{"id":4558,"date":"2013-03-31T00:11:06","date_gmt":"2013-03-31T00:11:06","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4558"},"modified":"2013-03-31T00:11:06","modified_gmt":"2013-03-31T00:11:06","slug":"na-colombia-camponeses-exigem-10-milhoes-de-hectares-de-terras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4558","title":{"rendered":"Na Col\u00f4mbia, camponeses exigem 10 milh\u00f5es de hectares de terras"},"content":{"rendered":"\n<p>Em entrevista exclusiva, o l\u00edder da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Zonas de Reserva Campesina, C\u00e9sar Jer\u00e9z, analisa a quest\u00e3o rural no pa\u00eds, tema priorit\u00e1rio dos di\u00e1logos de paz de Havana<\/p>\n<p><em>22\/03\/2013<\/em><\/p>\n<p><em>Matheus Lobo Pismel e Rodrigo Sim\u00f5es Chagas,<\/em><\/p>\n<p><em>de San Vicente del Cagu\u00e1n, Col\u00f4mbia<\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/colombiaemmarcha.virusplanetario.net\/\" target=\"_blank\"><em>Col\u00f4mbia em marcha<\/em><\/a><\/p>\n<p>O fim do conflito armado colombiano, que j\u00e1 dura mais de meio s\u00e9culo, passa necessariamente pela solu\u00e7\u00e3o do problema agr\u00e1rio. Para discutir um tema priorit\u00e1rio dos di\u00e1logos de paz de Havana, organiza\u00e7\u00f5es camponesas de todo o pa\u00eds re\u00fanem-se nesta sexta-feira (22) e no s\u00e1bado (23) para o 3\u00ba Encontro de Zonas de Reservas Campesina (ZRC), em San Vicente del Cagu\u00e1n, ao sul do pa\u00eds. A cidade, entrada da Amaz\u00f4nia colombiana, recebe cerca de 3 mil camponeses que buscam fortalecer as iniciativas da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Zonas de Reserva Campesina (Anzorc).<\/p>\n<p>As ZRC s\u00e3o resultado de d\u00e9cadas de ac\u00famulo pol\u00edtico do movimento campon\u00eas. Em 1994, ap\u00f3s uma s\u00e9rie de marchas do setor cocaleiro, o projeto \u2013 que foi constru\u00eddo pelos pr\u00f3prios camponeses \u2013 chegou ao Congresso e virou lei. Desde ent\u00e3o, a luta \u00e9 para que sejam realmente viabilizadas. \u201cAtualmente, existem seis zonas de reserva oficializadas. Outras sete j\u00e1 cumprem os requisitos e querem se constituir ainda neste ano. E h\u00e1 v\u00e1rias que ainda est\u00e3o se inteirando, convencendo-se de que a luta deve ser por a\u00ed\u201d, explica C\u00e9sar Jer\u00e9z, porta-voz da Anzorc, que responde por 50 processos organizativos e territoriais que pretendem tornar-se ZRC.<\/p>\n<p>Em resumo, as Zonas de Reserva Campesina servem para garantir a democratiza\u00e7\u00e3o da terra, um primeiro passo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 reforma agr\u00e1ria. S\u00e3o instrumentos jur\u00eddicos para que o campon\u00eas n\u00e3o seja for\u00e7ado a se deslocar de seu territ\u00f3rio devido ao interesse de mineradoras multinacionais ou de latifundi\u00e1rios. Os planos de desenvolvimento das ZRC preveem sistemas produtivos sustent\u00e1veis, al\u00e9m de apoio t\u00e9cnico e financeiro que deem estabilidade e seguran\u00e7a ao pequeno agricultor.<\/p>\n<p>A proposta para o tema agr\u00e1rio das FARC em Havana inclui a reivindica\u00e7\u00e3o de 9,5 milh\u00f5es de hectares para a cria\u00e7\u00e3o de 59 ZRC. Com o t\u00e9rmino de mais uma rodada de conversas na quinta-feira (21), o chefe da delega\u00e7\u00e3o do governo, Humberto de la Calle, se pronunciou otimista em rela\u00e7\u00e3o aos avan\u00e7os da mesa na quest\u00e3o rural. Mas, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s ZRC, disse que o governo pretende reformul\u00e1-las e que, de maneira nenhuma, ter\u00e3o autonomia institucional e pol\u00edtica.<\/p>\n<p>A mesma cidade onde hoje acontece o encontro fez parte da zona desmilitarizada dos di\u00e1logos de paz de Cagu\u00e1n, entre 1999 e 2002. Como atividade do evento, os camponeses entregar\u00e3o formalmente propostas \u00e0s partes da atual mesa de di\u00e1logos em Havana, Cuba. O governo enviar\u00e1 um representante para receber o documento, enquanto as FARC participar\u00e3o atrav\u00e9s de videoconfer\u00eancia.