{"id":4852,"date":"2013-05-21T18:53:10","date_gmt":"2013-05-21T18:53:10","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4852"},"modified":"2013-05-21T18:53:10","modified_gmt":"2013-05-21T18:53:10","slug":"cartas-de-geisel-a-videla-mostram-elos-da-operacao-condor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4852","title":{"rendered":"Cartas de Geisel a Videla mostram elos da Opera\u00e7\u00e3o Condor"},"content":{"rendered":"\n<p>Um dos segredos melhor guardados da Opera\u00e7\u00e3o Condor foi a participa\u00e7\u00e3o do Brasil e a sua conex\u00e3o com a Argentina. A hist\u00f3ria dessa associa\u00e7\u00e3o delituosa s\u00f3 ser\u00e1 revelada quando Washington liberar os documentos brasileiros com a mesma profus\u00e3o com que liberou os documentos sobre a Argentina e o Chile. Documentos at\u00e9 hoje secretos, obtidos por carta Maior, mostram correspond\u00eancia entre Jorge e\u00a0Videla\u00a0e Ernesto Geisel e indicam colabora\u00e7\u00e3o das duas ditaduras no pacto terrorista que foi a Opera\u00e7\u00e3o Condor. Por Dario Pignotti.<\/p>\n<p><strong>Bras\u00edlia<\/strong> &#8211; Jorge\u00a0Videla\u00a0cumpriu o papel que dele se esperava na Opera\u00e7\u00e3o Condor, o pacto terrorista que h\u00e1 27 anos ocupou um cap\u00edtulo importante na agenda argentina com o Brasil. O ditador Ernesto Geisel recebeu de bom grado a \u201cnova\u201d pol\u00edtica externa do processo de reorganiza\u00e7\u00e3o nacional (e internacional), tal como se l\u00ea nos documentos, em sua maioria secretos, at\u00e9 hoje, obtidos pela Carta Maior.<\/p>\n<p><em>\u201cFoi com a maior satisfa\u00e7\u00e3o que recebi, das m\u00e3os do excelent\u00edssimo senhor contra-almirante C\u00e9sar Augusto\u00a0Guzzetti, ministro de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, a carta em que Sua Excel\u00eancia teve a gentileza de fazer oportunas considera\u00e7\u00f5es a respeito das rela\u00e7\u00f5es entre nossos pa\u00edses&#8230;que devem seguir o caminho da mais ampla colabora\u00e7\u00e3o\u201d.<\/em><\/p>\n<p>A correspond\u00eancia de Ernesto\u00a0Beckman\u00a0Geisel dirigida a\u00a0Videla\u00a0exibe uma camaradagem carregada de adjetivos que n\u00e3o era caracter\u00edstico desse general, criado numa fam\u00edlia de pastores luteranos alem\u00e3es.<\/p>\n<p>\u201cO Brasil, fiel a sua Hist\u00f3ria e ao seu destino irrenunciavelmente americanista, est\u00e1 seguro de que nossas rela\u00e7\u00f5es devem basear-se numa afetuosa compreens\u00e3o&#8230;e no permanente entendimento fraterno\u201d, extravasa Geisel, o mesmo que havia reduzido a quase zero as rela\u00e7\u00f5es com os presidentes Juan Per\u00f3n e Isabel Martinez, quando seus embaixadores na Argentina pareciam menos interessados em visitar o Pal\u00e1cio\u00a0San\u00a0Martin do que frequentar cassinos militares, trocando ideias sobre como somar esfor\u00e7os na \u201cguerra contra a subvers\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>A carta de Geisel a\u00a0Videla, de 15 de dezembro de 1976, chegou a Buenos Aires dentro de uma \u201cmala diplom\u00e1tica\u201d, n\u00e3o por telefone, como era habitual. No documento consta \u201csecreto e urgent\u00edssimo\u201d, ao lado dessa nota.