{"id":4654,"date":"2013-04-18T20:43:54","date_gmt":"2013-04-18T20:43:54","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4654"},"modified":"2017-08-25T00:58:33","modified_gmt":"2017-08-25T03:58:33","slug":"selvageria-capitalista-em-tempos-de-colonizacao-do-outro-cabral-como-recomecar-mais-uma-vez","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4654","title":{"rendered":"Selvageria capitalista em tempos de coloniza\u00e7\u00e3o do outro Cabral: como recome\u00e7ar (mais uma vez)?"},"content":{"rendered":"\n<p><em>militante da Base ANDES\/ FASUBRA<\/em> <em>do PCB-RJ<\/em> <em>abril\/ 2013<\/em><\/p>\n<p>&#8220;Se, ent\u00e3o, fomos batidos, n\u00e3o temos outra coisa a fazer sen\u00e3o come\u00e7ar de novo desde o princ\u00edpio&#8221; (Friedrich Engels)<\/p>\n<p>Em 1851, sob as brasas das lutas revolucion\u00e1rias e contrarrevolucion\u00e1rias da Primavera dos Povos que ardiam em toda a Europa, Friedrich Engels escreveu, no jornal <em>New York Daily Tribune,<\/em> algumas linhas que podem servir para algumas reflex\u00f5es dos militantes cariocas e fluminenses: \u201cN\u00e3o se pode imaginar uma derrota mais assinal\u00e1vel do que a sofrida pelo partido \u2013 ou antes: partidos \u2013 revolucion\u00e1rio continental em todos os pontos da linha de batalha. Mas, e da\u00ed? A luta das classes m\u00e9dias brit\u00e2nicas pela sua supremacia social e pol\u00edtica n\u00e3o abarcou 48 anos e a das classes m\u00e9dias francesas 40 anos de lutas sem exemplo? E esteve alguma vez o seu triunfo mais pr\u00f3ximo do que no preciso momento em que a monarquia restaurada se julgou mais firmemente estabelecida do que nunca?\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que muitos concordem que estamos diante de um bloco social dominante que goza de uma s\u00f3lida supremacia no Rio de Janeiro. No plano econ\u00f4mico, o estado \u00e9 atualmente uma das principais fronteiras da acumula\u00e7\u00e3o capitalista nacional, recebendo investimentos na casa da centena de bilh\u00f5es de d\u00f3lares nos setores de energia, infraestrutura, turismo\/entretenimento, metal-mec\u00e2nico e sider\u00fargico, dentre outros. A Cidade Maravilhosa foi escolhida como palco de megaeventos de entretenimento e de esportes, gerando um dinamismo para setores da burguesia local e internacional. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que um dos principais empres\u00e1rios da lista dos mais ricos da revista Forbes, Eike Batista, seja um residente da cidade. <a name=\"more\"><\/a><\/p>\n<p>O capital demanda garantias pol\u00edticas e jur\u00eddicas do Estado para a acumula\u00e7\u00e3o ampliada dos seus investimentos, assim como toda uma infraestrutura nos territ\u00f3rios a serem ocupados. Aqui no Rio de Janeiro, os governos estaduais e municipais, com apoio integral da Uni\u00e3o, cumpre com zelo o papel demandado pelo grande capital financeiro. Al\u00e9m de uma generosa pol\u00edtica de concess\u00f5es de benef\u00edcios fiscais e isen\u00e7\u00f5es tribut\u00e1rias para os empreendimentos capitalistas, as diversas esferas do Estado promovem um reordenamento da geografia urbana para os interesses de ocupa\u00e7\u00e3o dos neg\u00f3cios capitalistas, em uma aut\u00eantica pol\u00edtica de \u201chigieniza\u00e7\u00e3o social\u201d dos espa\u00e7os p\u00fablicos. Este \u00e9 o caso, por exemplo, da Aldeia Maracan\u00e3, alvo da a\u00e7\u00e3o truculenta da Pol\u00edcia Militar, sem mencionarmos remo\u00e7\u00f5es e despejos arbitr\u00e1rios de moradores na zona portu\u00e1ria e comunidades populares da cidade inteira.<\/p>\n<p>No plano pol\u00edtico, tamb\u00e9m estamos diante de uma domina\u00e7\u00e3o sem igual nos \u00faltimos tempos. S\u00e9rgio Cabral e Eduardo Paes reelegeram-se com facilidade, e contaram com o apoio de tradicionais partidos pol\u00edticos e grupos sociais conservadores e at\u00e9 mesmo de agremia\u00e7\u00f5es que outrora foram progressistas, como PT, PCdoB e outros. Grande parte da legitimidade pol\u00edtica dos governantes do PMDB deriva, inclusive, do apoio popular, costurado com a ocupa\u00e7\u00e3o militar das comunidades populares, pol\u00edticas sociais de transfer\u00eancia de renda, emprego formal (de baixa qualidade e remunera\u00e7\u00e3o e com alt\u00edssima rotatividade) e a\u00e7\u00f5es midi\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Diante deste quadro de fortalecimento da supremacia das for\u00e7as dominantes, n\u00e3o \u00e9 incomum constatarmos um des\u00e2nimo nos militantes que ainda resistem \u00e0 pol\u00edtica de transforma\u00e7\u00e3o da nossa cidade e do nosso estado em uma fronteira avan\u00e7ada de acumula\u00e7\u00e3o imperialista. Todavia, a hist\u00f3ria das lutas de classes prega pe\u00e7as em seus combatentes e analistas. Se tivermos uma perspectiva dial\u00e9tica desta hist\u00f3ria, vamos lembrar, de acordo com Hegel, que o momento de auge de uma \u00e9poca hist\u00f3rica j\u00e1 se configura, contraditoriamente, com o seu momento de decad\u00eancia.