<\/p>\n<p>Na cerim\u00f4nia de instala\u00e7\u00e3o do encontro, estiveram presentes o prefeito de San Vicente del Cagu\u00e1n, Domingo Em\u00edlio Perez, a diretora do Instituto Colombiano de Desenvolvimento Rural (Incoder), Miriam Villegas, o representante do minist\u00e9rio da Agricultura e Desenvolvimento Rural Andr\u00e9s Bernal, e o porta-voz da Anzorc C\u00e9sar Jer\u00e9z.<\/p>\n<p>Tanto a diretora do Incoder, quanto o representante do minist\u00e9rio da Agricultura, recha\u00e7am a possibilidade de autonomia \u00e0s ZRC. Miriam Villegas reafirmou o compromisso com o fortalecimento das Zonas de Reserva Campesina, independente do que ocorra nos di\u00e1logos de Havana, \u201cmas n\u00e3o o modelo proposto pelas FARC, e sim o que j\u00e1 existe e est\u00e1 previsto em lei\u201d.<\/p>\n<p>Em seu discurso, Jer\u00e9z enfatizou que o pa\u00eds vive um \u201cmomento chave para a paz\u201d e que \u201capesar do que vem publicando a grande m\u00eddia, o encontro n\u00e3o \u00e9 financiado pelas FARC\u201d. Tamb\u00e9m esclareceu que as propostas sobre ZRC n\u00e3o foram elaboradas pela guerrilha, mas apenas sistematizadas a partir de dezenas de f\u00f3runs populares sobre a quest\u00e3o agr\u00e1ria. Recordou o preju\u00edzo que representou o governo do ex-presidente \u00c1lvaro Uribe para os movimentos sociais colombianos e reiterou a import\u00e2ncia de participa\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es camponesas na mesa de di\u00e1logos de paz em Havana.<\/p>\n<p>Na \u00faltima sexta-feira (15), entrevistamos C\u00e9sar Jer\u00e9z em Bogot\u00e1. Al\u00e9m de porta-voz da Anzorc, Jer\u00e9z \u00e9 um dos l\u00edderes da Associa\u00e7\u00e3o Campesina do Vale do Rio Cimitarra (ACVC), que recebeu o Pr\u00eamio Nacional de Paz em 2010. Confira abaixo:<\/p>\n<p><strong>Gostar\u00edamos que voc\u00ea come\u00e7asse com um resgate hist\u00f3rico das mobiliza\u00e7\u00f5es campesinas at\u00e9 chegar \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o das Zonas de Reserva Campesina.<\/strong><\/p>\n<p><strong>C\u00e9sar Jer\u00e9z:<\/strong> Primeiro temos de ter claro que o conflito social tem sido historicamente pela terra, pela sua formaliza\u00e7\u00e3o, pelo desenvolvimento dos territ\u00f3rios campesinos. Um dos eventos mais importantes na hist\u00f3ria recente \u00e9 a guerra entre liberais e conservadores, nas d\u00e9cadas de 1940 e 50. Liberais, pequenos propriet\u00e1rios, e conservadores, latifundi\u00e1rios. Chamam essa guerra de liberal-conservadora, mas, no fundo, foi uma guerra pela terra. Essa guerra se soluciona com a chegada de uma ditadura militar, a \u00faltima que tivemos, e depois com um pacto entre liberais e conservadores que se chamou Frente Nacional, para revezarem-se no poder, mas sem resolver o problema agr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Nesse processo, foram formadas algumas guerrilhas liberais para responder \u00e0 agress\u00e3o dos conservadores. Reivindicavam fundamentalmente a terra. Um aspecto muito importante foi a influ\u00eancia das revolu\u00e7\u00f5es russa e cubana. Isso d\u00e1 dois enfoques sobre o problema da terra: o enfoque dos comunistas e o da teologia da liberta\u00e7\u00e3o. Os comunistas, nas zonas rurais do partido, come\u00e7am a influenciar os guerrilheiros liberais. Come\u00e7a uma transi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ideol\u00f3gica.<\/p>\n<p>A ditadura de Rojas Pinilla [1953-1957] faz acordos para desmobilizar guerrilheiros, mas n\u00e3o os cumpre, como sempre. Assassinam guerrilheiros liberais e isso gera muita desconfian\u00e7a nos guerrilheiros que ainda estavam nas montanhas. Essa \u00e9 a hist\u00f3ria de Manuel Marulanda [principal idealizador das FARC]: n\u00e3o se desmobiliza porque fica desconfiado de que n\u00e3o cumpram o acordo e o matem.