{"id":4851,"date":"2013-05-21T18:44:56","date_gmt":"2013-05-21T18:44:56","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4851"},"modified":"2013-05-21T18:44:56","modified_gmt":"2013-05-21T18:44:56","slug":"tragedia-em-bangladesh-simboliza-despotismo-do-lucro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4851","title":{"rendered":"Trag\u00e9dia em Bangladesh simboliza despotismo do lucro"},"content":{"rendered":"\n<p>Estima-se que haja mais de cinco mil empresas oficiais de confec\u00e7\u00e3o no pa\u00eds, que ganham mercado principalmente por conta dos baixos custos de m\u00e3o de obra<\/p>\n<p><em>(Multid\u00e3o protesta contra desastre que matou mais de mil pessoas em Bangladesh.\u00a0Foto: <a href=\"http:\/\/www.taslimaakhter.com\/gallery\/the-life-and-struggle-of-garment-workers?wppa-album=2&amp;wppa-photo=30&amp;wppa-occur=1\" target=\"_blank\">Taslima Akhter<\/a>)<\/em><\/p>\n<p>Maur\u00edcio Hashizume<\/p>\n<p>Motivos de sobra fazem do desmoronamento do Rana Plaza, edif\u00edcio de oito andares que abrigava um complexo de f\u00e1bricas t\u00eaxteis em Bangladesh, uma das maiores trag\u00e9dias industriais da hist\u00f3ria e um dos mais dram\u00e1ticos e simb\u00f3licos atentados recentes contra o direito de trabalhadoras e trabalhadores. Passadas mais de duas semanas desde que a constru\u00e7\u00e3o erguida nos arredores de Daca (Savar) ruiu, em 24 de abril, a aterradora marca de mil v\u00edtimas fatais confirmadas (muitas delas ainda n\u00e3o identificadas) j\u00e1 foi ultrapassada, conforme informa\u00e7\u00f5es oficiais. Feriram-se mais de 2,5 mil pessoas, e h\u00e1 ainda quem estava trabalhando no local, em sua grande maioria mulheres, mas permanece \u201cdesaparecida\u201c \u2013 o que pode resultar na amplia\u00e7\u00e3o da soma de vidas subitamente interrompidas.<\/p>\n<p>Desta vez, por mais que se queira desviar o olhar para a mir\u00edade de falhas e neglig\u00eancias cometidas pelas partes envolvidas, o horror est\u00e1 profundamente associado \u00e0 busca incessante e desenfreada por lucro, motor central do sistema capitalista. \u00c9 ampla a cadeia alimentada por vantagens pol\u00edtico-econ\u00f4micas: das poderosas grifes internacionais do mundo da moda \u2013 que v\u00eam sendo cobradas publicamente por serem as grandes benefici\u00e1rias do esquema em curso \u2013 aos \u201cempreendedores\u201d e pol\u00edticos de Bangladesh, das auditorias contratadas e dos sistemas intersetoriais de monitoramento de cadeias produtivas aos consumidores finais.<\/p>\n<p>C\u00e1lculos feitos pelo Sindicato Global IndustriALL revelam que um incremento de apenas US$ 0,02 (dois centavos de d\u00f3lar) por cada camiseta produzida em Bangladesh poderia dobrar o sal\u00e1rio de quem a costura. Atualmente, o sal\u00e1rio m\u00ednimo nas confec\u00e7\u00f5es \u00e9 de 3 mil taka (US$ 38); os representantes de trabalhadoras e trabalhadores pedem aumento imediato para 5 mil taka (US$ 63) e um compromisso de aumentos anuais gradativos at\u00e9 2015. De acordo com eles, a ado\u00e7\u00e3o de um adicional de US$ 0,10 (dez centavos de d\u00f3lar) para cada pe\u00e7a produzida poderia transformar os padr\u00f5es de seguran\u00e7a de toda ind\u00fastria de vestu\u00e1rio do pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Protestos<\/strong><\/p>\n<p>Desde o dia do \u201cmassacre\u201d, o p\u00e1tio de uma escola local se converteu em dep\u00f3sito de corpos retirados dos escombros, muitos irreconhec\u00edveis. Enquanto examinam e aguardam por not\u00edcias, parentes das v\u00edtimas cobrem os rostos tentando minimizar o terr\u00edvel odor exalado pela decomposi\u00e7\u00e3o. Folhas de papel com fotos e dados sobre quem sumiu s\u00e3o exibidas. As ruas da