<\/p>\n<p>Embora se reafirme aqui que nos encontramos em uma conjuntura hist\u00f3rica de descenso da for\u00e7a da classe trabalhadora e de ascens\u00e3o da alta burguesia, \u00e9 poss\u00edvel destacarmos alguns elementos presentes na atual conjuntura que nos permita vislumbrar fissuras no bloco dominante. Vamos aos fatos:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\">(1) No plano nacional, a queda nas taxas de crescimento econ\u00f4mico durante todo o governo Dilma resulta em maior dificuldade na redistribui\u00e7\u00e3o de parte do excedente econ\u00f4mico para as distintas classes. Em momento de crise, setores das classes dominantes, dado o seu poder econ\u00f4mico, pol\u00edtico e cultural, conseguem abocanhar fatias maior do fundo p\u00fablico, restando menos para o atendimento das necessidades dos trabalhadores. Este problema se reflete tamb\u00e9m em termos regionais, como a partilha dos recursos do petr\u00f3leo. Se estiv\u00e9ssemos em per\u00edodo de crescimento econ\u00f4mico, com maior arrecada\u00e7\u00e3o de tributos, o governo federal poderia disponibilizar recursos extras para os estados produtores de petr\u00f3leo, compensando-os eventualmente pelas suas perdas;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\">(2) No plano regional, a coaliza\u00e7\u00e3o governista formada por PMDB e PT, at\u00e9 ent\u00e3o s\u00f3lida e segura, avaliada pelos mandarins do PT, desmancha-se com a briga pela indica\u00e7\u00e3o do senador Lindbergh Farias para a candidatura de governador ao estado em 2014. O atual residente do Pal\u00e1cio das Laranjeiras empurra goela abaixo a indica\u00e7\u00e3o do seu vice, um candidato sem express\u00e3o;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\">(3) O governo estadual usa crescente e intensivamente a coer\u00e7\u00e3o do aparato militar para dar garantias aos investimentos capitalistas e debelar manifesta\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias aos seus interesses, como remo\u00e7\u00f5es arbitr\u00e1rias, usu\u00e1rios indignados com os servi\u00e7os prestados na \u00e1rea de transporte p\u00fablico etc. Aparentemente, a coer\u00e7\u00e3o militar dispersa focos de contesta\u00e7\u00e3o e demonstra a for\u00e7a estatal, mas, no fundo, \u00e9 uma demonstra\u00e7\u00e3o de fraqueza pol\u00edtica do Estado. Em tempos de crise estrutural, percebe-se o aumento da coer\u00e7\u00e3o como t\u00e1tica de conserva\u00e7\u00e3o do poder, justamente com o objetivo de contrabalancear a perda de hegemonia do bloco dominante, t\u00e1tica menos custosa e mais sutil de manuten\u00e7\u00e3o da ordem.<\/p>\n<p>No texto citado acima, Engels escreveu que, em tempos de derrotas hist\u00f3ricas, o movimento revolucion\u00e1rio deve se recolher ao gabinete de estudo e pesquisar os motivos da derrota e planejar a sua reorganiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Est\u00e1 na hora de come\u00e7armos a estudar o novo padr\u00e3o de reprodu\u00e7\u00e3o do capital implementado no Brasil nos \u00faltimos anos, bem como a nova pedagogia da hegemonia (o chamado social-liberalismo e suas imbrica\u00e7\u00f5es com o novo-desenvolvimentismo) e o transformismo de grupos dirigentes da classe trabalhadora. A boa not\u00edcia \u00e9 que n\u00e3o partiremos do zero, pois temos um ac\u00famulo consider\u00e1vel nesta \u00e1rea, como as pesquisas desenvolvidas por coletivos marxistas presentes, em sua maioria (mas n\u00e3o somente), nas universidades p\u00fablicas brasileiras e que come\u00e7am a tra\u00e7ar projetos em comum com movimentos sociais, como as parcerias estabelecidas com o MST no Brasil inteiro.<\/p>\n<p>H\u00e1, entretanto, uma segunda boa not\u00edcia no ar, que nos impulsiona para al\u00e9m dos gabinetes de estudo. O bloco dominante costurado pelo PT no plano nacional, talvez o mais forte constitu\u00eddo na Nova Rep\u00fablica, come\u00e7a a mostrar sinais de desgaste com a crise capitalista mundial, a resist\u00eancia dos subalternos e o aumento dos conflitos internos. Mesmo que tais fissuras no bloco dominante n\u00e3o sejam capazes de abalar a estrutura de poder montada pela alta burguesia no Rio de Janeiro (e no Brasil), elas j\u00e1 s\u00e3o percept\u00edveis e cada vez maiores. Abrem-se, assim, m\u00faltiplas possibilidades hist\u00f3ricas para a atua\u00e7\u00e3o dos movimentos contestat\u00f3rios \u00e0 ordem, que precisam ter, al\u00e9m de uma excelente an\u00e1lise concreta da situa\u00e7\u00e3o concreta, uma capacidade organizativa, de agita\u00e7\u00e3o e propaganda para atuar nas brechas abertas pelas falhas do sistema e aprofundar a crise do bloco dominante, disputando a dire\u00e7\u00e3o intelectual-moral da sociedade brasileira e se mostrando como uma real alternativa de poder.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a nossa aposta! Esta \u00e9 a nossa luta!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nRodrigo Castelo\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4654\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-4654","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1d4","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4654","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4654"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4654\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4654"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4654"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4654"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}