{"id":4751,"date":"2013-05-03T20:55:56","date_gmt":"2013-05-03T20:55:56","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4751"},"modified":"2017-08-25T01:10:10","modified_gmt":"2017-08-25T04:10:10","slug":"um-resultado-desconcertante-numa-falsa-democracia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4751","title":{"rendered":"Um resultado desconcertante numa falsa democracia"},"content":{"rendered":"<p><strong>por Jose M. Tirado\u00a0[*]<\/strong><\/p>\n<p>Com 94,8% dos votos contados, os islandeses na noite passada deram \u00e0 coliga\u00e7\u00e3o governante da Alian\u00e7a Social Democrata e do Movimento Esquerda-Verde uma derrota paralisante, entregando as r\u00e9deas do poder outra vez \u00e0 mesma coliga\u00e7\u00e3o que arruinou a economia h\u00e1 cinco anos atr\u00e1s: o Partido Independ\u00eancia e o Partido Progressivo. Do total do eleitorado, 25,7% apoiou o Partido Independ\u00eancia e 24,4% votaram pelos progressivos, ambos de centro-direita, com profundos interesses no sector banc\u00e1rio, os &#8220;bar\u00f5es do mar&#8221; e em companhias agr\u00edcolas (A coliga\u00e7\u00e3o governante em conjunto mal ultrapassou os 20%: os sociais-democratas receberam apenas 12,9%, os esquerda-verdes 10,9%).<\/p>\n<p>V\u00e1rios partidos mais pequenos constitu\u00edram-se neste per\u00edodo eleitoral, principalmente do lado populista-esquerda (apesar de um partido direita-verde ter recebido 1,7%) e come\u00e7aram a juntar-se e dividir-se com previs\u00edvel regularidade. Exemplo: D\u00f6gun ou &#8220;Aurora&#8221; receberam 3,1% mas perderam membros para o &#8220;Sentinela da Democracia&#8221; (2,5%), o &#8220;O Partido da Fam\u00edlia&#8221; (3,0%) e o &#8220;Partido Pirata&#8221; (5,1%) com este \u00faltimo a ganhar tr\u00eas cadeiras, entre as 63 cadeiras do legislativo de uma s\u00f3 c\u00e2mara. Mas, embora ganhando quase 20% dos votos lan\u00e7ados, o total de grupos de esquerda\/reformistas n\u00e3o ser\u00e1 reflectivo em qualquer poder parlamentar significativo. Isto agora deixa os centro-direitistas, que j\u00e1 controlam a economia, diluir a rec\u00e9m criada constitui\u00e7\u00e3o do povo tal como eles abertamente prometiam \u2013 e, mais uma vez, enriquecer o seu pr\u00f3prio pequeno bando de propriet\u00e1rios de navios, banqueiros e capitalistas de compadrio.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, como \u00e9 que isto aconteceu?<\/p>\n<p>Bem, embora possa parecer a observadores externos como uma rejei\u00e7\u00e3o maci\u00e7a de ideias \u00e0 esquerda do centro, a elei\u00e7\u00e3o de ontem demonstra que quando a esquerda se move para a direita ela acaba por perder. Inicialmente escolhida por um levantamento populista para voltar a por a catastr\u00f3fica economia do pa\u00eds no trilho certo (a &#8220;Revolu\u00e7\u00e3o das panelas e frigideiras&#8221;), os sociais-democratas e esquerda-verdes come\u00e7aram com apoio razoavelmente generalizado a processar a elite dos banksters que haviam transformado da Isl\u00e2ndia num casino de especula\u00e7\u00e3o e gastos loucos. Ap\u00f3s um arranque espasm\u00f3dico, algumas acusa\u00e7\u00f5es foram apresentadas e alguma facilita\u00e7\u00e3o dos fardos sobre fam\u00edlias trabalhadoras surgiu no horizonte, embora fossem aumentados impostos. Mas antigos advers\u00e1rios da ades\u00e3o \u00e0 UE na esquerda-verdes come\u00e7aram desconcertantemente a apregoar a ades\u00e3o \u00e0 Uni\u00e3o como uma direc\u00e7\u00e3o que o pa\u00eds deveria procurar. Isto j\u00e1 era uma pol\u00edtica defendida pelos sociais-democratas e portanto, de forma discut\u00edvel, em meio a pior crise econ\u00f3mica desde a Grande Depress\u00e3o, a coliga\u00e7\u00e3o reformista ocupava-se a procurar a ades\u00e3o \u00e0 UE \u2013 uma solu\u00e7\u00e3o controversa nunca apoiada pela maior parte dos islandeses. Al\u00e9m disso, eles eram encarados como salvadores de bancos enquanto prometiam investigar e processar delinquentes, mas arrastando os p\u00e9s em rela\u00e7\u00e3o ao al\u00edvio de hipotecas e dando apoio aos mesmos grandes, destruidores da natureza como projectos de fundi\u00e7\u00e3o de alum\u00ednio que o Partido Independ\u00eancia sempre defendeu. Ao retomar as j\u00e1 sensibilizadas avers\u00f5es dos islandeses m\u00e9dios, que apenas queriam algum al\u00edvio nas suas d\u00edvidas e empregos, a base para o decl\u00ednio da coliga\u00e7\u00e3o estava estabelecida.