{"id":4740,"date":"2013-05-03T13:50:20","date_gmt":"2013-05-03T13:50:20","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4740"},"modified":"2013-05-03T13:50:20","modified_gmt":"2013-05-03T13:50:20","slug":"e-preciso-contar-a-verdadeira-historia-da-palestina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4740","title":{"rendered":"\u00c9 PRECISO CONTAR A VERDADEIRA HIST\u00d3RIA DA PALESTINA"},"content":{"rendered":"\n<p>Deir Yassin, como acontecimento e como representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, permanece como componente decisivo da luta palestina por liberdade, mas a hist\u00f3ria da qual o massacre faz parte continua a sujeitar-se ao preconceito \u2013 ou, mais especificamente, ao racismo \u2013 da academia e da m\u00eddia.<\/p>\n<p><strong>Ramzy Baroud*<\/strong><\/p>\n<p><strong>(Tradu\u00e7\u00e3o: Baby Siqueira Abr\u00e3o)<\/strong><\/p>\n<p>No in\u00edcio de abril os palestinos do mundo inteiro relembraram o massacre de Deir Yassin, ocorrido em 9 de abril de 1948. Na consci\u00eancia palestina, o massacre, que tirou a vida de mais de 100 pessoas inocentes, representou a face cruel do sionismo \u2013 a base ideol\u00f3gica sobre a qual o Estado de Israel foi fundado. Ao longo dos anos, as lembran\u00e7as aterradoras associadas a Deir Yassin transformaram-se em algo mais do que sua representa\u00e7\u00e3o imediata como ato criminoso deliberado, com objetivos pol\u00edticos, e sobreviveram como uma cicatriz permanente no centro de uma mem\u00f3ria coletiva carregada de muitos massacres como o de Deir Yassin.<\/p>\n<p>Deir Yassin, como acontecimento e como representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, permanece como componente decisivo da luta palestina por liberdade, mas a hist\u00f3ria da qual o massacre faz parte continua a sujeitar-se ao preconceito \u2013 ou, mais especificamente, ao racismo \u2013 da academia e da m\u00eddia.<\/p>\n<p>O massacre de Deir Yassin \u00e9 amplamente aceito no pensamento israelense e ocidental porque os l\u00edderes sionistas da \u00e9poca desejavam destac\u00e1-lo como uma t\u00e1tica terrorista bem-sucedida para tirar centenas de milhares de palestinos das terras que lhes pertenciam. Entretanto, outros massacres cometidos pelas for\u00e7as sionistas durante a Nakba (cat\u00e1strofe) palestina passam ao largo do conhecimento israelense e ocidental sobre a Palestina e sua hist\u00f3ria encharcada de sangue, e isso porque esses massacres foram contados, em sua maioria, apenas pelos palestinos.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/4.bp.blogspot.com\/-ims8xGurNnQ\/UX5jD4y3V3I\/AAAAAAAAex0\/8TKuL3TpXYM\/s1600\/nakba.jpg?w=747\" border=\"0\" \/><\/p>\n<p>Crian\u00e7as assassinadas pelos judeus durante a Nakba (cat\u00e1strofe)<\/p>\n<p>Trata-se de uma trag\u00e9dia na qual nem a v\u00edtima obt\u00e9m justi\u00e7a nem sua vitimiza\u00e7\u00e3o \u00e9 admitida por aquilo que foi e \u00e9. Muitos massacres cometidos contra palestinos est\u00e3o ocultos porque, a menos que sejam reconhecidos por historiadores israelenses, para as audi\u00eancias ocidentais \u00e9 como se eles nunca tivessem acontecido.<\/p>\n<p>Somente quando o jornalista israelense Amir Gilat decidiu publicar um artigo, alguns anos atr\u00e1s, no jornal israelense Ma\u2019ariv, citando a pesquisa de Theodore Katz, estudante de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o de Israel, foi que a m\u00eddia ocidental reconheceu, ou ao menos concordou em debater, o massacre de Tantura. Pouco lhes importou que descendentes e familiares das 240 v\u00edtimas dessa vila destro\u00e7ada, assassinadas a sangue-frio pelas tropas da Brigada Alexandroni, nunca cessassem de relembrar seus entes queridos.