{"id":4614,"date":"2013-04-11T17:07:00","date_gmt":"2013-04-11T17:07:00","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4614"},"modified":"2013-04-11T17:07:00","modified_gmt":"2013-04-11T17:07:00","slug":"a-guerra-aos-pobres-e-a-politica-de-paz-para-o-empresariado-no-rio-de-janeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4614","title":{"rendered":"A guerra aos pobres e a pol\u00edtica de \u201cpaz\u201d para o empresariado no Rio de Janeiro"},"content":{"rendered":"\n<p><em>\u201cS\u00f3 havia um caminho para que venc\u00eassemos a letargia que dominava o estado. Eike Batista teve uma participa\u00e7\u00e3o especial. A iniciativa privada deve participar do processo da constru\u00e7\u00e3o da paz\u201d, disse o governador. O empres\u00e1rio bancou a constru\u00e7\u00e3o das duas unidades. A da Fazendinha custou R$ 1,67 milh\u00e3o, e a da Nova Bras\u00edlia, R$ 1,189 milh\u00e3o. Eike n\u00e3o compareceu \u00e0 cerim\u00f4nia, mas mandou um diretor da EBX represent\u00e1-lo. Cabral tamb\u00e9m agradeceu ao ex\u00e9rcito, citando o nome do ex-ministro da Defesa, Nelson Jobim \u2013 que ocupava o cargo na \u00e9poca da ocupa\u00e7\u00e3o da comunidade \u2013 e destacou a \u201cfirmeza incr\u00edvel\u201d do ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva. Nas duas unidades da comunidade \u2013 que tem 40 mil moradores \u2013 v\u00e3o trabalhar 660 agentes policiais.\u201d<\/em><sup>1<\/sup><\/p>\n<p>\u201c<em>Candidato a vice-presidente na chapa de Dilma Rousseff (PT), o deputado Michel Temer (PMDB) disse ontem que o pa\u00eds \u00e9 seguro para investimentos porque vive momento de \u201cpacifica\u00e7\u00e3o social\u201d e seguran\u00e7a jur\u00eddica. Para exemplificar a teoria, afirmou que os \u201cmais pobres\u201d e os movimentos sociais est\u00e3o \u201cpacificados\u201d e que a classe m\u00e9dia n\u00e3o est\u00e1 inquieta. Temer participou ontem de almo\u00e7o patrocinado pela C\u00e2mara Portuguesa de Com\u00e9rcio. A entidade convidou os candidatos \u00e0 Presid\u00eancia, mas Dilma mandou Temer, porque tinha outra agenda. \u201cFalo de um Brasil internamente pacificado\u201d, afirmou ele em sua apresenta\u00e7\u00e3o. \u201cSe os movimentos sociais n\u00e3o estiverem pacificados, se os setores pol\u00edticos n\u00e3o estiverem pacificados, se os setores financeiros n\u00e3o estiverem pacificados, se aqueles mais pobres n\u00e3o estiverem pacificados, se os da classe m\u00e9dia estiverem inquietos, isso gera uma inseguran\u00e7a que \u00e9 prejudicial\u201d, declarou Temer.\u201d<\/em><sup>2<\/sup><\/p>\n<p>Rio de Janeiro-Brasil, ano de 2013, cidade e pa\u00eds sede de grandes eventos atrativos de in\u00fameros investimentos nacionais e estrangeiros. Em especial, na capital fluminense, podemos afirmar com tranquilidade que nunca se acumularam tantos capitais, em espa\u00e7o e tempo, como neste per\u00edodo. E o protagonista deste movimento? O Estado. Segundo o dossi\u00ea da candidatura do Rio para as Olimp\u00edadas de 2016, 94,91% dos investimentos seriam de recurso p\u00fablico diretamente ou atrav\u00e9s de financiamentos. Com o passar do tempo, j\u00e1 podemos constatar a \u201ctransfer\u00eancia de renda\u201d dos investimentos p\u00fablicos para os monop\u00f3lios privados, via as diversas formas de pol\u00edticas privatistas que assolam desde \u00e1reas estrat\u00e9gicas da economia fluminense e brasileira como o petr\u00f3leo, at\u00e9 servi\u00e7os sociais b\u00e1sicos como sa\u00fade, esporte, cultura, educa\u00e7\u00e3o, previd\u00eancia, etc.