{"id":4596,"date":"2013-04-08T16:52:32","date_gmt":"2013-04-08T16:52:32","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4596"},"modified":"2013-04-08T16:52:32","modified_gmt":"2013-04-08T16:52:32","slug":"o-legado-de-chavez-na-revolucao-bolivariana-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4596","title":{"rendered":"O LEGADO DE CHAVEZ NA REVOLU\u00c7AO BOLIVARIANA (1)"},"content":{"rendered":"\n<p>Por Miguel Urbano Rodrigues<\/p>\n<p>O sarc\u00f3fago ergue-se a meio de um p\u00e1tio, no Quartel de La Monta\u00f1a.<\/p>\n<p>\u00c9 de um granito cinza escuro. Em volta, noite e dia, quatro soldados com o uniforme vermelho e os gorros negros do Ex\u00e9rcito Libertador de Bolivar permanecem imoveis numa guarda de honra que \u00e9 rendida de duas em duas horas.<\/p>\n<p>Na galeria que rodeia parcialmente o t\u00famulo abre-se uma pequena e estranha capela. Nela n\u00e3o h\u00e1 imagens da Virgem Maria, nem de santos. Sobre o altar destaca-se Jesus numa grande cruz, emoldurada de ambos os lados por fotos de Hugo Ch\u00e1vez.<\/p>\n<p>Naquele dia eramos 200 os visitantes, divididos em quatro grupos. V\u00ednhamos do X Encontro de Intelectuais, Artistas e Lutadores Sociais em Defesa da Humanidade.<\/p>\n<p>Ao longo do \u00faltimo meio seculo conheci muitos mausol\u00e9us: o de Lenine em Moscovo, o do b\u00falgaro Dimitrov em Sofia, o do turco Tamerl\u00e3o em Samarcanda, o do califa \u00e1rabe Ali em Masar-i-Sharif, no Afeganist\u00e3o. E outros.<\/p>\n<p>O de Hugo Ch\u00e1vez &#8211; intitulado \u00abmonumento Flor dos quatro elementos\u00bb &#8211; n\u00e3o traz \u00e0 mem\u00f3ria qualquer deles. Ao fundo, num nicho da parede, uma escultura de Bolivar em bronze.<\/p>\n<p>A atmosfera ali \u00e9 a de um santu\u00e1rio. Invis\u00edvel na urna encerrada no t\u00famulo de m\u00e1rmore,\u00a0el comandante supremo\u00a0\u00e9 venerado como um santo.<\/p>\n<p>Nunca vi algo similar. N\u00e3o eram apenas os venezuelanos que choravam ao entrar na capela. Pelas faces de muitos, incluindo de estrangeiros ateus, tamb\u00e9m escorriam l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>Foi naquele Quartel que Ch\u00e1vez, quando o comandava como tenente-coronel, desembainhou a espada em 1992, desafiando o governo corrupto e vassalo de Carlos Andr\u00e9s P\u00e9rez, inspirado pelo famoso juramento de Bolivar no Monte Aventino, em Roma.<\/p>\n<p>A Par\u00f3quia mudou de nome. Atualmente chama-se 23 de Janeiro, data da rebeli\u00e3o, e \u00e9 um bairro revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Na galeria que rodeia o p\u00e1tio onde foi erguido o t\u00famulo est\u00e1 instalado um museu. Nele se pode seguir a vida de Ch\u00e1vez desde a inf\u00e2ncia atrav\u00e9s de fotos, documentos, objetos, decretos, trechos de discursos que marcaram o rumo da Historia.<\/p>\n<p>Nas paredes, em algumas dezenas de metros, aparece condensada, nas etapas de uma vida tempestuosa, a trajet\u00f3ria do soldado que rompeu as cadeias de uma sociedade semi colonial e fez da Venezuela em 14 anos a vanguarda das avan\u00e7adas revolucion\u00e1rias da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>O sol descia j\u00e1\u00a0no horizonte quando o nosso grupo atravessou a floresta das 34 bandeiras dos pa\u00edses de Nuestra Am\u00e9rica \u2013 o sonho de Simon Bolivar retomado por Ch\u00e1vez.