais nas grandes \u00e1reas estrat\u00e9gicas, como rodovias, ferrovias, portos e aeroportos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ildo Sauer:<\/strong> O governo tem feito muita propaganda em termos de infraestrutura, com poucos resultados. Basta olhar para a transposi\u00e7\u00e3o do S\u00e3o Francisco, os planos de expans\u00e3o de rodovias, ferrovias e portos deste pacote&#8230; Ao inv\u00e9s de organizar a m\u00e1quina p\u00fablica, criar universidades de treinamento para gest\u00e3o p\u00fablica &#8211; como se fez no servi\u00e7o p\u00fablico franc\u00eas, a exemplo tamb\u00e9m da Petrobras e algumas outras empresas no Brasil, que formam seus quadros para tentar fazer seus gestores -, o governo declara que as empresas p\u00fablicas s\u00e3o incapazes de gerir qualquer investimento e que a sa\u00edda s\u00f3 pode ser privatizar, organizando pacotes de grande incentivo. Pacotes que certamente v\u00e3o completar o processo que FHC n\u00e3o conseguiu terminar.<\/p>\n<p>O governo, surpreendentemente, segue esta l\u00f3gica mantendo em sua base de apoio setores dos trabalhadores at\u00e9 de segmentos diretamente afetados pelo pacote. No setor el\u00e9trico, isto j\u00e1 ocorreu. E o mesmo se v\u00ea na atual tentativa de desmoraliza\u00e7\u00e3o da Petrobras. A empresa est\u00e1 com problemas realmente s\u00e9rios. Mas tais problemas v\u00eam da forma como o governo conduz a empresa, reduzindo o pre\u00e7o da gasolina a um patamar impeditivo de prover um excedente de magnitude para a Petrobras. De outro lado, os crach\u00e1s de aluguel e delegados de interesses dentro da empresa, vinculados a v\u00e1rios segmentos do governo, t\u00eam feito v\u00e1rios investimentos inaceit\u00e1veis, como na refinaria de Pernambuco, que est\u00e1 saindo por 20 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Certamente, n\u00e3o poderia custar mais do que 7 bilh\u00f5es, pra n\u00e3o causar preju\u00edzo, porque o m\u00e1ximo que se consegue no mercado, em m\u00e9dia, \u00e9 um excedente de 7 ou 8 d\u00f3lares por barril refinado. E l\u00e1, s\u00f3 pra recuperar o investimento, o custo do refino ser\u00e1 de 25 ou 30 d\u00f3lares. Invi\u00e1vel. Vai perder, n\u00e3o vai recuperar. O Comperj no RJ \u00e9 a mesma coisa. No caso do gasoduto Urucu, em Manaus, previsto em 2 ou 3 bilh\u00f5es de reais, chegou-se a 5 bilh\u00f5es. Todos estes investimentos ocorrem em fun\u00e7\u00e3o de uma estrutura de gest\u00e3o subordinada aos interesses externos, o que s\u00f3 pode gerar problemas.<\/p>\n<p>O que o governo est\u00e1 promovendo \u00e9 a destrui\u00e7\u00e3o da Petrobras, quando deveria fortalec\u00ea-la e us\u00e1-la como instrumento de gera\u00e7\u00e3o de excedente econ\u00f4mico. Deveria faz\u00ea-la produzir todo o petr\u00f3leo brasileiro, com pagamento pelos servi\u00e7os, por 15 a 25 d\u00f3lares pelo barril, sem impostos, gerando um excedente de 65 a 75 d\u00f3lares por barril, j\u00e1 que o barril vale hoje entre 90 e 100 d\u00f3lares. O excedente poderia ir direto para um fundo p\u00fablico, para financiar educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade p\u00fablicas. Algo semelhante ao que deveria ser feito na \u00e1rea el\u00e9trica, atrav\u00e9s das hidrel\u00e9tricas, onde se poderia produzir um excedente econ\u00f4mico da ordem de 10 bilh\u00f5es de reais por ano, vendendo energia pr\u00f3xima ao custo m\u00e9dio, pagando o custo de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que fez o governo? Est\u00e1 doando essa energia toda, al\u00e9m dos subs\u00eddios que tem concedido, que vir\u00e3o do dinheiro que ele tem em Itaipu. A Eletrobr\u00e1s tinha um cr\u00e9dito junto a Itaipu que o Tesouro Nacional assumiu. Antes, o Tesouro