{"id":4711,"date":"2013-04-28T21:12:58","date_gmt":"2013-04-28T21:12:58","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4711"},"modified":"2013-04-28T21:12:58","modified_gmt":"2013-04-28T21:12:58","slug":"ser-mercadoria-num-momento-historico-de-crise-radical-da-forma-mercadoria-entrevista-especial-com-giovanni-alves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4711","title":{"rendered":"Ser-mercadoria num momento hist\u00f3rico de crise radical da forma-mercadoria. Entrevista especial com Giovanni Alves"},"content":{"rendered":"\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/ser-mercadoria-num-momento-historico-de-crise-radical-da-forma-mercadoria-entrevista-especial-com-giovanni-alves\/519617-ser-mercadoria-num-momento-historico-de-crise-radical-da-forma-mercadoria-entrevista-especial-com-giovanni-alves\" target=\"_blank\">\u201cA maior amea\u00e7a aos direitos sociais dos trabalhadores brasileiros n\u00e3o \u00e9 a direita reacion\u00e1ria, mas sim a tibieza de parte da esquerda reformista hegem\u00f4nica incapaz de aprofundar, sem aventuras, mas com ousadia, as reformas sociais no pa\u00eds&#8221;, assevera o soci\u00f3logo.<\/a><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/outrasopinioes\" border=\"0\" align=\"right\" \/><\/p>\n<p><strong>Confira a entrevista.<\/strong><\/p>\n<p>A d\u00e9cada de 2000 foi de reorganiza\u00e7\u00e3o do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/514122-o-capitalismo-brasileiroornitorrinco-gera-o-brasil-invertebrado-entrevista-especial-com-reinaldo-goncalves\" target=\"_blank\">capitalismo brasileiro<\/a> com as grandes empresas aumentando investimentos produtivos, reordenando suas estrat\u00e9gias de neg\u00f3cios na perspectiva da concorr\u00eancia internacional acirrada.<\/p>\n<p>A opini\u00e3o \u00e9 de\u00a0<strong>Giovanni Alves<\/strong>, professor da Unesp, em entrevista concedida por e-mail \u00e0\u00a0<strong>IHU On-Line<\/strong>.<\/p>\n<p>Para ele,\u00a0 hoje temos \u201ca forma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia de classe e, portanto, a forma\u00e7\u00e3o da classe social capaz de promover mudan\u00e7as hist\u00f3ricas profundas no Brasil\u201d.<\/p>\n<p>\u201cNa \u00e9poca de crise estrutural do capital, &#8211; continua o soci\u00f3logo &#8211; a ren\u00fancia do sindicalismo \u00e0 forma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia de classe \u00e9 deveras muito perversa, pois o que a hist\u00f3ria est\u00e1 cada vez mais mostrando \u00e9 que n\u00e3o existe futuro com o capitalismo\u201d.<\/p>\n<p>Segundo ele, \u201ca \u2018captura\u2019 da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/507815-trabalhoimaterialeapropriacaodasubjetividade-humana-entrevistaespeicalcomsilviocamargo\" target=\"_blank\">subjetividade do trabalho<\/a> vivo adquiriu dimens\u00f5es amplas e intensivas. A l\u00f3gica da gest\u00e3o\u00a0<em>toyotizada<\/em> invadiu n\u00e3o apenas o ch\u00e3o de f\u00e1brica, mas os escrit\u00f3rios e reparti\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e at\u00e9 a vida cotidiana (no plano l\u00e9xico-locucional, por exemplo, trabalhador assalariado tornou-se mero \u2018colaborador\u2019, linguagem apropriada tamb\u00e9m por lideran\u00e7as sindicais). Enfim, a reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva assumiu novas dimens\u00f5es no plano do controle laboral\u201d.<\/p>\n<p><strong>Giovanni Alves<\/strong> (foto abaixo) \u00e9 professor da Faculdade de Filosofia e Ci\u00eancias do Departamento de Sociologia e Antropologia da Universidade Estadual Paulista J\u00falio de Mesquita Filho\u00a0\u2013 Unesp, no campus de Mar\u00edlia. Livre-docente em teoria sociol\u00f3gica, \u00e9 mestre em Sociologia e doutor em Ci\u00eancias Sociais pela Unicamp. Atualmente, desenvolve o projeto de pesquisa &#8220;A derreli\u00e7\u00e3o de \u00cdcaro\u00a0\u2013 Sonhos, expectativas e aspira\u00e7\u00f5es de jovens empregados do novo (e prec\u00e1rio) mundo do trabalho no Brasil (2003-2013)\u201d. \u00c9 autor de, entre outros,<em>Dimens\u00f5es da precariza\u00e7\u00e3o do trabalho\u00a0\u2013 Ensaios de sociologia do trabalho <\/em>(Bauru: Projeto editorial praxis, 2013).<\/p>\n<p><strong>Confira a entrevista.