{"id":4578,"date":"2013-04-03T23:41:14","date_gmt":"2013-04-03T23:41:14","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4578"},"modified":"2013-04-03T23:41:14","modified_gmt":"2013-04-03T23:41:14","slug":"com-dificuldades-e-contradicoes-um-povo-revolucionario-sobrevive-em-cuba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4578","title":{"rendered":"Com dificuldades e contradi\u00e7\u00f5es, um povo revolucion\u00e1rio sobrevive em Cuba"},"content":{"rendered":"\n<p>Escrito por Alexandre Haubrich, de Cuba, especial para o <a href=\"http:\/\/www.correiocidadania.com.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=8199:manchete200313&amp;catid=34:manchete\" target=\"_blank\" title=\"Click to Continue &gt; by Vid-Saver\">Correio<\/a><span style=\"line-height: 1.3em;\"> da Cidadania<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Nas estreitas ruas de Vedado, um dos bairros centrais de Havana, \u00e9 dif\u00edcil cruzar uma quadra sem ter de desviar de algum cubano que, sentado na soleira da porta de casa, com as pernas dobradas em dire\u00e7\u00e3o ao peito, l\u00ea um jornal, fuma um charuto ou simplesmente observa o movimento de alguns carros antigos ou de senhoras que andam poucos metros para comprar frutas em uma pequena banca privada. Geralmente s\u00e3o aposentados. \u00c0 tarde os mais jovens est\u00e3o todos<a href=\"http:\/\/www.correiocidadania.com.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=8199:manchete200313&amp;catid=34:manchete\" target=\"_blank\" title=\"Click to Continue &gt; by Vid-Saver\">trabalhando<\/a>, e os ainda mais jovens est\u00e3o todos na escola.<\/p>\n<p>Na pequena praia de Siboney, h\u00e1 12 km de Santiago de Cuba, na outra ponta da ilha, \u00e9 muito dif\u00edcil encontrar uma mulher na rua. Os homens, sim, est\u00e3o todos zanzando entre as casas, conversando. Alguns trabalham reconstruindo o patrim\u00f4nio que o furac\u00e3o mais recente destruiu. As mulheres est\u00e3o em casa, cuidando dos afazeres dom\u00e9sticos. No fim da tarde chegam alguns caminh\u00f5es carregados de trabalhadores, outros de crian\u00e7as que h\u00e1 pouco se despediram dos professores em alguma cidade pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>Em um\u00a0<a href=\"http:\/\/www.correiocidadania.com.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=8199:manchete200313&amp;catid=34:manchete\" target=\"_blank\" title=\"Click to Continue &gt; by Vid-Saver\">hotel<\/a> de grande porte em uma regi\u00e3o tur\u00edstica de Havana, diversos atendentes com cara de poucos amigos est\u00e3o na recep\u00e7\u00e3o ou em guich\u00eas menores, onde se alugam carros ou se trocam euros ou d\u00f3lares \u2013 mais o primeiro do que o segundo \u2013 por CUCs, a moeda cubana exclusiva para turismo e que criou um abismo de desigualdade entre os que trabalham nesse setor e todos os outros. N\u00e3o \u00e9 improv\u00e1vel que um funcion\u00e1rio hoteleiro esteja oferecendo a um turista gringo com quem conversa uma caixa de charutos por um pre\u00e7o dez vezes mais barato do que nas lojas oficiais. A probabilidade de o charuto n\u00e3o ser da marca que diz ser \u00e9 grande, mas tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel que seja verdadeiro e tenha sido \u201cretirado\u201d da f\u00e1brica por algum funcion\u00e1rio padr\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c0 frente do hotel, atr\u00e1s do hotel e aos lados do hotel, outdoors lembram os feitos dos revolucion\u00e1rios e trazem como lemas frases de Mart\u00ed, Fidel, Che, Ra\u00fal e Camilo. Outdoors como estes tamb\u00e9m est\u00e3o nas estradas que levam a Siboney e em todas as pequenas cidades que se deve deixar para tr\u00e1s para ir de Havana, no extremo ocidente cubano, at\u00e9 Santiago de Cuba, a maior cidade ao Leste.