<\/p>\n<p>Gradualmente, quando o novo governo adoptou medidas de austeridade tipicamente recomendadas pelo FMI, a sua popularidade come\u00e7ou a cair e um desejo contido pelos bons velhos dias come\u00e7ou a retornar, com o p\u00fablico a irritar-se com o novo governo a cada semana. &#8220;Eles (o governo reformista da coliga\u00e7\u00e3o de sociais-democratas e esquerda-verdes) &#8216;salvaram&#8217; a economia dando mais salvamentos aos bancos ao inv\u00e9s de ajudar a fam\u00edlia m\u00e9dia&#8221; disse-me um amigo, activo no [partido] Sentinela da Democracia&#8221;. &#8220;Perderam demasiado tempo estupidamente considerando a UE ao inv\u00e9s de desafiar directamente as estruturas de poder existentes&#8221;, continuou ele. Assim, t\u00e3o logo viram esta abertura (o esp\u00edrito independente dos islandeses sendo picado por temores de domina\u00e7\u00e3o estrangeira), o Partido Independ\u00eancia capitalizou com esta situa\u00e7\u00e3o antigos parceiros j\u00fanior a lutarem por posi\u00e7\u00f5es a fim de derrubar o tradicional par da coliga\u00e7\u00e3o se porventura vencesse. Os progressivos martelaram as TVs, r\u00e1dios e jornais com promessas de apagar a d\u00edvida familiar. Os dados estavam lan\u00e7ados e os islandeses, desejosos de darem mais uma vez a \u00faltima palavra, fizeram-se como uma vingan\u00e7a, escolhendo na direita o \u00fanico outro grupo dispon\u00edvel de velhacos para endireitar exactamente os mesmos erros pelos quais eles foram inicialmente respons\u00e1veis. &#8220;\u00c9 como uma m\u00e1fia&#8221;, acrescentou o meu amigo, com o olhar turvo ap\u00f3s uma noite em claro o ver resultados eleitorais. &#8220;Nada vai mudar, excepto que a nova Constitui\u00e7\u00e3o morrer\u00e1 e mais pessoas deixar\u00e3o o pa\u00eds. N\u00f3s perdemos m\u00e9dicos e outros profissionais para a Noruega e isto continuar\u00e1&#8221;, acrescentou.<\/p>\n<p>Quando mencionei a outro amigo que a Isl\u00e2ndia parecia mais como uma &#8220;democracia de compadrio&#8221;, ele respondeu em ingl\u00eas claro: &#8220;isto n\u00e3o \u00e9 democracia de compadrio, \u00e9 falsa democracia&#8221;.<\/p>\n<p>Os progressivos pelo menos partilham ligeiramente algumas ideias de centro-esquerda com os sociais-democratas mas o receio agora \u00e9 de que, tendo prometido com firmeza dar al\u00edvio aos propriet\u00e1rios de casos a lutarem sob uma montanha de d\u00edvida, eles tamb\u00e9m estejam condenados a fracassar. E se assim for, isto pode provocar mais outro colapso pol\u00edtico, possivelmente ainda mais esmagador do que o \u00faltimo.&#8221;Somos um povo est\u00fapido&#8221;, disse-me um amigo, &#8220;queremos acreditar que o Partido Progressivo conduzir\u00e1 a coliga\u00e7\u00e3o de acordo com as suas promessas, mas ningu\u00e9m quer admitir que os n\u00fameros n\u00e3o fazem sentido e que isto tamb\u00e9m vai acabar mal. Todo o sistema est\u00e1 tramado&#8221;.<\/p>\n<p>29\/Abril\/2013<\/p>\n<p><strong>[*] Poeta, padre e escritor. Est\u00e1 a acabar um PhD em psicologia na Isl\u00e2ndia. <\/strong><\/p>\n<p><strong>O original encontra-se em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.counterpunch.org\/2013\/04\/29\/icelands-crippling-elections\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.counterpunch.org\/2013\/04\/29\/icelands-crippling-elections\/<\/a> <\/strong><\/p>\n<p><strong>Este artigo encontra-se em\u00a0<a href=\"http:\/\/resistir.info\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/resistir.info\/<\/a> .<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nAs elei\u00e7\u00f5es paralisantes da Isl\u00e2ndia\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4751\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[18],"tags":[],"class_list":["post-4751","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s22-europa"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1eD","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4751","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4751"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4751\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4751"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4751"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4751"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}