<\/strong><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line\u00a0\u2013 Como a revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica tem afetado o ch\u00e3o de f\u00e1brica, pensando na realidade brasileira dos \u00faltimos anos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Giovanni Alves<\/strong> \u2013 As grandes f\u00e1bricas no Brasil t\u00eam passado por profundas transforma\u00e7\u00f5es produtivas nos \u00faltimos anos. Desde o come\u00e7o da d\u00e9cada de 2000 alterou-se de forma significativa a morfologia do trabalho industrial no Brasil por conta das inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e organizacionais. Nos polos mais desenvolvidos da ind\u00fastria\u00a0\u2013 e tamb\u00e9m do setor de servi\u00e7os \u2013, as novas tecnologias inform\u00e1ticas de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/517689-cientistas-utilizam-celulas-vivas-para-produzir-pecas-eletronicas-minusculas-\" target=\"_blank\">base microeletr\u00f4nica<\/a> e tecnologias informacionais em rede alteraram o processo de produ\u00e7\u00e3o de mercadorias e a organiza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os de distribui\u00e7\u00e3o e servi\u00e7os financeiros e telecomunica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Se a d\u00e9cada de 1990 foi a d\u00e9cada da reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva que atingiu de forma disruptiva o mundo do capital e, por conseguinte, o mundo do trabalho no Brasil, ent\u00e3o a d\u00e9cada de 2000 foi a d\u00e9cada de reorganiza\u00e7\u00e3o do capitalismo brasileiro com as grandes empresas aumentando investimentos produtivos, reordenando suas estrat\u00e9gias de neg\u00f3cios na perspectiva da concorr\u00eancia internacional acirrada.<\/p>\n<p>A ofensiva do capital adquiriu uma dimens\u00e3o progressiva no sentido do investimento n\u00e3o apenas em capital fixo, mas principalmente investimentos em novas estrat\u00e9gias organizacionais e de gest\u00e3o da for\u00e7a de trabalho. Nesse sentido, disseminou-se o que eu denomino o \u201cesp\u00edrito\u201d do toyotismo, que assumiu um car\u00e1ter sist\u00eamico. A \u201ccaptura\u201d da subjetividade do trabalho vivo adquiriu dimens\u00f5es amplas e intensivas. A l\u00f3gica da gest\u00e3o toyotizada invadiu n\u00e3o apenas o ch\u00e3o de f\u00e1brica, mas os escrit\u00f3rios e reparti\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e at\u00e9 a vida cotidiana (no plano l\u00e9xico-locucional, por exemplo, trabalhador assalariado tornou-se mero \u201ccolaborador\u201d, linguagem apropriada tamb\u00e9m por lideran\u00e7as sindicais).<\/p>\n<p>Enfim, a reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva assumiu novas dimens\u00f5es no plano do controle laboral. Por ironia da hist\u00f3ria, o \u201cchoque de capitalismo\u201d prescrito em 1989 pelo candidato a presidente da Rep\u00fablica pelo PSDB,\u00a0<strong>M\u00e1rio Covas<\/strong>, foi aplicado pelo presidente da Rep\u00fablica\u00a0<strong>Luis In\u00e1cio Lula da Silva<\/strong>, do PT \u2013 \u00e9 claro, n\u00e3o o choque do capitalismo neoliberal, mas sim o choque do capitalismo neodesenvolvimentista.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line\u00a0\u2013 Quais as transforma\u00e7\u00f5es que a luta oper\u00e1ria sofreu no Brasil nos \u00faltimos anos? Quais as mudan\u00e7as de valores pelas quais passaram trabalhadores, empresas e sindicatos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Giovanni Alves<\/strong> \u2013 No contexto do choque de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/509442-neodesenvolvimentismo-uma-estrategia-de-propaganda-dos-governos-lula-e-dilma-entrevista-de-plinio-de-arruda-sampaio-jr\" target=\"_blank\">capitalismo neodesenvolvimentista<\/a> com domin\u00e2ncia financeira, a luta oper\u00e1ria assumiu um novo perfil pol\u00edtico-ideol\u00f3gico. Por um lado, o sindicalismo reavivou-se nos anos do lulismo e as centrais sindicais consolidaram-se institucionalmente. N\u00e3o podemos deixar de reconhecer a positividade do renascimento sindical no pa\u00eds depois dos anos de chumbo da \u201cd\u00e9cada neoliberal\u201d. Foram fechados bons acordos coletivos com reajuste salarial acima da infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas, por outro lado, o renascimento sindical possui um car\u00e1ter perverso no plano da consci\u00eancia de classe. Primeiro, porque o sindicalismo em geral, com destaque para a\u00a0<strong>CUT<\/strong>, maior central sindical do pa\u00eds, tornou-se um sindicalismo \u201coficialista\u201d, integrado financeiramente \u00e0s disposi\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-estatais, perdendo n\u00e3o apenas o car\u00e1ter contestat\u00f3rio da ordem burguesa (o que j\u00e1 ocorrera desde a d\u00e9cada de 1990), mas o car\u00e1ter de cr\u00edtica da ordem pol\u00edtica, na medida em que se identificou com os projetos dos governos\u00a0<strong>Lula<\/strong> e\u00a0<strong>Dilma<\/strong>. Tornou-se um sindicalismo \u201cchapa branca\u201d.