{"id":4514,"date":"2013-03-22T18:13:26","date_gmt":"2013-03-22T18:13:26","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4514"},"modified":"2013-03-22T18:13:26","modified_gmt":"2013-03-22T18:13:26","slug":"o-desafio-da-revolucao-bolivariana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4514","title":{"rendered":"O desafio da Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana"},"content":{"rendered":"\n<p>Num contexto hist\u00f3rico muito desfavor\u00e1vel, hostilizada pelos governos de Bush e Obama, a Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana realizou, sob uma ofensiva permanente da oligarquia crioula, conquistas muito importantes. O que surpreende n\u00e3o \u00e9 aquilo que n\u00e3o foi poss\u00edvel realizar; mas sim o terem conseguido tanto numa atmosfera de guerra n\u00e3o declarada, no contexto de uma luta de classes que somente ter\u00e1 precedente no Chile de Allende.<\/p>\n<p>Hugo Ch\u00e1vez deixou como legado uma carta de navega\u00e7\u00e3o e um painel de instrumentos para que seja mantido o rumo. Restituiu a esperan\u00e7a aos seus compatriotas e aos povos da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Poucas vezes na Am\u00e9rica Latina a morte de um governante carism\u00e1tico ter\u00e1 comovido t\u00e3o profundamente o seu povo como a de Hugo Ch\u00e1vez.<\/p>\n<p>Amado pelos oprimidos de todo o mundo, combatido e caluniado pelas classes dominantes, o seu funeral, acompanhado por milh\u00f5es de venezuelanos, confirmou que fez hist\u00f3ria profunda. Significativamente, nele participaram dezenas de chefes de estado e de governo vindos da Am\u00e9rica Latina, da Europa, da \u00c1sia e da Africa.<\/p>\n<p>Era um obscuro oficial quando surgiu em 1992 como l\u00edder de uma rebeli\u00e3o militar contra o governo de Carlos Andr\u00e9s P\u00e9rez. A tentativa de golpe foi esmagada e cumpriu dois anos de pris\u00e3o. A sua admira\u00e7\u00e3o por Bolivar foi ent\u00e3o fonte de um projeto ambicioso: libertar o pa\u00eds da domina\u00e7\u00e3o imperialista e levar adiante uma revolu\u00e7\u00e3o que, pela via institucional, fizesse do povo sujeito da Hist\u00f3ria. O sonho parecia ut\u00f3pico porque a Venezuela era uma semicol\u00f3nia dos EUA. Mas ocorreu o que os partidos da burguesia tinham por imposs\u00edvel. O jovem oficial mesti\u00e7o, desprezado pela oligarquia, apresentou-se como candidato por um Movimento por ele criado, o V Rep\u00fablica, e venceu. O seu discurso, diferente de tudo o que se conhecia, empolgou as massas.<\/p>\n<p>Eleito Presidente da Rep\u00fablica em Dezembro de1998, tomou consci\u00eancia de uma realidade: a conquista da Presid\u00eancia fora uma tarefa muito mais f\u00e1cil do que aquela que se propunha a empreender: a transi\u00e7\u00e3o do capitalismo dependente, hegemonizado pelos EUA, para uma Venezuela soberana, rumo a uma Revolu\u00e7\u00e3o de contornos ainda por definir.<\/p>\n<p>Dois golpes de estado, montados e financiados pelos EUA, confrontaram Ch\u00e1vez com crises inesperadas. O primeiro, em 2002, foi um golpe militar que contou com a participa\u00e7\u00e3o de altas patentes das For\u00e7as Armadas. Salvo pela mobiliza\u00e7\u00e3o popular, o Presidente compreendeu que, afinal, o corpo de oficiais era perme\u00e1vel \u00e0 ofensiva ideol\u00f3gica do imperialismo e da grande burguesia.<\/p>\n<p>Uma segunda intentona quase paralisou o pa\u00eds e demonstrou que a PDVESA, a gigantesca empresa petrol\u00edfera, somente era nacional nominalmente, pois os dirigentes estavam identificados com o capital financeiro internacional.<\/p>\n<p>Em ambos os golpes estiveram envolvidos militares e civis nos quais Ch\u00e1vez tinha confian\u00e7a.<\/p>\n<p>Sucessivas deser\u00e7\u00f5es \u2013 as mais chocantes ter\u00e3o sido a de Miquelena, ex ministro do Interior, e a do general Baduel &#8211; demonstraram posteriormente que muitos dos antigos companheiros n\u00e3o se sentiam identificados com o projeto revolucion\u00e1rio do Presidente.<\/p>\n<p>Durante largo tempo uma quest\u00e3o sem resposta comprometeu o avan\u00e7o do processo.<\/p>\n<p>Qual o rumo da Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana? A defini\u00e7\u00e3o tardou. No terreno da ideologia era uma revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica e nacional, anti-imperialista.