{"id":4855,"date":"2013-05-22T16:37:28","date_gmt":"2013-05-22T19:37:28","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4855"},"modified":"2017-08-25T00:02:00","modified_gmt":"2017-08-25T03:02:00","slug":"o-desafio-bolivariano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4855","title":{"rendered":"O desafio bolivariano"},"content":{"rendered":"\n<p>No Conselho de Ministros de 20 de outubro de 2012, Hugo Ch\u00e1vez evidencia o que foi a sua busca mais angustiante: conseguir <em>o ponto de n\u00e3o retorno<\/em> ao caminho socialista por ele tra\u00e7ado. \u201cComuna ou nada\u201d foi a determina\u00e7\u00e3o radical que marcou aquela reflex\u00e3o que depois foi recolhida no livro titulado <em>O Golpe de Leme<\/em>, de cujo estudo n\u00e3o deve subtrair-se quem aspirar a refletir sobre o porvir do processo bolivariano; objetivamente, analisa se finalmente podemos romper ou n\u00e3o com a l\u00f3gica do sistema do capital. Este \u00e9 um problema central, que n\u00e3o pode ser resolvido pelos processos socialistas euro asi\u00e1ticos do s\u00e9culo XX, apesar da genialidade dos seus dirigentes, e que se apresenta como o grande desafio a superar pelos processos de mudan\u00e7as revolucion\u00e1rias surgidos na Am\u00e9rica Latina na primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI e cujo impulso inicial gerou a irrup\u00e7\u00e3o da insurg\u00eancia bolivariana na Venezuela.<\/p>\n<p>Ora, \u00e9 indubit\u00e1vel que o\u00a0<em>ponto de n\u00e3o retorno <\/em>passa por consolidar a hegemonia revolucion\u00e1ria, a qual n\u00e3o deve ser entendida s\u00f3 como obten\u00e7\u00e3o de uma maioria eleitoral, como equivocamente interpretam alguns camaradas; \u00e9 imprescind\u00edvel uma hegemonia social, e mais ainda, que a cultura revolucion\u00e1ria passe a ser a cultura dominante da sociedade; e devemos come\u00e7ar por reconhecer que nunca a cultura burguesa perdeu sua hegemonia no nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>De outubro a hoje a hist\u00f3ria acelerou-se. O hiper agressivo c\u00e2ncer (provavelmente inoculado) terminou por liquidar fisicamente o Comandante Hugo Ch\u00e1vez, l\u00edder da Revolu\u00e7\u00e3o, com consequ\u00eancias inimagin\u00e1veis, mas que j\u00e1 come\u00e7am a incidir no complexo quadro pol\u00edtico presente. Nicol\u00e1s Maduro, postulado expressamente por Ch\u00e1vez para ir \u00e0 luta eleitoral em caso do previs\u00edvel desfecho da sua doen\u00e7a, ganhou as elei\u00e7\u00f5es de 14 de abri. Ao mesmo tempo, registra-se um importante ascenso da contra-revolu\u00e7\u00e3o, que tenta desrespeitar os 273.056 votos de vantagem das for\u00e7as socialistas. As for\u00e7as do capital (Estados Unidos, o paramilitarismo colombiano encabe\u00e7ado por \u00c1lvaro Uribe V\u00e9lez, outros aliados da direita internacional e, com certeza, as for\u00e7as do fascismo interno) consideram ter chegado o momento para acelerar o seu plano desestabilizador, o qual vinha em desenvolvimento desde longo tempo atr\u00e1s, e que aspira a liquidar o processo bolivariano, aplicando esquemas intervencionistas j\u00e1 praticados em outras partes do mundo.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia desatada nos dias posteriores ao dia 14 de abril, conseq\u00fc\u00eancia da inten\u00e7\u00e3o preestabelecida de desconhecer o resultado eleitoral, \u00e9 parte do esquema: desestabiliza\u00e7\u00e3o-ingovernabilidade-interven\u00e7\u00e3o estrangeira, pelo qual se move o candidato perdedor Capriles Radonski e a dire\u00e7\u00e3o da extrema-direita venezuelana. At\u00e9 o presente, contabilizam-se nove falecidos e 120 feridos, al\u00e9m de v\u00e1rios Centros de Diagn\u00f3stico Integral \u2013 CDI &#8211; incendiados. Por tudo isso, devem responder os seus instigadores. Essa viol\u00eancia recorda-nos ensinamentos da hist\u00f3ria de muitos momentos e pa\u00edses: a burguesia que se mostra como campe\u00e3 da democracia recorre \u00e0 for\u00e7a cada vez que est\u00e1 em quest\u00e3o a sua domina\u00e7\u00e3o. No entanto, a atual viol\u00eancia apoia-se num fen\u00f4meno novo no nosso pa\u00eds: um segmento da popula\u00e7\u00e3o (pequeno por enquanto) tem sido arrastado para o fascismo, v\u00edtima da influ\u00eancia midi\u00e1tica do sistema do capital. Hav\u00edamos advertido sobre esse fato num artigo publicado meses atr\u00e1s sob o t\u00edtulo \u201cTend\u00eancias fascistas na direita venezuelana\u201d.