<\/p>\n<p>Aprofundou-se no polo de esquerda social-democrata, o vi\u00e9s concertativo-propositivo e neocorporativo do sindicalismo hegem\u00f4nico no Brasil. Diante da ofensiva ideol\u00f3gica do capital nos locais de trabalho, os sindicatos ficaram passivos, incapazes de enfrentar o capital no campo da luta ideol\u00f3gica. Pelo contr\u00e1rio, incorporaram o discurso da ordem produtivista, rendendo-se aos valores empresariais. Ali\u00e1s, na d\u00e9cada de 2000, com o choque de capitalismo neodesenvolvimentista, a hegemonia empresarial aumentou no Brasil.<\/p>\n<p><strong>A subordina\u00e7\u00e3o do PT<\/strong><\/p>\n<p>Para n\u00e3o perder espa\u00e7o pol\u00edtico, o PT, partido da ordem e com for\u00e7a protag\u00f4nica no governo federal, subordinou-se ao discurso vigente. Enfim, a crise ideol\u00f3gica do sindicalismo rendido \u00e0s idiossincrasias empresariais decorre da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/508201-crise-internacional-esta-tudo-embaracado-numa-ideologia-fortissima-entrevista-especial-com-jose-carlos-de-assis\" target=\"_blank\">crise ideol\u00f3gica<\/a> do partido hegem\u00f4nico no movimento sindical: o\u00a0<strong>Partido dos Trabalhadores<\/strong>, subsumido, mais do que nunca, \u00e0 ordem burguesa hipertardia. A li\u00e7\u00e3o da fal\u00eancia da social-democracia na Europa n\u00e3o foi aprendida no Brasil. Aqui, a sucata ideol\u00f3gica da concerta\u00e7\u00e3o social est\u00e1 a pleno vapor rumo ao abismo (como diria\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=2444&amp;secao=287\" target=\"_blank\">Robert Kurz<\/a>).<\/p>\n<p>A burocracia sindical n\u00e3o se atentou que a crise profunda do capitalismo no centro desenvolvido do sistema, impulsiona com mais intensidade, a pervers\u00e3o do sindicalismo concertativo de cariz social-democrata, incapaz de conduzir a luta ideol\u00f3gica n\u00e3o apenas entre suas bases de trabalhadores assalariados, mas principalmente na sociedade em geral. O vi\u00e9s neocorporativo isolou, por exemplo, a\u00a0<strong>CUT<\/strong> e os grandes sindicatos das lutas sociais em geral.<\/p>\n<p>O choque de capitalismo neodesenvolvimentista colocou no centro da disputa social e pol\u00edtica, a luta ideol\u00f3gica que \u00e9 essencialmente uma disputa por valores. Com a crise europeia assiste-se \u00e0 fal\u00eancia irremedi\u00e1vel dos valores social-democratas. A perspectiva de um capitalismo humanizado \u00e9 n\u00e3o apenas uma impossibilidade hist\u00f3rica, hoje, mais do que nunca, mas uma ideologia farsesca que persegue o discurso social-democrata. Enfim, o que se coloca hoje \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia de classe e, portanto, a forma\u00e7\u00e3o da classe social capaz de promover mudan\u00e7as hist\u00f3ricas profundas no Brasil.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line\u00a0\u2013 Com a crise financeira internacional, o Estado de bem-estar social est\u00e1 se esfacelando na Europa. E no Brasil? Que impactos aparecem nesse sentido? Podemos dizer que os direitos sociais e trabalhistas n\u00e3o est\u00e3o sendo postos em risco em nosso pa\u00eds, diante da crise? E como ser\u00e1 dentro de 20 anos, por exemplo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Giovanni Alves<\/strong> \u2013 A crise europeia como crise do Estado de bem-estar social \u00e9, depois da queda do muro de Berlim, uma crise hist\u00f3rica ruptural da civiliza\u00e7\u00e3o do capital constitu\u00edda no p\u00f3s-guerra. Possui impactos radicais no plano pol\u00edtico-ideol\u00f3gico. Com um intervalo de pouco mais de vinte anos, cai por terra mais uma ilus\u00e3o hist\u00f3rica do s\u00e9culo XX: a ilus\u00e3o social-democrata. Depois da fal\u00eancia da ilus\u00e3o do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/noticias-anteriores\/22051-o-futuro-do-socialismo-a-revolucao-ja-aconteceu\" target=\"_blank\">socialismo estatal<\/a>, cai por terra o projeto social da concerta\u00e7\u00e3o entre capital e trabalho na Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que h\u00e1 tempos, pelo menos desde a implanta\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia em seu formato neoliberal, o modelo de Estado social europeu, constru\u00eddo no p\u00f3s-guerra, dava sinais de fal\u00eancia social, com o crescimento do desemprego de longa dura\u00e7\u00e3o, principalmente entre jovens trabalhadores, e a amplia\u00e7\u00e3o da mancha de precariedade laboral.<\/p>\n<p>O que presenciamos hoje com a crise da zona do Euro \u00e9 apenas o tiro de miseric\u00f3rdia no projeto socialdemocrata europeu. Todo social-democrata \u00e9 hoje um neoliberal envergonhado; ou ent\u00e3o, um\u00a0<strong>Dom Quixote de La Mancha<\/strong> p\u00f3s-moderno incapaz de perceber a fal\u00eancia irremedi\u00e1vel do modelo civilizat\u00f3rio do capitalismo concertativo. Na verdade, a crise europeia exige de n\u00f3s hoje, intelectuais cr\u00edticos, a cr\u00edtica radical do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista e modo de civiliza\u00e7\u00e3o burguesa.