<\/p>\n<p><strong>No come\u00e7o ele era liberal&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Neste momento, era liberal e vinha nesta etapa de influ\u00eancia comunista. H\u00e1 um momento de contradi\u00e7\u00e3o entre os guerrilheiros liberais e alguns j\u00e1 se tornam comunistas, guerrilheiros comunistas. \u00c9 a origem das FARC. Essas guerrilhas eram de autodefesa de massas e se concentram em certos territ\u00f3rios, como Marquetalia, El Pato, Rio Duda, zonas de coloniza\u00e7\u00e3o camponesas, e se estabelecem a\u00ed para resistir.<\/p>\n<p>A teoria dos conservadores diz que s\u00e3o rep\u00fablicas independentes de comunistas e a\u00ed vem toda a agress\u00e3o. Na resposta \u00e9 que realmente se configura a guerrilha das FARC. Prestem aten\u00e7\u00e3o: eles se concentram em um territ\u00f3rio para ter terra e come\u00e7ar uma economia campesina, mas chegam at\u00e9 l\u00e1 e s\u00e3o atacados.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma tend\u00eancia hist\u00f3ria entre movimentos guerrilheiro e campesino. As guerrilhas, como as FARC e o ELN, sempre influenciaram os movimentos sociais. Tem existido uma rela\u00e7\u00e3o e isso n\u00e3o se pode negar. Uma rela\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. A \u00fanica diferen\u00e7a s\u00e3o as formas: armada ou de movimentos.<\/p>\n<p>O movimento campesino sempre esteve na hist\u00f3ria do pa\u00eds por esse mesmo contexto: problema da terra n\u00e3o resolvido, uma reforma agr\u00e1ria que nunca foi feita e exerc\u00edcio de viol\u00eancia a todo o tempo para despojar campesinos, proporcionar deslocamentos. Isso sempre foi funcional ao modelo de desenvolvimento, porque este campesinato se tornou m\u00e3o de obra barata nas cidades. Percebam que esse problema da terra \u00e9 funcional ao modelo de desenvolvimento do pa\u00eds. Ou seja, para \u201celes\u201d este<em> status quo<\/em> n\u00e3o \u00e9 somente normal, \u00e9 benefici\u00e1rio. Por isso que n\u00e3o querem resolver.<\/p>\n<p>O movimento campesino da Col\u00f4mbia sempre teve como bandeira hist\u00f3rica a reforma agr\u00e1ria. Sempre foi um movimento din\u00e2mico, mas sempre foi perseguido. O maior ac\u00famulo dos movimentos sociais foi nos anos 70 e, nos anos 80, j\u00e1 v\u00eam todas essas pr\u00e1ticas de contra-insurg\u00eancia, doutrina de seguran\u00e7a nacional, \u201cinimigo interno\u201d&#8230; Pensavam que a influ\u00eancia das revolu\u00e7\u00f5es cubana e sovi\u00e9tica ia fazer triunfar revolu\u00e7\u00f5es na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>O impacto nos movimentos sociais foi forte: ciclos repressivos que se repetem, um mais forte que o outro. Isso explica a situa\u00e7\u00e3o atual do movimento campesino. Est\u00e1 em recomposi\u00e7\u00e3o, sobretudo depois dos dois per\u00edodos de Uribe que foram muito repressivos. Existe uma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as desfavor\u00e1vel nas Zonas de Reserva, onde j\u00e1 n\u00e3o podemos impor reforma agr\u00e1ria. \u00c9 parecido com o Brasil: o MST \u00e9 grande, mas n\u00e3o tem for\u00e7a suficiente. Ent\u00e3o come\u00e7am a ser criados mecanismos para garantir ao menos certos n\u00edveis de reforma agr\u00e1ria.<\/p>\n<p>Com o acordo de paz de Uribe, nos anos 1980, come\u00e7a-se a falar de ZRC. Depois nos 1990, com a mobiliza\u00e7\u00e3o dos campesinos cocaleiros, \u00e9 quando se assume essa proposta de ter territ\u00f3rios campesinos que se chamam Zonas de Reserva Campesina.