<\/p>\n<p>O fascismo atual, tal como o hist\u00f3rico, surge como uma rea\u00e7\u00e3o das chamadas camadas m\u00e9dias, horrorizadas diante da possibilidade do socialismo, num esfor\u00e7o pol\u00edtico que, em \u00faltima inst\u00e1ncia, serve aos interesses do capital financeiro. Na Venezuela, a sua presen\u00e7a come\u00e7a a se estender para setores do lumpen proletariado e inclusive de trabalhadores desprovidos de consci\u00eancia social que n\u00e3o conseguem ver os avan\u00e7os que nestes 14 anos conseguiu o povo trabalhador.<\/p>\n<p>De tal forma, a direita conseguiu melhorar sua posi\u00e7\u00e3o na correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as existente no pa\u00eds depois de um esfor\u00e7o gigantesco dos seus atores internos e externos e da aplica\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de um plano que tem elementos essenciais fora do enquadramento do paradigma por ela apregoado, a democracia burguesa. Eles s\u00e3o: &#8211; opera\u00e7\u00e3o centr\u00edfuga para incrementar a fuga de capitais, desabastecimento de alimentos e outros produtos, incremento da especula\u00e7\u00e3o e da carestia nos circuitos privados, entrada ao pa\u00eds de for\u00e7a paramilitar, sabotagem ao sistema el\u00e9trico; tudo isso acompanhado de uma esmagadora campanha midi\u00e1tico nacional e internacional orientado para deslegitimar o governo e localizar frente \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica mundial o nosso pa\u00eds como um Estado fora da lei.<\/p>\n<p>Que 7.575.704 venezuelanos tenham votado a favor do processo apesar do desaparecimento f\u00edsico do l\u00edder da Revolu\u00e7\u00e3o, de o pa\u00eds ter sido submetido a uma guerra econ\u00f3mica-medi\u00e1tica, desespera quem esteve habituado a ter tudo a seus p\u00e9s, uma classe prepotente que considera os seus votos de maior valia em frente aos de quem permaneceu exclu\u00eddo durante s\u00e9culos. N\u00e3o entende o acontecido na sociedade na era bolivariana, quando a democracia mudou de qualidade, alargando-se substantivamente, com n\u00edveis de protagonismo popular muito superiores ao passado, com um alt\u00edssimo n\u00edvel de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Tamb\u00e9m n\u00e3o entende que outras reformas profundas impulsionadas por Hugo Ch\u00e1vez apontaram para abrir o caminho das mudan\u00e7as estruturais, da constru\u00e7\u00e3o socialista e isto explica que o bloco de for\u00e7as que gira em torno do mundo do trabalho (majorit\u00e1rio) n\u00e3o esteja disposto a retroceder.<\/p>\n<p>Deter o fascismo \u00e9 a principal tarefa atual da Revolu\u00e7\u00e3o na Venezuela e o novo governo de Maduro mostrou resolu\u00e7\u00e3o nesse sentido, comprometendo-se em dar continuidade \u00e0 linha social estrat\u00e9gica. Atuar com firmeza para que n\u00e3o nos passe aquilo denunciado por Sim\u00f3n Bol\u00edvar ao analisar as causas da perda da Primeira Rep\u00fablica: \u2026\u201da cada conspira\u00e7\u00e3o, sucedia um perd\u00e3o, e a cada perd\u00e3o sucedia outra conspira\u00e7\u00e3o que se voltava a perdoar\u201d\u2026 (S.B. 15-12-1812). S\u00f3 atuando com resolu\u00e7\u00e3o poder\u00e1 ser contida a viol\u00eancia, que na verdade, tem estado presente ao longo de todos estes anos apesar dos esfor\u00e7os de Hugo Ch\u00e1vez para que a transforma\u00e7\u00e3o da sociedade se desenvolvesse em paz e em democracia. Recordemos n\u00e3o s\u00f3 as v\u00edtimas do golpe contrarrevolucion\u00e1rio do 11 de abril de 2002, pois que teremos que somar uns duzentos ca\u00eddos por ordem da oligarquia latifundi\u00e1ria para tentar impedir a aplica\u00e7\u00e3o da Lei de Terras ou os casos de dirigentes oper\u00e1rios, camponeses ou de povos origin\u00e1rios assassinados, express\u00e3o da viol\u00eancia exercida por uma classe resistente a perder seus privil\u00e9gios.