{"id":47,"date":"2009-12-27T23:43:57","date_gmt":"2009-12-28T02:43:57","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=47"},"modified":"2017-08-25T00:38:10","modified_gmt":"2017-08-25T03:38:10","slug":"na-america-latina-o-povo-da-as-costas-a-quem-nao-e-valente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/47","title":{"rendered":"Na Am\u00e9rica Latina o povo d\u00e1 as costas a quem n\u00e3o \u00e9 valente"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Joseba Mac\u00edas (JM) &#8211; Uma novidade significativa na Am\u00e9rica Latina que voc\u00ea bem conhece, \u00e9 que boa parte dos pa\u00edses do continente passaram a ser governados por organiza\u00e7\u00f5es que resultam do que poder\u00edamos chamar de uma \u201creflex\u00e3o socialista\u201d. Ritmos, tradi\u00e7\u00f5es e matizes diversas, sem d\u00favida, mas algo impens\u00e1vel h\u00e1 pouco tempo atr\u00e1s.<\/strong><\/p>\n<p>Atilio Bor\u00f3n (AB) &#8211; Falando de socialismo em toda a sua extens\u00e3o, realmente s\u00f3 temos como pa\u00eds socialista, no momento, Cuba. Logo depois h\u00e1 tr\u00eas governos, Venezuela, Equador e Bol\u00edvia, que desenvolveram processos de constru\u00e7\u00e3o da alternativa socialista, processos muito diferentes entre si. E mais, por sorte, no momento no qual j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 mais modelos a copiar. O caso boliviano, por exemplo, se sustenta sobre uma extraordin\u00e1ria capacidade de organiza\u00e7\u00e3o que vem da \u00e9poca pr\u00e9- colombiana e que deixou em maus len\u00e7\u00f3is todos os soci\u00f3logos p\u00f3s-modernos que entenderam o ascenso de Evo Morales como uma manifesta\u00e7\u00e3o precisamente p\u00f3s-moderna&#8230; Na Venezuela, sem embargo, n\u00e3o h\u00e1 uma tradi\u00e7\u00e3o organizativa nem pr\u00e9-colombiana, nem p\u00f3s-colombiana, o que explicaria a import\u00e2ncia do papel da lideran\u00e7a de Hugo Ch\u00e1vez. Tamb\u00e9m Rafael Correa, no Equador, formado no cristianismo progressista da Universidade de Lovina e mais tarde doutorado em Economia em Illinois&#8230; Na minha opini\u00e3o, o resto vai em outra dire\u00e7\u00e3o. Os governos do Brasil, Argentina, Chile ou Uruguai consideram que a solu\u00e7\u00e3o dos problemas do capitalismo se encontram no pr\u00f3prio capitalismo. Na Argentina, por exemplo, n\u00e3o resta nenhuma d\u00favida quando voc\u00ea ouve Kirchner falar. No Brasil, em dois s\u00e9culos de hist\u00f3ria do sistema banc\u00e1rio, nunca esse sistema foi t\u00e3o rent\u00e1vel para o grande capital como nos anos de Lula no poder. Representam mecanismo adaptativos dentro do pr\u00f3prio capitalismo.<\/p>\n<p>Agora: tamb\u00e9m \u00e9 certo que estes governos s\u00e3o um suporte fundamental para aqueles outros que citava no in\u00edcio e que est\u00e3o trabalhando por uma alternativa verdadeiramente socialista. Esse \u00e9 um fato real e objetivo e a isso n\u00e3o \u00e9 estranha a forte press\u00e3o popular que, desde a base, se desenvolve nos pa\u00edses como Argentina e Brasil. Sem esquecer que todos estes governos da chamada \u201ccentro- esquerda\u201d que foram t\u00edmidos, pr\u00f3-capitalistas e amigos dos norte-americanos, correm nos pr\u00f3ximos meses s\u00e9rios riscos de serem desalojados do poder. Entretanto, os governos que levaram adiante com mais aud\u00e1cia processos de mudan\u00e7a, reformando a constitui\u00e7\u00e3o, a economia, as institui\u00e7\u00f5es ou convocando plebiscitos de forma permanente, est\u00e3o todos muito fortes. Alguma li\u00e7\u00e3o haveria de retirar de tudo isso, por exemplo, que quando n\u00e3o \u00e9s valente, o povo te d\u00e1 as costas. Os povos preferem o original \u00e0 c\u00f3pia.