<\/p>\n<p>Conquistam a lei 160 em 1994 e, dois anos depois, conseguem que se crie uma regulamenta\u00e7\u00e3o. As ZRC s\u00e3o efetivamente um acumulado e t\u00eam duas linhas: pol\u00edtico-social, que \u00e9 a parte organizativa e, desde 1994, a linha administrativa que \u00e9 a interlocu\u00e7\u00e3o com o Estado, exigindo o cumprimento da lei. Por isso h\u00e1 zonas de reserva formalmente reconhecidas pelo Estado e h\u00e1 uma maioria que s\u00e3o de fato, mas que o Estado n\u00e3o quer constituir juridicamente.<\/p>\n<p>Durante os dois governos de Uribe, a repress\u00e3o foi t\u00e3o forte que muitas organiza\u00e7\u00f5es deixaram isso quieto. A nossa foi uma das que conseguiu manter a luta pelas ZRC.<\/p>\n<p><strong>Anzorc ou a Associa\u00e7\u00e3o Campesina do Vale do Rio Cimitarra (ACVC)?<\/strong><\/p>\n<p>A ACVC. A Anzorc havia sido criada h\u00e1 12 anos, antes de Uribe, mas pela press\u00e3o, n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es de consolidar-se. Quando muda o governo e Santos tem que atender \u00e0 press\u00e3o do movimento campesino, fazer acordos de novo e reativar as ZRC (ao mesmo formalmente), come\u00e7amos a reconstruir a Anzorc.<\/p>\n<p>O certo \u00e9 que \u00e9 a express\u00e3o mais importante agora. A Anzorc conseguiu fazer que o Estado a reconhe\u00e7a como interlocutor pol\u00edtico, que fa\u00e7a acordo com a gente. Existem diferentes rela\u00e7\u00f5es com setores sociais, institui\u00e7\u00f5es, Igreja, partidos pol\u00edticos, guerrilhas. Ou seja, Anzorc pretende ser um interlocutor com todo o espectro para fazer valer sua proposta, para legitim\u00e1-la.<\/p>\n<p>O acumulado pode se resumir no que est\u00e1 acontecendo neste momento, no qual h\u00e1 um movimento campesino que est\u00e1 se recompondo e h\u00e1 um processo de paz onde se toma esse ponto como uma possibilidade de come\u00e7ar a solucionar o problema da terra.<\/p>\n<p>Neste momento, em Havana, est\u00e3o sentados para falar sobre as ZRC. Esse \u00e9 o tema mais conflitivo, porque a guerrilha exigiu que se come\u00e7asse a solucionar o problema com 9,5 milh\u00f5es de hectares. O Estado e os meios de comunica\u00e7\u00e3o dizem que isso \u00e9 descabido, mas a Col\u00f4mbia tem 35 milh\u00f5es de hectares para as vacas, para a pecu\u00e1ria. Este ano v\u00e3o entregar para as multinacionais, para a grande minera\u00e7\u00e3o, mais 20 milh\u00f5es de hectares. \u00c9 um problema de uma negocia\u00e7\u00e3o em que o governo quer que as FARC se desmobilizem e as FARC fazem propostas de reformas. Reformas que, no tema da terra, s\u00e3o estruturais. Come\u00e7ariam a resolver o problema da terra.<\/p>\n<p>Nesse sentido, as organiza\u00e7\u00f5es campesinas est\u00e3o em grande destaque. Um reflexo disso \u00e9 o esc\u00e2ndalo midi\u00e1tico. Todos os dias atacam as zonas, atentados, agress\u00f5es&#8230; Este momento \u00e9 hist\u00f3rico, mas tamb\u00e9m muito perigoso. Se firmam acordos de paz, pode haver uma din\u00e2mica progressiva. Se n\u00e3o, volta um ciclo repressivo muito forte. Esse \u00e9 o risco. Pode ser que tenhamos que ir para o Brasil&#8230; A coisa fica complicada.<\/p>\n<p><strong>E quanto ao Plano de Desenvolvimento Econ\u00f4mico. Existem estudos para que se viabilizem as Zonas?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Todos os planos de desenvolvimento j\u00e1 t\u00eam os programas, projetos, planos de investimento&#8230; Tudo est\u00e1 formulado. O problema \u00e9 que o governo diz que n\u00e3o tem dinheiro para financiar.<\/p>\n<p>Outro problema \u00e9 que, durante os oito anos de governo de Uribe, se desmontou a pouca institucionalidade agr\u00e1ria que havia. Agora se quer fazer acordos e o governo n\u00e3o conta com as ferramentas, nem com gente, nem com dinheiro. Os planos de desenvolvimento s\u00e3o multimilion\u00e1rios, porque s\u00e3o \u201caqui n\u00e3o tem nada e vamos come\u00e7ar a p\u00f4r educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, infraestrutura\u201d.