{"id":4687,"date":"2013-04-24T17:54:00","date_gmt":"2013-04-24T17:54:00","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4687"},"modified":"2017-08-25T00:58:33","modified_gmt":"2017-08-25T03:58:33","slug":"o-novo-que-nasce-velho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4687","title":{"rendered":"O novo que nasce velho"},"content":{"rendered":"\n<p><em>A juventude de hoje deseja um mundo mais justo, mas dentro da estrutura da sociedade em que vive. O que sinto nela \u00e9 a falta de f\u00e9 na Hist\u00f3ria (Olivier Assayas, diretor de cinema)<\/em><\/p>\n<p>O logotipo no envelope n\u00e3o deixava d\u00favidas. Justi\u00e7a Eleitoral ? V\u00e9spera de elei\u00e7\u00f5es ? Claro que devia ser uma convoca\u00e7\u00e3o para trabalhar como mes\u00e1rio. N\u00e3o deu outra. 1989 era o ano e eu presidiria uma se\u00e7\u00e3o eleitoral, justamente no primeiro pleito direto para presidente depois da ditadura. Os votos ainda eram impressos e, no final do dia, entre orgulhoso e cansado, bati uma foto com meus auxiliares. N\u00e3o \u00e9 que t\u00ednhamos tirado uma casquinha acidental daquele momento hist\u00f3rico ?<\/p>\n<p>O rein\u00edcio de elei\u00e7\u00f5es diretas para a presid\u00eancia da Rep\u00fablica teve uma novidade importante. Pela primeira vez em quase quarenta anos, o PCB, partido mais antigo do pa\u00eds, lan\u00e7ava candidato pr\u00f3prio. Em 1950, na sombra da ilegalidade e ainda na esteira da popularidade p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial e do carisma de Luiz Carlos Prestes, o partido tivera cerca de 10% dos votos, com um candidato desconhecido e inexpressivo: o engenheiro Yedo Fi\u00faza. No final dos anos 80, era a vez de Roberto Freire.<\/p>\n<p>Com discurso fluente, Freire recolocou os comunistas do PCB no mapa eleitoral do Brasil. Percorreu o pa\u00eds, sonhando aglutinar as for\u00e7as de esquerda em torno de sua candidatura. Criticou duramente as fuma\u00e7as de privatiza\u00e7\u00e3o que j\u00e1 come\u00e7avam a vazar da burguesia, afirmando que, antes de tudo, era necess\u00e1rio \u201cdesprivatizar o Estado\u201d. No fim, ganhou pouco mais de 1% dos votos. Foi a colheita da pol\u00edtica desastrosa de concilia\u00e7\u00e3o de classes que o partido seguira dogmaticamente, quando as bases sociais da ditadura balan\u00e7avam e as lutas populares acuavam a caserna.<\/p>\n<p>N\u00e3o demorou muito e as lutas internas do PCB, agravadas pelos acontecimentos do leste europeu, levaram a mais um racha. Em 1991, Freire estava alinhado aos que, no IX Congresso do partido, tentaram liquid\u00e1-lo. Encontrando severa resist\u00eancia de dirigentes e militantes, parte do Comit\u00ea Central convoca, ent\u00e3o, um Congresso Extraordin\u00e1rio, tendo como ponto \u00fanico de pauta a cria\u00e7\u00e3o de uma \u201cnova forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d. Para evitar surpresas, os liquidacionistas usaram um expediente malandro e inescrupuloso: n\u00e3o-filiados foram aceitos como delegados ao Congresso, com direito a voto. Cooptaram, assim, simpatizantes identificados com suas teses, garantindo tranquila maioria. Militantes e dirigentes que repudiaram essas manobras realizaram, de imediato, uma Confer\u00eancia Nacional de Reorganiza\u00e7\u00e3o do PCB. Hor\u00e1cio Macedo e Ivan Pinheiro discursaram no Congresso liquidacionista e suas falas foram premonit\u00f3rias. Do Congresso adulterado nasceu o PPS, que a imprensa, por m\u00e1-f\u00e9 ou ignor\u00e2ncia, ainda chama de sucessor do PCB.<\/p>\n<p>N\u00e3o satisfeitos, os pepessistas tentaram transferir o que seria uma luta pol\u00edtica para o terreno burocr\u00e1tico-estatal. Roberto Freire deu entrada no Instituto Nacional de Propriedade Industrial com um processo para, pasmem !, registrar a exclusividade do direito de uso da sigla e do s\u00edmbolo do PCB. Seria ris\u00edvel se n\u00e3o fosse uma farsa abjeta, de coveiros de uma tradi\u00e7\u00e3o que pedia debate, e n\u00e3o capitula\u00e7\u00e3o. Claro que os t\u00e9cnicos do INPI receberam o pedido com o desprezo que merecia. Compreenderam a patuscada e jogaram no lixo da Hist\u00f3ria a tentativa vergonhosa.