<\/p>\n<p>Na sauda\u00e7\u00e3o do comandante do Quartel aos participantes da Rede em Defesa da Humanidade e no discurso da jovem m\u00e9dica miliciana que os acompanhou transparecia uma inquebrant\u00e1vel confian\u00e7a no futuro da Revolu\u00e7\u00e3o. Ambos falaram com paix\u00e3o.<\/p>\n<p>Senti que para se compreender as transforma\u00e7\u00f5es em curso na Venezuela \u00e9\u00a0preciso n\u00e3o\u00a0somente estar familiarizado com a cultura caribenha como assimilar uma contradi\u00e7\u00e3o que choca muitos europeus: a coexist\u00eancia harmoniosa de duas conce\u00e7\u00f5es do mundo na apar\u00eancia antag\u00f3nicas: uma materialista outra idealista.<\/p>\n<p>Algo parecido ao que aconteceu em Cuba com o marxismo-martiano ocorre hoje na Venezuela num contexto hist\u00f3rico e social muito diferente.<\/p>\n<p>No pensamento e na ac\u00e7\u00e3o de Ch\u00e1vez fundem-se em turbilh\u00e3o uma religiosidade profunda, quase dolorosa, com a consci\u00eancia lucida de que a rutura dos mecanismos da explora\u00e7\u00e3o do homem seria imposs\u00edvel sem o choque frontal com o imperialismo. A op\u00e7\u00e3o bolivariana, transcorrido mais de um s\u00e9culo e meio da morte do seu her\u00f3i tutelar, exigia a destrui\u00e7\u00e3o do capitalismo. E ele percebeu que na luta cicl\u00f3pica a travar para atingir esse objetivo a \u00fanica alternativa ao sistema de opress\u00e3o hegemonizado pelos EUA \u00e9 o socialismo.<\/p>\n<p>A noite descera j\u00e1 sobre o casario pobre do Bairro 23 de Janeiro quando inici\u00e1mos a descida para o centro da cidade. Uma lua muito branca, agressiva, iluminava o cerro escuro que fechava o horizonte.<\/p>\n<p>Havia muita gente nas ruas. Nas paredes sucediam-se murais com slogans revolucion\u00e1rios e palavras de amor ao presidente falecido.<\/p>\n<p>Contei v\u00e1rias capelas improvisadas pelos moradores. Em todas elas o retrato de Ch\u00e1vez e a palavra Santo!<\/p>\n<p>Para milh\u00f5es de venezuelanos, o homem que restituiu a esperan\u00e7a e a dignidade ao seu povo tornou poss\u00edvel o que parecia imposs\u00edvel. Identificam nele um santo milagreiro.<\/p>\n<p>O GRANDE DESAFIO<\/p>\n<p>A dimens\u00e3o de Hugo Ch\u00e1vez como revolucion\u00e1rio, herdeiro do projeto bolivariano, exige dos comunistas que o respeitam e o admiram uma reflex\u00e3o serena sobre o homem e a sua obra.<\/p>\n<p>Na atmosfera efervescente de Caracas debater o tema do chamado \u00absocialismo bolivariano\u00bb nestas semanas foi para os intelectuais, artistas e militantes revolucion\u00e1rios estrangeiros que ali foram transmitir solidariedade uma tarefa gratificante mas complexa.<\/p>\n<p>Hugo Ch\u00e1vez tomou consci\u00eancia a partir do seu segundo mandato que sem um partido revolucion\u00e1rio revolu\u00e7\u00e3o alguma &#8211; como afirmou Lenine &#8211; pode atingir os seus objetivos.<\/p>\n<p>E, por assumir essa evid\u00eancia, tomou a decis\u00e3o de fundar o Partido Socialista Unido da Venezuela.<\/p>\n<p>Hoje conta com 7\u00a0milh\u00f5es de inscritos. Desse crescimento rapid\u00edssimo e avassalador transparece a fragilidade e n\u00e3o a for\u00e7a da organiza\u00e7\u00e3o. O PSUV foi criado de cima para baixo e a ele aderiu uma elevada percentagem de cidad\u00e3os. No chavismo cabem tend\u00eancias muito diferenciadas, algumas incompat\u00edveis.