capital e do entorno t\u00eam sido tomadas por seguidos protestos, que coincidem com uma onda de tens\u00e3o popular turbinada por conflitos de ordem pol\u00edtico-religiosa (lideradas pelo grupo Hefazat-e-Islam) que se espalham pelo pa\u00eds. Essas manifesta\u00e7\u00f5es populares, que envolvem demandas de grupos isl\u00e2micos, j\u00e1 resultaram em pelo menos mais tr\u00eas dezenas de mortos. Abundam den\u00fancias contra interven\u00e7\u00f5es repressivas e autorit\u00e1rias da parte do governo, acusado de perseguir oposicionistas e desafetos, incluindo lideran\u00e7as sindicais.<\/p>\n<p>Em atos p\u00fablicos e por meio de greves, multid\u00f5es exigem indeniza\u00e7\u00f5es e repara\u00e7\u00f5es, cobram a puni\u00e7\u00e3o dos respons\u00e1veis e sublinham a urg\u00eancia do pagamento de sal\u00e1rios mais justos (que o sal\u00e1rio m\u00ednimo praticado, o qual mereceu censura e classifica\u00e7\u00e3o de \u201ctrabalho escravo\u201d por parte do papa Francisco, novo expoente maior da Igreja Cat\u00f3lica) e da melhoria de condi\u00e7\u00f5es de trabalho.\u00a0<a href=\"http:\/\/alalodulal.org\/2013\/04\/27\/bangladesh-struck-oil\/\" target=\"_blank\">O setor, que movimenta US$ 20 bilh\u00f5es por ano, mant\u00e9m cerca de 3,2 milh\u00f5es de pessoas empregadas e responde por cerca de 80% das exporta\u00e7\u00f5es do pa\u00eds<\/a>.\u00a0Atualmente, s\u00f3 a China exporta mais t\u00eaxteis que Bangladesh.<\/p>\n<table border=\"0\" width=\"50%\" align=\"right\" bgcolor=\"#f1f1f1\">\n<tbody>\n<tr>\n<td>\n<p><strong><em>\u201cVil\u00e3o n\u00famero um\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>\u00c0 frente do parque industrial a ponto de lhe cravar o sobrenome, Mohammed Sohel Rana foi tachado instantaneamente como \u201cvil\u00e3o n\u00famero um\u201d do desabamento. Segundo relatos, ele teria negligenciado os iminentes riscos e, juntamente com os donos das confec\u00e7\u00f5es, contribu\u00eddo para pressionar trabalhadoras e trabalhadores a continuarem suas tarefas mesmo diante do aparecimento de rachaduras na edifica\u00e7\u00e3o no dia anterior ao desastre. Capturado j\u00e1 na fronteira com a \u00cdndia, foi exibido como trof\u00e9u pelas autoridades. Ao lado do pai (Abdul), dos donos das f\u00e1bricas (incluindo o espanhol David Mayor, diretor-geral da Phantom-Tac) e de engenheiros municipais, deve responder pelo desastre em inqu\u00e9rito criminal.<\/em><\/p>\n<p><em>Manchou-se ainda a imagem do partido governista Liga Awami, que tinha em Mohammed Rana um de seus filiados e militantes. Rela\u00e7\u00f5es estreitas com o poder teriam facilitado n\u00e3o apenas a expuls\u00e3o de moradores do entorno da \u00e1rea em que veio a se construir o Rana Plaza, mas tamb\u00e9m a obten\u00e7\u00e3o de autoriza\u00e7\u00f5es para construir e at\u00e9 ampliar o pr\u00e9dio. Moradores testemunham que o terreno onde se ergueu o complexo era um brejo; fontes locais chegam a associar Mohammed a atividades ilegais como o tr\u00e1fico de drogas.<\/em><\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>Para exporta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Outros focos dos manifestantes foram a Associa\u00e7\u00e3o de Fabricantes e Exportadores de Roupa de Bangladesh (BGMEA) e a Associa\u00e7\u00e3o de Fabricantes e Exportadores de Malhas de Bangladesh (BKMEA), entidades patronais que congregam a elite local da produ\u00e7\u00e3o das chamadas \u201croupas prontas para usar\u201d (ready-made garments, em ingl\u00eas, ou apenas RMG).