{"id":4566,"date":"2013-04-01T19:35:42","date_gmt":"2013-04-01T19:35:42","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4566"},"modified":"2013-04-01T19:35:42","modified_gmt":"2013-04-01T19:35:42","slug":"iraque-dez-anos-depois-a-guerra-e-um-grande-negocio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4566","title":{"rendered":"Iraque dez anos depois: a guerra \u00e9 um grande neg\u00f3cio!"},"content":{"rendered":"\n<p><em style=\"line-height: 1.3em;\">Reginaldo Mattar Nasser<\/em><\/p>\n<p><em>&#8220;A guerra \u00e9 um crime&#8230; facilmente, o mais rent\u00e1vel, certamente, o mais cruel &#8230; \u00c9 o \u00fanico em que os lucros s\u00e3o contados em d\u00f3lares e as perdas em vidas &#8230;. Ela \u00e9 conduzida para o benef\u00edcio dos poucos, \u00e0 custa dos muitos&#8230;.. eu passei a maior parte do meu tempo como um \u201c defensor de alta classe\u201d para os Grandes Neg\u00f3cios, para Wall Street e para os banqueiros. Em suma, eu era um g\u00e2ngster, um gangster para o capitalismo. &#8220;( Major General Butler)<img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"mceWPmore\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/54.243.218.248\/portal\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/wordpress\/img\/trans.gif?w=747\" border=\"0\" title=\"Mais...\" \/><\/em><\/p>\n<div>\n<p>O ataque norte-americano ao Iraque completou dez anos nesta semana com a constata\u00e7\u00e3o por grande parte dos analistas de que a estrat\u00e9gia do governo Bush foi um fracasso: os Estados Unidos e seus aliados n\u00e3o conseguiram alcan\u00e7ar os objetivos anunciados e as consequ\u00eancias da opera\u00e7\u00e3o militar foram desastrosas, seja do ponto de vista moral, econ\u00f4mico ou militar. Mas o que o discurso sobre a derrota dos EUA n\u00e3o revela \u00e9 que essa guerra foi e continua sendo uma grande vit\u00f3ria para alguns.Sup\u00f5e-se que o objetivo numa guerra \u00e9 \u201cganhar\u201d \u2014 partindo do principio de que os atores (Estados Nacionais) em confronto buscam impor sua vontade por meio de a\u00e7\u00f5es que comportam o uso da for\u00e7a. Mas, \u00e9 preciso pensar o Estado de forma concreta. Isso \u00e9, os objetivos daqueles que decidem ir \u00e0 guerra s\u00e3o bastante diversos e h\u00e1 alguns atores mais interessados em manipular as informa\u00e7\u00f5es e prolongar os combates do que propriamente conseguir uma vit\u00f3ria militar.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 muito dif\u00edcil perceber o fracasso norte-americano nas tr\u00eas fases em que se desenrolaram suas a\u00e7\u00f5es militares no Iraque: tanto na justificativa para o ataque, quanto na a\u00e7\u00e3o militar propriamente dita, bem como no denominado momento de reconstru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds (nation-building). \u00c9 preciso dizer, todavia, que essa demarca\u00e7\u00e3o \u00e9 puramente artificial. A passagem da segunda para a terceira fase est\u00e1 exclusivamente baseada na declara\u00e7\u00e3o do ex-presidente George W. Bush quando anunciou o fim das opera\u00e7\u00f5es militares com a deposi\u00e7\u00e3o de Saddam Hussein, dando inicio ao processo de reconstru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, momento em que os combates aconteceram de fato.<\/p>\n<p>Uma das principais alega\u00e7\u00f5es para se iniciar o ataque foi a suposta exist\u00eancia de armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa por parte do governo iraquiano. Mas isso n\u00e3o era suficiente. Era preciso \u201cvender\u201d ainda a ideia de que Sadam Hussein apoiava o \u201cterror jihadista\u201d. A equa\u00e7\u00e3o estava pronta. N\u00e3o h\u00e1 nada mais assustador do que um grupo de suicidas com alto poder destrutivo. Diferentemente dos sovi\u00e9ticos, durante a Guerra Fria, esses novos inimigos, alardeava o mainstream norte-americano, n\u00e3o poderiam ser dissuadidos nem contidos e, portanto, deveriam ser simplesmente eliminados.