<\/p>\n<p>Ao longo dos 65 anos da conquista sionista da Palestina e do in\u00edcio do \u201cproblema dos refugiados palestinos\u201d \u2013 que tamb\u00e9m pode ser lido como \u201cgenoc\u00eddio\u201d por quem ousa enfrentar as sensibilidades israelenses-ocidentais \u2013, a hist\u00f3ria da Palestina vem sendo filtrada pelos mesmos mecanismos de d\u00e9cadas atr\u00e1s. No entanto, \u00e9 hora de o direito \u00e0 narrativa veross\u00edmil, at\u00e9 agora reservado aos historiadores israelenses, ser assumidamente desafiado.<\/p>\n<p>Quem cavar fundo o texto hist\u00f3rico palestino ficar\u00e1 admirado com a hist\u00f3ria verdadeira de seu povo, suas muitas trag\u00e9dias e suas volumosas, fascinantes narrativas de uma civiliza\u00e7\u00e3o profundamente arraigada, insuper\u00e1vel em suas singularidade e continuidade hist\u00f3ricas. A representa\u00e7\u00e3o \u2013 ou falsifica\u00e7\u00e3o \u2013 da narrativa palestina, por\u00e9m, existe na academia, na m\u00eddia e at\u00e9 mesmo na imagina\u00e7\u00e3o popular ocidentais, tecida por um \u201cconhecimento\u201d cuidadosamente fabricado com o qual os narradores israelenses gentilmente decidiram revesti-la. Remova-se o v\u00ednculo israelense com a compreens\u00e3o ocidental sobre tudo o que diz respeito \u00e0 Palestina e ter-se-\u00e1 um espa\u00e7o vazio de textos desconexos que t\u00eam muito pouco de um discurso alternativo.<\/p>\n<p>O caso de Deir Yassim foi largamente aceito como massacre porque historiadores israelenses como Benny Morris \u2013 um pesquisador razoavelmente honesto que permaneceu comprometido com o sionismo, a despeito da hist\u00f3ria macabra que ele mesmo descobriu \u2013 admitiram sua exist\u00eancia como fato hist\u00f3rico. \u201cFam\u00edlias inteiras foram perfuradas por balas [&#8230;] homens, mulheres e crian\u00e7as foram chacinados \u00e0 medida que sa\u00edam de suas casas; indiv\u00edduos eram postos de lado e assassinados. A intelig\u00eancia da Haganah relatou: \u2018Havia pilhas de mortos. Alguns dos detidos, levados a locais de encarceramento, incluindo mulheres e crian\u00e7as, eram cruelmente assassinados por seus captores [&#8230;]\u201d.<\/p>\n<p>Foram as mil\u00edcias sionistas do Irgun, de Menachem Begin, e da Stern Gang, lideradas por Yitzhak Shamir, que receberam o cr\u00e9dito pela inf\u00e2mia cometida naquele dia \u2013 e ambos os l\u00edderes foram generosamente recompensados pela atrocidade de seus atos. Anos depois, esses homens passaram da condi\u00e7\u00e3o de criminosos procurados para a de primeiros-ministros.<\/p>\n<p>O massacre de Tantura tem uma boa chance de deixar de ser mera fic\u00e7\u00e3o palestina e tornar-se hist\u00f3ria verdadeira porque um estudante israelense resolveu desafiar o discurso oficial de seu pa\u00eds, que insiste em retratar Israel como um o\u00e1sis de democracia e de pureza hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Numerosas vilas palestinas e seus habitantes, submetidos ao genoc\u00eddio de 1948 (conhecido, nos c\u00edrculos polidos, como \u201climpeza \u00e9tnica\u201d), n\u00e3o conseguiram fazer o corte hist\u00f3rico, como se continuassem a esperar que um historiador israelense validasse a afirma\u00e7\u00e3o de que esse genoc\u00eddio realmente ocorreu.