<\/p>\n<p>Foi no contexto de um intenso debate ideol\u00f3gico que um n\u00facleo de intelectuais latino americanos proclamou que na Venezuela estava a surgir um caminho inovador para o socialismo. Ganhou nome pr\u00f3prio: \u00abSocialismo do s\u00e9culo XXI\u00bb.<\/p>\n<p>No \u00e2mbito do programa do X Encontro da Rede em Defesa da Humanidade, a confer\u00eancia de Garcia Linera, vice-presidente da Rep\u00fablica da Bol\u00edvia, expressou, com maior clareza do que outras interven\u00e7\u00f5es, um olhar sobre a Hist\u00f3ria e o Socialismo que suscitam hoje polemica.<\/p>\n<p>\u00c9 positivo que um pol\u00edtico com a sua responsabilidade &#8211; \u00e9 o mais \u00edntimo colaborador de Evo Morales &#8211; manifeste irrestrita solidariedade com a revolu\u00e7\u00e3o bolivariana.<\/p>\n<p>Falando sobre Ch\u00e1vez e a sua obra, n\u00e3o\u00a0creio, por\u00e9m, que \u2013 apesar de aplaudido com entusiasmo &#8211; tenha contribu\u00eddo para aprofundar a compreens\u00e3o do pol\u00edtico, do estratego e do seu legado.<\/p>\n<p>Orador de talento, culto, comunicador insinuante, Linera \u00e9 um acad\u00e9mico marxiano, mas n\u00e3o um marxista. Ao afirmar ser leninista confunde em vez de esclarecer, porque a sua conce\u00e7\u00e3o do Estado, do Partido, da transi\u00e7\u00e3o para o socialismo, marcadas por um anti sovietismo transparente, n\u00e3o somente diferem das expostas pelo grande revolucion\u00e1rio russo como s\u00e3o com elas incompat\u00edveis, negando o socialismo cient\u00edfico.<\/p>\n<p>Linera sugere, ali\u00e1s, que o jovem tenente-coronel Ch\u00e1vez, o revolucion\u00e1rio de 92, ao conquistar a Presid\u00eancia, j\u00e1 delineara os contornos da op\u00e7\u00e3o pelo socialismo no seu projeto bolivariano.<\/p>\n<p>A afirma\u00e7\u00e3o distorce a Hist\u00f3ria. Creio que \u00e9 m\u00e9rito grande de Ch\u00e1vez ter caminhado para a conclus\u00e3o de que o confronto com o imperialismo era insepar\u00e1vel de uma op\u00e7\u00e3o pelo socialismo atrav\u00e9s de uma evolu\u00e7\u00e3o complexa do seu pensamento pol\u00edtico e do estudo da praxis do processo. Aprendeu muito nas v\u00e1rias etapas da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Hugo Ch\u00e1vez da maturidade, sem abdicar do seu estilo irrepet\u00edvel, com matizes populistas, foi sujeito e objeto de uma transforma\u00e7\u00e3o profunda ao longo dos seus mandatos presidenciais.<\/p>\n<p>Censuram-lhe o voluntarismo. N\u00e3o\u00a0\u00e9\u00a0uma virtude em pol\u00edtica. Mas \u00e9 muito improv\u00e1vel que, se tivesse renunciado a facetas do seu caracter explosivo, n\u00e3o o record\u00e1ssemos hoje como um dos homens que mais contribu\u00edram nas \u00faltimas d\u00e9cadas para criar hist\u00f3ria profunda, na ace\u00e7\u00e3o de Lucien F\u00e8bvre.<\/p>\n<p>Recordo os primeiros programas do \u00abAl\u00f4\u00a0Presidente\u00bb,\u00a0 o inacredit\u00e1vel di\u00e1logo que mantinha, pa\u00eds adentro, com a sua gente. Que distancia a percorrida at\u00e9 ao Ch\u00e1vez da \u00faltima campanha eleitoral, ferido pela doen\u00e7a que ia abreviar-lhe a vida.