{"id":4898,"date":"2013-05-31T15:16:47","date_gmt":"2013-05-31T15:16:47","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4898"},"modified":"2013-05-31T15:16:47","modified_gmt":"2013-05-31T15:16:47","slug":"integra-do-depoimento-da-historiadora-dulce-pandolfi-a-comissao-estadual-da-verdade-do-rio-de-janeiro-em-28-de-maio-de-2013","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4898","title":{"rendered":"\u00cdntegra do depoimento da historiadora Dulce Pandolfi \u00e0 Comiss\u00e3o Estadual da Verdade do Rio de Janeiro em 28 de maio de 2013"},"content":{"rendered":"\n<p>\u201cPor acreditar que no Brasil de hoje a busca pelo \u201cdireito \u00e0 verdade e \u00e0 mem\u00f3ria\u201d \u00e9 condi\u00e7\u00e3o essencial para nos libertarmos de um passado que n\u00e3o podemos esquecer, aceitei o convite da Comiss\u00e3o da Verdade do Rio de Janeiro para fazer hoje, aqui, esse depoimento.<\/p>\n<p>Mesmo sem nenhum mandato, quero falar em nome dos presos, torturados, assassinados e desaparecidos pela ditadura militar que vigorou no nosso pa\u00eds entre 1964 e 1985.<\/p>\n<p>Como historiadora, sei que a mem\u00f3ria n\u00e3o diz respeito apenas ao passado. Ela \u00e9 presente e \u00e9 futuro. Os testemunhos que est\u00e3o sendo dados \u00e0 Comiss\u00e3o da Verdade, embora sobre o passado, dizem respeito ao presente e apontam para o futuro, por isto mesmo espero que ajudem a construir um Brasil mais justo e solid\u00e1rio. Sei tamb\u00e9m que da mem\u00f3ria &#8211; sempre seletiva &#8211; , fazem parte o sil\u00eancio e o esquecimento. Por isso, nessas minhas fortes lembran\u00e7as, permeadas por ru\u00eddos, odores, cores e dores, estar\u00e3o presentes aus\u00eancias e esquecimentos.<\/p>\n<p>Nascida e criada em Recife, fiz parte de uma gera\u00e7\u00e3o que sonhou e lutou muito. Quer\u00edamos romper com as tradi\u00e7\u00f5es, acabar com mis\u00e9ria e com as injusti\u00e7as sociais, reformar a universidade, derrubar a ditadura, enfim, quer\u00edamos transformar o Brasil e o mundo.<\/p>\n<p>Em 1968, um ano marcado por muitas paix\u00f5es e fortes embates pol\u00edticos e ideol\u00f3gicos, eu, cursando o segundo ano de Ci\u00eancias Sociais, fui eleita secret\u00e1ria geral do Diret\u00f3rio Central dos Estudantes da Universidade Federal de Pernambuco, DCE, entidade que congregava todos os estudantes daquela universidade. Naquele ano o movimento estudantil explodiu por toda parte. No Brasil, depois da famosa Passeata dos Cem Mil, realizada aqui no Rio de Janeiro e que tentamos replicar nas diversas capitais do pa\u00eds, o ano terminou com a decreta\u00e7\u00e3o do Ato Institucional n. 5. A partir da\u00ed, as pris\u00f5es, as mortes e as torturas, iniciadas em 1964, aumentaram. A radicaliza\u00e7\u00e3o do regime, para muitos de n\u00f3s, justificava a continuidade da nossa luta. Foi tamb\u00e9m em 1968 que ingressei em uma organiza\u00e7\u00e3o de esquerda armada, a A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional, ALN.<\/p>\n<p>No in\u00edcio de 1970, perseguida pelos \u00f3rg\u00e3os da repress\u00e3o, fugi do Recife e vim para o Rio de Janeiro. Poucos meses depois, fui presa.<\/p>\n<p>Naquela noite do dia 20 de agosto de 1970, no momento em que entrei no quartel da Pol\u00edcia do Ex\u00e9rcito situado na Rua Bar\u00e3o de Mesquita n\u00famero 425, no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, ouvi uma frase que at\u00e9 hoje ecoa forte nos meus ouvidos: \u201cAqui n\u00e3o existe Deus, nem P\u00e1tria, nem Fam\u00edlia. S\u00f3 existe n\u00f3s e voc\u00ea.\u201d Hoje, passados mais de 40 anos, penso no efeito que aquela frase produziu, em mim. Com vinte e um anos de idade, cheia das certezas e transbordando de paix\u00f5es, eu n\u00e3o queria morrer. Embora totalmente acuada e literalmente apavorada, aquela frase, n\u00e3o deixava a menor d\u00edvida para algo que eu j\u00e1 sabia, mas que naquele momento ganhou for\u00e7a e concretude. N\u00e3o havia comunica\u00e7\u00e3o ou negocia\u00e7\u00e3o poss\u00edvel entre aqueles dois mundos: o meu e o deles.