<\/p>\n<p>Em 6 de dezembro de 1976, nove dias antes da correspond\u00eancia de Geisel, o presidente Jo\u00e3o Goulart havia morrido, em seu ex\u00edlio de\u00a0Corrientes, o qual, de acordo com provas incontest\u00e1veis, foi um dos alvos priorit\u00e1rios da Opera\u00e7\u00e3o Condor no Brasil, que o espionou durante anos na Argentina, no Uruguai e na Fran\u00e7a, onde ele realizava consultas m\u00e9dicas por causa de seu problema card\u00edaco.<\/p>\n<p>Mais ainda: est\u00e1 demonstrado que, em 7 de dezembro de 1976, a ditadura brasileira proibiu a realiza\u00e7\u00e3o de necropsia nos restos do l\u00edder nacionalista e potencial amea\u00e7a, para que n\u00e3o respingassem em Geisel a parada card\u00edaca de origem incerta.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 elementos conclusivos, mas suspeitas plaus\u00edveis, de que Goulart foi envenenado com pastilhas misturadas entre seus medicamentos, numa a\u00e7\u00e3o coordenada pelos regimes de Bras\u00edlia, Buenos Aires e Montevid\u00e9u, e assim o entendeu a Comiss\u00e3o da Verdade, da presidenta Dilma Rousseff, ao ordenar a exuma\u00e7\u00e3o do corpo enterrado na cidade sulista de S\u00e3o Borja, sem cust\u00f3dia militar, porque o Ex\u00e9rcito se negou a dar-lhe h\u00e1 10 dias, depois de receber um pedido das autoridades civis.<\/p>\n<p>Voltemos \u00e0 correspond\u00eancia de Geisel de 15 de dezembro de 1976.<\/p>\n<p>O brasileiro escreveu em resposta a outra carta, de\u00a0Videla\u00a0(de 3 de dezembro de 1976), na qual ele se dizia persuadido de que a \u201cP\u00e1tria&#8230;vive uma inst\u00e2ncia din\u00e2mica no plano das rela\u00e7\u00f5es internacionais, particularmente em sua ativa e fecunda comunica\u00e7\u00e3o com as na\u00e7\u00f5es irm\u00e3s\u201d.<\/p>\n<p>\u201cA perdur\u00e1vel comunidade de destino americano nos assinala hoje, mais do que nunca, o caminho das realiza\u00e7\u00f5es compartilhadas e a busca das grandes solu\u00e7\u00f5es\u201d, propunha\u00a0Videla, enterrado ontem junto aos crimes secretos transnacionais sobre os quais n\u00e3o quis falar perante o Tribunal Federal N1, onde transita o mega processo da Opera\u00e7\u00e3o Condor.<\/p>\n<p>Os que estudaram essa trama terrorista sul-americana sustentam que ela se valeu dos servi\u00e7os da diplomacia, especialmente no caso brasileiro, onde os chanceleres teriam sido funcionais aos imperativos da guerra suja.<\/p>\n<p>Portanto, esse interc\u00e2mbio epistolar enquadrado na diplomacia presidencial de Geisel e\u00a0Videla, pode ser lido como um contraponto de mensagens cifradas sobre os avan\u00e7os do terrorismo binacional no combate \u00e0 resist\u00eancia brasileira ou argentina. Tudo em nome do \u201cinteresse rec\u00edproco de nossos pa\u00edses\u201d, escreveu\u00a0Videla.<\/p>\n<p>Em dezembro de 1976, 9 meses ap\u00f3s a derrubada do governo civil, a tirania argentina demonstrava que, al\u00e9m de algumas diverg\u00eancias geopol\u00edticas sonoras com o s\u00f3cio maior, havia de fato uma\u00a0complementariedade\u00a0das a\u00e7\u00f5es secretas \u201ccontra a subvers\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Assim, pouco ap\u00f3s a derrubada de Isabel Mart\u00ednez, o ent\u00e3o chanceler brasileiro e antes embaixador em Buenos Aires, Francisco Azeredo da Silveira, recomendou o fechamento das fronteiras para colaborar com\u00a0Videla, para impedir a fuga de guerrilheiros e militantes argentinos.