{"id":4612,"date":"2013-04-11T16:53:52","date_gmt":"2013-04-11T16:53:52","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4612"},"modified":"2017-05-20T20:46:15","modified_gmt":"2017-05-20T23:46:15","slug":"elias-jabbour-o-que-quer-a-coreia-do-norte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4612","title":{"rendered":"Elias Jabbour: O que quer a Coreia do Norte?"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/i.imgur.com\/yWjrn.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>Nem sempre imagens t\u00eam mais valor do que mil palavras. No caso em quest\u00e3o, as imagens e o retorcimento da ret\u00f3rica explanada pelo governo da Coreia do Norte s\u00e3o parte de um grande jogo de ridiculariza\u00e7\u00e3o de um regime cujo \u00fanico objetivo \u00e9 a autodefesa. Tamb\u00e9m existe uma ponta de luta pela sobreviv\u00eancia. Sobreviv\u00eancia que significa a pr\u00f3pria sobrevida de uma na\u00e7\u00e3o milenar. E para mim isso basta.<!--more--><\/p>\n<p>Por Elias Jabbour*<\/p>\n<p>Perguntemos a qualquer letrado, ou especialista. Voc\u00ea sabia que enquanto a Europa se ensanguentava em guerras religiosas, a Coreia j\u00e1 era uma na\u00e7\u00e3o com todos os tra\u00e7os que poderiam a classificar como um Estado Nacional precoce e anterior ao nascimento de Cristo?<\/p>\n<p>Voc\u00ea sabia que houve uma guerra entre os lados norte e sul da pen\u00ednsula coreana entre os anos de 1950 e 1953? Voc\u00ea sabia que foi a primeira vez, desde a independ\u00eancia dos EUA (1776) que os nor teamericanos assinaram um armist\u00edcio, ou seja, foram derrotados pela primeira vez em quase 200 anos? Voc\u00ea sabia que desde 1776 os EUA nunca ficaram longe de uma guerra, fora dos seus dom\u00ednios, por mais de dez anos? Voc\u00ea sabia que na Guerra da Coreia caiu, sobre o lado norte da pen\u00ednsula, o correspondente a dez bombas nucleares testadas em Hiroshima e Nagasaki? Voc\u00ea sabia que, desde 2001, est\u00e3o apontadas, \u00e0 capital da Coreia do Norte (Pionguiangue), cerca de 60 m\u00edsseis carregados de ogivas nucleares?<\/p>\n<p>Mais perguntas: Voc\u00ea tem not\u00edcia acerca da invas\u00e3o de um algum pa\u00eds por parte da Coreia do Norte? Voc\u00ea sabia que o pa\u00eds mais bloqueado, cercado e difamado no mundo \u00e9 a Coreia do Norte? Ser\u00e1 que essa difama\u00e7\u00e3o tem alguma rela\u00e7\u00e3o com a derrota dos EUA na j\u00e1 referida guerra? Ser\u00e1 que querem condenar a Coreia do Norte ao retorno \u00e0 Idade da Pedra? Ser\u00e1 que a Coreia do Norte h\u00e1 60 anos n\u00e3o \u00e9 o espinho na garganta dos EUA? Diante dos fatos e da hist\u00f3ria, voc\u00ea acha que os EUA fariam com a Coreia do Norte o mesmo que fizeram com o Iraque, o Afeganist\u00e3o e outros? A Coreia do Norte tem ou n\u00e3o o direito de se defender? Voc\u00ea tem alguma d\u00favida sobre o destino de Kim Jong Un: seria recebido com festa num ex\u00edlio na Europa ou teria o mesmo destino, com os mesmos requintes de crueldade, reservado a Muamar Kadafi?<\/p>\n<p>Responder estas quest\u00f5es n\u00e3o \u00e9 uma tarefa complicada. Um m\u00ednimo de honestidade j\u00e1 bastaria para saber o que est\u00e1 em jogo nesta guerra psicol\u00f3gica em curso na pen\u00ednsula coreana. De imediato sugiro qualquer julgamento moral sobre a natureza do regime nortecoreano, se \u00e9 socialista ou n\u00e3o, se \u00e9 democr\u00e1tico ou ditatorial, bonito ou feio, rude ou sofisticado. Tem gosto para tudo. Tamb\u00e9m n\u00e3o seria muito legal tomar a m\u00e1xima do chanceler brasileiro (Antonio Patriota), segundo quem esperava uma \u201catitude mais ocidentalizada do l\u00edder nortecoreano\u201d.<\/p>\n<p>Talvez Antonio Patriota esteja levando a s\u00e9rio demais o conselho de Huntington sobre um Choque de Civiliza\u00e7\u00f5es, quando na verdade tanto Huntington quanto Patriota n\u00e3o passam de v\u00edtimas de um verdadeiro \u201cchoque de ignor\u00e2ncia\u201d. Meu par\u00eantese continua para externar algo mais de fundo. \u00c9 chocante imaginar que o chefe de nossa chancelaria nunca tenha lido Edward Said (\u201cOrientalismo: O Oriente como inven\u00e7\u00e3o do Ocidente\u201d), nem tampouco Barrington Moore Jr. (\u201cAs Origens Sociais da Ditadura e da Democracia \u2013 Senhores e Camponeses na Constru\u00e7\u00e3o do Mundo Moderno\u201d). De forma explicita em ambos os livros ficam claras as evid\u00eancias, na \u00c1sia, de pr\u00e1ticas democr\u00e1ticas ao n\u00edvel da aldeia que remontam ao menos 3.000 anos.<\/p>\n<p>O que quer de fato a Coreia do Norte, partindo de um julgamento mais pautado pela hist\u00f3ria? \u00c9 evidente que o regime busca sobrevida e para isso nega a l\u00f3gica da rendi\u00e7\u00e3o incondicional t\u00e3o cara a outras experi\u00eancias, entre elas as da URSS, Leste Europeu e recentemente da L\u00edbia.