<\/p>\n<p>Contra tudo isso, o povo trabalhador deu mostras de paci\u00eancia e manteve sua confian\u00e7a nos organismos de Estado o que n\u00e3o significa que esteja disposto a ver arrebatadas as conquistas obtidas durante o processo bolivariano e ver passivamente derramar-se o sangue dos seus camaradas. Para as e os revolucion\u00e1rios, do que se trata agora \u00e9 de deter o fascismo fortalecendo-nos no desenvolvimento do Poder Popular.<\/p>\n<p>Muitas falsas ideias foram pulverizadas pela hist\u00f3ria dos \u00faltimos dias, uma delas: que estudar as classes, o seu comportamento, os seus interesses, a sua luta correspondia a um tempo passado, que no s\u00e9culo XXI eram outros fatores os que primavam na pol\u00edtica; mas a luta de classes tem-se-nos revelado na sua exata crueza.<\/p>\n<p>O fascismo ser\u00e1 derrotado, n\u00e3o nos cabe d\u00favida disso. A Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana exibe grandes fortalezas. Elas s\u00e3o: o desenvolvimento da consci\u00eancia pol\u00edtica da maioria da popula\u00e7\u00e3o, possuir uma bem sucedida experi\u00eancia em batalhas eleitorais, mas tamb\u00e9m est\u00e1 o fato de que os planos imperiais trope\u00e7am com uma For\u00e7a Armada Nacional Bolivariana que experimentou mudan\u00e7as na sua doutrina militar, modificou a estrat\u00e9gia da defesa nacional, sendo profundamente antiimperialista e popular.<\/p>\n<p>No entanto, a derrota do fascismo, condi\u00e7\u00e3o vinculada ao reimpulso da luta socialista, passa tamb\u00e9m polo\u00a0<em>golpe de leme <\/em>que priorize o relacionamiento da dire\u00e7\u00e3o com o povo trabalhador, empreenda uma retifica\u00e7\u00e3o para al\u00e9m das fei\u00e7\u00f5es operativas, que se desate ainda uma batalha frontal contra a corrup\u00e7\u00e3o e outros v\u00edcios que danificam a profundidade do processo. Enfim, s\u00f3 a consolida\u00e7\u00e3o do poder popular, o desenvolvimento permanente da teoria revolucion\u00e1ria, o impulso de uma economia produtiva crescentemente comunitarizada, no meio de um forte debate de ideias que aponte para o fortalecimento da consci\u00eancia marcar\u00e1\u00a0<em>o ponto de n\u00e3o retorno<\/em>, o triunfo do socialismo.<\/p>\n<p>1- CH\u00c1VEZ, Hugo, El Golpe de Tim\u00f3n, Colecci\u00f3n Claves, Correo del Orinoco, Caracas, outubro 2012.<\/p>\n<p>2-\u00a0<a href=\"http:\/\/www.aporrea.org\/ideologia\/a153320.html\" target=\"_blank\">http:\/\/www.aporrea.org\/ideologia\/a153320.html<\/a><\/p>\n<p><strong><em>Am\u00edlcar Figueroa Salazar \u00e9 historiador e militante revolucion\u00e1rio venezuelano. Foi Presidente do Parlatino.<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nAm\u00edlcar Figueroa Salazar\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4855\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-4855","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1gj","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4855","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4855"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4855\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4855"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4855"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4855"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}