<\/p>\n<p><strong>JM &#8211; Gostaria de conhecer tamb\u00e9m a sua opini\u00e3o sobre o papel jogado na Am\u00e9rica Latina pela social-democracia espanhola. Na dist\u00e2ncia, ao menos, d\u00e1 impress\u00e3o de que sua influ\u00eancia \u00e9 realmente importante na hora de salvaguardar os interesses econ\u00f4micos das empresas espanholas na regi\u00e3o ou de exportar \u201creceitas pol\u00edticas\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>AB &#8211; Sem d\u00favida nenhuma. A socialdemocracia espanhola basicamente \u00e9 uma cortina de fuma\u00e7a que esconde a prote\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas de saque que est\u00e3o levando a cabo muitas das empresas espanholas ali localizadas. Ai est\u00e1 o caso da Repsol, por exemplo. Ou o da Iberia, quando comprou os avi\u00f5es da Aerol\u00edneas Argentinas e seus escrit\u00f3rios por todo o mundo. Esta socialdemocracia nos vendeu tamb\u00e9m o modelo do Pacto de Moncloa, como exemplo a \u201cexitosa\u201d transi\u00e7\u00e3o espanhola e vem apropriando-se paralelamente de muitos meios de comunica\u00e7\u00e3o em nome do grupo Prisa que ficaram sujeitos aos grandes ditames dos Estados Unidos: r\u00e1dios, televis\u00f5es, di\u00e1rios, revistas, livros escolares&#8230; Como no Estado Espanhol. S\u00f3 que, na Am\u00e9rica Latina, o fato se agrava pelas condi\u00e7\u00f5es de pobreza, de atraso cultural, etc.<\/p>\n<p><strong>JM &#8211; Na longa lista de pa\u00edses nos quais est\u00e3o presentes estes interesses n\u00e3o podemos esquecer a Col\u00f4mbia&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>AB: &#8211; Exatamente. Sustentando a presen\u00e7a das empresas espanholas com a ajuda desse criminoso comum chamado \u00c1lvaro Uribe. Publiquei diversas reflex\u00f5es e ensaios sobre Uribe, alguns baseados nos documentos desclassificados pelos pr\u00f3prios EUA. Fica claro que j\u00e1 desde 1991, nos informes do DEA, \u00e9 o homem que articula as rela\u00e7\u00f5es entre o cartel de Medell\u00edn e o Governo colombiano para facilitar os neg\u00f3cios da droga. E isso o disse o pr\u00f3prio DEA. O dossi\u00ea de l\u00e1 para c\u00e1 \u00e9 incr\u00edvel . E a\u00ed est\u00e1 a socialdemocracia espanhola apoiando tudo isso&#8230; E sem que possamos chegar a explicar diretamente ao povo espanhol, porque o controle dos meios de comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 absolutamente feroz.<\/p>\n<p><strong>JM &#8211; Terminando, se lhe parecer adequado, falando desta crise planet\u00e1ria que, paradoxalmente, parece fortalecer uma vez mais as opini\u00f5es eleitorais dos partidos conservadores em todo o mundo. Como se explica este fen\u00f4meno?<\/strong><\/p>\n<p>AB &#8211; Creio que a chave de tudo isso \u00e9 o reflexo da grande vit\u00f3ria ideol\u00f3gica que o neoliberalismo conseguiu nos \u00faltimos quarenta anos. Ficou estabelecido que qualquer alternativa que n\u00e3o seja capitalista representa um del\u00edrio, uma aventura, uma salto no vazio. Creio que esta crise n\u00e3o vai ter a forma de um \u201cV\u201d, como dizem alguns, mas um \u201cL\u201d como j\u00e1 ocorreu no Jap\u00e3o a partir da d\u00e9cada de 90. Estamos ante uma crise profunda e de muita longa