<\/p>\n<p>Era naquele quartel que funcionava o DOI CODI. O pr\u00e9dio tinha dois andares. Diferentemente do que muitos dizem, aquele lugar n\u00e3o era um \u201cpor\u00e3o da ditadura\u201d, um local clandestino. Embora ali n\u00e3o existisse \u201cnem Deus, nem p\u00e1tria, nem fam\u00edlia\u201d, eu estava em numa depend\u00eancia oficial do Ex\u00e9rcito brasileiro. Uma institui\u00e7\u00e3o que funcionava a todo vapor, com todos os seus rituais, seus s\u00edmbolos, seus hinos, sua rotina. Ali fiquei mais de tr\u00eas meses.<\/p>\n<p>Na andar t\u00e9rreo, tinha a sala de tortura, com as paredes pintadas de roxo e devidamente equipada, outras salas de interrogat\u00f3rio com material de escrit\u00f3rio, essas \u00e0s vezes usadas, tamb\u00e9m, para torturar, e algumas celas m\u00ednimas, chamadas solit\u00e1rias, imundas, onde n\u00e3o havia nem colch\u00e3o. Nos intervalos das sess\u00f5es de tortura, os presos eram jogavam ali. No segundo andar do pr\u00e9dio havia algumas celas pequenas e duas bem maiores, essas com banheiro e diversas camas beliches. Foi numa dessas celas que passei a maior parte do tempo.<\/p>\n<p>Normalmente os torturadores, embora quase todos militares, andavam \u00e0 paisana. Os fardados cobriam com um esparadrapo o nome que estava gravado em um dos bolsos do uniforme. Cabia aos cabos e soldados, cuidar da infraestrutura. Eram eles que fechavam e abriam as celas, nos levavam para os interrogat\u00f3rios, ou melhor, para as sess\u00f5es de tortura, faziam a ronda noturna, levavam as nossas refei\u00e7\u00f5es. Ali n\u00e3o havia banho de sol, visita familiar, conversa com advogado. Nenhum contato com o mundo l\u00e1 de fora. Naquela fase, \u00e9ramos presos clandestinos. S\u00f3 sa\u00edamos das celas para os interrogat\u00f3rios, de olhos vedados, sempre com um capuz preto na cabe\u00e7a. Quase todos os que faziam o trabalho de infraestrutura, incorporavam o ambiente da tortura. Mas, tinham algumas exce\u00e7\u00f5es. Um dos soldados, por exemplo, me deu um peda\u00e7o de papel e uma caneta para eu escrever uma carta para meus pais. E, de fato, a carta chegou ao destino.<\/p>\n<p>Durante os mais de tr\u00eas meses que fiquei no DOI CODI, fui submetida, em diversos momentos a diversos tipos de tortura. Umas mais simples, como socos e pontap\u00e9s. Outras mais grotescas como ter um jacar\u00e9, andando sobre o meu corpo nu. Recebi muito choque el\u00e9trico e fiquei muito tempo pendurada no chamado \u201cpau de arara\u201d: os p\u00e9s e os pulsos amarrados em uma barra de ferro e a barra de ferro, colocada no alto, numa esp\u00e9cie de cavalete. Um dos requites era nos pendurar no pau de arara, jogar \u00e1gua gelada e ficar dando choque el\u00e9trico nas diversas partes do corpo molhado. Parecia que o contato da \u00e1gua com o ferro, potencializava a descarga el\u00e9trica. Embora, essa tenha sido a tortura mais frequente havia uma altern\u00e2ncia de t\u00e9cnicas. Uma delas, por exemplo, era o que eles chamavam de \u201cafogamento\u201d. Amarrada num cadeira, de olhos vedados, tentavam me sufocar, com um pano ou algod\u00e3o umedecido com algo com um cheiro muito forte, que parecia ser am\u00f4nia.<\/p>\n<p>De um modo geral, para os presos, a barra mais pesada ocorria nas primeiras 24 horas ap\u00f3s a pris\u00e3o. Era a corrida contra o tempo: para eles e para n\u00f3s. Durante essas primeiras horas, duas eram as perguntas b\u00e1sicas: ponto e aparelho. Ponto era o local, na rua, onde os militantes se encontravam e aparelho era o local de moradia ou de reuni\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei quanto tempo durou a minha primeira sess\u00e3o. S\u00f3 sei que ela acabou quando eu cheguei no limite. Muito machucada, e sem conseguir me locomover, ouvi, ao longe, um bate boca entre os torturadores se eu deveria ou n\u00e3o ser levada para o Hospital Central do Ex\u00e9rcito. A minha pris\u00e3o, consequ\u00eancia de um contato familiar, tinha muita testemunha. Ou seja, muitos familiares, que nada tinham a ver a minha milit\u00e2ncia foram presos e levados para o DOI CODI. Sobre essas pris\u00f5es nada ficou documentado.