<\/p>\n<p>Estima-se que haja mais de cinco mil empresas oficiais de confec\u00e7\u00e3o no pa\u00eds, que ganham mercado principalmente por conta dos baixos custos de m\u00e3o de obra. A m\u00e9dia de sal\u00e1rio paga ao contingente de mais de quatro milh\u00f5es de pessoas que trabalham no setor (80% mulheres, 10 horas por dia e seis dias por semana) \u00e9 metade do que se pratica na China. A vizinha \u00cdndia tem um custo laboral tr\u00eas vezes maior e ainda paga tributo para exportar \u00e0 Uni\u00e3o Europeia (destino de 60% das pe\u00e7as de Bangladesh).<\/p>\n<p>Apenas cinco meses antes da hecatombe em Savar, um inc\u00eandio nas instala\u00e7\u00f5es da f\u00e1brica Tazreen, no mesmo distrito, ceifou a vida de 112 oper\u00e1rias e oper\u00e1rios (que produziam pe\u00e7as para a rede varejista Walmart, Disney e Sears). Outro alastramento de fogo em janeiro deste ano implicou na morte de sete que trabalhavam na Smart Export, que produzia para a espanhola Inditex (dona da Zara) e para a alem\u00e3 KIK. Em dezembro de 2010, 29 faleceram em outro inc\u00eandio na f\u00e1brica da That\u2019s It Sportswear; no local, foram encontrados vest\u00edgios de uma marca da norte-americana GAP. Em fevereiro do mesmo ano, 21 faleceram em outro inc\u00eandio na Garib &amp; Garib, f\u00e1brica que abastecia a sueca H&amp;M.<\/p>\n<p>Desde 2005, quando 64 n\u00e3o sobreviveram ao desmoronamento do pr\u00e9dio da Spectrum-Sweater, igualmente em Savar e\u00a0<a href=\"http:\/\/www.cleanclothes.org\/news\/2013\/04\/11\/spectrum-collapse-eight-years-on-and-still-little-action-on-safety\" target=\"_blank\">tamb\u00e9m envolvendo produ\u00e7\u00e3o para a Inditex,<\/a> articula\u00e7\u00f5es internacionais da sociedade civil t\u00eam intensificado esfor\u00e7os com vistas \u00e0 melhoria das condi\u00e7\u00f5es do setor t\u00eaxtil em Bangladesh. Relat\u00f3rio do F\u00f3rum Internacional de Direitos Trabalhistas (ILRF)\u00a0<a href=\"http:\/\/laborrights.org\/sites\/default\/files\/publications-and-resources\/DeadlySecrets.pdf\" target=\"_blank\">re\u00fane uma s\u00e9rie de \u201ccalamidades\u201d ocorridas no setor<\/a>. Ironicamente, uma das mais recentes v\u00edtimas foi um ex-dirigente da BGMEA, que n\u00e3o conseguiu escapar com vida de um novo inc\u00eandio que determinou o falecimento de oito pessoas, ocorrido na \u00faltima quarta-feira (8).<\/p>\n<p><strong>Responsabilidade<\/strong><\/p>\n<p>As tr\u00e1gicas consequ\u00eancias do esfacelamento do Rana Plaza deflagraram instantaneamente, portanto, a busca de responsabilidades para al\u00e9m das fronteiras asi\u00e1ticas. A Campanha Roupas Limpas (<a href=\"http:\/\/www.cleanclothes.org\/\" target=\"_blank\">Clean Clothes Campaign<\/a>) se apressou em classificar o colapso do Rana Plaza como \u201cevit\u00e1vel\u201d e condenou marcas e grifes de moda que compram do pa\u00eds por \u201cfalharem mais uma vez na preven\u00e7\u00e3o dessa maci\u00e7a perda de vidas\u201d. Corpora\u00e7\u00f5es t\u00eaxteis que comercializam produtos feitos em Bangladesh devem, segundo a campanha, \u201cassumir uma posi\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7a, garantir que passos emergenciais sejam dados e pagar, sem demora, compensa\u00e7\u00f5es [estimadas preliminarmente em pelo menos US$ 30 milh\u00f5es] para as v\u00edtimas e suas fam\u00edlias\u201d.<\/p>\n<p>Com sede na Holanda, a Campanha entrou em contato com marcas e grifes internacionais cujos nomes aparecem ligados a pelo menos uma das cinco f\u00e1bricas (Phantom Tac, Phantom Apparels, Ether Tex, New Wave Style e New Wave Bottoms) que funcionavam no Rana Plaza. Alguns grupos confirmaram ter feito encomendas recentes ou em curso quando da queda do pr\u00e9dio e sinalizaram com poss\u00edveis repara\u00e7\u00f5es:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.bonmarche.co.uk\/latest-news\/scat\/news\/\" target=\"_blank\">Bonmarch\u00e9<\/a> (Reino Unido),\u00a0<a