<\/p>\n<p>As quatro pequenas hist\u00f3rias s\u00e3o representativas de uma grande parte do cotidiano do povo cubano. Mas Cuba s\u00e3o muitas. Dizia Marx que apenas no comunismo as individualidades poderiam ser plenamente usufru\u00eddas. Na tentativa socialista de igualdade tamb\u00e9m se destacam as diferen\u00e7as, seja entre as pessoas, seja entre cidades de grande e de pequeno porte, seja entre as regi\u00f5es Ocidental e Oriental. Mesmo assim, em medidas vari\u00e1veis, algumas quest\u00f5es est\u00e3o sempre presentes para todos os cubanos. Para o bem e para o mal.<\/p>\n<p><strong>Escola e seguran\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>Durante o dia as ruas cubanas est\u00e3o vazias de crian\u00e7as. Nada. Nenhuma. Est\u00e3o todas na escola, e s\u00f3 podem ser vistas ao meio dia, quando algumas saem para almo\u00e7ar, ou no fim da tarde, quando voltam para casa \u2013 com exce\u00e7\u00e3o das menores, quase sempre sozinhas ou com amigos. A viol\u00eancia n\u00e3o \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o de ningu\u00e9m. \u201cEm Cuba est\u00e1s sempre seguro\u201d, parece um mantra combinado entre todos os que respondem sobre qualquer perigo em sair \u00e0 noite por ruas nem sempre bem iluminadas.<\/p>\n<p>Os Comit\u00eas de Defesa da Revolu\u00e7\u00e3o (CDR`s) est\u00e3o em todos os quarteir\u00f5es, e deles participa grande parte dos vizinhos. Ali desenvolvem a\u00e7\u00f5es culturais, cuidam para que todos os adultos estejam trabalhando e para que todas as crian\u00e7as estejam nas escolas, e cuidam para que nada aconte\u00e7a na regi\u00e3o sem que toda a comunidade saiba e se empenhe em resolver um poss\u00edvel problema. N\u00e3o s\u00e3o espa\u00e7os armados, \u00e9 a pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o de comunidade estabelecida entre os vizinhos que impede qualquer movimento estranho ao bairro e aos interesses da popula\u00e7\u00e3o. Quase n\u00e3o se v\u00ea guardas nas ruas, e \u00e9 ainda mais dif\u00edcil encontr\u00e1-los armados. \u00c9 a popula\u00e7\u00e3o quem, armada principalmente de coes\u00e3o e solidariedade, garante a seguran\u00e7a geral.<\/p>\n<p>Enquanto as crian\u00e7as est\u00e3o na escola, os pais e m\u00e3es est\u00e3o trabalhando. Cada vez menos em servi\u00e7os estatais. Para combater a crise econ\u00f4mica iniciada com o fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, o governo come\u00e7ou a abrir possibilidades de trabalho na iniciativa privada. Para tentar aumentar os sal\u00e1rios, recentemente 400 mil pessoas foram demitidas, e estimuladas a se lan\u00e7arem em neg\u00f3cios pr\u00f3prios. Saem com aporte financeiro e a possibilidade de voltar ao setor estatal caso n\u00e3o se acertem em suas novas empresas, mas saem. E muitos mais ainda devem sair. A crise econ\u00f4mica \u00e9 s\u00e9ria. Mant\u00e9m os sal\u00e1rios baixos e faz os pre\u00e7os subirem.