<\/p>\n<p>Ch\u00e1vez apercebeu-se de uma evid\u00eancia: sem organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria que lhe assuma os objetivos, n\u00e3o h\u00e1 revolu\u00e7\u00e3o que possa atingir as metas propostas.<\/p>\n<p>Creio que foi em 2004, dirigindo-se a um Encontro de Intelectuais em Defesa da Humanidade, que deixou pela primeira vez impl\u00edcita a op\u00e7\u00e3o pelo Socialismo.<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o de um Partido da Revolu\u00e7\u00e3o tornou-se ent\u00e3o uma necessidade: o Partido Socialista Unido da Venezuela.<\/p>\n<p>O PSUV nasceu por\u00e9m numa atmosfera pol\u00e9mica porque no chavismo cabiam muitas tend\u00eancias, algumas incompat\u00edveis. Criado de cima para baixo, o n\u00famero de filiados atingiu rapidamente um total impressionante. O \u00eaxito gerou ilus\u00f5es; muitos aderentes n\u00e3o eram revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p>O Presidente exigiu que todos os partidos que apoiavam a Revolu\u00e7\u00e3o se dissolvessem, integrando-se no PSUV.<\/p>\n<p>O Partido Comunista da Venezuela, reiterando a sua solidariedade irrestrita com a revolu\u00e7\u00e3o e o seu l\u00edder, recusou. No momento em que muitos intelectuais do PSUV criticavam o marxismo- leninismo, considerando-o obsoleto, o PCV esclareceu que n\u00e3o faria sentido integrar-se num partido no qual influentes quadros atacavam princ\u00edpios e valores insepar\u00e1veis do seu combate como comunistas.<\/p>\n<p>N\u00e3o cabe neste artigo comentar os debates ent\u00e3o travados em torno do chamado Socialismo do S\u00e9culo XXI, a ideologia que, em alternativa ao socialismo cient\u00edfico, estava a tomar forma na Venezuela e na Am\u00e9rica Latina. Limito-me a citar o que escrevi em \u00abodi\u00e1rio.info\u00bb no regresso de Caracas: &#8211; \u00abA f\u00f3rmula do Socialismo no s\u00e9culo XXI \u00e9 equ\u00edvoca e enganadora. Lembra um bal\u00e3o vazio. O n\u00facleo de te\u00f3rico e program\u00e1tico n\u00e3o existe praticamente. O mal est\u00e1 no ataque aos cl\u00e1ssicos do marxismo, desencadeado sobretudo por alguns intelectuais latino americanos. Para eles, o pensamento de Marx, Engels e Lenin, toda a obra te\u00f3rica sobre o socialismo cient\u00edfico tornou-se uma velharia cuja supera\u00e7\u00e3o se apresentaria como exig\u00eancia da Hist\u00f3ria\u00bb.<\/p>\n<p>POL\u00cdTICA EXTERIOR<\/p>\n<p>Com exce\u00e7\u00e3o dos efeitos da complexa rela\u00e7\u00e3o com a Col\u00f4mbia e os elogios a governantes liberais europeus, a pol\u00edtica exterior de Ch\u00e1vez foi desde o in\u00edcio progressista pela firmeza e coragem que caracterizaram o choque com o imperialismo estado-unidense.<\/p>\n<p>No tocante \u00e0 Am\u00e9rica Latina, empenhou-se na solidariedade entre pa\u00edses irm\u00e3os. Foi decisiva a sua interven\u00e7\u00e3o no debate que liquidou o projeto recolonizador da ALCA. A Alternativa Bolivariana para as Am\u00e9ricas, ALBA, bem como a cria\u00e7\u00e3o da UNASUL, do Banco do Sul, da Petrocaribe, da CELAC assinalaram avan\u00e7os anti-imperialistas. Transparente foi a sua atitude internacionalista, a solidariedade permanente com governos como o do Ir\u00e3o que n\u00e3o se submetem \u00e0 domina\u00e7\u00e3o imperial dos EUA.<\/p>\n<p>A TRANSI\u00c7\u00c3O DIF\u00cdCIL<\/p>\n<p>Era inevit\u00e1vel que a decis\u00e3o de romper gradualmente com o capitalismo seria fonte de grandes problemas.<\/p>\n<p>Mas distorcem a realidade os media que insistem em apresentar um panorama alarmante da economia do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Num contexto hist\u00f3rico muito desfavor\u00e1vel, hostilizada pelos governos de Bush e Obama, a Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana realizou, sob uma ofensiva permanente da oligarquia crioula, conquistas muito importantes. O que surpreende n\u00e3o \u00e9 aquilo que n\u00e3o foi poss\u00edvel realizar; mas sim o terem conseguido tanto numa atmosfera de guerra n\u00e3o declarada, no contexto de uma luta de classes que somente ter\u00e1 precedente no Chile de Allende.