href=\"http:\/\/prensa.elcorteinglescorporativo.es\/view_object.html?obj=21,c,3332\" target=\"_blank\">El Corte Ingl\u00e9s<\/a>(Espanha),\u00a0<a href=\"http:\/\/www.primark-ethicaltrading.co.uk\/newsfaq\/news\/bangladesh_update\" target=\"_blank\">Primark<\/a> (Reino Unido\/Irlanda), Joe Fresh \u2013 linha de roupas da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.loblaw.ca\/English\/Media-Centre\/news-releases\/news-release-details\/2013\/Update-April-29-Statement-concerning-Bangladesh-Building-Collapse\/default.aspx\" target=\"_blank\">Loblaw\u2019s<\/a>, maior rede de supermercados do Canad\u00e1 \u2013, Matalan (Reino Unido), Premier Clothing (Reino Unido) e Mango (Espanha), que admitiu somente ter ordenado a produ\u00e7\u00e3o de amostras. Contrariando ind\u00edcios, Benetton (It\u00e1lia), Cato Fashions (EUA), Children\u2019s Place (EUA), C&amp;A (Holanda), Walmart (EUA) e Carrefour (Fran\u00e7a) refutaram liga\u00e7\u00f5es com as respectivas confec\u00e7\u00f5es ou se recusaram a se pronunciar.<\/p>\n<p>Redes e organiza\u00e7\u00f5es que atuam pela defesa dos direitos de trabalhadoras e trabalhadores clamam para que corpora\u00e7\u00f5es do setor assinem e adotem urgentemente o\u00a0<a href=\"http:\/\/laborrights.org\/sites\/default\/files\/publications-and-resources\/Bangladesh%20Fire%20and%20Building%20safety%20MOU-2012-Nov.pdf\" target=\"_blank\">Acordo contra Inc\u00eandios e pela Seguran\u00e7a nas Constru\u00e7\u00f5es em Bangladesh<\/a>. Desenvolvido com a participa\u00e7\u00e3o de entidades sindicais de dentro e fora do pa\u00eds, o acordo prev\u00ea inspe\u00e7\u00f5es independentes de unidades de produ\u00e7\u00e3o acompanhadas por representantes dos trabalhadores, relat\u00f3rios p\u00fablicos e treinamentos, al\u00e9m de manuten\u00e7\u00f5es e reformas obrigat\u00f3rias. Estabelece at\u00e9 normas relacionadas ao pagamento de pre\u00e7os adequados.<\/p>\n<p><strong>Mobiliza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Circula pela internet um conjunto de peti\u00e7\u00f5es que buscam aumentar a press\u00e3o sobre as grandes marcas e grifes que produzem em Bangladesh. Praticamente todas exigem que as grandes corpora\u00e7\u00f5es do setor t\u00eaxtil de pa\u00edses ricos assumam o compromisso defendido n\u00e3o s\u00f3 pela Campanha Roupas Limpas, mas tamb\u00e9m por outras iniciativas como o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.laborrights.org\/\" target=\"_blank\">ILRF<\/a>, Trabalho por Tr\u00e1s da Etiqueta (<a href=\"http:\/\/www.labourbehindthelabel.org\/\" target=\"_blank\">Labour Behind the Label<\/a>) e Guerra contra a Car\u00eancia (<a href=\"http:\/\/waronwant.org\/\" target=\"_blank\">War on Want<\/a>).<\/p>\n<p>Nesta sexta-feira (10), a Campanha Roupas Limpas divulgou um informe anunciando a<a href=\"http:\/\/www.cleanclothes.org\/news\/press-releases\/2013\/05\/10\/global-support-for-bangladesh-factory-safety-surpasses-one-million\" target=\"_blank\">supera\u00e7\u00e3o da meta de 1 milh\u00e3o de assinaturas<\/a> que convocam as grandes marcas da ind\u00fastria da moda a aderir ao Acordo contra Inc\u00eandios e pela Seguran\u00e7a nas Constru\u00e7\u00f5es. Somente no<a href=\"http:\/\/www.avaaz.org\/po\/crushed_to_make_our_clothes_loc\" target=\"_blank\">site Avaaz<\/a>, que faz parte do esfor\u00e7o conjunto, mais de 860 mil j\u00e1 firmaram e confirmaram o apoio \u00e0 causa. Mais de 81 mil tamb\u00e9m o fizeram no espa\u00e7o disponibilizado pela rede\u00a0<a href=\"http:\/\/www.change.org\/en-GB\/petitions\/primarkjobs-mango-matalan-ensure-safety-for-workers-compensate-victims-of-building-collapse\" target=\"_blank\">Change<\/a>. Em encontro ocorrido na Alemanha, representantes sindicais e patronais acordaram em estabelecer o dia 15 de maio como prazo final para que as corpora\u00e7\u00f5es assumam publicamente a iniciativa.