<\/p>\n<p>Em meio a este momento de grande acumula\u00e7\u00e3o, concentra\u00e7\u00e3o e consequentemente aumento das desigualdades, o discurso euf\u00f3rico de \u201cgrandes oportunidades\u201d, \u201cdemocratiza\u00e7\u00e3o\u201d do consumo e \u201cinclus\u00e3o\u201d social come\u00e7a a enfraquecer, visto a intensifica\u00e7\u00e3o dos problemas estruturais da sociedade brasileira sentidas, especialmente, pelo povo trabalhador: mercantiliza\u00e7\u00e3o da sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, moradia, enfim elementos b\u00e1sicos para a vida humana. Estas quest\u00f5es j\u00e1 est\u00e3o sendo bem debatidas, denunciadas e refletidas por uma gama consider\u00e1vel de movimentos populares, organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e gente de esquerda. No entanto, uma parte consider\u00e1vel parece ignorar um elemento social continuador da perversa via de desenvolvimento \u201cpelo alto\u201d do capitalismo brasileiro: o terrorismo de Estado, via criminaliza\u00e7\u00e3o dos pobres.<\/p>\n<p>Semana passada, no mesmo Rio de Janeiro, em franca onda de investimentos e expans\u00e3o dos capitais, ocorreram tr\u00eas fatos (cotidianos) b\u00e1rbaros no Jacar\u00e9, Manguinhos e Ramos. Tr\u00eas jovens Alielson Nogueira, Mateus Case, Jefferson Costa, negros e pobres foram executados a tiros, e um deles eletrocutado, por a\u00e7\u00f5es da Pol\u00edcia, duas delas em \u00e1reas de UPP. Segundo as informa\u00e7\u00f5es divulgadas, os tr\u00eas tinham trabalho regular e sem antecedentes criminais.<\/p>\n<p>Todavia conforme citamos no in\u00edcio deste artigo, o discurso de representantes do Estado na figura do governador do Rio de Janeiro e do vice-presidente da rep\u00fablica, tratavam-se de declara\u00e7\u00f5es que falam de paz e pacifica\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira, mas apenas uma pergunta que n\u00e3o quer calar: paz para quem e para o que? Creio que esta pergunta, j\u00e1 est\u00e1 contida na declara\u00e7\u00e3o de ambos. Para Michel Temer, a pacifica\u00e7\u00e3o \u00e9 um bom pressuposto para o recebimento de \u201cinvestimentos seguros\u201d no pa\u00eds, Sergio Cabral assume que esta onda de paz s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel com a parceria entre Estado e empresariado, inclusive cita um dois dos principais operadores da \u201cpaz\u201d: o empres\u00e1rio Eike Batista e o \u201ccorajoso\u201d ex-presidente Lula.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a implementa\u00e7\u00e3o da UPP no complexo do Alem\u00e3o e no mesmo Jacar\u00e9, local da execu\u00e7\u00e3o de um dos jovens citados, os pre\u00e7os dos im\u00f3veis dobraram, centenas de fam\u00edlias j\u00e1 foram despejadas de suas casas. Estes tristes epis\u00f3dios, infelizmente n\u00e3o s\u00e3o uma exce\u00e7\u00e3o nem apenas obra do mau caratismo de um ou outro governante. As pol\u00edticas de transfer\u00eancia da renda p\u00fablica para o empresariado atrav\u00e9s das diversas formas de privatiza\u00e7\u00e3o, a democratiza\u00e7\u00e3o do \u201ccr\u00e9dito\u201d, a aus\u00eancia de qualquer reforma estrutural em nossa sociedade, e principalmente, o terrorismo de estado nas zonas populares, s\u00e3o pe\u00e7as chaves para a garantia da \u201cpaz\u201d de Temer, Cabral, Eike, Lula e muitos outros. Esta \u201cpaz\u201d \u00e9 a garantia de preserva\u00e7\u00e3o da acumula\u00e7\u00e3o capitalista, em nosso tempo cada vez mais associada a regress\u00e3o a est\u00e1gios mais b\u00e1rbaros e degradantes da esp\u00e9cie humana. Pelo capital se persegue, tortura, executa como tamb\u00e9m se constroem mecanismos sofisticados de domina\u00e7\u00e3o cultural e ideol\u00f3gica, principalmente via os monop\u00f3lios midi\u00e1ticos e a industria cultural.<\/p>\n<p>Contudo, insistimos que apesar da sofistica\u00e7\u00e3o, ainda existe uma linha fundamental de continuidade nas a\u00e7\u00f5es do Estado Brasileiro junto \u00e0s classes populares: a quest\u00e3o da desigualdade social \u00e9 um caso de pol\u00edcia. As UPP\u00b4s financiadas por Eike tamb\u00e9m podem lembrar as guardas nacionais, criadas no Brasil Imperial a servi\u00e7o dos interesses das oligarquias na preserva\u00e7\u00e3o do status quo. Qual a semelhan\u00e7a? O bra\u00e7o armado e repressivo do Estado a servi\u00e7o da \u201cpaz\u201d para as classes dominantes. Como? Apesar das diferen\u00e7as a continuidade das torturas, as execu\u00e7\u00f5es e o cotidiano terrorismo \u00e0 vida dos subalternos!