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o tardou a ser demonstrado, tratava-se de uma grande mentira, uma das maiores falsifica\u00e7\u00f5es na historia da diplomacia fabricada pelo governo dos EUA e aliados e que contou com a colabora\u00e7\u00e3o da grande m\u00eddia, dos think tanks, de partidos pol\u00edticos e de v\u00e1rias ONGs.<\/p>\n<p>Estima-se que durante esses dez anos mais de um milh\u00e3o de soldados norte-americanos foram enviados para o Iraque: 4.483 foram mortos, 33 mil feridos e mais de 200 mil diagnosticados com transtorno de estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico. A taxa de suic\u00eddio \u00e9 26% entre os veteranos masculinos de 18 a 29 anos.<\/p>\n<p>O n\u00famero exato de civis iraquianos mortos ainda \u00e9 desconhecido, mas as estimativas situam entre 150 a 500 mil e tr\u00eas milh\u00f5es de pessoas deslocadas internamente. H\u00e1 que se somar ainda as centenas de milhares de pessoas que morreram de doen\u00e7as causadas por \u00e1gua contaminada, quando os EUA destru\u00edram o sistema de tratamento de \u00e1gua do pa\u00eds<\/p>\n<p>No que se refere aos custos econ\u00f4micos da guerra, as cifras s\u00e3o assustadoras. Segundo J. Stiglitz (Premio Nobel de economia) beira os 4 trilh\u00f5es de d\u00f3lares. A d\u00edvida dos EUA subiu de $ 6,4 trilh\u00f5es em mar\u00e7o de 2003 para US$ 10 trilh\u00f5es em 2008 (antes da crise financeira), sendo que pelo menos 25% do montante \u00e9 diretamente atribu\u00edvel \u00e0 guerra.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o hoje colocada por muitos intelectuais nos EUA \u00e9: podemos aprender com este erro? Economistas, como o pr\u00f3prio J. Stiglitz, avaliam que \u00e9 preciso descartar a ideia, bastante sedutora, de que a guerra \u00e9 boa para a economia. Mas como podemos simplesmente fechar os olhos para o fato de que al\u00e9m do aumento exponencial da lucratividade das empresas favorecidas pela alta do petr\u00f3leo, a invas\u00e3o do Iraque abriu um novo e poderoso mercado: o da reconstru\u00e7\u00e3o das na\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>O ataque norte-americano ao Iraque impactou consideravelmente o com\u00e9rcio mundial de petr\u00f3leo, pois al\u00e9m de interromper a produ\u00e7\u00e3o iraquiana, a instabilidade politica que causou no Oriente M\u00e9dio fez com o que o pre\u00e7o do produto disparasse. Em 2003, quando os EUA chegaram \u00e0 regi\u00e3o, o pre\u00e7o do barril estava ao redor de US$25. Cinco anos depois, em 2008, os pre\u00e7os chegaram a US$ 140. A percep\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a no mundo proporcionada pela chamada Guerra contra o Terror conduzida pelos EUA, ap\u00f3s 2001, propiciou ainda um aumento consider\u00e1vel na venda de armas para os pa\u00edses em todo o mundo. As 100 maiores empresas produtoras de armas do mundo venderam US$ 410 bilh\u00f5es em armas e servi\u00e7os militares em 2011. Um estudo do Sipri mostra que a despesa militar no mundo, em 2011, foi de 1,6 trilh\u00e3o de d\u00f3lares, um aumento de 40% em 10 anos.<\/p>\n<p>Na terceira e mais duradoura etapa da guerra, o governo norte-americano contratou centenas de empresas para uma gama enorme de atividades sob a rubrica \u201creconstru\u00e7\u00e3o\u201d: infraestrutura do pa\u00eds (sistemas de \u00e1gua, eletricidade, g\u00e1s e transporte), escolas e hospitais; servi\u00e7os de seguran\u00e7a aos \u201cnovos trabalhadores\u201d, treinamento das for\u00e7as iraquianas e suporte log\u00edstico \u00e0s opera\u00e7\u00f5es antiterrorismo; servi\u00e7os financeiros, e, naturalmente, a sua ind\u00fastria petrol\u00edfera. A maior parte dos recursos foi alocada na contrata\u00e7\u00e3o de empresas privadas de seguran\u00e7a. Em 2008, os dez principais fornecedores de servi\u00e7os militares receberam cerca de US$150 bilh\u00f5es em contratos.