<\/p>\n<p><strong>Cen\u00e1rio brasileiro<\/strong><\/p>\n<p>No caso do Brasil, pa\u00eds capitalista hipertardio e sociedade burguesa dependente e carente de moderniza\u00e7\u00e3o, o tsunami da crise europeia ainda n\u00e3o chegou \u00e0s nossas praias tropicais. Parte significativa da intelectualidade pol\u00edtica e social da esquerda reformista no pa\u00eds ainda est\u00e1 fascinada pelo modelo social europeu ou Estado de bem-estar, o qual hoje nem os pr\u00f3prios europeus acreditam que possa se sustentar nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas de desenvolvimento de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.unisinos.br\/blogs\/ihu\/sem-categoria\/o-mundo-financeiro-altamente-instavel-e-fascinante\/\" target=\"_blank\">capitalismo financeirizado<\/a>.<\/p>\n<p>A mediocridade das nossas lideran\u00e7as de esquerda reformista \u00e9 indiscut\u00edvel. O reformismo social e pol\u00edtico no Brasil n\u00e3o se deu conta de que vive uma profunda crise ideol\u00f3gica. Muitos intelectuais neokeynesianos de esquerda acreditam que o modelo neodesenvolvimentista com domin\u00e2ncia financeira possa se sustentar por muito tempo, sem expor seus limites irremedi\u00e1veis como projeto civilizat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Os limites do projeto lulista no Brasil, com o aprofundamento da crise europeia e os impasses do capitalismo central sob a hegemonia financeira, tornam-se, com o avan\u00e7ar da conjuntura da d\u00e9cada de 2010, cada vez mais expl\u00edcitos, exigindo medidas mais ousadas de controle social e interven\u00e7\u00e3o na economia (o que arrepia os escr\u00fapulos da social-democracia quixotesca ou neoliberais envergonhados incrustados no governo).<\/p>\n<p>No Brasil, elo mais forte do capitalismo hegem\u00f4nico na Am\u00e9rica Latina, a incapacidade (ou tibieza) da social-democracia em aprofundar reformas de controle social e democratiza\u00e7\u00e3o do sistema pol\u00edtico-jur\u00eddico e econ\u00f4mico e,\u00a0<em>the last but not the least<\/em>, o sistema midi\u00e1tico, s\u00f3 abre espa\u00e7o, como na Europa em crise, para o avan\u00e7o das for\u00e7as conservadoras e reacion\u00e1rias da direita tupiniquim.<\/p>\n<p>Na verdade, \u00e9 o p\u00eandulo perverso da crise estrutural do capital que, no plano pol\u00edtico, oscila entre governos sociais-democratas med\u00edocres e governos conservadores e reacion\u00e1rios impenitentes, que amea\u00e7a nos pr\u00f3ximos anos os parcos direitos sociais dos trabalhadores brasileiros; p\u00eandulo perverso lastreado num sistema pol\u00edtico radicalmente corrompido, ineficaz e ineficiente para expressar a representa\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n<p>Portanto, a maior amea\u00e7a aos direitos sociais dos\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/509211-conjuntura-da-semana-o-mundo-do-trabalho-brasileiro-avancos-persistencias-e-desafios\" target=\"_blank\">trabalhadores brasileiros<\/a> n\u00e3o \u00e9 a direita reacion\u00e1ria, mas sim a tibieza de parte da esquerda reformista hegem\u00f4nica incapaz de aprofundar, sem aventuras, mas com ousadia, as reformas sociais no pa\u00eds. \u00c9 claro que a incapacidade pol\u00edtica da esquerda social-democrata deriva estruturalmente da mis\u00e9ria hist\u00f3rica dos intelectuais de esquerda radical no Brasil, incapazes de hegemonia social num cen\u00e1rio de viol\u00eancia simb\u00f3lica e manipula\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica historicamente estrutural da direita socialmente organizada.<\/p>\n<p>Enfim, na medida em que n\u00e3o se investe num processo de forma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia de classe social capaz de negar o estado de coisas existentes, com uma esquerda pol\u00edtica e sindical capaz de travar a luta ideol\u00f3gica, com mais criatividade e menos sectarismo, ampliando alian\u00e7as sociais e pol\u00edticas sem perder a radicalidade, fragiliza-se a capacidade de resist\u00eancia ao tsunami da crise europeia que se aproxima e, ao mesmo tempo, azeita-se a m\u00e1quina do p\u00eandulo perverso do capital em sua etapa de crise estrutural. Como diria\u00a0<strong>Marx<\/strong>,\u00a0<em>hic Rhodus, hic salta<\/em>.