{"id":4781,"date":"2013-05-08T19:31:53","date_gmt":"2013-05-08T19:31:53","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4781"},"modified":"2013-05-08T19:31:53","modified_gmt":"2013-05-08T19:31:53","slug":"estao-comprando-o-silencio-dos-sindicatos-e-da-classe-trabalhadora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4781","title":{"rendered":"Est\u00e3o comprando o sil\u00eancio dos sindicatos e da classe trabalhadora"},"content":{"rendered":"\n<p><em>A Jos\u00e9 Augusto Bicalho Roque, gr\u00e3o de poeira gigante na luta contra a ditadura militar.<\/em><\/p>\n<p>Era um folheto quase clandestino. Circulava pela Petrobras, visual modesto, comentando a situa\u00e7\u00e3o trabalhista dos profissionais da qu\u00edmica. Acabou sendo, quase por acidente, minha porta de entrada para o movimento sindical. Fiz contato com os respons\u00e1veis e, em pouco tempo, estava engajado no Grupo de Renova\u00e7\u00e3o Sindical (GRENS), que ganharia, com mais de 75% dos votos, a elei\u00e7\u00e3o do Sindicato dos Qu\u00edmicos e Engenheiros Qu\u00edmicos\/RJ em 1980.<\/p>\n<p>A ditadura dava sinais de desgaste, depois das crises do petr\u00f3leo em 1973 e 1979 e da ascens\u00e3o de um movimento sindical combativo. Com os partidos pol\u00edticos amorda\u00e7ados, novos atores sociais apareciam em cena, pressionando o n\u00facleo duro do regime e cobrando um custo pol\u00edtico mais alto pela repress\u00e3o. Neste cen\u00e1rio, associa\u00e7\u00f5es de moradores e sindicatos de profissionais liberais jogaram vapor no caldeir\u00e3o social. N\u00e3o foi diferente com os qu\u00edmicos fluminenses.<\/p>\n<p>Come\u00e7amos um trabalho de sindicaliza\u00e7\u00e3o e ampliamos as negocia\u00e7\u00f5es por acordos coletivos. Organizamos debates pol\u00edticos e atra\u00edmos gente interessada em discutir n\u00e3o apenas\u00a0perspectivas profissionais, mas o futuro do pa\u00eds. Em 1983, assumi a presid\u00eancia do sindicato e, no ano seguinte, ao lado de outros sindicatos de profissionais liberais, participamos da primeira greve da hist\u00f3ria do sindicato (na Nuclebr\u00e1s Engenharia). Quem diria, hem ? A classe m\u00e9dia, assustada com a perda de poder aquisitivo, cruzava os bra\u00e7os.<\/p>\n<p>Aqueles foram anos peculiares. Economistas, engenheiros, advogados e outros profissionais liberais \u201cdescobriram\u201d os sindicatos. A mesma classe m\u00e9dia que apoiou a ditadura militar no per\u00edodo do \u201cmilagre econ\u00f4mico\u201d, agora reclamava de perdas que os trabalhadores em geral j\u00e1 sentiam h\u00e1 muito tempo. Este vai-e-vem da pequena burguesia \u00e9 estrutural, visceral. Conto, a prop\u00f3sito, uma experi\u00eancia que vivi nos anos 80.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos iniciando contatos com os qu\u00edmicos da Companhia Sider\u00fargica Nacional, em Volta Redonda, propondo a constru\u00e7\u00e3o de uma pauta de reivindica\u00e7\u00f5es para negociar com a empresa. Os qu\u00edmicos eram uma pequena minoria entre os trabalhadores da CSN, sem for\u00e7a para, isoladamente, conquistar suas demandas. Era por tudo aconselh\u00e1vel uma aproxima\u00e7\u00e3o com os metal\u00fargicos e seu sindicato, para que as reivindica\u00e7\u00f5es espec\u00edficas fossem incorporadas pelo grupo majorit\u00e1rio. O que aconteceu ? Os qu\u00edmicos, por absoluta soberba e preconceito de classe, disseram que n\u00e3o se reuniriam com \u201caqueles pe\u00f5es\u201d. Preferiram manter-se no gueto. Minhas aulas pr\u00e1ticas sobre luta de classes n\u00e3o pararam por a\u00ed.<\/p>\n<p>No GRENS, atuava um empres\u00e1rio, dono de uma firma de projetos no bairro de S\u00e3o Cristov\u00e3o. Nas reuni\u00f5es, tinha um discurso progressista, inclusivo. Quando, tempos depois, os trabalhadores do seu setor decidiram desencadear uma greve, participei do piquete na porta da firma do \u201cburgu\u00eas avan\u00e7ado\u201d. De repente, ele chega, salta do carro e, dirigindo-se a mim com sangue nos olhos e dedo em riste, diz para fazer piquete na porta do BNDES (onde eu trabalhava na ocasi\u00e3o). Deu meia volta, avantajaram suas costas \u201cprogressistas\u201d e foi purgar o teatrinho malandro da alian\u00e7a de classes que at\u00e9 ali pregava. Rasgada a fantasia do \u201caliado\u201d, continuamos panfletando e pensamos no velho ditado: farinha pouca, meu pil\u00e3o primeiro.