{"id":4722,"date":"2013-04-30T00:14:05","date_gmt":"2013-04-30T00:14:05","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4722"},"modified":"2013-04-30T00:14:05","modified_gmt":"2013-04-30T00:14:05","slug":"inflacao-dos-alimentos-esta-ligada-a-hegemonia-do-agronegocio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4722","title":{"rendered":"Infla\u00e7\u00e3o dos alimentos est\u00e1 ligada \u00e0 hegemonia do agroneg\u00f3cio"},"content":{"rendered":"\n<p>&#8220;Olha o meu cord\u00e3o! Tomates! Estou usando ouro\u201d, disse a apresentadora<strong> Ana Maria Braga<\/strong>, do programa Mais Voc\u00ea, da Rede Globo, no dia 10 de abril.<\/p>\n<p>Ela proferiu essa frase e fez o programa inteiro usando um colar feito de tomates, em &#8220;protesto\u201d ao aumento do pre\u00e7o.<\/p>\n<p>A reportagem \u00e9 de <strong>Jos\u00e9 Coutinho J\u00fanior<\/strong> e publicada pela <strong>P\u00e1gina do MST<\/strong>, 25-04-2013.<\/p>\n<p>Diversas piadas em rela\u00e7\u00e3o ao pre\u00e7o alto do tomate se espalharam pela internet nas \u00faltimas semanas. Muito se discutiu na imprensa sobre a alta do pre\u00e7o, alardeando o crescimento da infla\u00e7\u00e3o provocado pela alta dos alimentos e que o aumento na taxa de juros seria a medida principal no controle da infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para o economista <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/518921-brasil-sera-sempre-o-ultimo-a-crescer-entrevista-especial-com-guilherme-delgado\" target=\"_blank\"><strong>Guilherme Delgado<\/strong><\/a>, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea), o aumento dos juros para controlar a infla\u00e7\u00e3o tem custos econ\u00f4micos e sociais.<\/p>\n<p>&#8220;A eleva\u00e7\u00e3o da taxa de juros Selic pelo governo (de 7,25% a 7,5%) n\u00e3o tem nenhum efeito do ponto de vista da conten\u00e7\u00e3o inflacion\u00e1ria, mas atende a apetites midi\u00e1ticos e simb\u00f3licos. A linha de conten\u00e7\u00e3o da demanda via eleva\u00e7\u00e3o de juros e redu\u00e7\u00e3o do gasto social aparece como uma forma de conter a infla\u00e7\u00e3o, mas tem custo de muitos empregos e desacelera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. N\u00e3o me parece que seja essa a via que o governo est\u00e1 seguindo\u201d, acredita.<\/p>\n<p>O uso pol\u00edtico da alta do tomate para for\u00e7ar o aumento de juros se torna mais evidente ao analisar a queda brusca do pre\u00e7o do tomate.<\/p>\n<p>A infla\u00e7\u00e3o do tomate em mar\u00e7o foi de 122,13%, sendo que no meio de abril o pre\u00e7o j\u00e1 havia ca\u00eddo mais de 75%.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a farinha de trigo teve um aumento de pre\u00e7o maior que o tomate (151,39%) por conta da seca no nordeste e n\u00e3o recebeu tanta aten\u00e7\u00e3o dos colunistas e da m\u00eddia quanto o tomate.<\/p>\n<p>&#8220;O tomate \u00e9 um produto de cultivo c\u00edclico de 90 dias.Se est\u00e1 faltando no mercado \u00e9 porque os agricultores est\u00e3o plantando.O pre\u00e7o que estava muito alto come\u00e7a a diminuir quando o plantio novo chega. A produ\u00e7\u00e3o do tomate n\u00e3o \u00e9 relevante para explicar a press\u00e3o inflacion\u00e1ria, porque sen\u00e3o temos um discurso puramente sazonal. Todas as economias do mundo, em todas as \u00e9pocas, t\u00eam problemas sazonais. E isso n\u00e3o \u00e9 causa de infla\u00e7\u00e3o\u201d, afirma <strong>Delgado<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Gerson Teixeira<\/strong>, presidente da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Reforma Agr\u00e1ria (Abra), concorda. &#8220;Existe sim um problema de press\u00e3o dos pre\u00e7os dos alimentos, mas o tomate foi usado como um vil\u00e3o para pressionar o governo a aumentar a Selic&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;O impacto do pre\u00e7o do tomate na taxa de infla\u00e7\u00e3o \u00e9 m\u00ednimo, em torno de 0.2%\u201d, afirma <strong>Teixeira<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Pol\u00edtica Agr\u00e1ria<\/strong><\/p>\n<p>Os especialistas avaliam que a alta inflacion\u00e1ria dos alimentos se deve, em grande parte, \u00e0 pol\u00edtica agr\u00edcola adotada pelo governo brasileiro, que prioriza as exporta\u00e7\u00f5es do agroneg\u00f3cio em vez do abastecimento interno.