{"id":4723,"date":"2013-04-30T00:19:36","date_gmt":"2013-04-30T00:19:36","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4723"},"modified":"2013-04-30T00:19:36","modified_gmt":"2013-04-30T00:19:36","slug":"funeral-digno-de-um-ditador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4723","title":{"rendered":"Funeral digno de um ditador"},"content":{"rendered":"\n<p align=\"justify\">Ap\u00f3s o desaparecimento de Thatcher, recordo suas v\u00edtimas. A filha de Patrick Warby, Marie, foi uma delas. Marie, com cinco anos, sofria de uma deformidade do intestino e precisava de uma dieta especial. Sem ela, o sofrimento era aflitivo. Seu pai era um mineiro de Durham e gastara todas as suas poupan\u00e7as. Era o Inverno de 1985, a Grande Greve tinha quase um ano e a fam\u00edlia estava empobrecida. Embora a necessidade de opera\u00e7\u00e3o n\u00e3o fosse contestada, o Departamento de Seguran\u00e7a Social recusou ajuda a Marie. Posteriormente, obtive registos do caso mostrando que Marie fora recusada porque o seu pai era &#8220;influenciado por uma disputa sindical&#8221;.<\/p>\n<p>A corrup\u00e7\u00e3o e desumanidade sob Thatcher n\u00e3o conheciam fronteiras. Quando chegou ao poder em 1979, Thatcher pediu uma proibi\u00e7\u00e3o total de exporta\u00e7\u00f5es de leite para o Vietname. A invas\u00e3o americana havia deixado um ter\u00e7o das crian\u00e7as vietnamitas desnutridas.<\/p>\n<p>Testemunhei muitas vis\u00f5es penosas, incluindo crian\u00e7as a ficarem cegas devido \u00e0 falta de vitaminas. &#8220;N\u00e3o posso tolerar isto&#8221;, disse um m\u00e9dico angustiado num hospital pedi\u00e1trico de Saig\u00e3o, quando olh\u00e1vamos para um rapaz a morrer. A Oxfam e a Save the Children havido deixado claro para o governo brit\u00e2nico a gravidade da emerg\u00eancia. Um embargo conduzido pelos EUA havia for\u00e7ado o pre\u00e7o local do quilo de leite a subir para dez vezes o do quilo de carne. Muitas crian\u00e7as podiam ter sido recuperadas com leite. A proibi\u00e7\u00e3o de Thatcher impediu.<\/p>\n<p>No vizinho Camboja, Thatcher deixou um rastro de sangue, secretamente. Em 1980, ela exigiu que o defunto regime Pol Pot \u2013 o assassino de 1,7 milh\u00e3o de pessoas \u2013 retivesse o seu &#8220;direito&#8221; a representar suas v\u00edtimas na ONU. A sua pol\u00edtica era de vingan\u00e7a do libertador do Camboja, o Vietname. O representante brit\u00e2nico foi instru\u00eddo a votar com Pol Pot na Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade, impedindo-a dessa forma de proporcionar ajuda para o lugar onde era mais necess\u00e1ria do que qualquer outro na terra.<\/p>\n<p>Para esconder esta inf\u00e2mia, os EUA, a Gr\u00e3-Bretanha e a China, os principais apoiantes de Pol Pot, inventaram uma &#8220;coliga\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia&#8221; dominada pelas for\u00e7as do Khmer Rouge de Pol Pot e abastecida pela CIA em bases ao longo da fronteira tailandesa. Havia uma dificuldade. Na sequ\u00eancia da derrocada do Irangate, armas-por-r\u00e9fens, o Congresso dos EUA proibira aventuras clandestinas no estrangeiro. &#8220;Num daqueles acordos ambos gostavam de fazer&#8221;, contou um alto respons\u00e1vel do Whitehall\u00a0<a href=\"http:\/\/www.resistir.info\/pilger\/pilger_25abr13.html#nt\" target=\"_blank\">[1]<\/a> ao\u00a0<em>Sunday Telegraph, <\/em>&#8220;o presidente Reagan sugeriu a Thatcher que o SAS\u00a0<a href=\"http:\/\/www.resistir.info\/pilger\/pilger_25abr13.html#nt\" target=\"_blank\">[2]<\/a> deveria assumir o comando do show do Camboja. Ela prontamente concordou&#8221;.