{"id":4786,"date":"2013-05-09T20:30:03","date_gmt":"2013-05-09T20:30:03","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4786"},"modified":"2013-05-09T20:30:03","modified_gmt":"2013-05-09T20:30:03","slug":"a-estrategia-guerrilheira-da-direita-na-venezuela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4786","title":{"rendered":"A \u201cestrat\u00e9gia guerrilheira\u201d da direita na Venezuela"},"content":{"rendered":"\n<p>Encorajado pelos resultados das recentes elei\u00e7\u00f5es na Venezuela, a direita do pa\u00eds &#8211; tanto seus representantes aut\u00f3ctones como os agentes do imperialismo que operam na Venezuela &#8211; aprofundou uma estrat\u00e9gia de luta pol\u00edtica que, de fato, colocou o governo chavista na defensiva ou, pelo menos, em um estado de alerta diante das amea\u00e7as ao futuro da Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana. D\u00f3i dizer isso, mas seria mais dolorido contemplar o inesperado e dram\u00e1tico final de um processo revolucion\u00e1rio t\u00e3o significativo como o lan\u00e7ado pelo Comandante Hugo Ch\u00e1vez por n\u00e3o se ter adotado medidas corretivas imprescind\u00edveis para preserv\u00e1-lo. A irreversibilidade \u00e9 um atributo que possuem muito poucos processos revolucion\u00e1rios, isso depois de haverem sido observados atrav\u00e9s das mais duras provas da hist\u00f3ria. N\u00e3o \u00e9 o caso, contudo, da Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana, embora a exist\u00eancia de uma ampla rede de organiza\u00e7\u00f5es populares nascidas durante o governo do Presidente Ch\u00e1vez possam muito bem ser os basti\u00f5es fundamentais que assegurem a continuidade do processo revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Todos os cl\u00e1ssicos do marxismo \u2013 come\u00e7ando neste tema espec\u00edfico por Engels e seguido por Marx, Lenin, Trotsky, Gramsci, Mao, Ho Chi Minh e, mais recentemente, Fidel e Che &#8211; compreenderam muito bem o not\u00e1vel paralelismo existente entre a arte da guerra e a luta pol\u00edtica. Nenhuma diferen\u00e7a lhes era impercept\u00edvel, mas tamb\u00e9m as suas semelhan\u00e7as n\u00e3o passavam despercebidas; deste modo, tomavam nota dos ensinamentos da hist\u00f3ria militar. Eles observaram, por exemplo, que quando uma for\u00e7a social e numericamente inferior quer atacar um ex\u00e9rcito poderoso e bem organizado, deve apelar para formas n\u00e3o convencionais de luta. As t\u00e1ticas de guerrilha s\u00e3o precisamente isso: ataques inesperados, surpreendentes, pontuais, seguidos por uma r\u00e1pida retirada, deixando no campo de batalha um inimigo debilitado e, sobretudo, desmoralizado. Isso \u00e9 precisamente o que, com muita ast\u00facia (e absoluta falta de escr\u00fapulos), vem fazendo a direita na Venezuela ao lan\u00e7ar uma torrente de ataques \u2013 desde den\u00fancias e agress\u00f5es verbais at\u00e9 sabotagens econ\u00f4micas, assaltos a locais associados ao PSUV ou aos centros de sa\u00fade da \u201cMisi\u00f3n Bairro Adentro\u201d e \u201cassassinatos exemplares\u201d \u2013 com o objetivo de enfraquecer o entusiasmo e a moral revolucion\u00e1ria das for\u00e7as chavistas, o que se refletiu na vota\u00e7\u00e3o do 14 de Abril.<\/p>\n<p>A efic\u00e1cia dessas t\u00e1ticas se comprova ao constatar que elas tornaram poss\u00edvel que a direita lograsse o que at\u00e9 h\u00e1 pouco tempo pensava como sendo imposs\u00edvel: estabelecer a agenda pol\u00edtica nacional e obrigar o governo bolivariano a ter que responder aos ataques de seus advers\u00e1rios, sem poder impulsionar iniciativas pr\u00f3prias e concretas. J\u00e1 faz alguns anos que os intelectuais org\u00e2nicos do imp\u00e9rio e os estrategistas do Pent\u00e1gono vem dizendo que, neste momento, &#8220;a luta antisubversiva se trava nas m\u00eddias&#8221;. A estrat\u00e9gia da direita na Venezuela \u00e9 tribut\u00e1ria dessa nova concep\u00e7\u00e3o adotada por Washington e d\u00e1 testemunho de sua efic\u00e1cia.