<\/p>\n<p>Regresso de Caracas\u00a0com a certeza de que continuar\u00e1 a ser alvo de uma chuva de insultos e calunias na campanha eleitoral em curso. Mas nem seus piores inimigos ousam negar que Hugo Ch\u00e1vez Frias, desaparecido fisicamente a 5 de mar\u00e7o, mudou o rumo da Hist\u00f3ria da Venezuela como ningu\u00e9m desde Bol\u00edvar.<\/p>\n<p>Ele conseguiu estabelecer com os oprimidos do seu povo uma rela\u00e7\u00e3o maravilhosa, de contornos quase m\u00e1gicos.<\/p>\n<p>Vila Nova de Gaia, 31 de Mar\u00e7o de 2013<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>O LEGADO DE CH\u00c1VEZ NA REVOLU\u00c7\u00c3O BOLIVARIANA \u2013 conclus\u00e3o<\/p>\n<p>Por MIGUEL URBANO RODRIGUES<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A atmosfera de Caracas em v\u00e9speras de elei\u00e7\u00f5es era a da capital de um pa\u00eds\u00a0\u00f3rf\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando ali desembarquei, dias ap\u00f3s o funeral de Ch\u00e1vez,\u00a0El Comandante, como se vivo estivesse, continuava a polarizar o discurso dos defensores da Revolu\u00e7\u00e3o e o da oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O elogio e o insulto ao ex-presidente ocupavam o tempo e o espa\u00e7o na televis\u00e3o, na r\u00e1dio, nos jornais.<\/p>\n<p>Mas o forasteiro rec\u00e9m-chegado apercebia-se imediatamente de que Nicol\u00e1s Maduro ser\u00e1 eleito no pr\u00f3ximo dia 14, obtendo uma confort\u00e1vel maioria. Ao partir para Cuba em dezembro, a fim de ser submetido a uma nova opera\u00e7\u00e3o ao tumor canceroso, Hugo Ch\u00e1vez indicou o sucessor que deveria assegurar a continuidade da Revolu\u00e7\u00e3o. Estava consciente de que a sua esperan\u00e7a de sobreviver a uma cirurgia complexa era escassa. Amando intensamente a vida, pressentia a proximidade da morte. E a mensagem funcionou.<\/p>\n<p>Porqu\u00ea\u00a0Maduro e n\u00e3o Elias Jaua? &#8211; perguntavam muitos dos estrangeiros que participaram no X Encontro de Intelectuais, Artistas e Lutadores Sociais em Defesa da Humanidade realizado em Caracas a 25 e 26 de mar\u00e7o?<\/p>\n<p>Elias,\u00a0 ministro dos Neg\u00f3cios Estrangeiros desde o inicio do ano, \u00e9 um intelectual muito culto com uma s\u00f3lida forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Soci\u00f3logo,ex -professor da Universidade Central da Venezuela, desenvolveu um trabalho not\u00e1vel como ministro da Agricultura. Mas n\u00e3o \u00e9 um comunicador; falta-lhe carisma. Nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es concorreu ao governo do Estado de Miranda e perdeu. Foi derrotado por Capriles Radonski, o l\u00edder da heterog\u00e9nea coliga\u00e7\u00e3o de for\u00e7as da direita que agora se apresenta novamente como candidato \u00e0 Presid\u00eancia.<\/p>\n<p>Maduro \u00e9\u00a0um ex-maquinista do Metro que subiu a pulso, um caribenho que de Ch\u00e1vez herdou a imagina\u00e7\u00e3o, o sentido do humor, o temperamento fogoso, a capacidade de comunicar com os exclu\u00eddos e transmitir numa linguagem direta e simples o sonho de Bol\u00edvar. Os\u00a0media\u00a0reacion\u00e1rios e os senhores da grande burguesia chamam-lhe \u00abo Encarregado\u00bb e contestaram desde o in\u00edcio a sua Presid\u00eancia interina, afirmando que a transfer\u00eancia de poderes era ileg\u00edtima, violando a constitui\u00e7\u00e3o. N\u00e3o foi esse por\u00e9m o parecer do Supremo Tribunal.