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh5.googleusercontent.com\/-MzIcl0utTo0\/UYqpXSmVMDI\/AAAAAAAAE-k\/_RAJAOg53Sk\/s1600\/1o.%2520de%2520Maio%2520CUT%25202013%255B4%255D.jpg?w=747&#038;ssl=1\" border=\"0\" alt=\"imagem\"  align=\"right\" \/><\/p>\n<p>Com o fim da ditadura, refluiu a mobiliza\u00e7\u00e3o capilar que caracterizou o in\u00edcio da d\u00e9cada de 80. O caso mais gritante no Rio foi o das associa\u00e7\u00f5es de moradores, que chegaram a revelar uma lideran\u00e7a importante, J\u00f3 Resende, que simplesmente desapareceu. Os profissionais liberais abandonaram seus sindicatos que, hoje, n\u00e3o s\u00e3o muito diferentes das entidades cartoriais que se multiplicam como cogumelos (\u00e0 m\u00e9dia de 250 novos por ano, de 2005 para c\u00e1). Que ningu\u00e9m subestime o car\u00e1ter vol\u00favel da classe m\u00e9dia. No Brasil, menos de 1 em cada 5 trabalhadores \u00e9 sindicalizado. Muitas entidades sobrevivem apenas com a contribui\u00e7\u00e3o anual compuls\u00f3ria, sem qualquer representatividade classista. Como a legisla\u00e7\u00e3o garante estabilidade no emprego para os dirigentes sindicais, muitos se utilizam desse expediente para n\u00e3o cair no desemprego. H\u00e1 pouco debate e quase nenhuma iniciativa para mudar um quadro com ra\u00edzes na Carta del Lavoro da It\u00e1lia fascista. A possibilidade de criar sindicatos por ramo de atividade econ\u00f4mica robusteceria o poder de negocia\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e eliminaria entidades que a Hist\u00f3ria tornou obsoletas. Como, quase sem exce\u00e7\u00f5es, os sindicatos de profissionais liberais. Isso, no entanto, seria mexer em privil\u00e9gios e no esp\u00edrito corporativo dos \u201cdoutores\u201d. Quem tem vontade pol\u00edtica para fazer isso ?<\/p>\n<p>No Brasil, um partido que se diz dos trabalhadores entrou de cabe\u00e7a na l\u00f3gica eleitoral burguesa e trabalha em fun\u00e7\u00e3o dela e para ela. Despeja n\u00fameros e estat\u00edsticas, sem problematizar, em momento algum, o que eles significam. Fala em programas educativos sem discutir a qualidade do ensino nas escolas p\u00fablicas. Orgulha-se das carteiras assinadas e n\u00e3o vocaliza, de peito aberto e publicamente, o que significa a explora\u00e7\u00e3o do trabalho pelo capital (com ou sem carteira assinada). Carnavaliza festas de 1\u00ba de maio, com gordas verbas p\u00fablicas e privadas. Os patr\u00f5es est\u00e3o investindo numa data que representa, historicamente, um brado contra a brutalidade do capital. Est\u00e3o comprando o sil\u00eancio dos sindicatos e da classe trabalhadora. A senhora presidente da Rep\u00fablica, muito bem produzida, discursa no 1\u00ba de Maio, grita \u201cviva o Brasil !\u201d e n\u00e3o tem uma s\u00f3 palavra de solidariedade para os povos em luta contra o arrocho do capital financeiro internacional. \u00c9 c\u00famplice, por omiss\u00e3o, da cobertura parcial que os meios de comunica\u00e7\u00e3o fizeram das grandes manifesta\u00e7\u00f5es na Espanha, na Gr\u00e9cia, no Chile e em tantos outros lugares. Enquanto isso, a CUT chama ao palco Alceu Valen\u00e7a e Jorge Arag\u00e3o e a For\u00e7a Sindical sorteia apartamentos. At\u00e9 quando se suportar\u00e1 este bom-mocismo ?<\/p>\n<p><em>(por Jacques Gruman)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4781\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[54],"tags":[],"class_list":["post-4781","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c65-lulismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1f7","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4781","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4781"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4781\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4781"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4781"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4781"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}