<\/p>\n<p>O que pretende a direita com essas t\u00e1ticas? Estas, como se sabe, n\u00e3o existem num vazio, mas sempre se articulam em uma estrat\u00e9gia de mais largo alcance. Neste caso, estas foram concebidas para minar o respaldo dos setores populares ao governo, isolando-o de sua base tradicional de apoio e facilitando seus planos desestabilizadores, em qualquer de suas duas variantes: (a) &#8220;esquentamento das ruas&#8221;, tumultos, saques e golpe de Estado para &#8220;restaurar a ordem&#8221; que supostamente o governo bolivariano j\u00e1 n\u00e3o pode mais garantir; ou (b) desgaste prolongado e destitui\u00e7\u00e3o do governo via referendo revogat\u00f3rio. Estrat\u00e9gia global esta que ser\u00e1 tanto mais exitosa quanto mais o governo persista no erro de recorrer ao desafio astutamente lan\u00e7ado pelos setores contra-revolucion\u00e1rios e busque travar combate no terreno midi\u00e1tico conforme prop\u00f5em os seus inimigos. Nestes dias temos visto o pr\u00f3prio presidente Nicol\u00e1s Maduro envolver-se nessas batalhas verbais &#8211; na campanha e depois dela &#8211; em resposta \u00e0s insolentes provoca\u00e7\u00f5es de Henrique Capriles e seus comparsas dom\u00e9sticos e do exterior.<\/p>\n<p>N\u00e3o deveria ser assim, pois a delicada correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as que existe hoje na Venezuela n\u00e3o se modificar\u00e1 em uma dire\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel ao chavismo em virtude da efic\u00e1cia discursiva do presidente, dos seus ministros ou l\u00edderes do PSUV, mas sim pela capacidade que demonstre o governo para reorganizar e revitalizar um pesado e ineficiente aparelho estatal, hiperburocratizado e com indisfar\u00e7\u00e1veis focos de corrup\u00e7\u00e3o. Sem isso, mal se poder\u00e1 atacar os principais problemas que afligem a popula\u00e7\u00e3o venezuelana e provocaram a deser\u00e7\u00e3o de uma parte do eleitorado chavista: a carestia e demais aspectos concernentes \u00e0 economia, como o desabastecimento de produtos essenciais, por exemplo; os cortes de energia el\u00e9trica e a inseguran\u00e7a p\u00fablica, dentre outros. Consciente disso, a direita descarrega uma enxurrada de ataques, como na guerra de guerrilhas, distraindo sem cessar o ex\u00e9rcito regular &#8211; neste caso, o governo -, dificultando que este possa se concentrar nas tarefas cruciais exigidas pela atual conjuntura. O que a direita deseja \u00a0\u00e9 que ele fique atolado no est\u00e9ril terreno da pol\u00eamica e da discuss\u00e3o, evitando deste modo dedicar seu pessoal e seu tempo para projetar e implementar pol\u00edticas eficazes para resolver os problemas que afetam os cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>Disso tudo se compreende que o governo do presidente Nicol\u00e1s Maduro tem que lan\u00e7ar uma contra-ofensiva pol\u00edtica, centrada no terreno das pol\u00edticas p\u00fablicas, ignorando as provoca\u00e7\u00f5es e os insultos que proferem os partid\u00e1rios da direita e neutralizando desta maneira as sua t\u00e1ticas agressivas que, deve-se esclarecer, procuram ocultar o car\u00e1ter reacion\u00e1rio de sua agenda com as declara\u00e7\u00f5es demag\u00f3gicas e enganosas que expressam seu desejo de apropriar-se dos &#8220;aspectos positivos&#8221; do legado de Ch\u00e1vez. Deve, por isso, concentrar todos os seus recursos humanos e institucionais na batalha contra os problemas acima mencionados, sem perder um minuto em enfrentamentos verbais que em nenhum caso servir\u00e3o para consolidar \u2013 e muito menos ampliar \u2013 sua base de sustenta\u00e7\u00e3o na sociedade e em meio ao eleitorado.