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line\u00a0\u2013 Como podemos interpretar a presen\u00e7a do <\/strong><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/518758-sindicato-participa-de-lancamento-de-novo-ford-no-abc\" target=\"_blank\">presidente do Sindicato dos Metal\u00fargicos do ABC<\/a><strong>, no evento de lan\u00e7amento de um ve\u00edculo da Ford do Brasil? Trata-se de uma mudan\u00e7a nas rela\u00e7\u00f5es entre capital e trabalho na regi\u00e3o considerada ber\u00e7o do sindicalismo brasileiro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Giovanni Alves<\/strong> \u2013 Trata-se apenas da comprova\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia de concerta\u00e7\u00e3o social adotada pelo\u00a0<strong>Sindicato dos Metal\u00fargicos do ABC \u2013 SMABC<\/strong>. No lugar da luta de classes e do sindicalismo de confronto, o SMABC adotou, h\u00e1 mais de vinte anos, a estrat\u00e9gia do sindicalismo propositivo, negociando com o capital as inova\u00e7\u00f5es produtivas no local de trabalho e colaborando com as grandes empresas montadoras. Pode-se dizer que existe uma \u201cparceria\u201d entre as montadoras e o\u00a0<strong>SMABC<\/strong>, \u201cparceria conflituosa\u201d que ocasionalmente provoca rusgas entre os parceiros, mas nada que abale a confian\u00e7a ideol\u00f3gica na ideia da concerta\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Primeiro, \u00e9 preciso salientar que o sindicalismo brasileiro n\u00e3o nasceu na regi\u00e3o do ABC paulista. O que nasceu l\u00e1 foi o saudoso \u201cnovo sindicalismo\u201d, que surgiu nas grandes greves de 1979 e 1980, ber\u00e7o do\u00a0<strong>PT<\/strong> e da\u00a0<strong>CUT<\/strong>. Entretanto, nos \u00faltimos trinta anos, o novo sindicalismo envelheceu muito rapidamente e tornou-se um sindicalismo pragm\u00e1tico, propositivo, neocorporativo e bastante eficaz na pr\u00e1tica da negocia\u00e7\u00e3o coletiva tendo como base a organiza\u00e7\u00e3o por local de trabalho (as comiss\u00f5es de f\u00e1brica). O\u00a0<strong>SMABC<\/strong> \u00e9 enraizado nas f\u00e1bricas e isso \u00e9 uma singularidade local constru\u00edda historicamente pela negocia\u00e7\u00e3o e luta oper\u00e1ria. Poucos sindicatos t\u00eam essa base nos locais de trabalho.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line\u00a0\u2013 A partir das novas rela\u00e7\u00f5es de trabalho, podemos identificar ainda uma solidariedade entre classes? O que pesa mais diante das negocia\u00e7\u00f5es trabalhistas em nossos dias?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Giovanni Alves<\/strong> \u2013 As novas rela\u00e7\u00f5es de trabalho nascem constrangidas pela realidade da crise estrutural do capital que pressiona as empresas a inovarem vorazmente visando garantir melhores custos de produ\u00e7\u00e3o e pressiona os sindicatos a renunciarem \u00e0 ideologia da luta de classes e assumirem o sindicalismo propositivo e de colabora\u00e7\u00e3o de classes. Visando preservar suas bases, muitos sindicatos aderem de modo pragm\u00e1tico \u00e0 nova realidade da concorr\u00eancia capitalista, aproximando-se do horizonte ideol\u00f3gico das empresas. Fazem greve, mas por empresas, evitando politiz\u00e1-las, isto \u00e9, generaliz\u00e1-las e dar-lhes um conte\u00fado pol\u00edtico-ideol\u00f3gico da luta de classes.<\/p>\n<p>A luta sindical tornou-se mais amesquinhada pelo economicismo, em parte devido \u00e0s pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es da ofensiva do capital na produ\u00e7\u00e3o que reduziu o poder de barganha de muitos sindicatos; muitas vezes tamb\u00e9m as novas condi\u00e7\u00f5es da acumula\u00e7\u00e3o capitalista, a acumula\u00e7\u00e3o flex\u00edvel, colocam imensas dificuldades para a negocia\u00e7\u00e3o coletiva nos termos da preserva\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia de classe, fazendo com que sindicalistas com baixa forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-intelectual sucumbam \u00e0 mediocridade geral, tornando-se meros gestores da for\u00e7a de trabalho e dos neg\u00f3cios capitalistas.<\/p>\n<p>O sindicalismo brasileiro \u2013 tal como ocorre na maioria dos pa\u00edses capitalistas \u2013 n\u00e3o est\u00e1 preparado para aquilo que\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/506929-crise-beneficia-os-mais-ricos-afirma-david-harvey\" target=\"_blank\">David Harvey<\/a> intitulou \u201ccondi\u00e7\u00e3o p\u00f3s-moderna\u201d. O que significa que se fecharam no burocratismo, neocorporativismo e pragmatismo venal, amesquinhando mais ainda a luta sindical (que\u00a0<strong>Lenin<\/strong> denominava de \u201cluta cinzenta\u201d). Este fechamento do horizonte ideol\u00f3gico do sindicalismo muitas vezes fez os sindicatos tornarem-se eficazes tecnicamente na negocia\u00e7\u00e3o coletiva, mas em detrimento da sua capacidade moral-pol\u00edtica de forma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia de classe. O que pode ser constatado pelo desprezo pela forma\u00e7\u00e3o sindical com car\u00e1ter pol\u00edtico-ideol\u00f3gico. O caso exemplar \u00e9 a\u00a0<strong>CUT<\/strong> que adotou o discurso da cidadania (sindicato-cidad\u00e3o) e deixou de lado o discurso da classe trabalhadora como sujeito protag\u00f4nico da constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade sem exploradores e explorados.