j\u00e1 tinha assumido os cr\u00e9ditos da Eletrobr\u00e1s em Itaipu. Hoje, Itaipu deve uns 35 bilh\u00f5es de reais ao Tesouro, que ser\u00e3o pagos em cerca de 10 anos. S\u00e3o 3,5 bilh\u00f5es por ano. O que o governo far\u00e1 com tal dinheiro? Tentar\u00e1 reduzir custos do sistema el\u00e9trico que foi mal gerido, pra tentar reduzir a tarifa e dar um presente socialmente regressivo aos grandes consumidores el\u00e9tricos residenciais, industriais e comerciais. H\u00e1 um exemplo flagrante: sei de um empres\u00e1rio maranhense que tem uma mans\u00e3o que consome energia por 5 mil reais por m\u00eas. Se cumprida a promessa de redu\u00e7\u00e3o de 20% nas tarifas, ele ter\u00e1 um benef\u00edcio mensal de mil reais. Um empregado dele, por sua vez, que ganha pouco mais de um sal\u00e1rio m\u00ednimo e paga um pouco mais de 60 reais por m\u00eas na conta, ter\u00e1 um subs\u00eddio de 12 reais. Algo semelhante acontece no setor industrial. As maiores benefici\u00e1rias ser\u00e3o as grandes empresas, que n\u00e3o necessariamente ir\u00e3o empregar mais, inovar tecnologicamente e produzir mais. Apenas aumentar\u00e3o seus lucros. De modo que esse populismo com o patrim\u00f4nio p\u00fablico na \u00e1rea el\u00e9trica tamb\u00e9m vai nessa dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O governo Dilma est\u00e1 tentando desmoralizar o resto que h\u00e1 de possibilidade de gest\u00e3o p\u00fablica em setores estrat\u00e9gicos para, no limite, destro\u00e7\u00e1-los, como conseguiram os tucanos, tudo \u00e0 merc\u00ea desta disputa intercapitalista que est\u00e1 colocada. E o BNDES \u00e9 o grande instrumento. O que \u00e9 o BNDES? Um banco 100% p\u00fablico. O governo est\u00e1 com quase 2 trilh\u00f5es de reais de d\u00edvida p\u00fablica. Apesar da redu\u00e7\u00e3o dos juros, ainda paga juros altos sobre a d\u00edvida, que vem aumentando em grande parte para capitalizar o Banco do Brasil, a Caixa Econ\u00f4mica e, principalmente, o BNDES \u2013 no caso do BNDES, de modo a ser o baluarte dessa a\u00e7\u00e3o de tentar desesperadamente gerar investimentos em v\u00e1rios segmentos, sempre sob a \u00e9gide privada.<\/p>\n<p>Com o aporte indiscriminado a grupos nacionais e internacionais, temos aqui uma vers\u00e3o acabada do mencionado hibridismo entre a depend\u00eancia associada e a vis\u00e3o cepalina da economia, embora todas metamorfoseadas e j\u00e1 subordinadas, sem abrir m\u00e3o de nenhum dos princ\u00edpios mais fundamentais e queridos ao neoliberalismo. L\u00f3gica que aportou aqui nos anos 90 e n\u00e3o est\u00e1 com jeito nenhum de que sair\u00e1. Pelo contr\u00e1rio, est\u00e1 se aprofundando.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que vejo todos esses an\u00fancios, na \u00e1rea el\u00e9trica, do petr\u00f3leo, especialmente no caso dos novos leil\u00f5es de campos de petr\u00f3leo. Trata-se de \u00e1reas onde n\u00e3o se sabe quanto h\u00e1 de petr\u00f3leo, cuja explora\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi terminada ou nem come\u00e7ou, mas que j\u00e1 se encontram subordinadas \u00e0 press\u00e3o desses que querem a\u00e7odadamente arrancar toda e qualquer gota de petr\u00f3leo, convert\u00ea-lo em dinheiro e distribuir esse dinheiro, embora ainda existam disputas a serem definidas, de modo a se saber quem ser\u00e3o os benefici\u00e1rios. E nada garante que a renda resultante desse processo ser\u00e1 revertida socialmente. Estamos arrancando bens naturais \u00fanicos, n\u00e3o reprodut\u00edveis, que pertencem \u00e0s gera\u00e7\u00f5es futuras, e convertendo-os em riquezas para alguns, deixando uma heran\u00e7a negativa atrav\u00e9s da polui\u00e7\u00e3o, rejeitos e res\u00edduos, al\u00e9m de cidades invi\u00e1veis e uma estrutura produtiva degradada.