dura\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea acredita que o G20 pode resolv\u00ea-la? \u00c9 absolutamente pat\u00e9tico. N\u00f3s instru\u00edmos os m\u00e9dicos que envenenaram-nos para nos dar o rem\u00e9dio, a curar&#8230;<\/p>\n<p>Em definitivo, creio que estamos ante uma crise muito mais grave que as duas crises anteriores, a de 1929 e a de 1973. Em primeiro lugar porque nenhuma destas crises coincidiu com uma crise energ\u00e9tica. E mais, em paralelo se desenvolve uma crise alimentar que n\u00e3o tem propor\u00e7\u00f5es. Na Europa, na \u00c1frica, na \u00c1sia, na Am\u00e9rica Latina observamos motins motivados pela fome&#8230; Enquanto se utiliza uma \u00e1rea cada vez maior de terra para produ\u00e7\u00e3o de biocombust\u00edveis. Um exemplo: o pacto Bush-Lula firmado em S\u00e3o Paulo no ano de 2007&#8230; E finalmente vamos adicionar o tema das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas para entender que esta crise n\u00e3o teve paralelo na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Dado este estado de coisas, s\u00f3 podemos pensar na constru\u00e7\u00e3o de uma verdadeira economia p\u00f3s- capitalista. Chamemos-lhe como quisermos, se trata definitivamente de avan\u00e7ar no processo de desmercantiliza\u00e7\u00e3o de maneira muito acelerada. N\u00e3o podemos continuar com crit\u00e9rios mercantis para regular a rela\u00e7\u00e3o entre nossas sociedades e a natureza. E este deve ser um princ\u00edpio b\u00e1sico do mundo a construir: desmercantilizar a natureza, a sa\u00fade, a educa\u00e7\u00e3o, a seguran\u00e7a social &#8230;. Rebeli\u00f3n publicou este artigo com a permiss\u00e3o do autor, respeitando sua liberdade para public\u00e1-lo em outras fontes.<\/p>\n<p>O original encontra-se em: <a href=\"http:\/\/www.rebelion.org\/noticia.php?id=96979\" target=\"_self\">http:\/\/www.rebelion.org\/noticia.php?id=96979<\/a><\/p>\n<p>*Polit\u00f3logo e Soci\u00f3logo argentino. Site: <a href=\"http:\/\/www.atilioboron.com\" target=\"_self\">http:\/\/www.atilioboron.com<\/a>.<\/p>\n<p>Traduzido por: Dario da Silva<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Memorial da Am\u00e9rica Latina &#8211; Niemeyer\n\n\n\n\nAtilio Bor\u00f3n*, especialista em geopol\u00edtica.\n\u201cOs governos do Brasil, Argentina, Chile ou Uruguai consideram que a solu\u00e7\u00e3o dos problemas do capitalismo se encontram no pr\u00f3prio capitalismo\u201d\nZazpika-Gara (resumo da entrevista \u00e0 Rebeli\u00f3n)\nAtilio Bor\u00f3n \u00e9 um dos grandes nomes da sociologia latino-americana contempor\u00e2nea. Nasceu em Buenos Aires em 1943; suas obras se esgotam nas livrarias rapidamente. Talvez porque n\u00e3o seja um professor convencional e suas reflex\u00f5es insistem na necessidade de transformar a realidade, trabalhando por um mundo melhor. Um mundo no qual este \u201ccontinente de esperan\u00e7a\u201d, como o definira Salvador Allende, seja um exemplo de que realmente \u00e9 poss\u00edvel viver sem que o \u201cmercado\u201d regule nossas vidas e nossos sonhos.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/47\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-47","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-L","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=47"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=47"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=47"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=47"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}