<\/p>\n<p>Para perpetuar este ciclo, altamente lucrativo, essas corpora\u00e7\u00f5es reciclam (ou reinvestem) parte dos bilh\u00f5es de d\u00f3lares adquiridos com a guerra em a\u00e7\u00f5es de lobby e contrata\u00e7\u00e3o de antigos oficiais renomados para a sua diretoria, que facilitam o processo de contrata\u00e7\u00e3o. A Lockheed Martin, empresa que mais possui contratos na \u00e1rea de seguran\u00e7a militar, em todo o mundo, doou mais de um milh\u00e3o de d\u00f3lares para deputados e senadores de diferentes partidos em 2009. Sua diretoria \u00e9 composta por antigos funcion\u00e1rios do governo: o ex-vice-secret\u00e1rio de Defesa, o ex-comandante do Comando Estrat\u00e9gico, ex-vice-secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a Nacional. Vale dizer que seu rendimento anual \u00e9 de US$ 40 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, dos quais, ao menos 35 bilh\u00f5es, s\u00e3o provenientes de contratos com o governo norte-americano. Mas a Lockheed Martin n\u00e3o \u00e9 exce\u00e7\u00e3o: a estrutura se repete \u00e0 medida que analisamos outras empresas como Northrop Grumman, Boeing, CACI, Parsons Corp A Pasadena.<\/p>\n<p>Onde est\u00e3o as vozes no Congresso, democratas ou republicanas, que falam seriamente em por um fim a essa ind\u00fastria da guerra? O presidente Obama e os democratas n\u00e3o alteraram em nada a pol\u00edtica da \u201cguerra sem fim\u201d contra o terror iniciada por Bush. O Congresso abdicou intencionalmente de suas responsabilidades pol\u00edticas ao delegar, ao poder executivo, a responsabilidade de conduzir a guerra querendo com isso ludibriar a sociedade de que eles n\u00e3o podem fazer nada.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso admitir que o poder real para iniciar ou terminar guerras est\u00e1 nas m\u00e3os de uma elite, como bem observou o soci\u00f3logo norte-americano Wright Mills h\u00e1 mais de 50 anos. Avaliando o Estado norte-americano, ap\u00f3s a 2\u00aa Guerra Mundial, Mills entendia que se \u00e9 verdade que as decis\u00f5es da administra\u00e7\u00e3o militar passaram a afetar diretamente as dimens\u00f5es pol\u00edtica e econ\u00f4mica, tamb\u00e9m \u00e9 verdade que as decis\u00f5es tomadas na \u00e1rea pol\u00edtica determinam as atividades econ\u00f4micas e os programas militares. Na medida em que essa tr\u00eas \u00e1reas (economia, politica e militar) se articulam entre si, em termos de poder de decis\u00e3o, com consequ\u00eancia para toda a sociedade, os lideres das tr\u00eas \u00e1reas do poder \u2013 senhores da guerra, dirigentes de empresa e dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u2013 tendem a se unir para formar a elite no poder nos EUA.<\/p>\n<p>Ou seja, a suposta irracionalidade das a\u00e7\u00f5es contraproducentes no terreno militar, durante esses 10 anos no Iraque, \u00e9 mais aparente do que real e n\u00e3o se trata, como querem ver alguns cr\u00edticos da a\u00e7\u00e3o dos EUA, de uma guerra intermin\u00e1vel no sentido de carecer de objetivos claramente definidos ou mal executados. A elite no poder sabe muito bem o que se espera desse estado de guerra permanente: a expans\u00e3o dos neg\u00f3cios, dom\u00ednio de territ\u00f3rios e influencia pol\u00edtica.<\/p>\n<p><em>*Reginaldo Mattar Nasser \u00e9 professor de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da PUC-SP e do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e PUC-SP)<\/em><\/p>\n<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Carta Maior &#8211; 30\/03\/2013 \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4566\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-4566","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1bE","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4566","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4566"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4566\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4566"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4566"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4566"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}