{"id":4555,"date":"2013-03-30T23:49:21","date_gmt":"2013-03-30T23:49:21","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4555"},"modified":"2017-08-25T00:58:33","modified_gmt":"2017-08-25T03:58:33","slug":"estabilidade-monetaria-e-apassivamento-das-massas-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4555","title":{"rendered":"Estabilidade monet\u00e1ria e apassivamento das massas no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p>Surpreendentemente, a teoria marxiana sobre o fetichismo das rela\u00e7\u00f5es capitalistas n\u00e3o vem sendo utilizada pela maior parte da esquerda no entendimento de dimens\u00f5es decisivas da ades\u00e3o das massas trabalhadoras brasileiras aos presidentes da Rep\u00fablica eleitos a partir da estabilidade monet\u00e1ria posta pelo Plano Real (1994). Nas an\u00e1lises mais conhecidas, os ganhos reais do sal\u00e1rio m\u00e9dio e a recomposi\u00e7\u00e3o do poder de compra do sal\u00e1rio m\u00ednimo, conjuminados com o aumento das taxas de acumula\u00e7\u00e3o capitalista, fen\u00f4menos presentes entre o primeiro governo FHC e o atual governo Dilma Rousseff, s\u00e3o relacionados com os valores e as ideias pol\u00edticas da classe trabalhadora sem a media\u00e7\u00e3o da teoria sobre a apar\u00eancia necess\u00e1ria das trocas mercantis e o seu poder de convencer o proletariado de que o capitalismo seria justo, igualit\u00e1rio e inevit\u00e1vel. Essa atitude deixa fora do campo de batalha te\u00f3rico uma das armas mais sofisticadas usadas por Karl Marx na defesa dos assalariados e dos camponeses.<\/p>\n<p>A teoria sobre o fetichismo exposta em O Capital possibilita perceber que n\u00e3o s\u00e3o as institui\u00e7\u00f5es com fun\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas (como o Estado, a m\u00eddia e a escola) as respons\u00e1veis principais pelo fato de o proletariado aderir, na maior parte do tempo, \u00e0 Ordem capitalista. Os simples atos comprar e vender instalam a aliena\u00e7\u00e3o na consci\u00eancia oper\u00e1ria antes de o trabalhador compreender-se e atuar como membro de uma comunidade pol\u00edtica ou fiel de uma igreja. A consci\u00eancia do trabalhador \u00e9 capturada pela apar\u00eancia da circula\u00e7\u00e3o das mercadorias. Ele imagina participar de uma troca de valores iguais com o capitalista: trabalha oito horas por dia e acredita receber o equivalente monet\u00e1rio a esse tempo de trabalho (o agricultor familiar experimenta uma ilus\u00e3o an\u00e1loga, contudo ainda mais profunda, pois vende seu trabalho j\u00e1 coagulado em um produto). Pensa-se, assim, como igual ao seu patr\u00e3o, como um livre vendedor e comprador, sup\u00f5e um mundo justo e igualit\u00e1rio e remete essas justi\u00e7a e igualdade aparentes para o campo jur\u00eddico-pol\u00edtico, constituindo a base subjetiva para a legitima\u00e7\u00e3o do Estado formalmente democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>O processo inflacion\u00e1rio \u00e9 um dos elementos capazes de dissolver a apar\u00eancia de troca de equivalentes entre o trabalhador e o capitalista e, em consequ\u00eancia, de desestruturar progressivamente a ades\u00e3o da consci\u00eancia prolet\u00e1ria ao modo de produ\u00e7\u00e3o regido pelo capital e ao Estado hegemonizado pela burguesia. No contexto de uma infla\u00e7\u00e3o alta, o oper\u00e1rio, por exemplo, passa a ter o entendimento de que a troca de equivalentes foi subvertida pelo interc\u00e2mbio de n\u00e3o equivalentes, pois o poder de compra do seu salario passa a diminuir ao longo do m\u00eas. Inocula-se espontaneamente em sua consci\u00eancia, mesmo que esta permane\u00e7a regida pelo senso comum, a sensa\u00e7\u00e3o de que o sistema econ\u00f4mico deixou de ser justo, igualit\u00e1rio e inevit\u00e1vel. A greve e outras manifesta\u00e7\u00f5es com o objetivo de aumentar o seu poder de barganha nas negocia\u00e7\u00f5es salariais passam a ser um imperativo de sobreviv\u00eancia. Nessas circunst\u00e2ncias, o assalariado come\u00e7a a negar sua ades\u00e3o ao governo de plant\u00e3o, pois este n\u00e3o mais \u00e9 percebido como operador de uma comunidade pol\u00edtica de iguais, mas como um d\u00e9spota aliado aos patr\u00f5es. Em decorr\u00eancia, os sindicatos florescem e as correntes revolucion\u00e1rias tendem a ganhar hegemonia no seu interior.