<\/p>\n<p>Mas, como dizemos, a crise da\u00a0<strong>CUT<\/strong> \u00e9 a crise do\u00a0<strong>PT<\/strong>. N\u00e3o adianta responsabilizar o sindicalismo pela crise do intelectual org\u00e2nico de classe. Na \u00e9poca de crise estrutural do capital, a ren\u00fancia do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/515628-a-situacao-do-sindicalismo-no-brasil-entrevista-com-armando-boito-junior\" target=\"_blank\">sindicalismo<\/a> \u00e0 forma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia de classe \u00e9 deveras muito perversa, pois o que a hist\u00f3ria est\u00e1 cada vez mais mostrando \u00e9 que n\u00e3o existe futuro com o capitalismo. Entretanto, caso n\u00e3o seja constru\u00eddo o sujeito hist\u00f3rico-pol\u00edtico de classe capaz de negar o estado de coisas existentes, por meio de um processo de democratiza\u00e7\u00e3o radical da sociedade, a crise capitalista s\u00f3 tender\u00e1 a aprofundar mais ainda a barb\u00e1rie social como modo de reprodu\u00e7\u00e3o do capital em sua etapa de crise estrutural.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line\u00a0\u2013 O que \u00e9 o \u201ctrabalho ideol\u00f3gico\u201d e como ele pode ser medido, mensurado, avaliado?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Giovanni Alves<\/strong> \u2013 Apresentei o conceito de \u201ctrabalho ideol\u00f3gico\u201d no meu novo livro \u2013 intitulado\u00a0<em>Dimens\u00f5es da precariza\u00e7\u00e3o do trabalho<\/em> (Pr\u00e1xis, 2013). O trabalho, como categoria ontol\u00f3gica fundante (e fundamental) do ser social, \u00e9 formado por posi\u00e7\u00f5es teleol\u00f3gicas que, em cada oportunidade, p\u00f5em em movimento s\u00e9ries causais; como disse\u00a0<strong>Vygotsky<\/strong>, ele implica tanto instrumentos quanto signos, elementos de media\u00e7\u00e3o das posi\u00e7\u00f5es teleol\u00f3gicas compositivas do processo de trabalho (<strong>Luk\u00e1cs<\/strong> diria: posi\u00e7\u00f5es teleol\u00f3gicas prim\u00e1rias e posi\u00e7\u00f5es teleol\u00f3gicas secund\u00e1rias).<\/p>\n<p>Todo trabalho humano, incluindo o trabalho ideol\u00f3gico, implica a articula\u00e7\u00e3o de instrumentos e signos. Entretanto, no caso do \u201ctrabalho ideol\u00f3gico\u201d, os signos tornam-se essenciais para a realiza\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o teleol\u00f3gica secund\u00e1ria: por isso a a\u00e7\u00e3o sobre outros homens. Na medida em que se desenvolve a sociedade de servi\u00e7os e amplia-se a escala dos conflitos sociais, o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/514440-mensalao-foi-possivel-por-um-desvio-ideologico\" target=\"_blank\">trabalho ideol\u00f3gico<\/a>, formado por posi\u00e7\u00f5es teleol\u00f3gicas secund\u00e1rias, constitui hoje amplamente a esfera das ocupa\u00e7\u00f5es profissionais vinculadas \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o e controle social.<\/p>\n<p>O trabalho ideol\u00f3gico constitui a natureza material de diversas ocupa\u00e7\u00f5es profissionais no interior da divis\u00e3o social do trabalho. Por exemplo, ele caracteriza o trabalho de forma\u00e7\u00e3o e informa\u00e7\u00e3o (professores e jornalistas), o trabalho de regula\u00e7\u00e3o e normatividade (ju\u00edzes e policiais), o trabalho de convencimento (publicit\u00e1rios), o trabalho do cuidado (m\u00e9dicos, enfermeiros, psic\u00f3logos e assistentes sociais), etc. O trabalho ideol\u00f3gico das profiss\u00f5es vocacionadas exige, do homem-que-trabalha, cuidado, abnega\u00e7\u00e3o e doa\u00e7\u00e3o (como, por exemplo, o trabalho do formador ou o trabalho assistencial). Finalmente, enquanto modalidades de trabalho assalariado no setor privado ou no setor p\u00fablico, elas s\u00e3o regidas pela l\u00f3gica do trabalho abstrato, subsumindo-se diretamente ou por deriva\u00e7\u00e3o, aos par\u00e2metros de produtividade. O que significa que, na sociedade do capital, o trabalho ideol\u00f3gico impregna-se da l\u00f3gica do trabalho estranhado.