<\/p>\n<p><strong>Solu\u00e7\u00f5es se transformaram em problemas<\/strong><\/p>\n<p>O forte est\u00edmulo ao turismo a partir dos anos 1990 e a cria\u00e7\u00e3o de uma segunda moeda, puramente tur\u00edstica \u2013 o CUC \u2013, foram solu\u00e7\u00f5es imediatas para inserir divisas na economia cubana, mas agora se tornaram problemas que acentuam a desigualdade e levam a parte do povo a ilus\u00e3o da riqueza f\u00e1cil e da ideologia capitalista. Quem trabalha com turismo ganha muito mais por conta da moeda supervalorizada em rela\u00e7\u00e3o ao Peso Cubano e, no contato com os turistas, muitas vezes passa a acreditar que sair do pa\u00eds traria grandes vantagens financeiras.<\/p>\n<p>S\u00e3o exce\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel encontrar cubanos que dizem abertamente querer sair do pa\u00eds. Mas nenhum deles quer ir embora por quest\u00f5es pol\u00edticas. Todos os que pretendem deixar Cuba reclamam dos baixos sal\u00e1rios e dos altos pre\u00e7os e acreditam que em outros pa\u00edses sua situa\u00e7\u00e3o seria diferente \u2013 \u00e9 o que veem, por exemplo, nas novelas brasileiras que infestam a televis\u00e3o cubana todas as manh\u00e3s, bem cedo, e gruda os cubanos nos dramas burgueses de<em>Por Amor<\/em> e\u00a0<em>Insensato Cora\u00e7\u00e3o<\/em>. Nem todos t\u00eam a informa\u00e7\u00e3o de que ter\u00e3o que pagar por privil\u00e9gios que em Cuba s\u00e3o direitos, a come\u00e7ar por Sa\u00fade e Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Direitos b\u00e1sicos garantidos<\/strong><\/p>\n<p>Todo cubano nasce com direito garantido \u00e0 Sa\u00fade e \u00e0 Educa\u00e7\u00e3o. De uma simples gripe a um violento c\u00e2ncer, tudo ser\u00e1 tratado de gra\u00e7a. H\u00e1 pequenos postos m\u00e9dicos por todos os lados, inclusive nos museus e hot\u00e9is. E nada \u00e9 pago. O filho de Maria, uma senhora de cerca de 60 anos que aluga quartos para turistas em Havana, teve aos 17 anos uma doen\u00e7a que subitamente o deixou sem os movimentos nas pernas e com outras limita\u00e7\u00f5es motoras. Desde l\u00e1, 18 anos atr\u00e1s, tr\u00eas vezes por semana uma ambul\u00e2ncia o busca para lev\u00e1-lo ao hospital, onde segue seu tratamento. Nunca pagou um centavo por nada disso.<\/p>\n<p>O mesmo acontece com a Educa\u00e7\u00e3o. Faltam canetas em toda Cuba, mas n\u00e3o falta escola para ningu\u00e9m. E \u00e9 muito dif\u00edcil encontrar um cubano com mais de 30 anos que n\u00e3o tenha pelo menos uma forma\u00e7\u00e3o de Ensino Superior. Taxistas-engenheiros e agricultores-agr\u00f4nomos s\u00e3o o que mais se encontra. \u00c9 poss\u00edvel inclusive encontrar agricultores-fil\u00f3sofos. At\u00e9 antes do fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, quando o pa\u00eds tinha melhores condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, todo cubano cursava alguma faculdade. Hoje nem todos o fazem, muitos passam da escola para cursos t\u00e9cnicos, buscando trabalhos que os podem pagar melhor \u2013 em Cuba s\u00e3o os trabalhos privados que d\u00e3o mais dinheiro, por conta da dificuldade do Estado em manter um bom n\u00edvel salarial.<\/p>\n<p>A maior parte dos cubanos que trabalham no setor estatal ganha entre 350 e 500 pesos. Um diretor de escola ou um m\u00e9dico com muita estrada podem chegar a ganhar 600. O problema \u00e9 que a dupla moeda, com o CUC valendo 24 pesos, e a predomin\u00e2ncia do turismo fazem com que os pre\u00e7os subam muito. Um pacote de bolacha recheada custa cerca de 2 CUC \u2013 o que quer dizer 48 Pesos, mais de um d\u00e9cimo do sal\u00e1rio da maioria. Uma televis\u00e3o nova custa 250 Pesos, mas todos as t\u00eam, muitas compradas usadas, outras presenteadas por parentes que trabalham fora do pa\u00eds.