<\/p>\n<p>Em 1983, Thatcher enviou o SAS para treinar a &#8220;coliga\u00e7\u00e3o&#8221; na sua pr\u00f3pria e diferente marca de terrorismo. Sete equipes de homens do SAS chegaram de Hong Kong e soldados brit\u00e2nicos come\u00e7aram a treinar &#8220;combatentes da resist\u00eancia&#8221; em estender campos de minas num pa\u00eds devastado pelo genoc\u00eddio e a mais alta taxa de mortes e mutila\u00e7\u00f5es do mundo devido a campos de minas.<\/p>\n<p>Noticiei isto na altura e mais de 16 mil pessoas escreveram a Thatcher para protestar. &#8220;Confirmo&#8221;, respondeu ela ao l\u00edder da oposi\u00e7\u00e3o Neil Kinnock, &#8220;que n\u00e3o h\u00e1 envolvimento do governo brit\u00e2nico de qualquer esp\u00e9cie no treino, equipamento ou coopera\u00e7\u00e3o com o Khmer Rouge ou aliados dele&#8221;. A mentira era de cortar o f\u00f4lego. Em 1991, o governo de John Major admitiu no parlamento que o SAS havia na verdade treinado a &#8220;coliga\u00e7\u00e3o&#8221;. &#8220;N\u00f3s gostamos dos brit\u00e2nicos&#8221;, disse-me mais tarde um combatente do Khmer Rouge. &#8220;Eles foram muito bons a ensinar-nos a montar armadilhas explosivas\u00a0<em>(booby traps). <\/em>Pessoas confiantes, como crian\u00e7as em campos de arroz, foram as v\u00edtimas principais&#8221;.<\/p>\n<p>Quando os jornalistas e produtores do memor\u00e1vel document\u00e1rio\u00a0<a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Death_on_the_Rock\" target=\"_blank\">&#8220;Death on the Rock&#8221;<\/a> , da ITV, revelaram como o SAS havia dirigido outros esquadr\u00f5es da morte de Thatcher na Irlanda e em Gibraltar, foram perseguidos pelos &#8220;jornalistas&#8221; de Rupert Murdoch, ent\u00e3o acovardados em Wapping\u00a0<a href=\"http:\/\/www.resistir.info\/pilger\/pilger_25abr13.html#nt\" target=\"_blank\">[3]<\/a> atr\u00e1s do arame farpado. Embora absolvida, a Thames TV perdeu sua concess\u00e3o da ITV.<\/p>\n<p>Em 1982, o cruzador argentino General Belgrano navegava fora da zona de exclus\u00e3o das Falklands\u00a0<a href=\"http:\/\/www.resistir.info\/pilger\/pilger_25abr13.html#nt\" target=\"_blank\">[4]<\/a> . O navio n\u00e3o constitu\u00eda amea\u00e7a, mas Thatcher deu ordens para que fosse afundado. Suas v\u00edtimas foram 323 marinheiros, incluindo adolescentes alistados. O crime tinha uma certa l\u00f3gica. Dentre os mais pr\u00f3ximos aliados de Thatcher estavam assassinos em massa \u2013 Pinochet no Chile, Suharto na Indon\u00e9sia, respons\u00e1veis por &#8220;muito mais do que um milh\u00e3o de mortes&#8221; (Amnistia Internacional). Embora desde h\u00e1 muito o estado brit\u00e2nico armasse as principais tiranias do mundo, foi Thatcher que com um zelo de cruzado procurou tais acordos, conversando empolgada acerca das mais refinadas caracter\u00edsticas de motores de avi\u00f5es de combate, negociando arduamente com pr\u00edncipes sauditas que pediam subornos. Filmei-os numa feira de armas, a acariciarem um m\u00edssil reluzente. &#8220;Terei um daqueles!&#8221;, disse ela.