<\/p>\n<p>Dados apontam que, de 1990 para 2011, as \u00e1reas plantadas com alimentos b\u00e1sicos como arroz, feij\u00e3o, mandioca e trigo declinaram, respectivamente, 31%, 26%, 11% e 35%. J\u00e1 as de produtos do agroneg\u00f3cio exportador, como a cana e soja, aumentaram 122% e 107%.<\/p>\n<p>&#8220;Precisamos pensar melhor em como atender a demanda interna e externa para resguardar a estabilidade de pre\u00e7os nos produtos alimentares. Hoje, pensamos em resolver o equil\u00edbrio externo, exportar a qualquer custo para obter super\u00e1vit na balan\u00e7a comercial e o menor d\u00e9ficit poss\u00edvel na balan\u00e7a corrente. E o res\u00edduo das exporta\u00e7\u00f5es fica com o mercado interno para resolver as quest\u00f5es de estabilidade. Essa equa\u00e7\u00e3o est\u00e1 equivocada e precisa ser reformulada\u201d, afirma <strong>Delgado<\/strong>.<\/p>\n<p>Esse cen\u00e1rio faz com que o Brasil dependa de importa\u00e7\u00f5es de alimentos b\u00e1sicos para suprir seu mercado interno. No ano passado, o pa\u00eds importou US$ 334 milh\u00f5es em arroz, equivalente a 50% do valor aplicado no custeio da lavoura em n\u00edvel nacional. No caso do trigo, o valor das importa\u00e7\u00f5es foi de US$ 1,7 bi, duas vezes superior ao destinado para o custeio da lavoura, e a produ\u00e7\u00e3o de mandioca atualmente \u00e9 a mesma de 1990.<\/p>\n<p>Para controlar os pre\u00e7os e garantir o abastecimento interno, o governo come\u00e7a a adotar a cria\u00e7\u00e3o de estoques reguladores por meio da <strong>Companhia Nacional de Abastecimento (Conab<\/strong>).<\/p>\n<p>Essas &#8220;reservas&#8221; permitem ao governo intervir caso o pre\u00e7o dos alimentos esteja fora do padr\u00e3o determinado, e comprar ou vender esses alimentos, com \u00eanfase especial nos que comp\u00f5em a cesta b\u00e1sica para equilibrar os valores.<\/p>\n<p>Segundo <strong>Gerson Teixeira<\/strong>, os estoques s\u00e3o estrat\u00e9gicos. &#8220;Deixamos de estocar na d\u00e9cada de 90, pois prevalece at\u00e9 hoje a tese neoliberal da autorregula\u00e7\u00e3o do mercado. Qual o resultado? N\u00e3o temos estoques de alimentos capazes de impedir a alta dos pre\u00e7os&#8221;, denuncia.<\/p>\n<p>&#8220;A pol\u00edtica de estoques regulares e estrat\u00e9gicos \u00e9 fundamental. A presidenta <strong>Dilma<\/strong> assinou uma medida importante em fevereiro, criando um conselho interministerial para formar estoques p\u00fablicos de alimentos. \u00c9 uma medida extremamente necess\u00e1ria nesses tempos de volatilidade do mercado agr\u00edcola\u201d, defende.<\/p>\n<p><strong>Fortalecimento da agricultura familiar<\/strong><\/p>\n<p>A agricultura familiar e os assentamentos da Reforma Agr\u00e1ria, de acordo com dados do <strong>Censo Agropecu\u00e1rio de 2006<\/strong>, ocupam 30% das terras agricult\u00e1veis do pa\u00eds, mas produzem 70% dos alimentos consumidos pelos brasileiros.<\/p>\n<p>Dessa forma, as pol\u00edticas para fortalecer a agricultura familiar s\u00e3o uma alternativa para controlar a alta dos pre\u00e7os dos alimentos, garantir o abastecimento interno e diminuir a depend\u00eancia externa do Brasil em rela\u00e7\u00e3o aos alimentos b\u00e1sicos.