<\/p>\n<p>Na medida em que a forma material do trabalho ideol\u00f3gico impregna-se da forma social do capital, caracterizada pelo trabalho estranhado, constitui-se uma implica\u00e7\u00e3o subjetiva de natureza perversa. O que explica, de certo modo, o crescimento do adoecimento laboral, principalmente transtornos mentais, nas categorias de trabalhadores assalariados vinculados ao \u201ctrabalho ideol\u00f3gico\u201d. Devido \u00e0 sua forma de ser (trabalho imaterial), o trabalho ideol\u00f3gico como trabalho concreto \u00e9 recalcitrante \u00e0 quantifica\u00e7\u00e3o e \u00e0s medidas da lei do valor. Ele n\u00e3o pode ser medido ou avaliado de acordo com a \u201cr\u00e9gua\u201d da lei do valor. De forma arbitr\u00e1ria, o capital utiliza para avaliar a produ\u00e7\u00e3o da \u201csa\u00fade\u201d ou \u201ceduca\u00e7\u00e3o, a mesma r\u00e9gua que avalia a produ\u00e7\u00e3o de carros e salsichas\u201d. Na verdade, os crit\u00e9rios de produtividade do \u201ctrabalho ideol\u00f3gico\u201d, imbu\u00eddos do produtivismo capitalista, s\u00e3o meros simulacros pr\u00f3prios da \u00e9poca do capitalismo fict\u00edcio, um capitalismo descolado da pr\u00f3pria objetividade da lei do valor-trabalho (que o diga a predomin\u00e2ncia, hoje, do capital fict\u00edcio).<\/p>\n<p>Na verdade, como explico no livro, esta \u00e9 uma das naturezas da crise do capital: a desmedida do valor, tendo em vista que muitas atividades de servi\u00e7os capitalistas que implicam \u201ctrabalho ideol\u00f3gico\u201d n\u00e3o se adequam materialmente \u00e0 forma social do capital. \u00c9 o t\u00edpico caso de inadequa\u00e7\u00e3o da forma material \u00e0 forma social do valor, elemento crucial da crise de valoriza\u00e7\u00e3o nas condi\u00e7\u00f5es da crise estrutural do capital.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line\u00a0\u2013 O que marca as novas formas de controle sobre os trabalhadores contempor\u00e2neos? Quais os desafios se considerarmos um controle sobre a subjetividade do trabalhador?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Giovanni Alves<\/strong> \u2013 As novas formas de controle sobre os trabalhadores contempor\u00e2neos s\u00e3o marcados pelo \u201cesp\u00edrito\u201d do\u00a0<em>toyotismo<\/em>, conceito tratado por mim no livro\u00a0<em>Trabalho e subjetividade<\/em> (Boitempo, 2011). N\u00e3o se trata meramente de dispositivos organizacionais pr\u00f3prios do modelo japon\u00eas, mas sim de uma pletora de valores-fetiches que impregnam o metabolismo social do trabalho estranhado nas condi\u00e7\u00f5es da acumula\u00e7\u00e3o flex\u00edvel.<\/p>\n<p>O \u201cesp\u00edrito\u201d do toyotismo caracteriza-se ent\u00e3o pela \u201ccaptura\u201d da subjetividade do homem-que-trabalha pelas disposi\u00e7\u00f5es estranhadas do capital. \u00c9 a l\u00f3gica da gest\u00e3o hegem\u00f4nica n\u00e3o apenas na ind\u00fastria, mas nos servi\u00e7os e administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, que articula novas modalidades de remunera\u00e7\u00e3o baseada em cumprimento de metas e jornada de trabalho flex\u00edvel, al\u00e9m de uma crescente carga ideol\u00f3gica nos treinamentos que assumem mais um car\u00e1ter psicol\u00f3gico-comportamental do que t\u00e9cnico-profissional.<\/p>\n<p>Na verdade, os treinamentos das empresas atuam mais sobre o trabalho vivo do que sobre a for\u00e7a de trabalho: treina-se hoje nas empresas mais para se manipular e conformar o oper\u00e1rio ou empregado na linha da \u201cautoajuda\u201d empresarial, incutindo-lhes valores-fetiches do capital; do que para formar tecnicamente e operacionalmente a for\u00e7a de trabalho. Ao mesmo tempo,\u00a0<em>pari passu<\/em> ao ambiente do \u201ctrabalho em equipe\u201d e a proclama\u00e7\u00e3o da ideologia da colabora\u00e7\u00e3o, disseminam-se, nos novos locais de trabalho reestruturados, formas perversas de press\u00e3o psicol\u00f3gica que os gestores fazem sobre o trabalho vivo (o ass\u00e9dio moral).<\/p>\n<p>No plano do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/noticias-anteriores\/12055-voces-do-mercado-de-trabalho-sao-a-graxa-do-capitalismo-moderno\" target=\"_blank\">mercado de trabalho<\/a>, as novas formas de contrata\u00e7\u00e3o flex\u00edvel que se disseminam fecham o cerco sobre a subjetividade do trabalhador assalariado na medida em que contribuem para a dessubjetiva\u00e7\u00e3o de classe, tendo em vista que s\u00e3o os trabalhadores precarizados, trabalhadores assalariados em geral pouco organizados, que perdem o referencial coletivo do em si da classe, ocorrendo, desse modo, a subordina\u00e7\u00e3o total da individualidade pessoal \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de \u201cclasse\u201d ou condi\u00e7\u00e3o de proletariedade.