<\/p>\n<p>De forma que o cen\u00e1rio n\u00e3o me parece favor\u00e1vel, sob qualquer \u00f3tica. Sob a \u00f3tica capitalista, o pa\u00eds vive em crise. Sob a \u00f3tica socialista, \u00e9 um desastre.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania: Pensando agora no setor de sua atua\u00e7\u00e3o mais espec\u00edfica, o energ\u00e9tico, uma das medidas que mais pol\u00eamica causou nos \u00faltimos tempos foi a MP 579, para renova\u00e7\u00e3o antecipada das concess\u00f5es de geradoras, em sua maioria estatais, sob a prerrogativa de uma necess\u00e1ria e justa redu\u00e7\u00e3o das tarifas el\u00e9tricas. Como v\u00ea a medida, os resultados que dela j\u00e1 emergiram at\u00e9 agora e o seu impacto para as estatais?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ildo Sauer:<\/strong> Evidentemente, \u00e9 um ataque contra as empresas p\u00fablicas, que j\u00e1 encontram problemas de gest\u00e3o no presente. Deveriam fortalecer Furnas, Eletronorte, Chesf, mas est\u00e3o \u2018arrancando\u2019 projetos de usinas a rodo. No passado, propusemos a cria\u00e7\u00e3o da estatal Hidrobr\u00e1s, mediante opera\u00e7\u00e3o cooperativa dessas tr\u00eas citadas, mantendo-as \u00edntegras em suas opera\u00e7\u00f5es e capacita\u00e7\u00e3o, gerando excedente econ\u00f4mico para o pa\u00eds. Agora, reduziram o custo de 22 mil megawatts de energia, pois Chesf, Cemig e Copel v\u00e3o entrar inteiramente na jogada. Mas o governo liquidou a RGE (Rio Grande Energia) por cerca de 20 bilh\u00f5es de reais, fora aquilo que j\u00e1 disse de Itaipu, para indenizar e n\u00e3o deixar morrer a Eletrobr\u00e1s e suas subsidi\u00e1rias, especialmente as tr\u00eas maiores (Furnas, Eletronorte e Chesf).<\/p>\n<p>No entanto, a tarifa que o governo ir\u00e1 pagar (por ele arbitrada) n\u00e3o custeia nem a opera\u00e7\u00e3o, quanto mais a manuten\u00e7\u00e3o. Portanto, temos riscos nesse sentido, estamos destruindo a capacidade de engenharia, estamos destruindo os \u00faltimos basti\u00f5es que havia de capacidade de planejamento p\u00fablico, de implementar, produzir e operar sistemas complexos, como eram os casos de Furnas, Chesf, Eletronorte&#8230;<\/p>\n<p>H\u00e1 cr\u00edticas \u00e0s empresas p\u00fablicas, mas elas deveriam ser melhoradas, n\u00e3o destru\u00eddas. De um lado, trata-se disso, de destruir o resto das empresas de enorme capacidade, como j\u00e1 revelaram alguns atores do sistema hidrel\u00e9trico brasileiro que est\u00e3o a\u00ed, alvo de tamanha disputa. E de outro lado, o governo antecipou o fim das concess\u00f5es usando para isso a RGE, o fundo produzido por tarifas p\u00fablicas, entre 18 e 20 bilh\u00f5es de reais, utilizados pra dar um f\u00f4lego a tais empresas e fazer populismo. O governo vai entregar energia dessas empresas, antes dos impostos, a cerca de 8 a 10 reais o megawatt\/hora (mW\/h). Com impostos, vai chegar a algo pr\u00f3ximo de 30 reais o mW\/h. No entanto, esse \u00e9 o excedente de 10 bilh\u00f5es de reais por ano que ser\u00e1 doado aos grandes consumidores.<\/p>\n<p>Ou seja, o governo age dessa forma sem mexer na enorme lucratividade da participa\u00e7\u00e3o privada no setor el\u00e9trico. H\u00e1 empresas vendendo energia gerada nas pequenas centrais hidrel\u00e9tricas (PCHs), que antes tamb\u00e9m eram p\u00fablicas e foram privatizadas. A energia delas entrava no sistema por 20 a 30 reais o mW\/h. Depois da decis\u00e3o do governo, foram privatizadas e sua energia recomprada a 200 reais o mW\/h, vendida como energia renov\u00e1vel e incentivada. E o governo tem muitos contratos ainda, desde FHC e nos leil\u00f5es da pr\u00f3pria Dilma, de energia t\u00e9rmica, que custa hoje entre 180 e 200 reais o mW\/h.