<\/p>\n<p>&#8220;Os assentamentos de Reforma Agr\u00e1ria e o campesinato em geral tem uma especializa\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o de alimentos. Esse setor, se for devidamente fomentado, pode produzir em grande quantidade os produtos da cesta b\u00e1sica. \u00c9 uma via importante e necess\u00e1ria a ser trabalhada. Mas n\u00e3o me parece que o governo esteja muito atento a isso, pois para ele o agroneg\u00f3cio resolve tudo, o que n\u00e3o \u00e9 verdade\u201d, acredita <strong>Guilherme Delgado<\/strong>.<\/p>\n<p>Gerson Teixeira acredita que, para alterar este cen\u00e1rio, \u00e9 preciso ir al\u00e9m de incluir os camponeses no meio de produ\u00e7\u00e3o rural, mas qualificar uma produ\u00e7\u00e3o diferente do agroneg\u00f3cio, que leva os produtores a abandonar a produ\u00e7\u00e3o de alimentos da cesta b\u00e1sica para plantar ascommoditiesvalorizadas no mercado internacional.<\/p>\n<p>&#8220;O que precisa ser feito mesmo \u00e9 rever a pol\u00edtica agr\u00edcola e fazer a Reforma Agr\u00e1ria. O <strong>Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf<\/strong>) est\u00e1 completamente esgotado. Ele realizou uma pol\u00edtica de inclus\u00e3o social nas pol\u00edticas agr\u00edcolas, que aproximou a agricultura familiar do agroneg\u00f3cio. Precisamos rever essa pol\u00edtica e colocar o Pronaf n\u00e3o como uma estrat\u00e9gia de inclus\u00e3o, mas de diferencia\u00e7\u00e3o para habilitar realmente o agricultor a produzir alimentos de qualidade\u201d, prop\u00f5e<strong>Teixeira<\/strong>.<\/p>\n<p>Dados do <strong>Pronaf<\/strong> revelam que, ao comparar 2003 com 2012, o n\u00famero de opera\u00e7\u00f5es de custeio de arroz com agricultores familiares declinou de 34.405 para 7.790 (-77.4%).<\/p>\n<p>No caso do feij\u00e3o, o n\u00famero de contratos de custeio pelo <strong>Pronaf<\/strong> reduziu de 57.042 para 10.869 (-81%). Os contratos para o custeio da mandioca ca\u00edram de 65.396 para 20.371 (-69%), e para o custeio de milho declinaram de 301.741 para 170.404 (-44%).<\/p>\n<p><strong>Teixeira<\/strong> demonstra preocupa\u00e7\u00e3o com o futuro da agricultura brasileira, diante do quadro de amea\u00e7as de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, em um cen\u00e1rio de enormes desafios para a alimenta\u00e7\u00e3o de uma popula\u00e7\u00e3o mundial crescente e de expans\u00e3o da urbaniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;No Brasil, assistimos \u00e0 passividade e um recuo &#8216;inexplic\u00e1vel&#8217; na execu\u00e7\u00e3o da Reforma Agr\u00e1ria, que \u00e9 crucial para o incremento massivo da produ\u00e7\u00e3o alimentar. \u00c9 inacredit\u00e1vel que n\u00e3o vejam que o agroneg\u00f3cio corre s\u00e9rios riscos de colapso nesse ambiente\u201d, lamenta <strong>Teixeira<\/strong>.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/519663-inflacao-dos-alimentos-esta-ligada-a-hegemonia-do-agronegocio\" target=\"_blank\">http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/519663-inflacao-dos-alimentos-esta-ligada-a-hegemonia-do-agronegocio<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4722\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[54],"tags":[],"class_list":["post-4722","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c65-lulismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1ea","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4722","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4722"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4722\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4722"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4722"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4722"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}