<\/p>\n<p>Por sua parte,\u00a0Videla, assumindo-se como comandante do Condor celeste e branco, autorizava o encarceramento de opositores brasileiros, possivelmente contando com algum n\u00edvel de coordena\u00e7\u00e3o junto aos adidos militares (os mort\u00edferos \u201cagremiles\u201d) destacados no Pal\u00e1cio\u00a0Pereda, a mans\u00e3o de linhas afrancesadas onde tem sede a miss\u00e3o diplom\u00e1tica na qual, segundo vers\u00f5es, havia um n\u00famero exagerado de armas de fogo.<\/p>\n<p>Entre mar\u00e7o, m\u00eas do golpe, e dezembro de 1976, foram sequestrados e desaparecidos na Argentina os brasileiros Francisco Ten\u00f3rio Cerqueira J\u00fanior, Maria Regina Marcondes Pinto, Jorge Alberto\u00a0Basso, Sergio Fernando\u00a0Tula\u00a0Silberberge Walter Kenneth Nelson Fleury, disse o informe elaborado pelo Grupo de Trabalho Opera\u00e7\u00e3o Condor, da Comiss\u00e3o da Verdade.<\/p>\n<p>O organismo foi apresentado por Dilma Rousseff perante rostos contidamente iracundos dos comandantes das For\u00e7as Armadas, os \u00fanicos, entre as centenas de convidados para a cerim\u00f4nia, que evitaram aplaudi-la.<\/p>\n<p>Ao finalizar o ato realizado em novembro de 2011, o ent\u00e3o secret\u00e1rio de Direitos Humanos argentino Eduardo LuisDuhalde, declarava a este site que um dos segredos melhor guardados da Opera\u00e7\u00e3o Condor era a participa\u00e7\u00e3o do Brasil e a sua conex\u00e3o com a Argentina, e que essa associa\u00e7\u00e3o delituosa s\u00f3 ser\u00e1 revelada quando Washington liberar os documentos brasileiros com a mesma profus\u00e3o com que liberou os documentos sobre a Argentina e o Chile.<\/p>\n<p>Averiguar at\u00e9 onde chegou a cumplicidade de Buenos Aires e Bras\u00edlia ser\u00e1 mais dif\u00edcil depois do falecimento de\u00a0Videla, mas n\u00e3o h\u00e1 que se subestimar as pistas diplom\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Em 6 de agosto de 1976, um telefonema \u201cconfidencial\u201d\u00a0degravado\u00a0na embaixada brasileira informa aos seus superiores que o ministro de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores\u00a0Guzzetti\u00a0falou sobre a \u201cnova\u201d pol\u00edtica externa vigente desde que \u201cas for\u00e7as armadas assumiram o poder\u201d e a da voca\u00e7\u00e3o de aproximar-se mais do Brasil, ap\u00f3s anos de distanciamento.<\/p>\n<p>Ao longo de 1976, os chanceleres Azeredo da Silveira e\u00a0Guzzetti\u00a0mantiveram reuni\u00f5es entre si e com o principal fiador da Condor, Henry Kissinger que, segundo os documentos que vieram a p\u00fablico h\u00e1 anos a pedido do \u201cArquivo Nacional de Seguran\u00e7a\u201d dos EUA, recomendou a ambos ser eficazes na simula\u00e7\u00e3o no trabalho de exterm\u00ednio dos inimigos.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s desejamos o melhor para o novo governo (Videla)&#8230;desejamos seu \u00eaxito&#8230;Se h\u00e1 coisas a fazer, voc\u00eas devem faz\u00ea-las r\u00e1pido&#8230;\u201d, recomendou o Pr\u00eamio Nobel da Paz estadunidense, ao contra-almirante e chanceler\u00a0Guzzetti, em junho de 1976.<\/p>\n<p><strong><a href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/materiaMostrar.cfm?materia_id=22068&amp;utm_source=emailmanager&amp;utm_medium=email&amp;utm_campaign=Boletim_Carta_Maior__18052013\" 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