<\/p>\n<p>A alimenta\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, em contrapartida, est\u00e1 garantida gra\u00e7as \u00e0 institui\u00e7\u00e3o da\u00a0<em>libreta<\/em>, um caderninho que controla o consumo de uma cesta b\u00e1sica altamente subsidiada pelo Estado. Alimenta\u00e7\u00e3o e higiene b\u00e1sicas recebem esses subs\u00eddios at\u00e9 determinado limite de consumo pessoal. Por exemplo, todo cubano tem direito a um p\u00e3o franc\u00eas por dia na\u00a0<em>libreta<\/em>, a cinco centavos de Peso. Pode comprar mais,\u00a0<em>fora da libreta<\/em>, mas a\u00ed vai custar um Peso cada. Algo semelhante acontece com o leite: 20 centavos de Peso na\u00a0<em>libreta<\/em>, 5 Pesos fora dela.<\/p>\n<p>Os sal\u00e1rios s\u00e3o baixos, \u00e9 verdade, mas al\u00e9m de Sa\u00fade e Educa\u00e7\u00e3o totalmente gratuitas e da cesta b\u00e1sica subsidiada, tamb\u00e9m o setor cultural \u00e9 absolutamente acess\u00edvel. Nos fins de semana se formam filas em frente aos cinemas e teatros, que cobram apenas dois Pesos Cubanos por sess\u00e3o. A sorveteria Cop\u00e9lia, a maior e mais famosa do pa\u00eds, tamb\u00e9m recebe filas enormes, que fazem curvas em torno do parque que a cerca. A bola de sorvete custa 1 Peso Cubano, mesmo pre\u00e7o de alguns dos livros expostos na Feira do Livro de Havana \u2013 embora a maioria custe um pouco mais, cerca de 20 Pesos \u2013, que acontece em um antiqu\u00edssimo castelo em um canto da cidade. \u00d4nibus quase enfileirados saem do centro da capital todos os dias durante a Feira para levar a multid\u00e3o ao reino dos livros.<\/p>\n<p><strong>Quando a Revolu\u00e7\u00e3o acompanha a sociedade<\/strong><\/p>\n<p>O tr\u00e2nsito de ve\u00edculos est\u00e1 longe de ser um problema em Cuba, mas nenhum dos carros antigos que circulam por qualquer cidade cubana precisa parar para que seu motorista ou seus passageiros observem os grandes outdoors revolucion\u00e1rios que est\u00e3o por todos os lados. Os pain\u00e9is trazem imagens de her\u00f3is como Che Guevara, Camilo Cienfuegos, Frank Pa\u00eds e Jos\u00e9 Mart\u00ed, sempre acompanhadas de frases fortes, marcantes. Os lemas revolucion\u00e1rios, nas vozes deles, de Fidel ou de Ra\u00fal s\u00e3o est\u00edmulos a seguir a luta ou lembran\u00e7as sobre como aprimorar a\u00e7\u00f5es pessoais. \u201cSejamos como o Che\u201d, dizem algumas, reproduzindo frase de Fidel.<\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o est\u00e1 em todos os lugares de Cuba, seja com os pain\u00e9is seja com o povo organizado. Uma grande parte da popula\u00e7\u00e3o participa de alguma das organiza\u00e7\u00f5es de massa \u2013 Central dos Trabalhadores Cubanos (CTC), Uni\u00e3o dos Jovens Comunistas (UJC), Federa\u00e7\u00e3o das Mulheres Cubanas (FMC), Federa\u00e7\u00e3o dos Estudantes Universit\u00e1rios (FEU), Associa\u00e7\u00e3o Nacional dos Pequenos Agricultores Cubanos (ANAP, na sigla em espanhol), FAR (For\u00e7as Armadas Revolucion\u00e1rias). Al\u00e9m dos espa\u00e7os dessas institui\u00e7\u00f5es, presentes tamb\u00e9m de forma local e setorial, os cubanos est\u00e3o organizados nos j\u00e1 citados Comit\u00eas de Defesa da Revolu\u00e7\u00e3o, e tamb\u00e9m l\u00e1 participam efetivamente, em reuni\u00f5es deliberativas que chegam a reunir 40 pessoas do mesmo quarteir\u00e3o em uma noite de domingo. Os CDR`s s\u00e3o como associa\u00e7\u00f5es de bairro com fun\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-cultural-sociais que v\u00e3o muito al\u00e9m do comum nessas associa\u00e7\u00f5es no Brasil.