{"id":4895,"date":"2013-05-30T23:39:33","date_gmt":"2013-05-30T23:39:33","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4895"},"modified":"2013-05-30T23:39:33","modified_gmt":"2013-05-30T23:39:33","slug":"um-camarada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4895","title":{"rendered":"Um camarada"},"content":{"rendered":"\n<p>N\u00f3s temos o h\u00e1bito, compreens\u00edvel, de celebrar grandes personalidades revolucion\u00e1rias. Afinal s\u00e3o pessoas que se destacaram por suas realiza\u00e7\u00f5es, por seu pensamento, por sua trajet\u00f3ria her\u00f3ica. S\u00e3o aquilo que Heller um dia denominou de indiv\u00edduos gen\u00e9ricos, que em sua singularidade apresentam um tra\u00e7o da genericidade; nos quais nos reconhecemos e atrav\u00e9s deles entre n\u00f3s nos identificamos, n\u00f3s os simples mortais. Neles projetamos, afirmou Freud, nosso ideal de ego e passamos a incorporar em n\u00f3s tra\u00e7os daqueles que se destacam, que assumem papel de l\u00edderes.<\/p>\n<p>Assim, em atitude de venera\u00e7\u00e3o olhamos para nossos grandes camaradas, Fidel e sua lideran\u00e7a incontest\u00e1vel da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, ao lado de Che e seu incr\u00edvel carisma, L\u00eanin e sua firmeza estrat\u00e9gica e flexibilidade t\u00e1tica, Mao e sua capacidade de traduzir para a realidade chinesa os caminhos pr\u00f3prios da revolu\u00e7\u00e3o, como Allende procurou no Chile, como Almicar Cabral, Augostinho Neto e Sam\u00f4ra Machel em nossa terra distante da \u00c1frica de onde viemos todos.<\/p>\n<p>Outros por seu pensamento que descortina caminhos, constr\u00f3i valores, desconstr\u00f3i certezas e desvenda apar\u00eancias, como Mari\u00e1tegui, como Luk\u00e1cs, Gramsci e, antes e acima de todos, os gigantes alem\u00e3es: Marx e Engels. Como os poetas que roubam nossa alma para devolve-las molhadas com suas palavras.<\/p>\n<p>Parece que temos a necessidade de projetar em certos indiv\u00edduos representativos, nossos desejos, anseios, e por certas caracter\u00edsticas, ver neles o que nos faz ser como somos. Muitas vezes, por ocupar este papel, apagamos as particularidades destes personagens e suas trajet\u00f3rias, os idealizamos, os colocamos para fora da humanidade, cultuamos suas personalidades, exteriorizamos aquilo que \u00e9\u00a0nosso na objetiva\u00e7\u00e3o do l\u00edder, e, por vezes, ela se distancia e se volta contra n\u00f3s como uma for\u00e7a estranha, se aliena.<\/p>\n<p>Como em Che, transformado em guerrilheiro her\u00f3ico e mistificado, como nosso Mariguella em seu sacrif\u00edcio, como, talvez, o maior personagem hist\u00f3rico da revolu\u00e7\u00e3o brasileira, o camarada Luiz Carlos Prestes. Quando era um estudante de hist\u00f3ria, nos primeiros anos da faculdade e j\u00e1 tendo que dar aulas para sobreviver, peguei alguns livros sobre a hist\u00f3ria do Brasil para preparar aulas que iam desde o Brasil col\u00f4nia at\u00e9 o presente, ao mesmo tempo em que estudava a hist\u00f3ria do movimento oper\u00e1rio no Brasil. Naquele painel que se descortina diante de meus olhos, a figura de Prestes saltava como algo de excepcional. Perpassava todas as etapas do Brasil republicano, submergia no mar agitado da hist\u00f3ria, para reaparecer adiante com a classe trabalhadora que tateava os caminhos de sua constitui\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Sua vida, seus acertos e equ\u00edvocos, sua epop\u00e9ia na Coluna, a resist\u00eancia clandestina, seu amor, sua pris\u00e3o, sua trag\u00e9dia, sua vida, seu desterro, sua sobreviv\u00eancia, sua volta ao Brasil, pareciam para mim, naquele momento, t\u00e3o inacredit\u00e1vel como se o mar diante de meus olhos se transformassem nas p\u00e1ginas da Il\u00edada e delas sa\u00edssem batalh\u00f5es hel\u00eanicos em guerra, ou outras das quais saltavam sereias e serpentes marinhas, ou Moby Dick elevando-se das \u00e1guas escuras enquanto o capit\u00e3o Haab tenta alvej\u00e1-la com seu arp\u00e3o. Assim me parecia Prestes quando o vi envolto em uma multid\u00e3o que o cercava junto ao Teatro Ruth Escobar chegando para uma palestra em seu retorno do ex\u00edlio. Quando o conheci pessoalmente, por um momento, ele me parecia pequeno, magro. Almo\u00e7amos em seu apartamento no Rio, arroz feij\u00e3o, bife, salada. Mas, quando come\u00e7a a falar, nos transportava para dentro da hist\u00f3ria e ali emergia o gigante, sua cores iam desaparecendo, tornava-se aos poucos em branco e preto, s\u00e9pia, amarelo velho, com sua barba e seu uniforme de tenente. Depois, tomamos caf\u00e9.<\/p>\n<p>Nas perip\u00e9cias de Prestes, nas tortuosas trilhas da clandestinidade e depois, uma pessoa podia ser vista, algumas vezes, por perto. N\u00e3o creio que haja uma foto que o prove, um depoimento em um livro, em algum documento perdido em algum arquivo escrito em sangue nos por\u00f5es de nossos algozes. Mas estava ali, foi, por um tempo, seu seguran\u00e7a. Chamava Valdomiro e nem sei se daqueles cuja vanguarda de seu nome \u00e9 um W ou um V, mas gosto de acreditar que seja com V, pois seu Valdomiro n\u00e3o era chegado a estas coisas de sofisticada estrangeirice de dois vs em um s\u00f3.