<\/p>\n<p>O analfabetismo, antes elevad\u00edssimo, foi praticamente erradicado. Nas escolas p\u00fablicas o ensino \u00e9 gratuito. Num pa\u00eds onde o sector editorial era quase inexistente, o Estado distribuiu gratuitamente desde o in\u00edcio da Revolu\u00e7\u00e3o dezenas de milh\u00f5es de livros de autores nacionais e estrangeiros. Novas universidades foram criadas. A assist\u00eancia m\u00e9dica \u00e9 hoje gratuita.<\/p>\n<p>Nessa pol\u00edtica, as Misiones, programas sociais, desempenham um papel fundamental. A Mision Mercal atende a pre\u00e7os subsidiados 10 milh\u00f5es de pobres em 1500 lojas do Estado. A Mision Barrio Adentro desenvolve um trabalho insubstitu\u00edvel no campo da sa\u00fade. Mais de vinte cinco mil m\u00e9dicos e enfermeiros cubanos levaram Sa\u00fade a milh\u00f5es de trabalhadores que a ela n\u00e3o tinham acesso.<\/p>\n<p>DESAFIOS<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante a ofensiva contra-revolucion\u00e1ria da oposi\u00e7\u00e3o, agora liderada pelo milion\u00e1rio Henrique Capriles, a situa\u00e7\u00e3o financeira do pa\u00eds est\u00e1 controlada. As reservas de hidrocarbonetos s\u00e3o das maiores do mundo.<\/p>\n<p>Mas a insist\u00eancia de alguns ministros e dirigentes do PSUV em apresentar a Venezuela como pa\u00eds em transi\u00e7\u00e3o acelerada para o socialismo, deturpa a realidade. Com exce\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo, a contribui\u00e7\u00e3o do sector privado para o PIB \u00e9 maiorit\u00e1ria. \u00c9 ele que controla quatro quintos das importa\u00e7\u00f5es. O Banco Central \u00e9 quase aut\u00f3nomo. O sistema medi\u00e1tico \u00e9 hegemonicamente controlado pela oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A transi\u00e7\u00e3o para o socialismo \u00e9, portanto, ainda incipiente num contexto em que o modo de produ\u00e7\u00e3o, as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e as estruturas econ\u00f3micas continuam a ser fundamentalmente capitalistas.<\/p>\n<p>CONCLUS\u00c3O<\/p>\n<p>Como definir e situar o revolucion\u00e1rio Hugo Ch\u00e1vez?<\/p>\n<p>N\u00e3o e f\u00e1cil a resposta.<\/p>\n<p>Optou pelo Socialismo, imprimindo \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o um rumo que poucos esperavam. N\u00e3o foi um marxista, nem um socialista ut\u00f3pico. Nunca escondeu a for\u00e7a do seu sentimento crist\u00e3o cat\u00f3lico. Se ele apresenta afinidades idiossincr\u00e1ticas na sua trajet\u00f3ria de revolucion\u00e1rio carism\u00e1tico e humanista com grandes personagens da Hist\u00f3ria da Am\u00e9rica Latina, n\u00e3o creio que seja com Bolivar, o seu g\u00e9nio tutelar. Como l\u00edder de massas que fascinou os oprimidos do seu povo e por eles foi amado e compreendido, ele me faz pensar em grandes caudilhos como o uruguaio Artigas e os mexicanos Pancho Villa e Emiliano Zapata.<\/p>\n<p>\u00c9 imprevis\u00edvel o amanh\u00e3 da Venezuela Bolivariana. Mas tomam o desejo por realidade os que anunciam que a Revolu\u00e7\u00e3o est\u00e1 condenada.<\/p>\n<p>Como afirma o ex-ministro da Industria, Victor Alvarez, Hugo Ch\u00e1vez deixou como legado uma carta de navega\u00e7\u00e3o e um painel de instrumentos para que seja mantido o rumo.<\/p>\n<p>Confrontam-se duas op\u00e7\u00f5es. Uma desenvolvimentista, insepar\u00e1vel de um modelo rentista. A outra, social, que privilegia o direito ao trabalho, a educa\u00e7\u00e3o, a habita\u00e7\u00e3o, a sa\u00fade, a alimenta\u00e7\u00e3o, a cultura.<\/p>\n<p>Hugo Ch\u00e1vez restituiu a esperan\u00e7a aos seus compatriotas e aos povos da Am\u00e9rica Latina. Desaparecido fisicamente, j\u00e1 deu entrada no pante\u00e3o dos her\u00f3is do Continente.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nMiguel Urbano Rodrigues\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4514\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[45],"tags":[],"class_list":["post-4514","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c54-venezuela"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1aO","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4514","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4514"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4514\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4514"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4514"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4514"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}