<\/p>\n<p><strong>Quando a sociedade acompanha a Revolu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O povo cubano \u00e9 um povo educado, politizado e solid\u00e1rio \u2013 ainda que muitas vezes bastante fechado. Acostumou-se \u00e0s dificuldades, acostumou-se a participar de toda a vida do pa\u00eds, acostumou-se a pensar e acostumou-se a pensar para al\u00e9m do pr\u00f3prio umbigo. Nenhum cubano \u00e9 uma ilha. Todos souberam e se solidarizaram profundamente com o inc\u00eandio na boate em Santa Maria. Dif\u00edcil encontrar algu\u00e9m que, identificando um brasileiro, n\u00e3o engolisse em seco para dar os p\u00easames e manifestar solidariedade. N\u00e3o h\u00e1 banaliza\u00e7\u00e3o da morte. Tremem de indigna\u00e7\u00e3o contra injusti\u00e7as cometidas em qualquer lugar do mundo, com a exata atitude que, para o Che, definia um revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Internacionalistas, a morte de um presidente aliado \u00e9 a morte de seu pr\u00f3prio l\u00edder. Muitos cubanos t\u00eam parentes ou amigos trabalhando na Venezuela, nas miss\u00f5es sociais criadas por Hugo Ch\u00e1vez. Mesmo os que n\u00e3o os t\u00eam lamentavam profundamente a doen\u00e7a do presidente venezuelano, baixavam a voz e os olhos para falar sobre ela. Os cubanos sentiram toda a doen\u00e7a de Hugo Ch\u00e1vez como a doen\u00e7a de um amigo.<\/p>\n<p><strong>Quando a sociedade n\u00e3o acompanha a Revolu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Mesmo os mais de 50 anos de Revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o conseguiram ainda criar o \u201chomem novo\u201d sonhado por Che. Expurgados das institui\u00e7\u00f5es cubanas, o machismo, o racismo e a homofobia \u2013 este aparentemente com menos intensidade do que os outros \u2013 ainda persistem com for\u00e7a entre as camadas m\u00e9dias da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em um est\u00e1dio de beisebol, um ambiente predominantemente masculino, no jogo entre Industrialies \u2013 o time de Havana \u2013 e Cienfuegos \u2013 da cidade de mesmo nome \u2013, alguns casais de homens circulavam tranquilamente nas arquibancadas. Um desses casais, dois homens mirrados, discutiu fortemente durante a partida com um outro homem, talvez o mais musculoso do est\u00e1dio. Mas a discuss\u00e3o nada tinha a ver com a orienta\u00e7\u00e3o sexual de ningu\u00e9m. Era sobre o jogo, e o calor da discuss\u00e3o aos gritos entre desconhecidos em momento algum levou a qualquer amea\u00e7a de agress\u00e3o \u2013 mesmo considerando a enorme disparidade entre os \u201coponentes\u201d. Outras discuss\u00f5es assim aconteceram naquela noite e, mesmo sem separa\u00e7\u00e3o entre as torcidas, nenhum caso de viol\u00eancia aconteceu.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, uma senhora que hospeda turistas fica incomodada com uma su\u00ed\u00e7a que, noite atr\u00e1s de noite, leva um cubano para repartir a cama. O inc\u00f4modo n\u00e3o \u00e9 por ser homem, mas por ser negro. \u201cGeralmente esses que n\u00e3o querem trabalhar, que procuram mulheres europeias para tentar ir embora atr\u00e1s de mais dinheiro, s\u00e3o negros. N\u00e3o sou racista, mas geralmente s\u00e3o os negros que n\u00e3o querem trabalhar\u201d, diz ela.