<\/p>\n<p>A implementa\u00e7\u00e3o do referido acordo tamb\u00e9m fez parte das\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ilo.org\/global\/about-the-ilo\/activities\/statements-speeches\/WCMS_212463\/lang--en\/index.htm\" target=\"_blank\">conclus\u00f5es apresentadas pela miss\u00e3o de alto n\u00edvel da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT) enviada ao pa\u00eds ap\u00f3s a trag\u00e9dia do desabamento do Rana Plaza<\/a>. Ap\u00f3s visita realizada no in\u00edcio de maio, a miss\u00e3o da OIT e os parceiros tripartites (governo, empregadores e empregados) anunciaram um pacote com reformas laborais (para assegurar a associa\u00e7\u00e3o sindical e a negocia\u00e7\u00e3o colectiva) a ser enviado ao Parlamento do pa\u00eds dentro dos pr\u00f3ximos meses, uma for\u00e7a-tarefa de avalia\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es das f\u00e1bricas de vestu\u00e1rio em funcionamento at\u00e9 o final deste ano, um programa de treinamento para reintegrar feridos em recentes desastres, e a contrata\u00e7\u00e3o de 200 auditores fiscais do trabalho (com fortalecimento institucional e financeiro do \u00f3rg\u00e3o respons\u00e1vel) nos pr\u00f3ximos seis meses.<\/p>\n<p>Como\u00a0<a href=\"http:\/\/www.counterpunch.org\/2013\/04\/26\/the-terror-of-capitalism\/\" target=\"_blank\">denuncia o historiador e jornalista indiano Vijay Prashad<\/a>, apenas 18 inspetores e assistentes t\u00eam a incumb\u00eancia de monitorar cerca de 100 mil unidades de produ\u00e7\u00e3o \u2013 grande parte delas bem menores e ainda menos formais do que o Rana Plaza. \u201cQuando uma infra\u00e7\u00e3o \u00e9 detectada, as multas s\u00e3o t\u00e3o baixas que n\u00e3o estimulam reformas\u201d, comenta. E as promessas governamentais apresentadas na companhia da OIT contrastam com os pap\u00e9is cumpridos at\u00e9 o momento pela C\u00e9lula de Gest\u00e3o de Crise e pela Pol\u00edcia Industrial. Ambas as inst\u00e2ncias governamentais, conforme o analista, t\u00eam se dedicado mais \u00e0 espionagem das lideran\u00e7as das f\u00e1bricas do que a verificar viola\u00e7\u00f5es da legisla\u00e7\u00e3o trabalhista. Um dos organizadores do Centro de Solidariedade dos Trabalhadores de Bangladesh (Center for Worker Solidarity) foi capturado por capangas e encontrado morto, em abril do ano passado, com marcas de tortura.<\/p>\n<p>O colapso do Rana Plaza \u2013 que desabou logo no in\u00edcio do dia, depois que os corpulentos geradores de energia situados nos andares superiores do pr\u00e9dio come\u00e7aram a chacoalhar \u2013 tamb\u00e9m colocou em xeque, uma vez mais, os sistemas corporativos de auditoria social. Duas das cinco f\u00e1bricas tinham sido auditadas pela Iniciativa de Conformidade Social Empresarial \u2013 Business Social Compliance Initiative (BSCI), que aglutina diversas corpora\u00e7\u00f5es transnacionais, e muitas outras marcas e grifes mantinham esquemas de auditoria em curso \u2013 amparados pelos onipresentes C\u00f3digos de Conduta \u2013 envolvendo as fornecedoras.