<\/p>\n<p>N\u00e3o era uma pessoa comum, isso n\u00e3o. Era um comunista e h\u00e1\u00a0 algo de excepcional em ser comunista. Um ser estranho porque n\u00e3o\u00a0 \u00e9\u00a0mais s\u00f3\u00a0um indiv\u00edduo, \u00e9\u00a0um ser composto, coletivo, destes que j\u00e1\u00a0assustava \u00e0\u00a0Arist\u00f3teles, \u00e0s classes dominantes de todos os tempos e continua preocupando as autoridades constitu\u00eddas.<\/p>\n<p>Entrou no PCB jovem e acompanhou o partido toda a sua vida. N\u00e3o ficava em casa esperando ser chamado, ia procurar os camaradas onde estes estavam e oferecia sol\u00edcito sua ajuda. Lembro-me de outro companheiro espanhol, seu Benito, que passou um dia no diret\u00f3rio do PT e entrou porque viu bandeiras vermelhas e trabalhadores se reunindo. Incr\u00edvel, exilado da rep\u00fablica revolucion\u00e1ria de Espanha, era como se houvesse hibernado por d\u00e9cadas at\u00e9 que o vento da luta o despertou e ele procurou seus iguais<\/p>\n<p>No momento em que o j\u00e1\u00a0falecido PPS tentou acabar com o PCB e alguns camaradas se reuniram em baixo de uma \u00e1rvore como sede provis\u00f3ria, Valdomiro devia estar por ali. Nos duros tempos de reconstru\u00e7\u00e3o, numa sala pequena na Rua do Carmo em S\u00e3o Paulo, ele cuidava da sede, n\u00e3o como se o partido fosse sua casa, ao contr\u00e1rio, sua casa era o partido. Colocava uma cadeira \u00e0 porta e recebia \u00e0 todos com sua atenciosa conversa e considera\u00e7\u00e3o. O que n\u00e3o o impedia de bravejar contra qualquer atitude que lhe parecia ofensiva contra um camarada, o partido ou mesmo uma cadeira de nosso patrim\u00f4nio.<\/p>\n<p>Sem fam\u00edlia por perto, costumava passar o natal, esta festa pag\u00e3, na casa de meus sogros que cultivam o h\u00e1bito de receber a humanidade em sua casa como se fosse sua. Sentava-se ali, conversava pausadamente. N\u00e3o houve uma \u00fanica vez sequer, que chegando ao partido ele n\u00e3o me cumprimentasse perguntando por meu sogro e minha fam\u00edlia. N\u00e3o ficava ali por um servi\u00e7o, um trabalho, ainda que desta atividade, por um bom tempo, tenha garantido seu teto e seu alimento. Desempenhava sua atividade como uma tarefa partid\u00e1ria, t\u00e3o s\u00e9ria como se fosse definida em resolu\u00e7\u00e3o da Internacional Comunista ou por L\u00eanin em pessoa.<\/p>\n<p>Como compreender estas pessoas? Disse meu mestre poeta, Silvio Rodriguez, que \u201cos homens sem hist\u00f3ria s\u00e3o a hist\u00f3ria, gr\u00e3o a gr\u00e3o se formam as grandes praias\u201d. Quando Marx e Engels subvertiam toda a hist\u00f3ria ao afirmar que o verdadeiro pressuposto da exist\u00eancia \u00e9 que os seres humanos precisam, antes de tudo, comer, morar, vestir-se e outras coisas e que, portanto, o primeiro ato hist\u00f3rico \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o dos meios para garantir a produ\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia, estavam dizendo algo parecido. Aqueles batalh\u00f5es de pessoas an\u00f4nimas, sem rosto e sem especial destaque, s\u00e3o quem de fato constr\u00f3i a hist\u00f3ria que depois ser\u00e1 analisada pelos famosos fil\u00f3sofos que preocupados como o Homem com ma\u00edsculas, quase nunca levam em conta os homens e mulheres que prosaicamente produzem o que eles tentam compreender.<\/p>\n<p>Nestes dias recebi a not\u00edcia que meu camarada Valdomiro faleceu. Internado em um hospital, ainda perguntou por n\u00f3s. N\u00e3o sei explicar a for\u00e7a como sua morte me atinge. Provavelmente esta data n\u00e3o ser\u00e1 lembrada, sua figura incr\u00edvel n\u00e3o ser\u00e1 marcada por legado significativo, pelo que tenha pensado ou escrito, o mundo n\u00e3o sa\u00edra dos eixos, nem encontrar\u00e1 seu caminho. No entanto, arrisco dizer, que seu Valdomiro foi um indiv\u00edduo gen\u00e9rico, pelo simples fato de que nele manifestou-se a humanidade, um modo de ser pr\u00f3prio de homens e mulheres de um poss\u00edvel futuro emancipado. Um pequeno gr\u00e3o nesta imensa praia por fazer. Pequeno, mas insubstitu\u00edvel, como todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>Camarada Valdomiro: Presente! Adeus camarada.<\/p>\n<p>Mauro Iasi \u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, presidente da ADUFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro\u00a0O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia (Boitempo, 2002). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, \u00e0s quartas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nEm mem\u00f3ria ao camarada Valdomiro\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4895\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-4895","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c56-memoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1gX","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4895","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4895"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4895\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4895"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4895"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4895"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}