<\/p>\n<p>Quando eu passei a correr risco de vida, montaram uma pequena enfermaria em uma das celas do segundo andar. Ali fui medicada, ali fiquei tomando soro. Meu corpo parecia um hematoma s\u00f3. Por conta, sobretudo, da grande quantidade de choque el\u00e9trico, fiquei com o corpo parcialmente paralizado. Achava que tinha ficado paral\u00edtica. Aos poucos fui melhorando. Fiquei um bom tempo sem descer para a sala roxa. Mas, ouvir gritos dos outros companheiros presos e ficar na expectativa de voltar, a qualquer momento para a sala roxa, era enlouquecedor.<\/p>\n<p>Uma noite, que n\u00e3o sei precisar quando, desci para a sala roxa para ser acareada com o militante da ALN, Eduardo Leite, conhecido como Bacuri. Lembro at\u00e9 hoje dos seus olhos, da sua respira\u00e7\u00e3o ofegante e do seu caminhar muito lento, quase arrastado, como se tivesse perdido o controle das pernas. Num tom sarc\u00e1stico, o torturador dizia para n\u00f3s dois, na presen\u00e7a de outros torturadores: \u201cviram o que fizeram com o rapaz. Essa turma do Cenimar \u00e9 totalmente incompetente. Deixaram o rapaz nesse estado, n\u00e3o arrancaram nada dele e ainda prejudicaram nosso trabalho\u201d. No dia 8 de dezembro daquele ano, mataram Bacuri.<\/p>\n<p>Durante o tempo que fiquei sozinha na tal cela grande do segundo andar, com muita dor, sem ter absolutamente nada para fazer, achava que ia enlouquecer. Para passar o tempo, inventei duas atividades: contar os ladrilhos do ch\u00e3o e fazer pequenas tran\u00e7as com palhas retiradas dos colch\u00f5es.<\/p>\n<p>Foi nessa mesma cela que, naqueles primeiros dias, foi acolhida, durante alguns minutos, por Ana Burzitin, encarregada de dar meu primeiro banho. Depois de algum tempo, chegaram ou passaram por l\u00e1 Cec\u00edlia Coimbra, que tamb\u00e9m me ajudava no banho, Margarida Solero, a canadense T\u00e2nia Chao, Maria do Carmo Menezes, Carmela Pezzutti, V\u00e2nia, Marcia e Josi. Todas igualmente torturadas. Juntas, totalmente apoiadas umas nas outras, chor\u00e1vamos, cant\u00e1vamos e rez\u00e1vamos muito.<\/p>\n<p>No dia 20 de outubro, dois meses depois da minha pris\u00e3o e j\u00e1 dividindo a cela com outras presas, servi de cobaia para uma aula de tortura. O professor, diante dos seus alunos fazia demonstra\u00e7\u00f5es com o meu corpo. Era uma esp\u00e9cie de aula pr\u00e1tica, com algumas dicas te\u00f3ricas. Enquanto eu levava choques el\u00e9tricos, pendurada no tal do pau de arara, ouvi o professor dizer: \u201cessa \u00e9 a t\u00e9cnica mais eficaz\u201d. Acho que o professor tinha raz\u00e3o. Como comecei a passar mal, a aula foi interrompida e fui levada para a cela. Alguns minutos depois, v\u00e1rios oficiais entraram na cela e pediram para o m\u00e9dico medir minha press\u00e3o. As meninas gritavam, imploravam, tentando, em v\u00e3o, impedir que a aula continuasse. A resposta do m\u00e9dico Amilcar Lobo, diante dos torturadores e de todas n\u00f3s, foi: \u201cela ainda aguenta\u201d. E, de fato, a aula continuou. A segunda parte da aula foi no p\u00e1tio. O mesmo onde os soldados diariamente, faziam juramento \u00e0 bandeira, cantavam o hino nacional. Ali fiquei um bom tempo amarrada num poste, com o tal do capuz preto na cabe\u00e7a. Fizeram um pouco de tudo. No final, avisaram que, como eu era irrecuper\u00e1vel, eles iriam iam me matar, que eu ia virar \u201cpresunto\u201d\u2019, um termo usado pelo Esquadr\u00e3o da Morte. Ali simularam meu fuzilamento. Levantaram rapidamente o capuz, me mostraram um revolver, apenas com uma bala, e ficaram brincando de roleta russa. Imagino que os alunos se revezavam no manejo do revolver porque a \u201cbrincadeira\u201d foi repetida v\u00e1rias vezes.