<\/p>\n<p>E o governo bolivariano tamb\u00e9m deve estar ciente de que, nesta conjuntura p\u00f3s-eleitoral, o tempo joga contra. Deve estar ciente de que a direita tenta criar um clima de opini\u00e3o p\u00fablica que abra espa\u00e7o para ensaiar sua inten\u00e7\u00e3o golpista, seu plano m\u00e1ximo, ou que lhe faculte a chance de exigir um referendo revogat\u00f3rio que poderia ter lugar em cerca de tr\u00eas anos. \u00a0Sabendo-se tamb\u00e9m que, se a gest\u00e3o governamental n\u00e3o consegue resolver, pelo menos parcialmente, os problemas acima mencionados, a Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana poderia re-editar o infort\u00fanio que se abateu sobre o Sandinismo, que dez anos depois de sua vit\u00f3ria \u00e9pica contra a tirania de Anastasio Somoza (h) foi derrotado inapelavelmente nas urnas por uma coaliz\u00e3o restauradora promovida, organizada e financiada &#8211; como se faz hoje na p\u00e1tria de Bol\u00edvar e Ch\u00e1vez &#8211; pelo imperialismo dos EUA.<\/p>\n<p>Ainda se est\u00e1 em tempo para impedir t\u00e3o triste fim na Venezuela, mas \u00e9 preciso colocar as m\u00e3os \u00e0 obra imediatamente e desenhar uma nova estrat\u00e9gia de reconstru\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que permita ao chavismo recuperar a iniciativa e passar para a ofensiva. Isto significa travar o combate contra a direita no terreno escolhido pelo governo e n\u00e3o naquele que for preferido pela oposi\u00e7\u00e3o: o malicioso p\u00e2ntano dos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Com rela\u00e7\u00e3o a isso n\u00e3o podemos sen\u00e3o celebrar a recente cria\u00e7\u00e3o da \u201cMisi\u00f3n Eficiencia o Nada\u201d, concebida para velar pela correta administra\u00e7\u00e3o da coisa p\u00fablica e lutar contra os focos de corrup\u00e7\u00e3o e burocratiza\u00e7\u00e3o que corroem a partir do interior a vitalidade da revolu\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, ser\u00e1 necess\u00e1rio que o presidente continue com sua acertada pol\u00edtica de recuperar novamente as ruas, hoje disputadas pelas mobiliza\u00e7\u00f5es da direita. Isto significa aproximar-se mais do povo, melhorar a comunica\u00e7\u00e3o com este, escutar suas demandas e atender suas reivindica\u00e7\u00f5es, atitudes indispens\u00e1veis para desbaratar a estrat\u00e9gia da \u201cguerrilha midi\u00e1tica\u201d seguida pela direita. Sendo consciente, al\u00e9m disso, de que aquilo que Ch\u00e1vez poderia resolver gra\u00e7as \u00e0 sua lideran\u00e7a carism\u00e1tica hoje deve ser resolvido mediante uma gest\u00e3o estatal eficiente e socialmente inclusiva, livre de todo desvio tecnocr\u00e1tico e capaz de produzir resultados imediatos. Uma gest\u00e3o, al\u00e9m disso, que estreite os v\u00ednculos com os governos locais e que conte com um elenco de id\u00f4neos servidores p\u00fablicos capacitados para dar resposta imediata \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es da sociedade.<\/p>\n<p>No Equador, por exemplo, o Sistema Quipux \u00e9 um servi\u00e7o via internet que o Presidente Rafael Correa instalou em todas as ag\u00eancias governamentais para facilitar um enlace direto com seu escrit\u00f3rio e o do vice-presidente, permitindo assim que estes possam monitorar em tempo real o andamento dos diversos projetos do governo, conhecendo seu grau de avan\u00e7o e seus obst\u00e1culos, de modo tal que possam ser tomadas sem demora as medidas corretivas que sejam pertinentes. Isto n\u00e3o \u00e9 uma panaceia mas, sem d\u00favida, vai facilitar o necess\u00e1rio, inadi\u00e1vel salto de qualidade que tem que se produzir na administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica da Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana para fazer frente aos in\u00e9ditos desafios do momento atual.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nAtilio A. 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