<\/p>\n<p>O povo, sujeito da Hist\u00f3ria, aprovou a decis\u00e3o de Ch\u00e1vez e a popularidade de Maduro cresceu de semana a semana.<\/p>\n<p>A CONSPIRA\u00c7\u00c3O EM MARCHA<\/p>\n<p>Por si s\u00f3, a participa\u00e7\u00e3o de altas personalidades da Administra\u00e7\u00e3o Obama, incluindo Hillary Clinton, na campanha de cal\u00fanias desencadeada nos EUA contra a Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana traz a certeza de que o imperialismo vai intensificar a sua ofensiva para desestabilizar o pa\u00eds nas pr\u00f3ximas semanas.<\/p>\n<p>A famigerada ag\u00eancia de rating Moody\u2019s apressou-se a rebaixar a nota da Venezuela ap\u00f3s a desvaloriza\u00e7\u00e3o do bolivar em 31,7%. O\u00a0The New York Times\u00a0e o\u00a0Wall\u00a0Street\u00a0Journal\u00a0esbo\u00e7am um panorama ca\u00f3tico da situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica e financeira. Mentem despudoradamente. A medida e outras simult\u00e2neas &#8211; como a extin\u00e7\u00e3o do Sistema de Transa\u00e7\u00f5es com T\u00edtulos em Moeda Estrangeira, SITME &#8211; foi uma resposta indispens\u00e1vel aos ataques especulativos dos grandes grupos econ\u00f3micos que visavam a moeda nacional. A fuga de d\u00f3lares do pa\u00eds assumira propor\u00e7\u00f5es alarmantes. E o volume do c\u00e2mbio negro aumentara muito, coincidindo com o desabastecimento de alguns produtos de primeira necessidade.<\/p>\n<p>O com\u00e9rcio continua a ser dominado por um reduzido n\u00famero de grupos econ\u00f3micos. No ano passado, de 59 000 milh\u00f5es de d\u00f3lares de bens importados, 30 000 milh\u00f5es foram controlados pelo setor privado.<\/p>\n<p>Os problemas de desabastecimento provocados artificialmente lembram situa\u00e7\u00f5es ocorridas no Chile durante o governo da Unidade Popular. Sem qualquer justifica\u00e7\u00e3o, de repente, desaparecem da rede de supermercados artigos essenciais. Depois reaparecem, mas faltam outros.<\/p>\n<p>A Venezuela importa quase 30 % dos\u00a0 alimentos. Gra\u00e7as aos progressos da Reforma Agr\u00e1ria, \u00e9\u00a0hoje praticamentre autosuficiente em carne e lactic\u00ednios Para as car\u00eancias de g\u00e9neros de primeira necessidade contribui\u00a0 enorme aumento do consumo de muitos produtos. Milh\u00f5es de pessoas que n\u00e3o tinham acesso, antes da Revolu\u00e7\u00e3o, a determinados bens podem agora adquiri-los gra\u00e7as ao aumento dos sal\u00e1rios e a outro padr\u00e3o de vida.<\/p>\n<p>Lutar vitoriosamente contra a sabotagem da economia \u00e9\u00a0tarefa dificultada pelo controle que a oposi\u00e7\u00e3o tem dos principais \u00f3rg\u00e3os de comunica\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>O aumento da infla\u00e7\u00e3o \u00e9\u00a0tamb\u00e9m insepar\u00e1vel da permanente ofensiva das for\u00e7as contra revolucion\u00e1rias numa sociedade na qual o modo de produ\u00e7\u00e3o e as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o continuam a ser capitalistas.