<\/p>\n<p>Pra manter isso, a estrutura de contratos mal feitos, com muitos riscos embutidos (que na verdade n\u00e3o existem, tudo pra justificar a perman\u00eancia desse tipo de contratos), o governo est\u00e1 esterilizando patrim\u00f4nio p\u00fablico \u2013 para, ainda assim, manter o Brasil com a terceira tarifa mais cara do mundo. Caindo talvez pra d\u00e9cimo lugar, mas, de toda forma, sem ter um grande impacto.<\/p>\n<p>E al\u00e9m do mais, observa-se o mau planejamento. A expans\u00e3o do sistema el\u00e9trico sob os governos Lula e Dilma fez com que n\u00e3o tiv\u00e9ssemos suficiente n\u00famero de usinas hidrel\u00e9tricas e e\u00f3licas operando desde 2011, 2012. O que fez com que agora, mesmo com per\u00edodo chuvoso, usemos todo o parque termel\u00e9trico, com muitas usinas com o mW\/h sendo vendido por at\u00e9 800 reais. Tamb\u00e9m usinas a \u00f3leo diesel com GNL (g\u00e1s natural liquefeito) importado entraram em opera\u00e7\u00e3o, acumulando preju\u00edzos. E agora o governo anuncia pela imprensa que o custo ser\u00e1 absorvido pelo Tesouro Nacional, \u00e0 custa de mais impostos ou mais endividamento p\u00fablico. O mesmo Tesouro que financia a expans\u00e3o e os benef\u00edcios que o BNDES vem outorgando a v\u00e1rios grupos escolhidos.<\/p>\n<p>Note bem: de um lado, o governo reduziu receitas p\u00fablicas, a partir da conta de consumo de combust\u00edveis. Um exemplo \u00e9 o que ocorre no Amazonas, onde o processo de acabar com as usinas que queimam \u00f3leo diesel demorou anos e ainda nem se completou, mesmo com o gasoduto Urucu\/Manaus dispon\u00edvel desde 2009. E essa conta \u00e9 distribu\u00edda entre todos, chegando agora ao Tesouro. V\u00e1rios outros custos que estavam sendo levados ao consumidor agora v\u00e3o simplesmente migrar rumo ao Tesouro Nacional. S\u00f3 que o Tesouro tamb\u00e9m \u00e9 do consumidor, e a diferen\u00e7a \u00e9 que ele tem de ter um papel mais amplo. Jogar essa conta sobre os consumidores el\u00e9tricos apenas alivia a conta daqueles que t\u00eam mais renda e consomem mais energia, as empresas. Portanto, estamos diante de uma redu\u00e7\u00e3o tarif\u00e1ria socialmente regressiva.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, \u00e9 importante ressaltar, 9 das 12 empresas que mais tiveram lucratividade nos \u00faltimos anos no Brasil s\u00e3o da \u00e1rea de energia. O que indica uma enorme assimetria. Muitas empresas privadas continuam vendendo energia t\u00e9rmica para o sistema por 180, 200 reais o mW\/h. Agora, pra reduzir o risco de racionamento, o governo est\u00e1 queimando de 800 milh\u00f5es a 1 bilh\u00e3o de reais por m\u00eas em combust\u00edveis. Uma conta enorme que ou ser\u00e1 rateada entre os consumidores ou, pior ainda, ser\u00e1 repassada ao Tesouro Nacional. O que significa que ou ele se endividar\u00e1 mais ou n\u00e3o haver\u00e1 dinheiro pra fazer sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o p\u00fablicas &#8211; os \u00fanicos dois caminhos para alterar as rela\u00e7\u00f5es sociais dentro do pa\u00eds. Se for mantida a redu\u00e7\u00e3o tarif\u00e1ria, ser\u00e1 \u00e0 custa do Tesouro. A m\u00e1quina de fazer custos est\u00e1 de p\u00e9. O governo n\u00e3o fez mudan\u00e7a estrutural, fez s\u00f3 uma mudan\u00e7a cont\u00e1bil, transferiu o nome de quem paga a conta. E, claro, tirou das estatais a receita que teriam.<\/p>\n<p>De modo que \u00e9 assombroso ver o governo que veio do partido concebido nos anos 80 \u2013 a partir das vis\u00f5es de Marini e Florestan, e com a no\u00e7\u00e3o de que poder\u00edamos migrar diretamente de um pa\u00eds ainda n\u00e3o industrializado e sem base capitalista solidificada para um sistema socialista \u2013 adentrar nesse sistema. Uma l\u00f3gica onde o Tesouro Nacional e os recursos p\u00fablicos s\u00e3o usados pra atender toda gama de interesses incrustados e encastelados dentro de uma base de governo t\u00e3o ampla, onde cada um busca seu naco numa disputa que se manifesta em todos os espa\u00e7os.