<\/p>\n<p>A apar\u00eancia fetichista necess\u00e1ria das rela\u00e7\u00f5es capitalistas come\u00e7a a fragmentar-se por motivos objetivos (o desemprego causa um efeito an\u00e1logo \u00e0 infla\u00e7\u00e3o, pois revela que a mercadoria do assalariado, sua for\u00e7a de trabalho, est\u00e1 sendo desvalorizada ao ponto de n\u00e3o ser levada em conta), pelas contradi\u00e7\u00f5es do metabolismo da economia mercantil, independentes de um plano coletivo e da atua\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es com fun\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas. O abandono, por parte do trabalhador, do entendimento de que existiria uma troca de equivalentes sob o capitalismo \u00e9 a antessala da percep\u00e7\u00e3o, capaz de ser alcan\u00e7ada pela consci\u00eancia prolet\u00e1ria mesmo sem que supere a estrutura do senso comum, de que as mercadorias n\u00e3o se autovalorizam (a desestabiliza\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os gera espontaneamente a ideia de que o valor econ\u00f4mico \u00e9 um construto social, uma \u201cartificialidade\u201d diante do trabalho concreto e do valor de uso correspondente) e de que, portanto, \u00e9 a classe trabalhadora a produtora do valor, do valor de troca e do valor de uso e, em decorr\u00eancia, da pr\u00f3pria hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Segundo o DIEESE, o \u00cdndice do Custo de Vida (ICV) no Brasil aumentou 2.576, 33 % em 1993. Em 1998, o mesmo \u00edndice registrou uma eleva\u00e7\u00e3o de apenas 0,49%. Em 2002, ano da primeira vit\u00f3ria de Lu\u00eds In\u00e1cio Lula da Silva nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais, o \u00edndice foi para 12,13%, e recuou para 2,56% em 2006. Em 2012, o ICV registrou um aumento de 6,40%. Em muitas categorias do setor privado ocorreram pequenos ganhos (entre 2% a 4%) acima da infla\u00e7\u00e3o. Evidentemente, isso n\u00e3o significa que a cumula\u00e7\u00e3o de capital deixou de ampliar-se, pois os capitalistas continuaram a absorver quase todos os ganhos de produtividade e a recomposi\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00e9dio n\u00e3o foi suficiente para superar o patamar hist\u00f3rico que o deixa abaixo das reais necessidades de reprodu\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. O cons\u00f3rcio entre mais-valia absoluta e mais-valia relativa continua vigente e estrutural.<\/p>\n<p>A partir desses dados e das refer\u00eancias conceituais anteriores, \u00e9 plaus\u00edvel sustentar que a estabiliza\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria inaugurada pelo Plano Real tem sido o elemento mais importante a determinar o presente apassivamento das massas trabalhadoras brasileiras.<\/p>\n<p>N\u00e3o houve o surgimento de uma nova \u201cclasse m\u00e9dia\u201d no pa\u00eds, mas a amplia\u00e7\u00e3o do mercado interno por meio da estabiliza\u00e7\u00e3o dos rendimentos de todos os setores da classe trabalhadora. O arriscado (para o sistema) caminho de aumentar a explora\u00e7\u00e3o dos assalariados por meio da infla\u00e7\u00e3o (mais um subproduto da particular irracionalidade do capitalismo colonial brasileiro do que uma estrat\u00e9gia consciente) foi substitu\u00eddo pela amplia\u00e7\u00e3o da mais-valia relativa e das escalas produtivas, c\u00e2mbio estrat\u00e9gico somente poss\u00edvel devido \u00e0s especificidades da divis\u00e3o mundial do trabalho nas \u00faltimas d\u00e9cadas, per\u00edodo no qual os pa\u00edses perif\u00e9ricos v\u00eam recebendo montanhas de capital.