<\/p>\n<p><strong>Responsabilidade social<\/strong><\/p>\n<p>No primeiro comunicado divulgado na sequ\u00eancia do ocorrido, a BSCI confirmou que a New Waves Style e a Phantom Apparels tinham sido auditadas de acordo com o C\u00f3digo de Conduta e que havia iniciado uma investiga\u00e7\u00e3o para saber se companhias que fazem parte da iniciativa mantinham rela\u00e7\u00f5es comerciais com as duas confec\u00e7\u00f5es. Mesmo assim, j\u00e1 se adiantou: \u201cas raz\u00f5es para o colapso das f\u00e1bricas parecem estar relacionadas com a pobre infraestrutura do edif\u00edcio Rana Plaza\u201d, sem deixar de se solidarizar com as v\u00edtimas e seus familiares e de sublinhar o apoio aos governantes e parceiros no sentido da aplica\u00e7\u00e3o da Pol\u00edtica Nacional de Sa\u00fade e Seguran\u00e7a Ocupacional, conclu\u00edda no final de mar\u00e7o de 2013. No segundo comunicado, uma semana depois do ocorrido, a BSCI confirmou que uma empresa participante da iniciativa vinha mantendo rela\u00e7\u00f5es comerciais com uma das duas f\u00e1bricas auditadas. \u201cNo entanto, as auditorias n\u00e3o incluem a constru\u00e7\u00e3o do pr\u00e9dio ou a sua integridade\u201d, emenda a entidade.<\/p>\n<p>Segundo fonte experimentada consultada pela\u00a0<strong>Rep\u00f3rter Brasil<\/strong> \u2013 que acompanha de perto as movimenta\u00e7\u00f5es na \u00e1rea da responsabilidade social empresarial global h\u00e1 anos \u2013, os sistemas de auditoria social t\u00eam despertado crescentes desconfian\u00e7as. \u201cA auditoria social n\u00e3o \u00e9 uma profiss\u00e3o. Qualquer um pode querer faz\u00ea-lo. A metodologia se resume a uma an\u00e1lise de aus\u00eancias e car\u00eancias de itens que s\u00e3o checados, sem levar em conta causas mais profundas\u201d, diz. \u201cQuem paga pelas auditorias? Ser\u00e1 que a equipe de auditoria considera os curtos prazos impostos pelos compradores e as frequentes mudan\u00e7as nos pedidos como poss\u00edveis causas mais profundas permanentes? Ser\u00e1 que a equipe de auditoria avalia se o pre\u00e7o pago pelas marcas e grifes s\u00e3o suficientes para cobrir todos os custos do trabalho (sal\u00e1rios, hora-extra, seguro social etc.)?\u201d, indaga a informada fonte. Auditorias sem aviso pr\u00e9vio n\u00e3o s\u00e3o suficientes, complementa, enquanto a metodologia se limitar ao preenchimento de checklists (sem an\u00e1lises de fundo) e as empresas compradoras n\u00e3o alinharem, de fato, os crit\u00e9rios comerciais com os princ\u00edpios \u00e9ticos.<\/p>\n<p>Segundo a mesma fonte, a impress\u00e3o que se tem \u00e9 que as auditorias \u201capenas agradam o cliente [companhia contratante]\u201d, mas tamb\u00e9m que o p\u00fablico (governos, institui\u00e7\u00f5es multilaterais e outros segmentos da sociedade civil), em geral, s\u00e3o \u201cmuito facilmente impression\u00e1veis\u201d. Ou seja, no entendimento da fonte consultada, a aten\u00e7\u00e3o dada ao tema do largo uso das auditorias sociais tem sido bastante limitada \u2013 apesar de relat\u00f3rios incisivos como\u00a0<a href=\"http:\/\/www.reporterbrasil.org.br\/pacto\/noticias\/view\/459\" target=\"_blank\">o lan\u00e7ado pela Federa\u00e7\u00e3o Americana do Trabalho-Congresso das Organiza\u00e7\u00f5es Industriais (AFL-CIO, sigla em ingl\u00eas)<\/a> justamente um dia antes do desastre do Rana Plaza. \u201cA meu ver, estamos diante de uma silenciosa privatiza\u00e7\u00e3o da inspe\u00e7\u00e3o do trabalho.\u201d<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/2013\/05\/tragedia-em-bangladesh-simboliza-despotismo-do-lucro\/\" target=\"_blank\">http:\/\/reporterbrasil.org.br\/2013\/05\/tragedia-em-bangladesh-simboliza-despotismo-do-lucro\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4851\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-4851","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1gf","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4851","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4851"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4851\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4851"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4851"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4851"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}