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line\u00a0\u2013 Como ocorre a articula\u00e7\u00e3o entre mente e corpo do homem-que-trabalha no s\u00e9culo XXI?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Giovanni Alves<\/strong> \u2013 Como salientei acima, a ideia de \u201ccaptura\u201d da subjetividade do homem-que-trabalha pressup\u00f5e uma nova articula\u00e7\u00e3o entre mente e corpo, muito mais sofisticada do que aquela que havia na \u00e9poca do fordismo-taylorismo. Por isso, a vig\u00eancia da l\u00f3gica do toyotismo como \u201cesp\u00edrito\u201d intelectual-moral da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/23165-a-crise-sistemica-do-sistema-capitalista-entrevista-especial-com-francois-sabado\" target=\"_blank\">gest\u00e3o capitalista<\/a>. Com as novas tecnologias de base informacional e a crise estrutural do capital, que produz contradi\u00e7\u00f5es insanas no plano da produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o do valor, as estrat\u00e9gias de gest\u00e3o capitalista baseiam-se cada vez mais no envolvimento do trabalho vivo na produ\u00e7\u00e3o do capital. \u00c9 uma perversa ironia da hist\u00f3ria que o capitalismo da grande ind\u00fastria, que \u201cnegou\u201d o lugar do trabalho vivo na produ\u00e7\u00e3o de valor, seja obrigado a rep\u00f4-lo contraditoriamente nas novas condi\u00e7\u00f5es do desenvolvimento capitalista e produ\u00e7\u00e3o do capital. \u00c9 por isso que estamos numa nova forma social de produ\u00e7\u00e3o do capital que eu denomino (no meu livro chamado<em>Dimens\u00f5es da precariza\u00e7\u00e3o do trabalho<\/em>) de \u201cmaquinofatura\u201d.<\/p>\n<p>A \u201cmaquinofatura\u201d \u00e9 a forma social no interior da qual o capital, em sua etapa de crise estrutural, reproduz suas candentes contradi\u00e7\u00f5es. Portanto, a maquinofatura, como a manufatura e a grande ind\u00fastria, n\u00e3o \u00e9 apenas um \u201cmodelo\u201d de organiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de mercadorias, mas principalmente um modo de controle estranhado do metabolismo social e, portanto, de articula\u00e7\u00e3o entre mente e corpo. \u00c9 uma forma de produ\u00e7\u00e3o social no interior da qual ocorre o desenvolvimento da produ\u00e7\u00e3o do capital. \u00c9 a vig\u00eancia da terceira forma de produ\u00e7\u00e3o do capital (a maquinofatura) que explica, por exemplo, a presen\u00e7a enquanto momento predominante da reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva do capital, da \u201ccaptura\u201d da subjetividade do homem-que-trabalha e das novas formas de estranhamento que dilaceram o n\u00facleo humano-gen\u00e9rico.<\/p>\n<p>Nesse caso, o capital atinge seu limite radical, isto \u00e9, o capital atinge a sua pr\u00f3pria raiz, o homem, ou melhor, as rela\u00e7\u00f5es sociais no sentido da constitui\u00e7\u00e3o\/deforma\u00e7\u00e3o do sujeito hist\u00f3rico como homem-que-trabalha. O toyotismo como ideologia org\u00e2nica da produ\u00e7\u00e3o de mercadorias surgiu no seio da maquinofatura, na medida em que a \u201ccaptura\u201d da subjetividade do homem-que-trabalha pelo capital tornou-se seu nexo essencial. O capitalismo manipulat\u00f3rio inaugura a era da maquinofatura como deriva\u00e7\u00e3o l\u00f3gica (e ontol\u00f3gica) da grande ind\u00fastria.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, a epidemiologia laboral nas condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas da maquinofatura caracteriza-se pelo predom\u00ednio do adoecimento da mente, na medida em que o que est\u00e1 sob tens\u00e3o \u00e9 (como na manufatura) o homem integral. Entretanto, enquanto na manufatura o que est\u00e1 posto \u00e9 o homem como for\u00e7a de trabalho, na maquinofatura o que est\u00e1 posto em quest\u00e3o \u00e9 o homem como trabalho vivo. Nas condi\u00e7\u00f5es do capitalismo manipulat\u00f3rio opera-se de modo radical a redu\u00e7\u00e3o do trabalho vivo \u00e0 for\u00e7a de trabalho como mercadoria \u2013 e pior: ser-mercadoria num momento hist\u00f3rico de crise radical da forma-mercadoria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nIH \u2013 26.4.2013\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4711\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-4711","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1dZ","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4711","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4711"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4711\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4711"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4711"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4711"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}