<\/p>\n<p>Mas, se h\u00e1 um acordo para o fim da guerra com as FARC, n\u00e3o se justifica ter um ex\u00e9rcito de 500 mil homens, nem investir 7% do or\u00e7amento nacional em guerra. Esse dinheiro tem que ser revertido em um plano de desenvolvimento rural que garanta o desenvolvimento dos territ\u00f3rios camponeses com um fundo de terras, com um fundo de financiamento, que pode vir do que se economize com o investimento na guerra, mas tamb\u00e9m dos recursos que tem o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Est\u00e1 comprovado que a economia camponesa em todo o mundo \u00e9 um motor de desenvolvimento. Ent\u00e3o n\u00f3s dissemos \u201cpronto, territ\u00f3rios para economia campesina, territ\u00f3rios para agroind\u00fastria, cadeias produtivas, mas com condi\u00e7\u00f5es, para que se redistribua o benef\u00edcio\u201d. N\u00e3o estamos em uma postura fundamentalista: \u201creforma agr\u00e1ria, socialismo\u201d. \u00c9 uma quest\u00e3o de t\u00e1tica e estrat\u00e9gia. Quando voc\u00ea est\u00e1 fraco, n\u00e3o pode querer impor algo que n\u00e3o \u00e9 capaz&#8230; N\u00f3s dizemos que, se h\u00e1 processo de paz e h\u00e1 um impulso nas Zonas, n\u00f3s podemos nos recompor e avan\u00e7ar mais, porque a\u00ed sim teremos garantias.<\/p>\n<p>Queremos ir para Havana para expor diretamente nossas propostas. J\u00e1 mandamos uma carta aberta, que foi o que suscitou todo este esc\u00e2ndalo midi\u00e1tico, porque n\u00f3s dissemos \u201cvamos para Havana, queremos ir para Havana!\u201d e todo mundo reagiu. As FARC responderam e quando falam \u00e9 como se falasse o diabo. Ficamos n\u00f3s tendo que lidar com toda essa quest\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>E os acordos que j\u00e1 se conseguiram anteriormente com o governo, como est\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>A maioria n\u00e3o est\u00e1 sendo cumprida. O \u00fanico ganho da lei, da regulamenta\u00e7\u00e3o, que \u00e9 muito restrita, \u00e9 um mecanismo que limita a propriedade nos territ\u00f3rios campesinos, que se chama UAF (Unidade Agr\u00edcola Familiar): um limite de terra m\u00ednimo para garantir sua renda b\u00e1sica familiar. Na teoria, deve impedir que as pessoas concentrem mais que esse limite, mas se viola em todo o pa\u00eds. Faz parte do problema que temos que solucionar.<\/p>\n<p><strong>E a influ\u00eancia dos militares.<\/strong><\/p>\n<p>Terr\u00edvel. Militares, narcotraficantes, \u00c1lvaro Uribe, grandes empresas, agroneg\u00f3cio, tudo isso que \u00e9 muito pr\u00f3ximo. Eles s\u00e3o esse n\u00facleo que todos os dias, de maneira coordenada, est\u00e3o lan\u00e7ando ataques. Querem arrebentar o processo de paz aqui neste tema das Zonas de Reserva Campesina. \u00c9 toda uma estrat\u00e9gia dos meios. \u201cAqui \u00e9 o ponto onde vamos romper, porque n\u00e3o podem entregar as zonas de reserva \u00e0s FARC\u201d (risos). \u00c9 um ponto de inflex\u00e3o. Caso passe desse ponto pode haver continuidade.<\/p>\n<p><strong>Santos demonstra vontade pol\u00edtica?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil falar de vontade pol\u00edtica desses caras. S\u00e3o muito pragm\u00e1ticos. O enfoque do governo \u00e9 neg\u00f3cio, neg\u00f3cio para desmobilizar. E o enfoque das FARC \u00e9: \u201cn\u00e3o estamos derrotados, n\u00e3o estamos fracos, estamos em todo pa\u00eds. Sofremos golpes, mas queremos o processo e temos estas propostas, que s\u00e3o de car\u00e1ter reformista\u201d. S\u00e3o reformas. Levar o capitalismo ao campo (risos). O campo na Col\u00f4mbia \u00e9 feudal. Tem que se pensar por onde se abre a autonomia territorial de maneira transit\u00f3ria, uma transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, porque revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o vai ter. Aqui h\u00e1 muito dinheiro investido em armas. Temos os gringos aqui&#8230;<\/p>\n<p>Um horizonte dos movimentos camponeses pode ser brigar por uma autonomia territorial, onde n\u00f3s mandamos, administramos, ordenamos o territ\u00f3rio e a economia. Mas eles n\u00e3o querem saber disso. Os ind\u00edgenas, os afrodescendentes j\u00e1 t\u00eam, mas os campesinos n\u00e3o podem ter. Identificam-nos como um opositor pol\u00edtico muito mais forte. O campesinato que tem sido um problema hist\u00f3rico.