<\/p>\n<p>No final de novembro fui transferida para o DOPS, na rua da Rela\u00e7\u00e3o, no centro do Rio de Janeiro. Ali, durante um m\u00eas, fiquei numa cela com a m\u00e9dica Germana Figueiredo. A ela, tamb\u00e9m, muito devo. Com o dobro da minha idade, cuidou de mim como uma m\u00e3e. Durante a minha est\u00e1dia no DOPS fui levada para o Instituto M\u00e9dico Legal, IML, para fazer um exame de corpo de delito. Achavam que eu seria uma das presas pol\u00edticas trocadas pelo embaixador su\u00ed\u00e7o, sequestrado no dia 8 de dezembro. Uma das exig\u00eancias da embaixada era que os prisioneiros que fossem trocados pelo embaixador tivessem um laudo m\u00e9dico oficial do Estado brasileiro sobre o seu estado f\u00edsico. E eu, quase quatro meses depois, ainda estava marcada pelas torturas. Essas marcas constam do laudo oficial do IML, que, o meu advogado Heleno Fragoso, conseguiu anexar ao meu processo. Mas, no final de dezembro, ao inv\u00e9s de sair rumo ao Chile, como os companheiros que foram trocados pelo embaixador sui\u00e7o, eu fui transferida para o pres\u00eddio Talavera Bruce, em Bangu, zona norte do Rio de Janeiro. Depois de ter ficado ali quase seis meses, enfrentando uma barra bastante pesada, fui transferida para o pres\u00eddio Bom Pastor, em Recife.<\/p>\n<p>Ao todo fiquei presa um ano e quatro meses. Como tinha v\u00e1rios processos, mas nenhum julgamento conclu\u00eddo, sa\u00ed da pris\u00e3o no dia 14 de dezembro de 1971, com um recurso jur\u00eddico chamado \u201crelaxamento de pris\u00e3o preventiva\u201d. Era uma esp\u00e9cie de \u201cliberdade condicional\u201d. Tinha v\u00e1rias restri\u00e7\u00f5es e n\u00e3o podia me ausentar do pa\u00eds. Anos depois, a Justi\u00e7a Militar me absolveu. Mas, nenhuma absolvi\u00e7\u00e3o pode apagar os m\u00e9todos utilizados durante o tempo que estive presa sob a responsabilidade do Estado brasileiro.<\/p>\n<p>No momento em que estava escrevendo esse depoimento, me veio \u00e0 cabe\u00e7a um texto que li, tamb\u00e9m no famoso ano de 1968, no curso de literatura que fazia na Alian\u00e7a Francesa de Recife. Esse texto, que muito me mobilizou tem o t\u00edtulo de J\u2019Accuse, em portugu\u00eas, Eu Acuso. Em carta endere\u00e7ada ao Presidente da Rep\u00fablica Francesa, escrita m 1898, o escritor franc\u00eas Emile Zola fazia uma defesa p\u00fablica de Alfred Dreyfus, preso e condenado \u00e0 morte por conta de uma falsidade e de um grave erro judicial. Come\u00e7ando todas as frases da carta com a express\u00e3o Eu Acuso, aquele documento produziu um enorme impacto na sociedade francesa. Obviamente sem a pretens\u00e3o liter\u00e1ria de Zola, mas esperando que os trabalhos da Comiss\u00e3o da Verdade produzam tamb\u00e9m impacto forte na sociedade brasileira, eu finalizo esse meu depoimento, fazendo uma esp\u00e9cie de pl\u00e1gio ao texto do famoso escritor franc\u00eas.<\/p>\n<p>Eu acuso todos os torturadores, civis e militares, inclusive aqueles que diziam e continuam dizendo que estavam apenas cumprindo ordens dos seus superiores.<\/p>\n<p>Eu acuso os altos oficiais e comandantes do Ex\u00e9rcito brasileiro que, em visitas oficiais ao DOI CODI, entravam nas nossas celas e faziam gracejos com as nossas torturas. Em uma dessas visitas, um desses oficiais, colocou seu acompanhante, um c\u00e3o pastor, para lamber minhas feridas.<\/p>\n<p>Eu acuso quem, durante a minha primeira sess\u00e3o de tortura, me deu uma inje\u00e7\u00e3o na veia, dizendo ser o tal \u201csoro da verdade\u201d.