<\/p>\n<p>Com um trabalho incans\u00e1vel, ativistas e militantes do PCB recuperaram o registro da sigla. Enquanto isso, os pepessistas, sempre sob a lideran\u00e7a de Roberto Freire, adernaram, lenta, gradual e consistentemente para a direita. Defenderam os processos de privatiza\u00e7\u00e3o, apoiaram o PROER (que salvou a cara dos banqueiros), aliaram-se, n\u00e3o raro, ao que h\u00e1 de pior na pol\u00edtica nacional, aboliram o socialismo do discurso (embora o tenham conservado, cinicamente, na sigla). Anos antes da cria\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o da Verdade, foram descobertos corpos no cemit\u00e9rio de Perus, em S\u00e3o Paulo, suspeitos de serem os restos de militantes pol\u00edticos assassinados pela ditadura. Freire criticou os que ousaram sugerir uma investiga\u00e7\u00e3o do caso, alegando que o passado devia &#8230; ficar no passado ! Enquanto isso, em \u00e9pocas eleitorais, v\u00edamos um desfile de candidaturas Blairo Maggi, Sambariloves e Sardinha 88, desidratados em conte\u00fado e identidade ideol\u00f3gica.<\/p>\n<p>O processo de degrada\u00e7\u00e3o culmina agora com a fus\u00e3o PPS-PMN. A nova sigla, Mobiliza\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica, nasce como nega\u00e7\u00e3o da esquerda socialista. Sua b\u00fassola \u00e9 eleitoral. Estou entre os seis ou sete que tiveram a curiosidade (e a paci\u00eancia) de ler o manifesto e o programa do novo partido. N\u00e3o h\u00e1 a menor refer\u00eancia ao capitalismo como raiz dos graves problemas estruturais que os documentos mencionam. A esquerda, e isso n\u00e3o se deve omitir, \u00e9 necessariamente anticapitalista. O que a MD prop\u00f5e s\u00e3o remendos, em quase nada diferentes dos propostos pelos partidos da ordem. \u00c9 uma grande colcha de retalhos daqueles que desembarcaram do projeto socialista e enterraram conceitos e refer\u00eancias te\u00f3ricas. Os \u201cp\u00f3s-comunistas\u201d namoram um improv\u00e1vel (imposs\u00edvel ?) capital humanizado, desejam ser parceiros de um modo de produ\u00e7\u00e3o que continua gerando guerras, destrui\u00e7\u00e3o, fome, dist\u00farbios globalizados, explora\u00e7\u00e3o dos mais vulner\u00e1veis. Falam em \u201creforma democr\u00e1tica do Estado\u201d como se isso fosse independente da luta de classes. As grandes novidades que trazem s\u00e3o a exuma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de Jos\u00e9 Serra e a esperada ades\u00e3o de parlamentares ligados ao ex-prefeito de S\u00e3o Paulo, Gilberto Kassab.<\/p>\n<p>A esquerda n\u00e3o adesista enfrenta importantes desafios. As mobiliza\u00e7\u00f5es de massa do passado, com intensa identifica\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria e capilariza\u00e7\u00e3o social, s\u00e3o cada vez mais raras. Aparecem em situa\u00e7\u00f5es de crise aguda, mas carecem de continuidade. Novas formas de participa\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s de redes sociais e meios virtuais, ainda s\u00e3o pouco utilizadas e mal compreendidas. A experi\u00eancia hist\u00f3rica do chamado socialismo real deixou feridas mal cicatrizadas e n\u00e3o substitu\u00eddas por refer\u00eancias consistentes que ajudem a pavimentar caminhos anticapitalistas. Entretanto, todas essas e outras dificuldades n\u00e3o justificam a exalta\u00e7\u00e3o envergonhada dos crist\u00e3os-novos do reformismo filocapitalista. H\u00e1, certamente, gente honesta que acredita em propostas como as que a MD agora apresenta. Falo de institui\u00e7\u00f5es, n\u00e3o de pessoas. Nesse sentido, repito Ant\u00f4nio Gon\u00e7alves da Silva, o Patativa do Assar\u00e9: Cante l\u00e1, que eu canto c\u00e1.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nJacques Gruman\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4687\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-4687","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1dB","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4687","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4687"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4687\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4687"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4687"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4687"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}