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania: Mau planejamento \u00e0 parte, apag\u00e3o tem sido palavra-chave no setor, e v\u00eam acontecendo, de fato e com frequ\u00eancia, not\u00f3rios cortes de energia em distintas regi\u00f5es, inclusive nesta capital. O risco de apag\u00e3o \u00e9 real?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ildo Sauer:<\/strong> Nenhum risco de racionamento pode ser descartado. Mas s\u00f3 poderemos ter uma impress\u00e3o mais forte entre abril e maio, olhando os reservat\u00f3rios. O \u201cproblema\u00e7o\u201d do planejamento criou outro grande problema e uma desgra\u00e7a criou um al\u00edvio. O fato de o pa\u00eds n\u00e3o ter crescido tanto em 2011 e 2012 fez com que a demanda el\u00e9trica n\u00e3o fosse aquela prevista. Mesmo assim, os reservat\u00f3rios est\u00e3o num n\u00edvel preocupante, n\u00e3o se pode ter certeza de como estar\u00e3o at\u00e9 o dia 1\u00ba de maio, quando as chuvas de mar\u00e7o j\u00e1 ter\u00e3o encerrado o ver\u00e3o h\u00e1 muito tempo e poderemos fazer um balan\u00e7o pra saber se, mesmo com essas t\u00e9rmicas operando a um custo de quase R$ 1 bilh\u00e3o por m\u00eas em termos de combust\u00edvel, e com todo esse fiasco energ\u00e9tico do governo Dilma, n\u00e3o teremos a cat\u00e1strofe ainda maior de ter de cortar o consumo. Mas o fato de a economia periclitar ajuda a evitar tal quadro.<\/p>\n<p>Assim, ainda que seja baixo o risco de racionamento, a amea\u00e7a est\u00e1 no horizonte. Mesmo que as probabilidades n\u00e3o sejam elevadas, n\u00e3o se pode descart\u00e1-las. Ao mesmo tempo em que a presidente anunciava que n\u00e3o h\u00e1 risco algum (uma mentira, porque sempre h\u00e1 risco), na reuni\u00e3o do come\u00e7o do ano com especialistas do setor el\u00e9trico e da climatologia foi dito que, \u201cse n\u00e3o chover, cabe\u00e7as v\u00e3o rolar\u201d. \u00c9 a frase pronunciada por ela e que saiu dos bastidores. Fica claro o esp\u00edrito e o \u00e2nimo em rela\u00e7\u00e3o ao assunto. \u00c9 evidente que, no momento, temos de aguardar o fim do per\u00edodo de chuvas, fazer o balan\u00e7o em abril e ver em maio qual o n\u00edvel de conforto, pra seguir operando normalmente ou pra come\u00e7ar a fazer gest\u00e3o de carga, dependendo do n\u00edvel dos reservat\u00f3rios.<\/p>\n<p>Outro esc\u00e2ndalo \u00e9 que h\u00e1 usinas e\u00f3licas na Bahia e Rio Grande do Norte, com quase 600 Megawatts de potencial, que est\u00e3o prontas e n\u00e3o foram interligadas ao sistema el\u00e9trico por falta de transmiss\u00e3o. Algo semelhante se repete agora. Os esc\u00e2ndalos ambientais e agress\u00f5es sociais que acompanharam a constru\u00e7\u00e3o de Santo Antonio e Jirau est\u00e3o chegando a termo, com algumas turbinas entrando em opera\u00e7\u00e3o. E agora faltam linhas de transmiss\u00e3o pra levar a energia aos centros de consumo. A energia est\u00e1 sendo escoada para o Acre e Rond\u00f4nia, liberando a produ\u00e7\u00e3o de energia t\u00e9rmica. Mas dado o n\u00edvel de risco das demais regi\u00f5es do pa\u00eds, essa energia dispon\u00edvel seria extremamente bem vinda pra reduzir custos. O que mostra que a capacidade de gest\u00e3o do governo, e de quem se proclama grande gerentona, m\u00e3e do PAC, na verdade \u00e9 uma grande farsa.