{"id":4837,"date":"2013-05-17T21:03:53","date_gmt":"2013-05-17T21:03:53","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4837"},"modified":"2013-05-17T21:03:53","modified_gmt":"2013-05-17T21:03:53","slug":"governo-videla-queimava-corpos-de-opositores-em-fornos-de-hospitais-mostra-documento-secreto-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4837","title":{"rendered":"Governo Videla queimava corpos de opositores em fornos de hospitais, mostra documento secreto no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p>(De bigode, na primeira fila, o ditador Videla; ao seu lado, Jo\u00e3o Havelange)<\/p>\n<p>Morreu o ex-ditador argentino Jorge Rafael Videla. Tirano com vi\u00e9s nazistoide, o general acumulou perversidades em seus tempos de poder, quando, s\u00f3 para lembrar, trocava salamaleques com o presidente da Fifa, Jo\u00e3o Havelange.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que muita gente pensa, n\u00e3o foram abertos os arquivos da repress\u00e3o argentina. Os acervos de 1976 a 83 foram destru\u00eddos ou escondidos. Sumiram. Restaram muito poucos documentos do horror.<\/p>\n<p>Acabei por descobrir no Arquivo P\u00fablico do Estado do Rio de Janeiro uma preciosidade hist\u00f3rica: um relat\u00f3rio da For\u00e7a A\u00e9rea Brasileira, da \u00e9poca da \u201cnossa\u201d ditadura, n\u00edtida tradu\u00e7\u00e3o de original argentino, dando conta de um \u201cproblema\u201d em 1977. A ditadura vizinha atirava corpos mutilados de oposicionistas no rio da Prata, mas os cad\u00e1veres desaguavam no Uruguai, causando constrangimentos. A \u201csolu\u00e7\u00e3o\u201d: passaram a crem\u00e1-los em fornos de hospitais.<\/p>\n<p>O documento foi revelado na \u201cFolha de S. Paulo\u201d em maio de 2000. No dia seguinte, o jornal \u201cP\u00e1gina 12\u201d, de Buenos Aires, noticiou a mat\u00e9ria e tascou o t\u00edtulo na capa: \u201cAuschwitz argentino\u201d. Eis a \u00edntegra da reportagem que escrevi:<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>O regime militar da Argentina (1976-83) sumia com os corpos de opositores de esquerda assassinados pelas for\u00e7as de repress\u00e3o jogando-os no rio da Prata ou cremando-os em fornos de hospitais p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Essa afirma\u00e7\u00e3o consta do informe confidencial n\u00ba 013\/A-2 do 3\u00ba Comar (Comando A\u00e9reo Regional), da Aeron\u00e1utica.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio foi escrito num formul\u00e1rio do Cisa (Centro de Informa\u00e7\u00f5es da Aeron\u00e1utica) no dia 11 de agosto de 1977, com o t\u00edtulo \u201cEvolu\u00e7\u00e3o da Luta Anti-subversiva na Argentina \u2013 Per\u00edodo de Janeiro a Maio de 1977\u2033.<\/p>\n<p>A Folha encontrou uma c\u00f3pia guardada no Arquivo P\u00fablico do Estado do Rio. Sobre o papel, foi impresso o carimbo \u201cMinist\u00e9rio da Aeron\u00e1utica, 2\u00aa Se\u00e7\u00e3o do Estado-Maior, 3\u00ba Comando A\u00e9reo Regional\u201d.<\/p>\n<p>O \u00faltimo par\u00e1grafo do texto de duas p\u00e1ginas diz: \u201cDado que o lan\u00e7amento de cad\u00e1veres no estu\u00e1rio do rio da \u201cPlata\u201d causa, vez por outra, problemas no Uruguai, com o aparecimento de corpos mutilados nas praias, est\u00e3o sendo empregados fornos cremat\u00f3rios de hospitais estatais para crema\u00e7\u00e3o de subversivos abatidos\u201d.<\/p>\n<p>Informado ontem pela Folha sobre a exist\u00eancia do relat\u00f3rio da Aeron\u00e1utica, o presidente do Movimento de Justi\u00e7a e Direitos Humanos do Rio Grande do Sul, Jair Krischke, disse que essa \u00e9 a primeira vez que aparece, no Brasil ou na Argentina, um documento relatando os m\u00e9todos de desaparecimento de militantes argentinos.<\/p>\n<p>\u201cNo Brasil, nunca se conheceu um documento sobre isso\u201d, disse Krischke. \u201cNa Argentina, o que existiram foram depoimentos de pessoas que participaram da repress\u00e3o. N\u00e3o vieram a p\u00fablico documentos dos \u00f3rg\u00e3os de informa\u00e7\u00e3o falando a respeito dos desaparecimentos.\u201d<\/p>\n<p>Krischke lembrou um livro de um ex-integrante do aparato repressivo argentino contando que corpos de oposicionistas eram jogados no mar. \u201cMas n\u00e3o havia documentos.