<\/p>\n<p>Eu acuso o major da Pol\u00edcia Militar Riscala Corbaje, conhecido como doutor Nagib, que ao perceber que o tal soro da verdade n\u00e3o havia produzido o efeito esperado, me levou para uma pequena sala, me deitou no ch\u00e3o, subiu nas minhas costas, come\u00e7ou a pisotear e me bater com um cassetete, dizendo, aos gritos, que ia me socar at\u00e9 a morte. O seu descontrole foi tamanho e seus gritos t\u00e3o estridentes que os outros torturadores entraram na sala e arrancaram ele de cima de mim.<\/p>\n<p>Eu acuso o major do Ex\u00e9rcito Jo\u00e3o C\u00e2mara Gomes Carneiro, conhecido como Magafa, que em uma daquelas noites, dias depois que eu havia sa\u00eddo do soro, me deixou durante algumas horas, em p\u00e9, com um capuz na cabe\u00e7a e os fios amarrados nos meus dedos. De tempos em tempos ele cochichava nos meus ouvidos que eu tivesse \u201cum pouco de paci\u00eancia\u201d porque ele estava muito ocupado, mas que \u201ca sess\u00e3o dos choques el\u00e9tricos iria come\u00e7ar a qualquer momento\u201d. Para mim aquele foi um tempo quase infinito. A despeito de ser aquela uma noite muito fria, quando voltei para a cela, minha roupa estava totalmente molhada, colada no corpo, de tanto que eu havia transpirado de medo.<\/p>\n<p>Eu acuso o m\u00e9dico Amilcar Lobo que fez uso dos seus conhecimentos m\u00e9dicos para auxiliar no esquema da tortura. Um dia, diante do nosso clamor para que ele tentasse impedir que Maria do Carmo Menezes, gr\u00e1vida de cinco meses, continuasse sendo torturada, ele nos respondeu: \u201ccomunista n\u00e3o pode engravidar\u201d.<\/p>\n<p>Eu acuso o cabo Gil, um dos respons\u00e1veis pela infraestrutura do quartel da PE. O seu sadismo era sem fim. Lembro at\u00e9 hoje do barulho forte das chaves quando ele abria a porta da nossa cela com o capuz na m\u00e3o. Propositalmente, ele demorava um tempo e, como se tivesse fazendo um sorteio, dizia: \u201cacho que agora \u00e9 sua vez\u201d. Descer as escadas de olhos vedados, guiadas por ele, era um horror. Sempre inventava mais um degrau ou colocava o p\u00e9 para n\u00f3s trope\u00e7armos.<\/p>\n<p>Eu acuso o agente da Pol\u00edcia Federal Luiz Tim\u00f3teo de Lima, conhecido como Padre, que me deu muito choque el\u00e9trico.<\/p>\n<p>Eu acuso o coronel da reserva Paulo Malh\u00e3es que em recente entrevista ao jornal O GLOBO, no dia 26 de junho de 2012, afirmou que em 1970, trouxe do rio Araguaia cinco jacar\u00e9s e levou para quartel da PE na rua Bar\u00e3o de Mesquita, no Rio de Janeiro, para atemorizar os presos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Eu acuso todos os que assistiram e os que ministram aulas de torturas comigo e com outros presos.<\/p>\n<p>Eu acuso a diretora do Pres\u00eddio Talavera Bruce em Bangu, no Rio de Janeiro, que me deixou durante seis meses, sozinha, isolada, numa cela m\u00ednima, insalubre, chamada solit\u00e1ria. Em solit\u00e1rias semelhantes estavam, naquele mesmo per\u00edodo, as presas pol\u00edticas Estrela e Jessie Jane.<\/p>\n<p>Eu acuso os ex presidentes da Rep\u00fablica Humberto Castelo Branco, Costa e Silva, Garrastazu M\u00e9dici, Ernesto Geisel e Jo\u00e3o Batista Figueiredo. A despeito das diverg\u00eancias entre eles e das diferentes conjunturas em que chefiaram o pa\u00eds, todos, sem exce\u00e7\u00e3o, foram respons\u00e1veis e coniventes com a tortura.<\/p>\n<p>Finalmente, eu acuso o regime ditatorial implantado no Brasil em 1964, que fez da tortura, uma pol\u00edtica de Estado.\u201d<\/p>\n<p>Dulce Chaves Pandolfi<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4898\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["post-4898","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1h0","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4898","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4898"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4898\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4898"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4898"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4898"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}