<\/p>\n<p>Essas mudan\u00e7as econ\u00f4micas melhoraram muito as condi\u00e7\u00f5es de legitima\u00e7\u00e3o do sistema capitalista e dos governos. A explica\u00e7\u00e3o do fen\u00f4meno n\u00e3o se encontra essencialmente no fato de que os assalariados passaram a ter mais poder de compra (o est\u00e1vel valor real do sal\u00e1rio foi \u201cmultiplicado\u201d pelo sistema de cr\u00e9dito ao consumidor) e, em decorr\u00eancia, creditaram essa melhoria aos governos de plant\u00e3o. A ess\u00eancia da explica\u00e7\u00e3o encontra-se no fato de que a estabilidade dos pre\u00e7os refor\u00e7ou a apar\u00eancia fetichista das rela\u00e7\u00f5es capitalistas de produ\u00e7\u00e3o e, em consequ\u00eancia, aumentou radicalmente a ades\u00e3o dos trabalhadores aos valores morais e pol\u00edticos do capitalismo e do Estado liberal.<\/p>\n<p>O Programa Bolsa Fam\u00edlia, o presumido grande poder de comunica\u00e7\u00e3o do Lula ou a propaganda da m\u00eddia n\u00e3o teriam capacidade de refor\u00e7ar tanto a ades\u00e3o dos trabalhadores \u00e0 Ordem sem a referida configura\u00e7\u00e3o particular da economia, nucleada pela estabilidade da moeda. Os programas sociais de transfer\u00eancia de renda n\u00e3o chegam \u00e0 vanguarda dos trabalhadores, mas este segmento encontra-se t\u00e3o apassivado quanto a popula\u00e7\u00e3o localizada abaixo da linha da pobreza. A capacidade de comunica\u00e7\u00e3o e o carisma de Dilma Rousseff s\u00e3o p\u00edfios, no entanto, seus \u00edndices de aprova\u00e7\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o altos quanto os atingidos por Lula. Existem apenas dois fatos superestruturais importantes na configura\u00e7\u00e3o do presente apassivamento das massas: a ades\u00e3o do PT a um programa neoliberal e o apoio do outrora chamado \u201cnovo sindicalismo\u201d, simbolizado pela CUT, e de muitos movimentos sociais aos governos petistas. Esses deslocamentos para a direita impuseram a necessidade de uma custosa reorganiza\u00e7\u00e3o do sindicalismo revolucion\u00e1rio e um demorado trabalho pela amplia\u00e7\u00e3o da influ\u00eancia dos partidos de esquerda que permaneceram fi\u00e9is \u00e0 causa dos trabalhadores. Evidentemente, a aus\u00eancia de organiza\u00e7\u00f5es sindicais e pol\u00edticas revolucion\u00e1rias com enraizamento profundo e capilaridade nacional contribui para o apassivamento do proletariado, j\u00e1 que os trabalhadores permanecem sem acesso a discursos alternativos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 fala da Ordem e ficam privados de uma pr\u00e1tica sindical e pol\u00edtica anticapitalista.<\/p>\n<p>A supera\u00e7\u00e3o do apassivamento pressup\u00f5e uma crise econ\u00f4mica, mas tamb\u00e9m a realiza\u00e7\u00e3o de um esfor\u00e7o minucioso, cotidiano e silencioso de reconstru\u00e7\u00e3o do movimento sindical, bem como a consolida\u00e7\u00e3o dos partidos revolucion\u00e1rios e a amplia\u00e7\u00e3o de sua influ\u00eancia. \u00c9 preciso um forte empenho na organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores pela base, na elabora\u00e7\u00e3o de programas, na transforma\u00e7\u00e3o das injusti\u00e7as em palavras de ordem, na defesa das pol\u00edticas p\u00fablicas e, al\u00e9m disso, \u00e9 necess\u00e1rio o exerc\u00edcio da paci\u00eancia enquanto a toupeira da hist\u00f3ria faz a sua parte.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nGOLBERY LESSA\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4555\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-4555","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1bt","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4555","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4555"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4555\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4555"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4555"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4555"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}