<\/p>\n<p>Uma na\u00e7\u00e3o que historicamente teve seu territ\u00f3rio sob a cobi\u00e7a estrangeira, cercada de grandes pot\u00eancias por todos os lados, passando por uma sanguin\u00e1ria ocupa\u00e7\u00e3o japonesa e que sabe do que s\u00e3o capazes os EUA, n\u00e3o pode se dar ao luxo de esperar o bonde da hist\u00f3ria passar. O bonde da hist\u00f3ria derrotou as experi\u00eancias socialistas da URSS e Europa, levando quase a nocaute por asfixia o governo da Coreia do Norte na d\u00e9cada de 1990. Os \u00faltimos 25 anos foram marcados por priva\u00e7\u00f5es de todo tipo, levando inclusive a fome para o outro lado do rio Yalu. O bloqueio, a fome imposta de fora para dentro e as in\u00fameras amea\u00e7as militares e provoca\u00e7\u00f5es (Coreia do Norte como parte do \u201cEixo do Mal\u201d, segundo Bush) s\u00f3 fez restar ao governo nortecoreano a op\u00e7\u00e3o de se \u201carmar at\u00e9 os dentes\u201d diante do que ocorria em Belgrado sob as hostes das chamadas \u201cinterven\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias\u201d.<\/p>\n<p>Poucos regimes no mundo tem uma no\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica como uma ci\u00eancia que leva em conta n\u00e3o somente a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, mas tamb\u00e9m o chamado tempo e espa\u00e7o. Asi\u00e1ticos e milenares que s\u00e3o os coreanos d\u00e3o mostras de ter ido al\u00e9m de Maquiavel, aproximando-se de L\u00eanin acrescido de alguma sabedoria confuciana e esp\u00edrito de rebeldia herdado pelos ensinamentos de Laots\u00e9. Somente gente preparada poderia manter em p\u00e9 um pa\u00eds cercado, humilhado e amea\u00e7ado desde seu nascedouro e com um cen\u00e1rio recrudescido nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>O conceito de ditadura n\u00e3o serve de explica\u00e7\u00e3o. Mais pobre ainda \u00e9 levar a s\u00e9rio certas conversas do tipo \u201cgoverno que se mant\u00e9m \u00e0s custas da fome do povo e do n\u00e3o cumprimento dos direitos humanos\u201d, quando na verdade a soberania nacional est\u00e1 acima de qualquer direito humano. Ou se acredita ser poss\u00edvel algum direito humano sob amea\u00e7a ou interven\u00e7\u00e3o estrangeira? O \u00fanico direito humano universal \u00e9 o direito \u00e0 vida. E o direito \u00e0 vida naquela parte do planeta se confunde e se entrela\u00e7a com o direito de ser na\u00e7\u00e3o soberana. \u00c9 simples, sem ser simplista: a Coreia do Norte n\u00e3o est\u00e1 de brincadeira, pois sabem com quem est\u00e3o lidando e do que s\u00e3o capazes os EUA.<\/p>\n<p>Os nortecoreanos querem ter o direito de ser o que eles decidiram ser desde a explos\u00e3o das primeiras revoltas camponesas contra a ocupa\u00e7\u00e3o japonesa, ainda na d\u00e9cada de 1910 do s\u00e9culo passado. Ao inv\u00e9s de buscarmos dar li\u00e7\u00f5es de democracia, civilidade e de governo para uma na\u00e7\u00e3o milenar, seria mais interessante entender como um pa\u00eds exposto \u00e0quelas condi\u00e7\u00f5es pode alcan\u00e7ar um n\u00edvel de desenvolvimento tecnol\u00f3gico capaz de projetar e lan\u00e7ar sat\u00e9lites artificiais, m\u00edsseis intercontinentais e mesmo bombas nucleares, algo que nem nossos amigos do Ir\u00e3 e seus imensos recursos petrol\u00edferos conseguiram at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Acho que se decifrarmos a forma\u00e7\u00e3o social que forjou um povo capaz de expulsar Gengis Khan de seus dom\u00ednios, no auge do poderio militar do Imp\u00e9rio Mongol, chegaremos a explica\u00e7\u00f5es mais plaus\u00edveis e pr\u00f3ximas da realidade.<\/p>\n<p><em>*Elias Jabbour \u00e9 doutor em Geografia Humana pela FFLCH-USP. Autor de \u201cChina Hoje: Projeto Nacional, Desenvolvimento e Socialismo de Mercado\u201d (Anita Garibaldi\/ EDUEPB, 2006).<\/em><\/p>\n<p>http:\/\/solidariedadecoreiapopular.blogspot.com.br\/2013\/04\/elias-jabbour-o-que-quer-coreia-do-norte.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nElias Jabbour: O que quer a Coreia do Norte?\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4612\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[71],"tags":[],"class_list":["post-4612","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c84-solidariedade"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1co","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4612","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4612"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4612\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4612"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4612"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4612"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}