<\/p>\n<p><strong>Qual o tamanho da esperan\u00e7a para que o governo convide a Anzorc \u00e0 mesa?<\/strong><\/p>\n<p>Muito dif\u00edcil. Hoje as FARC soltaram um pronunciamento no qual d\u00e3o a entender que por eles n\u00e3o h\u00e1 problema. Mas o governo&#8230; Tem que haver acordo entre as duas partes.<\/p>\n<p><strong>Pode ser que cheguem a um acordo sobre as ZRC sem ter escutado a Anzorc?<\/strong><\/p>\n<p>Pode ser que sim, porque \u00e0s FARC interessa manter a mesa. Ao governo interessa romp\u00ea-la. Inclusive podem deixar isso como que em suspens\u00e3o, como dizem os gringos, \u201cstand by\u201d. Porque se eles se fecham, o governo diz \u201cpronto, n\u00e3o querem? Levantemos\u201d.<\/p>\n<p><strong>O que esperar do Encontro de Zonas de Reservas Campesina?<\/strong><\/p>\n<p>Pode ser um fato pol\u00edtico. Primeiro, o debate, encontramo-nos, recolher insumos, propostas, mostrar gente e mostrar for\u00e7a. Fazer alguns acordos com institui\u00e7\u00f5es, amigos. Isso pode ser importante. Mas, al\u00e9m disso, s\u00f3 nos resta brigar. Ou seja, mobilizar milhares de camponeses. Para impor um fato pol\u00edtico aqui tem que paralisar parte do pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>E n\u00e3o \u00e9 uma maneira de pressionar para ir \u00e0 Havana?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o somente ir, mas pressionar para que l\u00e1 haja um acordo imposto por n\u00f3s. Temos que medir as for\u00e7as e, por enquanto, \u00e9 muito dif\u00edcil.<\/p>\n<p><strong>O que voc\u00ea conhece do MST? Mant\u00e9m rela\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 uma refer\u00eancia importante. Um movimento que tem muitas coisas para ensinar, porque carrega um grande acumulado de luta. Eu estive no Brasil v\u00e1rias vezes reunido com o MST. Sabemos que h\u00e1 diferentes linhas pol\u00edticas, por isso, o fato de que se manterem unidos em torno da reforma agr\u00e1ria \u00e9 uma refer\u00eancia importante. O modelo de escola pr\u00f3pria, o modelo de forma\u00e7\u00e3o nos assentamentos, a agroecologia que conseguiram desenvolver, a coordena\u00e7\u00e3o a n\u00edvel internacional, o papel importante na vida do campon\u00eas. Toda essa parte simb\u00f3lica, as m\u00edsticas, o papel das mulheres. Aqui, por exemplo, ainda h\u00e1 muito machismo pol\u00edtico na esquerda a ser superado.<\/p>\n<p>N\u00f3s mantemos uma rela\u00e7\u00e3o importante com o MST. Agora a iniciativa da ANZORC vai ser ingressar na Via Campesina. H\u00e1 v\u00e1rios l\u00edderes do MST que conhecem o processo das ZRC e estiveram presentes no primeiro Encontro em Barrancabermeja [em 2011, que reuniu mais de 30.000 pessoas]. Tamb\u00e9m nos interessa fortalecer essa rela\u00e7\u00e3o e esse respaldo t\u00e3o importante.<\/p>\n<p><em>Fotos: Matheus Lobo Pismel e Rodrigo Sim\u00f5es Chagas<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4558\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[34],"tags":[],"class_list":["post-4558","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c39-colombia"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1bw","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4558","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4558"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4558\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4558"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4558"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4558"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}