<\/p>\n<p>A Juventude que vive nas zonas populares \u00e9 o principal segmento que sente em seu cotidiano as implica\u00e7\u00f5es das diversas faces da domina\u00e7\u00e3o pela \u201cpaz\u201d. A \u201cpacifica\u00e7\u00e3o\u201d como a \u201cguerra\u201d ao tr\u00e1fico j\u00e1 mataram milhares de jovens e vende ilus\u00f5es de \u201cinclus\u00e3o\u201d que a expans\u00e3o capitalista n\u00e3o pode resolver. As hist\u00f3rias de Alielson, Mateus, Jefferson e tantos outros n\u00e3o devem ser naturalizadas, nem encaradas como uma falha residual do nosso Estado Democr\u00e1tico de Direito. Infelizmente, a coer\u00e7\u00e3o \u00e9 o um elemento constitutivo para a conforma\u00e7\u00e3o da hegemonia das classes dominantes, ou seja, a morte destes jovens sustenta a \u201cpaz\u201d para os senhores.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o? Creio que a luta por direitos humanos limitada a um regime que amea\u00e7a o pr\u00f3prio reconhecimento universal do homem enquanto esp\u00e9cie, n\u00e3o ataca radicalmente a rela\u00e7\u00e3o entre o Estado brasileiro e as classes populares. \u00c9 necess\u00e1rio associarmos os direitos humanos enquanto uma bandeira fundamental de luta pela emancipa\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios trabalhadores. Inclusive, \u00e9 este o potencial revolucion\u00e1rio dos milhares de homens e mulheres que vivem do seu trabalho, ao lutarem contra um Estado que se comporta em sua principal finalidade ,como definiu Engels, \u201cenquanto um mero comit\u00ea de neg\u00f3cios de toda a burguesia\u201d potencializam a pr\u00f3pria emancipa\u00e7\u00e3o e reconhecimento da esp\u00e9cie humana. Por isso, para que as mortes de tantos jovens como Alielson, Mateus e Jefferson n\u00e3o tenham sido em v\u00e3o, \u00e9 preciso que lutemos e questionemos n\u00e3o apenas a viol\u00eancia banal e desumana, mas as pr\u00f3prias rela\u00e7\u00f5es sociais que se sustentam a partir dela, conforme Brecht bem nos ensina:<\/p>\n<p>\u201cDo rio que tudo arrasta, diz-se que \u00e9 violento. Mas ningu\u00e9m chama violentas \u00e0s margens que o comprimem.\u201d<\/p>\n<p>Bertold Brecht<\/p>\n<p>* Lu\u00eds Fernandes \u00e9 historiador e integrante da Coordena\u00e7\u00e3o Nacional da UJC.<\/p>\n<p>1 Declara\u00e7\u00f5es de Sergio Cabral, julho de 2012, inaugura\u00e7\u00e3o da UPP do Complexo do Alem\u00e3o.<a href=\"http:\/\/noticias.terra.com.br\/brasil\/policia\/cabral-agradece-a-eike-batista-na-inauguracao-de-sedes-de-upps,2c3d0a43aa1da310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD.html\" target=\"_blank\">http:\/\/noticias.terra.com.br\/brasil\/policia\/cabral-agradece-a-eike-batista-na-inauguracao-de-sedes-de-upps,2c3d0a43aa1da310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD.html<\/a><\/p>\n<p>2 Declara\u00e7\u00f5es do vice-presidente do Brasil, Michel Temer, publicadas no jornal Folha de S\u00e3o Paulo, 27 de agosto de 2010.<a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/poder\/po2708201032.htm\" target=\"_blank\">http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/poder\/po2708201032.htm<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/ujc.org.br\/ujc\/?p=677\" target=\"_blank\">http:\/\/ujc.org.br\/ujc\/?p=677<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nLu\u00eds Fernandes*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4614\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[88],"tags":[],"class_list":["post-4614","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c101-criminalizacao"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1cq","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4614","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4614"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4614\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4614"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4614"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4614"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}