<\/p>\n<p>Os homens da praia de Siboney, aqueles que est\u00e3o zanzando pelas ruas enquanto suas esposas cuidam da casa, n\u00e3o s\u00f3 conversam entre eles. A cada mulher que passa os gracejos acontecem, de estalar de l\u00e1bios simulando beijos at\u00e9 as velhas cantadas grosseiras. Siboney extrapola o n\u00edvel comum, mas esse tipo de situa\u00e7\u00e3o \u00e9 normal em toda a ilha.<\/p>\n<p><strong>Quando a Revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o acompanha a sociedade<\/strong><\/p>\n<p>As dificuldades econ\u00f4micas s\u00e3o uma realidade, e \u00e9 dif\u00edcil distinguir o que \u00e9 resultado do bloqueio estadunidense, do passado colonial e da inser\u00e7\u00e3o em uma regi\u00e3o historicamente explorada e, como tal, pobre. Fato \u00e9 que essas dificuldades existem, e o turismo, al\u00e9m de criar desigualdades antes inexistentes, mostra aos cubanos que nos pa\u00edses capitalistas algumas pessoas t\u00eam muito. S\u00f3 esquece de mostrar que muitas outras pessoas n\u00e3o t\u00eam nada ou quase nada, j\u00e1 que geralmente n\u00e3o s\u00e3o os pobres os que fazem turismo pelas praias do Caribe. Essa situa\u00e7\u00e3o cria em alguns cubanos um descontentamento que, em certos, casos, faz com que pensem em sair do pa\u00eds. Em outros casos, mais comuns, o que se procura \u00e9 melhorar um pouco a condi\u00e7\u00e3o financeira, poder dar-se alguns luxos a mais, sem precisar sair do pa\u00eds. \u00c9 a\u00ed que entra o \u201cjeitinho cubano\u201d.<\/p>\n<p>Da mesma forma pela qual o turismo virou incremento de renda ao Estado, virou incremento de renda \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. Do charuto retirado da f\u00e1brica \u2013 ou falsificado \u2013 at\u00e9 as corridas de t\u00e1xi supervalorizadas, as formas de conseguir alguns CUCs a mais \u2013 o que faz grande diferen\u00e7a no or\u00e7amento, dada a supervaloriza\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao Peso Cubano \u2013 s\u00e3o as mais variadas.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe tax\u00edmetro em Cuba. As corridas s\u00e3o negociadas, e o pre\u00e7o \u00e9 sempre jogado l\u00e1 em cima para acabar cobrado \u2013 se bem negociado \u2013 l\u00e1 embaixo. Mas isso \u00e9 um problema de turista, os cubanos quase n\u00e3o andam de t\u00e1xi, a n\u00e3o ser t\u00e1xis coletivos \u2013 carros maiores que v\u00e3o pegando as pessoas e seguindo o trajeto que melhor se adapte \u00e0s necessidades de todos. Moedas de Peso Cubano com o rosto de Che Guevara tamb\u00e9m s\u00e3o vendidas a turistas. Valem tr\u00eas Pesos, ou seja, 12 centavos de CUC \u2013 equivalente ao d\u00f3lar \u2013, mas s\u00e3o vendidas por pelo menos 5 CUCs. Carros alugados parados por policiais rodovi\u00e1rios que subentendem a possibilidade de suborno tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o improv\u00e1veis. Mas tamb\u00e9m existem vers\u00f5es legalizadas desse \u201cjeitinho\u201d, como o servi\u00e7o de guia tur\u00edstico oferecido a todo instante nas proximidades dos principais museus e pra\u00e7as.