\u201d<\/p>\n<p>O informe da Aeron\u00e1utica d\u00e1 mais pistas sobre o fen\u00f4meno do sumi\u00e7o de corpos na Argentina: \u201cA imprensa noticia que, entre 1\u00ba de janeiro e 31 de maio (de 1977), foram abatidos 325 subversivos, n\u00famero este que est\u00e1 muito aqu\u00e9m da realidade, pois, somente em confrontos, entre 24 e 29 de maio, mais de cem subversivos foram mortos, tendo sido noticiados apenas 32\u2033.<\/p>\n<p>O que o relat\u00f3rio indica \u00e9 o seguinte: em cinco dias, no m\u00e1ximo uma em cada tr\u00eas mortes se tornou p\u00fablica.<\/p>\n<p>Os outros dois ter\u00e7os podem n\u00e3o ter tido as mortes registradas, com o consequente desvio dos corpos.<\/p>\n<p>H\u00e1 v\u00e1rios ind\u00edcios de que a fonte dos detalhes apresentados pelo 3\u00ba Comar foram \u00f3rg\u00e3os repressivos argentinos. No come\u00e7o, o texto registra que \u201cesta ag\u00eancia tomou conhecimento e difunde o seguinte informe\u201d.<\/p>\n<p><strong>Portunhol <\/strong><\/p>\n<p>O rio da Prata \u00e9 chamado de \u201cPlata\u201d, em espanhol. O l\u00edder da Juventude Universit\u00e1ria Peronista Jos\u00e9 Pablo Ventura, \u201cabatido\u201d, n\u00e3o \u00e9 descrito como l\u00edder ou cabe\u00e7a da organiza\u00e7\u00e3o, mas como \u201ccabecilha\u201d, do castelhano \u201ccabecilla\u201d.<\/p>\n<p>Outra militante assassinada (\u201cabatida\u201d, para os militares brasileiros) foi Norma In\u00eas Cerrota, \u201crespons\u00e1vel sindical\u201d da Coluna Sul do maior grupo de guerrilha argentino, os Montoneros.<\/p>\n<p>\u201cRespons\u00e1vel sindical\u201d, tradu\u00e7\u00e3o literal de nomenclatura empregada pela esquerda em franc\u00eas e espanhol, significa \u201cl\u00edder sindical\u201d no Brasil.<\/p>\n<p>Com entusiasmo, a Aeron\u00e1utica afirma que \u201cos grandes \u00eaxitos que v\u00eam alcan\u00e7ando as For\u00e7as Armadas e de seguran\u00e7a s\u00e3o derivados, em parte, do grande n\u00famero de subversivos (cerca de 200 no \u00faltimo m\u00eas) que desertaram e se apresentaram \u00e0quelas for\u00e7as, que deles obt\u00eam informa\u00e7\u00f5es sobre os movimentos dos subversivos, em troca de garantia de suas vidas\u201d, conforme o documento.<\/p>\n<p>A Argentina foi o pa\u00eds do Cone Sul com maior n\u00famero de desaparecimentos pol\u00edticos nas ditaduras militares.<\/p>\n<p>A Comiss\u00e3o Nacional de Desaparecidos comprovou 8.961 casos, de acordo com Jair Krischke.<\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o M\u00e3es da Pra\u00e7a de Maio e outras entidades de defesa dos direitos humanos estimam o n\u00famero em 30 mil.<\/p>\n<p>A colabora\u00e7\u00e3o entre o regime militar do Brasil (1964-85) e o da Argentina foi intensa.<\/p>\n<p>No s\u00e1bado, a\u00a0<strong>Folha<\/strong> publicou uma lista de 149 argentinos procurados em territ\u00f3rio brasileiro, em 1976, a pedido do governo daquele pa\u00eds.<\/p>\n<p>Em 1975, foi criada a Opera\u00e7\u00e3o Condor, uma a\u00e7\u00e3o conjunta de combate a militantes de esquerda que reuniu os governos militares de Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile e Bol\u00edvia.<\/p>\n<p>Antes da Condor j\u00e1 havia colabora\u00e7\u00e3o intensa entre as For\u00e7as Armadas da Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>http:\/\/blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br\/2013\/05\/17\/governo-videla-queimava-corpos-de-opositores-em-fornos-de-hospitais-mostra-documento-secreto-no-brasil\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nM\u00e1rio Magalh\u00e3es\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4837\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[57],"tags":[],"class_list":["post-4837","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c68-argentina"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1g1","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4837","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4837"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4837\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4837"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4837"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4837"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}