<\/p>\n<p>Mas carecem de fundamento as noticias sobre a imin\u00eancia de uma crise financeira. As reservas em divisas da Venezuela s\u00e3o das maiores do mundo gra\u00e7as ao afluxo de d\u00f3lares proporcionado pela exporta\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>DISC\u00cdPULO DE CHAVEZ<\/p>\n<p>Os estrangeiros que participaram no X Encontro de Intelectuais, Artistas e Lutadores Sociais Em Defesa da Humaniade\u00a0 tiveram a oportunidade de manter com Nicolas Maduro uma conversa que durou horas, iniciativa somente poss\u00edvel, pela atmosfera\u00a0 existentes num pa\u00eds da Am\u00e9rica Latina que se prop\u00f5e a construir o Socialismo.<\/p>\n<p>No grande sal\u00e3o Bicenten\u00e1rio do Hotel Alba foi montada uma mesa triangular rodeada de bancos altos com suportes met\u00e1licos para apoio dos p\u00e9s. Num dos lados sentou se Maduro. Nos outros dois Garcia Linera, vice presidente da Bol\u00edvia, o cineasta argentino Trist\u00e1n Bauer, o jornalista venezuelano Earle Herrera e Elias Jaua, ministro dos Neg\u00f3cios Estrangeiros. Em volta da mesa, em tr\u00eas bancadas, ocuparam lugares uns 60 convidados estrangeiros, entre os quais o norte-americano Ramsey Clark e a colombiana Piedad Cordoba. O cen\u00e1rio fez- me pensar num teatro elisabetiano em dia de estreia de uma pe\u00e7a de Shakespeare.<\/p>\n<p>N\u00e3o tomei notas. Maduro abriu as interven\u00e7\u00f5es. Falou de improviso, demoradamente. Do Comandante, her\u00f3i tutelar, da sua grandeza, da sua obra, da sua luta permanente contra o imperialismo e golpistas e contrarrevolucion\u00e1rios de m\u00faltiplos figurinos. Evocou epis\u00f3dios reveladores da excecionalidade e do humanismo de Ch\u00e1vez, falou sobretudo do legado do Comandante, do desafio que representa para os companheiros e o seu povo dar continuidade \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o rumo ao Socialismo.<\/p>\n<p>Maduro n\u00e3o\u00a0\u00e9\u00a0marxista e provavelmente n\u00e3o estudou Marx nem Lenine. O seu discurso \u00e9\u00a0coloquial, emotivo, mas a mensagem, a op\u00e7\u00e3o revolucionaria, foi assimilada por aquela audi\u00eancia at\u00edpica e algo heterog\u00e9nea.<\/p>\n<p>Depois falaram os outros quatro membros da Mesa, cada qual deixando transparecer a sua mundivid\u00eancia. Garcia Linera, na apologia de Ch\u00e1vez, expressou mais uma vez uma vis\u00e3o acad\u00e9mica n\u00e3o marxista das avan\u00e7adas revolucion\u00e1rias em andamento na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Maduro comentou essas interven\u00e7\u00f5es, depois respondeu a uma chuva de perguntas.<\/p>\n<p>O ambiente era encantat\u00f3rio. O encontro findou com m\u00fasica, poesia, can\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias, uma delas de uma jovem mo\u00e7ambicana.<\/p>\n<p>DESAFIOS EM CADEIA<\/p>\n<p>Maduro vai ser eleito no dia 14. Quase certamente com uma vantagem sobre Capriles superior \u00e0\u00a0obtida por Ch\u00e1vez. Isso porque, morto, Ch\u00e1vez ser\u00e1\u00a0o grande eleitor.<\/p>\n<p>Ele est\u00e1\u00a0consciente das enormes dificuldades que ter\u00e1\u00a0de superar. \u00c9 um disc\u00edpulo, um continuador, um bolivariano, mas n\u00e3o \u00e9 Hugo Ch\u00e1vez.