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania: A constru\u00e7\u00e3o de grandes hidrel\u00e9tricas na Amaz\u00f4nia tem como uma de suas justificativas justamente a necessidade de o pa\u00eds se adequar a uma demanda maior e crescente de energia el\u00e9trica, e de forma sustent\u00e1vel. Voc\u00ea acredita nessa necessidade e argumenta\u00e7\u00e3o? O medo de desabastecimento justifica a constru\u00e7\u00e3o de barragens na regi\u00e3o, com todos os seus conhecidos descalabros sociais, ambientais etc.?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ildo Sauer:<\/strong> Esse argumento do desabastecimento pode ser usado, sim. \u00c9 evidente que, desde 2002, 2003, o programa de governo da Frente Popular previa que se fizesse um invent\u00e1rio total de todos os recursos energ\u00e9ticos do pa\u00eds. Hidrel\u00e9tricas, e\u00f3licas, co-gera\u00e7\u00e3o com baga\u00e7o de cana, com g\u00e1s natural, PCHs (Pequenas Centrais Hidrel\u00e9tricas), racionaliza\u00e7\u00e3o do uso de energia&#8230; Tudo isso posto numa avalia\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, ambiental e social, descartando-se aqueles projetos que fossem invi\u00e1veis social e ambientalmente, orientando os demais pelo crit\u00e9rio t\u00e9cnico-econ\u00f4mico. E sequencialmente, por ordem de m\u00e9rito, os projetos seriam postos em pr\u00e1tica. At\u00e9 agora nada disso foi feito.<\/p>\n<p>O que o governo fez, a partir da expans\u00e3o da demanda em 2005, foi come\u00e7ar a lan\u00e7ar um monte de projetos. Belo Monte era um deles, que vinha desde a ditadura militar, ressuscitado com os mesmos problemas sociais e ambientais, apesar de uma pequena redu\u00e7\u00e3o do reservat\u00f3rio. O complexo de Santo Antonio e Jirau, por sua vez, foi herdado da era FHC, um cons\u00f3rcio privado, com Furnas e Odebrecht no projeto, unicamente. Depois, o governo repartiu as duas usinas entre seus s\u00f3cios Odebrecht e Camargo Correa, dando a cada uma delas um s\u00f3cio estatal pra servir de muleta na administra\u00e7\u00e3o dessas duas hidrel\u00e9tricas do Rio Madeira. Assim foi feito. O governo certamente vai usar essa amea\u00e7a de risco em seu compl\u00f4 midi\u00e1tico contra a consci\u00eancia social e tentar enfiar goela abaixo outros projetos que favore\u00e7am seus s\u00f3cios, e n\u00e3o a sociedade e seu todo. Est\u00e3o a\u00ed projetos como S\u00e3o Luiz dos Tapaj\u00f3s e outros mais na linha de tiro.<\/p>\n<p>Temos condi\u00e7\u00e3o de atender a toda demanda do pa\u00eds, com os menores custos poss\u00edveis, a partir de uma associa\u00e7\u00e3o entre projetos hidreletricamente vi\u00e1veis com projetos e\u00f3licos igualmente vi\u00e1veis, com a complementa\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica apenas de longo prazo, operando com combust\u00edveis flex\u00edveis. Mas considerando a fragmenta\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es que operam, planejam e dirigem o sistema el\u00e9trico e o conjunto de interesses presentes nesses espa\u00e7os, a decis\u00e3o nunca \u00e9 do interesse p\u00fablico. \u00c9 aquela que os grupos de plant\u00e3o, com mais for\u00e7a de lobby, desejam. Exemplo disso \u00e9 o lobby nuclear, que conseguiu enfiar goela abaixo Angra 3, que custar\u00e1 mais de 10 bilh\u00f5es de reais s\u00f3 pra ser conclu\u00edda, quando a energia que gerar\u00e1 poderia ser providenciada com metade desse dinheiro em e\u00f3licas ou hidrel\u00e9tricas ambiental e socialmente vi\u00e1veis. Com o que n\u00e3o restaria como heran\u00e7a \u00e0s gera\u00e7\u00f5es futuras, sem necessidade e pagando por isso, 1000 toneladas de combust\u00edveis altamente radioativos, a exigirem cuidado por 300 anos se forem reprocessados. Est\u00e1 bem que o governo postergou a ideia das quatro usinas nucleares que tinha proposto pra 2020. Mas h\u00e1 um lobby muito forte no seio do governo para que tais projetos voltem \u00e0 agenda. Fato \u00e9 que o governo central serve pra arbitrar os interesses expressos em sua base de apoio \u2013 econ\u00f4mica, pol\u00edtica e sindical. Mas sempre tem um vencedor aqui e outro acol\u00e1 nessa trajet\u00f3ria de implanta\u00e7\u00e3o quase ca\u00f3tica de projetos energ\u00e9ticos, dentro da l\u00f3gica do pr\u00f3prio capitalismo e suas condi\u00e7\u00f5es inerentes.