<\/p>\n<p>No seu inqu\u00e9rito das armas-para-o-Iraque, Lorde Richard Scott ouviu evid\u00eancias de que toda uma camada do governo Thatcher, desde altos funcion\u00e1rios civis at\u00e9 ministros, mentira e infringira a lei na venda de armas a Saddam Hussein. Eram os seus &#8220;rapazes&#8221;. Se folhear n\u00fameros antigos do\u00a0<em>Baghdad Observer <\/em>encontrar\u00e1 na primeira p\u00e1gina fotos dos seus rapazes, principalmente ministros do gabinete, sentados com Saddam na sua famosa poltrona branca. Ali est\u00e1 Douglas Hurd e um sorridente David Mellor, tamb\u00e9m do Foreign Office, na \u00e9poca em que o seu hospedeiro ordenava o gaseamento de 5000 curdos. A seguir a esta atrocidade, o governo Thatcher duplicou cr\u00e9ditos comerciais para Saddam.<\/p>\n<p>Talvez seja demasiado f\u00e1cil dan\u00e7ar sobre a sua sepultura. O seu funeral foi uma proeza de propaganda, adequada a um ditador: uma mostra absurda de militarismo, como se se houvesse verificado um golpe. E foi. &#8220;O seu triunfo real&#8221;, disse outro dos seus rapazes, Geoffrey Howe, ministro da Thatcher, &#8220;foi ter transformado n\u00e3o apenas um partido mas dois, de modo que quando o Labour finalmente retornou, a maior parte do thatcherismo era aceite como irrevers\u00edvel&#8221;.<\/p>\n<p>Em 1997, Thatcher foi o primeiro antigo primeiro-ministro a visitar Tony Blair depois de ele ter entrado na Downing Street\u00a0<a href=\"http:\/\/www.resistir.info\/pilger\/pilger_25abr13.html#nt\" target=\"_blank\">[5]<\/a> . H\u00e1 uma foto deles, juntos num ricto: o criminoso de guerra em embri\u00e3o com a sua mentora. Quando Ed Milliband, na sua untuosa &#8220;homenagem&#8221;, travestiu Thatcher como &#8220;corajosa&#8221; hero\u00edna feminista cujas fa\u00e7anhas pessoalmente &#8220;admira&#8221;, fica-se a saber que a velha assassina n\u00e3o morreu de todo.<\/p>\n<p>25\/Abril\/2013 NT<\/p>\n<p>(1) Whitehall: rua onde est\u00e1 o Parlamento brit\u00e2nico.<\/p>\n<p>(2) SAS: tropas especiais brit\u00e2nicas.<\/p>\n<p>(3) Wapping: bairro de Londres para onde Murdoch mudou a sua empresa, por tr\u00e1s de uma fortaleza a fim de fugir a press\u00f5es sindicais da Fleet Street.<\/p>\n<p>(4) Falklands: Malvinas<\/p>\n<p>(5) Downing Street: resid\u00eancia oficial do primeiro-ministro brit\u00e2nico.<\/p>\n<p><strong>O original encontra-se em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.counterpunch.org\/2013\/04\/25\/thatchers-coup\/\" target=\"_blank\">www.counterpunch.org\/2013\/04\/25\/thatchers-coup\/<\/a> <\/strong><\/p>\n<p><strong>Este artigo encontra-se em\u00a0<a href=\"http:\/\/resistir.info\/\" target=\"_blank\">http:\/\/resistir.info\/<\/a> .<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nO golpe de Thatcher\npor John Pilger\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4723\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-4723","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1eb","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4723","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4723"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4723\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4723"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4723"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4723"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}