<\/p>\n<p>Numa comunica\u00e7\u00e3o recente, o dr. Salman Abu Sitta, um dos principais historiadores palestinos da Nakba, disse: \u201cA ironia \u00e9 que aquilo que o suspeito Benny Morris e o respeitado Ilan Papp\u00e9 escreveram \u00e9 o que os palestinos v\u00eam dizendo h\u00e1 mais de seis d\u00e9cadas. A m\u00eddia dominada pelo sionismo \u00e9 surda e muda. Trata-se do orientalismo em sua pior forma\u201d. Sem d\u00favida.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/4.bp.blogspot.com\/-PP4-zqWzPn8\/UX5nDl43CwI\/AAAAAAAAeyI\/uO4G-QZvU8c\/s1600\/Tantura-massacre.jpg?w=747\" border=\"0\" \/><\/p>\n<p>Massacre de Tantura<\/p>\n<p>O assunto, entretanto, \u00e9 t\u00e3o relevante hoje como era h\u00e1 65 anos. Os descendentes dos que sobreviveram \u00e0 Nakba e \u00e0s subsequentes guerras e massacres s\u00e3o, em sua maioria, refugiados na pr\u00f3pria Palestina ou em outros pa\u00edses do Oriente M\u00e9dio e do mundo. Nem seus ancestrais receberam justi\u00e7a, nem a gera\u00e7\u00e3o atual obteve a restitui\u00e7\u00e3o do que pertencia a seus ascendentes. De Deir Yassim a Tantura, de Ain Al Hilweh a Yarmouk e Jabalya, a escala de sofrimento \u00e9 a mesma, e permanente.<\/p>\n<p>Mas isso precisa mudar. Sem uma narrativa palestina aut\u00eantica, isenta de adultera\u00e7\u00f5es, nenhum entendimento verdadeiro da Palestina e de seu povo \u2013 at\u00e9 mesmo por aqueles considerados simp\u00e1ticos \u00e0 causa palestina \u2013 pode ser alcan\u00e7ado. Uma narrativa centrada em relatos que reflitam a hist\u00f3ria, a realidade e as aspira\u00e7\u00f5es da gente comum permitir\u00e1 uma compreens\u00e3o genu\u00edna da verdadeira din\u00e2mica que move o conflito. Essa narrativa, que faz justi\u00e7a a toda uma gera\u00e7\u00e3o de palestinos, \u00e9 poderosa o bastante para desafiar a parcialidade e a polariza\u00e7\u00e3o atuais.<\/p>\n<p>Deir Yassin deve ser t\u00e3o relevante para o presente como essencial para revelar o passado. N\u00e3o apenas existiram muitos massacres como Deir Yassin, de variadas formas, como Deir Yassim \u00e9 o microcosmo de um drama muito maior, que continua acontecendo na Palestina. Se o Deir Yassin original, e outros massacres, forem desprezados, considerados anomalias hist\u00f3ricas irrelevantes, ent\u00e3o o presente permanecer\u00e1 contaminado e incompreendido.<\/p>\n<p>\u00c9 tempo de os historiadores palestinos darem um passo adiante e reivindicarem o que \u00e9, essencialmente, a sua narrativa, desafiando os preconceitos da m\u00eddia e avan\u00e7ando, com coragem, al\u00e9m dos limites permitidos por Israel, desafiando tamb\u00e9m, portanto, o controle intelectual sobre o discurso palestino.<\/p>\n<p><strong>*Ramzy Baroud, <\/strong>palestino da di\u00e1spora, \u00e9 colunista internacional e editor do site Palestine Chronicle (http:\/\/palestinechronicle.com). Seu mais recente livro \u00e9 My Father Was a Freedom Fighter: Gaza\u2019s Untold History [Meu pai era um revolucion\u00e1rio: a hist\u00f3ria n\u00e3o contada de Gaza], publicado pela Pluto Press.<\/p>\n<p><strong>Fonte: Brasil de Fato<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4740\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-4740","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1es","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4740","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4740"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4740\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4740"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4740"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4740"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}