<\/p>\n<p>Vejo, portanto, o que ocorre no governo do seguinte modo: disputa por espa\u00e7o econ\u00f4mico e pela consolida\u00e7\u00e3o de interesses patrocinados por alguns grupos. Porque o interesse p\u00fablico e a ideia de uma sociedade mais justa, solid\u00e1ria e igualit\u00e1ria\u2013 o que exigiria investimentos planejados em educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade p\u00fablicas, em infraestrutura, reformas agr\u00e1ria e urbana, mobilidade, prote\u00e7\u00e3o ambiental, ci\u00eancia, tecnologia \u2013 ficou completamente em segundo plano. O governo se tornou mero \u00e1rbitro dos interesses aqui descritos pra tentar manter uma taxa de crescimento minimamente vi\u00e1vel e evitar a crise social, em raz\u00e3o da escassa renda distribu\u00edda.<\/p>\n<p>\u00c9 fato que continuar crescendo a 2%, ou menos, por ano deixar\u00e1 todo esse projeto amea\u00e7ado, certamente. E o que vem depois ainda \u00e9 uma grande inc\u00f3gnita, em face da debilidade, lament\u00e1vel, das propostas genuinamente de esquerda. Acho que \u00e9 necess\u00e1rio ressuscitar os princ\u00edpios de esquerda \u2013 n\u00e3o necessariamente com um partido espec\u00edfico, mas com v\u00e1rios que tenham inser\u00e7\u00e3o nessa vis\u00e3o \u2013 para criar uma frente nacional, a exemplo do que foi visto na Bol\u00edvia, Equador, Venezuela. Um processo que teria suas nuances, mas que retomaria o debate pol\u00edtico em novas bases, a fim de produzir outra proposta a confrontar os grupos reconhecidos hoje: o governo, como centro-direita, e a oposi\u00e7\u00e3o, nitidamente neoliberais de direita tamb\u00e9m. Ambos muito parecidos em v\u00e1rios aspectos.<\/p>\n<p>O que falta mesmo para o pa\u00eds \u00e9 um maior debate e mobiliza\u00e7\u00e3o de esquerda, que est\u00e1 anestesiada. Uma fra\u00e7\u00e3o significativa das for\u00e7as sociais que potencialmente poderiam ser atores principais de tal mobiliza\u00e7\u00e3o \u2013 movimentos sociais, sindicais e trabalhistas \u2013 continua subordinada a um projeto de governo que, na verdade, nada mais foi que uma trai\u00e7\u00e3o permanente e cont\u00ednua aos interesses mais fundamentais desses mesmos grupos sociais.<\/p>\n<p><strong>Val\u00e9ria Nader, economista e jornalista, \u00e9 editora do Correio da Cidadania;\u00a0 Gabriel Brito \u00e9 jornalista.<\/strong><\/p>\n<p>www.correiocidadania.com.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=8170<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nlh3\n\n\n\n\n\n\n\n\nPor Val\u00e9ria Nader e Gabriel Brito, da Reda\u00e7\u00e3o\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4486\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[105],"tags":[],"class_list":["post-4486","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c118-privatizacao"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1am","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4486","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4486"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4486\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4486"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4486"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4486"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}