<\/p>\n<p>Ao redor de alguns pontos tur\u00edsticos ou dos hot\u00e9is mais caros alguns cubanos pedem aos turistas artigos raros na ilha. A chegada desses artigos a Cuba \u00e9 dificultada pelo bloqueio, que encarece qualquer importa\u00e7\u00e3o. Sabonetes e canetas est\u00e3o entre os mais pedidos. Comida, jamais.<\/p>\n<p><strong>Volta ao capitalismo?<\/strong><\/p>\n<p>Com participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e dificuldades econ\u00f4micas, os cubanos vivem. Sem luxos, com alguma desigualdade recente, mas com os direitos b\u00e1sicos garantidos, eles vivem. Com o bloqueio estadunidense e com parcerias com Venezuela, R\u00fassia e China, a Revolu\u00e7\u00e3o sobrevive e muda. As possibilidades de volta ao capitalismo abertas pela cria\u00e7\u00e3o de mais e mais empresas privadas s\u00e3o refutadas pela popula\u00e7\u00e3o. \u00c9 dif\u00edcil encontrar algu\u00e9m que queira desistir do socialismo. A cr\u00edtica \u00e9 sempre \u00e0 economia, mas a manuten\u00e7\u00e3o do sistema pol\u00edtico parece ser vontade de todos. Um taxista que admite querer o capitalismo de volta usa o modelo chin\u00eas como exemplo do que queria para seu pa\u00eds. A discuss\u00e3o sobre as mudan\u00e7as do modelo, chamadas em Cuba de\u00a0<em>atualiza\u00e7\u00f5es<\/em>, envolve o medo de retorno ao capitalismo, mas o discurso oficial \u2013 com o qual a popula\u00e7\u00e3o concorda \u2013 \u00e9 de que n\u00e3o se abrir\u00e1 m\u00e3o de nenhuma das conquistas da Revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A dificuldade na renova\u00e7\u00e3o de quadros, por outro lado, \u00e9 uma realidade. Os cubanos mais velhos, que nasceram antes ou junto com a Revolu\u00e7\u00e3o, mostram preocupa\u00e7\u00e3o sempre que perguntados sobre a juventude do pa\u00eds. A constante presen\u00e7a de estrangeiros cria nos jovens expectativas e interesses que antes n\u00e3o existiam, quase sempre relacionados ao consumo. Ao mesmo tempo, a Uni\u00e3o de Jovens Comunistas \u00e9 uma das organiza\u00e7\u00f5es mais fortes do pa\u00eds, e o novo nome forte do governo cubano, vice-presidente rec\u00e9m empossado, \u00e9 Miguel D\u00edaz-Canel, 52 anos, cuja trajet\u00f3ria pol\u00edtica est\u00e1 totalmente ligada \u00e0 UJC.<\/p>\n<p>Em entrevista recente o l\u00edder revolucion\u00e1rio Fidel Castro, ao responder pergunta sobre as atualiza\u00e7\u00f5es do modelo, disse que \u201ca maior mudan\u00e7a foi a Revolu\u00e7\u00e3o\u201d. Se teremos outra mudan\u00e7a desse tamanho \u2013 no caminho inverso \u2013, \u00e9 imposs\u00edvel prever, mas a sociedade cubana, com todas suas contradi\u00e7\u00f5es, est\u00e1 convicta de que preservar suas conquistas \u00e9 essencial. E organizada para isso.<\/p>\n<p><strong>Alexandre Haubrich \u00e9 jornalista.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4578\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[77],"tags":[],"class_list":["post-4578","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c90-solidariedade-a-cuba"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1bQ","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4578","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4578"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4578\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4578"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4578"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4578"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}