<\/p>\n<p>Em poucas semanas j\u00e1\u00a0marcou um estilo pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>A sua presen\u00e7a na Confer\u00eancia Nacional do Partido Comunista da Venezuela &#8211; surpreendeu \u2013 \u00e9 um exemplo- alguns observadores. O facto de o PCV ter proclamado Maduro como seu candidato \u00e0 Presid\u00eancia antes do pr\u00f3prio Partido Socialista Unido da Venezuela parece indicar que o futuro chefe do Estado pretende refor\u00e7ar a coopera\u00e7\u00e3o com todas as for\u00e7as revolucion\u00e1rias que se batem com firmeza no pa\u00eds pela dif\u00edcil constru\u00e7\u00e3o do Socialismo.<\/p>\n<p>Um dos grandes desafios a enfrentar ser\u00e1\u00a0o das complexas rela\u00e7\u00f5es com a Col\u00f4mbia. \u00a0Desde a \u00e9poca de Bol\u00edvar que o di\u00e1logo entre os dois pa\u00edses \u2013 unidos por um per\u00edodo brev\u00edssimo \u2013 foi sempre dif\u00edcil. A Col\u00f4mbia \u00e9 o seu principal parceiro econ\u00f3mico na Am\u00e9rica Latina. Milh\u00f5es de imigrantes colombianos trabalham na Venezuela<\/p>\n<p>Durante os governos de \u00c1lvaro Uribe a amea\u00e7a de uma guerra de baixa intensidade na fronteira ocidental foi muito real. Tropas colombianas e bandos de paramilitares penetraram muitas vezes em territ\u00f3rio venezuelano perseguindo combatentes das FARC. O precedente criminoso de Sucumbios, quando a For\u00e7a A\u00e9rea colombiana bombardeou o acampamento do comandante Ra\u00fal Reyes, n\u00e3o foi ent\u00e3o esquecido.<\/p>\n<p>Com Juan Manuel Santos as rela\u00e7\u00f5es com Bogot\u00e1 melhoraram muito. Mas o regime colombiano \u00e9 na pr\u00e1tica uma ditadura olig\u00e1rquica com matizes fascizantes. Oito bases militares dos EUA instaladas no pa\u00eds s\u00e3o prova de que \u00e9 uma semicol\u00f3nia.<\/p>\n<p>Um desfecho nas conversa\u00e7\u00f5es na Mesa de Di\u00e1logo de Havana entre as FARC e o governo de Bogot\u00e1 que trouxesse uma Paz autentica \u00e0 Col\u00f4mbia desanuviaria o relacionamento com a Venezuela. Mas \u00e9 improv\u00e1vel que isso aconte\u00e7a.<\/p>\n<p>A elei\u00e7\u00e3o de Nicolas Maduro &#8211; repito &#8211; \u00e9\u00a0\u00a0 quase uma certeza.\u00a0 Mas seria pouco respons\u00e1vel avan\u00e7ar com previs\u00f5es sobre o rumo do projeto bolivariano de constru\u00e7\u00e3o do Socialismo na Venezuela. A Administra\u00e7\u00e3o Obama tudo far\u00e1 para o inviabilizar.<\/p>\n<p>De Caracas regresso com a convic\u00e7\u00e3o de que a solidariedade internacionalista com o povo de Bolivar e os dirigentes que assumem o legado de Hugo Ch\u00e1vez assume uma grande import\u00e2ncia no contexto da atual crise mundial.<\/p>\n<p>Vila Nova de Gaia,2 de Abril<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O LEGADO\u00a0DE CHAVEZ NA REVOLU\u00c7AO BOLIVARIANA (1)\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4596\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[45],"tags":[],"class_list":["post-4596","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c54-venezuela"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1c8","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4596","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4596"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4596\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4596"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4596"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4596"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}