{"id":4916,"date":"2013-06-03T15:08:30","date_gmt":"2013-06-03T15:08:30","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4916"},"modified":"2013-06-03T15:08:30","modified_gmt":"2013-06-03T15:08:30","slug":"depoimento-na-integra-de-lucia-murat-para-comissao-da-verdade-do-rio-de-janeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4916","title":{"rendered":"Depoimento na \u00edntegra de L\u00facia Murat para Comiss\u00e3o da Verdade do Rio de Janeiro"},"content":{"rendered":"\n<p>Depoimento na \u00edntegra de L\u00facia Murat para Comiss\u00e3o da verdade do Rio de Janeiro:<\/p>\n<p><strong>&#8220;\u00c9 terr\u00edvel voc\u00ea olhar para tr\u00e1s e descobrir que no seu pa\u00eds utilizou-se de m\u00e9todos cru\u00e9is e criminosos na luta pol\u00edtica. N\u00e3o se tratava apenas de aniquilar quem estava se defendendo de armas na m\u00e3o, mas de aniquilar toda e qualquer vis\u00e3o contr\u00e1ria \u00e0 deles&#8221;.<\/strong><\/p>\n<p><strong>&#8220;O Nagib, que gostava de discursar, de me explicar as t\u00e9cnicas e os objetivos deles, me disse uma vez que depois de acabarem conosco, que no fundo \u00e9ramos apenas garotos impertinentes, eles iam terminar com quem efetivamente importava, com aqueles que tinham feito nossas cabe\u00e7as. E que depois de aniquilar as organiza\u00e7\u00f5es armadas, iriam aniquilar o Partido Comunista Brasileiro. Efetivamente, alguns anos depois a dire\u00e7\u00e3o do PCB foi assassinada&#8221;.<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;A minha primeira pris\u00e3o foi no Congresso estudantil em Ibi\u00fana em outubro de 1968. Eu era vice-presidente do diret\u00f3rio estudantil da faculdade de economia e estava no congresso representando a minha faculdade. Fiquei cerca de uma semana na pris\u00e3o e n\u00e3o fui torturada. Antes do Ato Institucional n\u00famero 5, em 13 de dezembro de 1968, os estudantes de classe m\u00e9dia n\u00e3o eram torturados, mas o mesmo n\u00e3o acontecia com os oper\u00e1rios. Dois anos mais tarde encontrei e militei com Jose Barreto, assassinado junto com Carlos Lamarca, e ele me contou das torturas que sofreu em 1968, quando foi preso por ter estado no comando da Greve de Osasco.<\/p>\n<p>Por ter sido presa no Congresso de Ibi\u00fana, eu entrei na clandestinidade lodo depois do Ato Institucional numero 5, pois sab\u00edamos que com o fim do habeas corpus e dos direitos que ainda existiam os militares iriam me perseguir em algum momento. E, efetivamente, alguns meses mais tarde quando da chamada Opera\u00e7\u00e3o Rockefeller, mais de 10 mil pessoas foram presas numa tentativa de preservar o pa\u00eds de qualquer manifesta\u00e7\u00e3o contra a chegada de Nelson Rockefeller , ent\u00e3o governador de Nova York. Nessa ocasi\u00e3o, a casa dos meus pais foi invadida por militares armados. E, meu pai, Dr Miguel Vasconcellos, ent\u00e3o diretor do Hospital Pedro Ernesto no Rio de Janeiro, foi preso e levado para um quartel onde o interrogaram sobre a minha localiza\u00e7\u00e3o, a qual ele desconhecia. Com ele, foi levada minha irm\u00e3 Regina Murat Vasconcellos. Eles foram soltos, depois de amea\u00e7ados.<\/p>\n<p>A minha segunda pris\u00e3o se d\u00e1 ent\u00e3o em 31 de mar\u00e7o de 1971, depois de dois anos e meio de clandestinidade.<\/p>\n<p>A tortura era uma pr\u00e1tica da ditadura e n\u00f3s sab\u00edamos disso pelo relato dos que tinham sido presos antes. Mas nenhuma descri\u00e7\u00e3o seria compar\u00e1vel ao que eu vim a enfrentar. N\u00e3o porque tenha sido mais torturada do que os outros. Mas porque o horror \u00e9 indescrit\u00edvel.<\/p>\n<p>Sabendo dessa impossibilidade, vou tentar descrev\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o de 1971, eu estava junto com Maria Luiza Garcia Rosa num quarto que alug\u00e1vamos num apartamento no Jacarezinho. Eles chegaram de noite e nem houve condi\u00e7\u00f5es de esbo\u00e7ar uma rea\u00e7\u00e3o. Imediatamente fomos separadas, me jogaram num carro e me enfiaram um capuz. Come\u00e7aram a me bater dentro do carro.<\/p>\n<p>Quando cheguei no Doi-Codi, n\u00e3o sabia onde estava, s\u00f3 fui descobrir mais tarde, que era o quartel do Exercito localizado na Rua Bar\u00e3o de Mesquita, que existe at\u00e9 hoje. Rapidamente me levaram para a sala de tortura. Fiquei nua, mas n\u00e3o lembro como a roupa foi tirada. A brutalidade do que se passa a partir da\u00ed confunde um pouco a minha mem\u00f3ria. Lembro como se fossem flashs, sem continuidade. De um momento para outro, estava nua apanhando no ch\u00e3o. Logo em seguida me levantaram no pau de arara e come\u00e7aram com os choques. Amarraram a ponta de um dos fios no dedo do meu p\u00e9 enquanto a outra ficava passeando. Nos seios, na vagina , na boca. Quando come\u00e7aram a jogar \u00e1gua, estava desesperada e achei num primeiro momento que era para aliviar a dor. Logo em seguida os choques recome\u00e7avam muito mais fortes . Percebi que a \u00e1gua era para aumentar a for\u00e7a dos choques.<\/p>\n<p>Isso durou horas. N\u00e3o sei quantas. Mas deve ter se passado mais de dez horas. De tempos em tempos, me baixavam do pau de arara. Lembro que um m\u00e9dico entrou e me examinou. Aparentemente fui considerada capaz de resistir, pois a tortura continuou.<\/p>\n<p>Logo que comecei a apanhar, achei que n\u00e3o ia resistir e inventei uma hist\u00f3ria que na minha cabe\u00e7a me possibilitaria me suicidar. N\u00f3s t\u00ednhamos um sistema de ponto &#8211; de encontros &#8211; em que se n\u00e3o aparec\u00eassemos em 48 horas, n\u00f3s seriamos considerados presos e nossa fam\u00edlia seria avisada. Eu queria proteger meus companheiros e a \u00fanica coisa que me passava pela cabe\u00e7a era ag\u00fcentar um tempo at\u00e9 eu ter condi\u00e7\u00f5es de me suicidar, pois assim todos estariam salvos. Ent\u00e3o, disse que eu deveria estar na varanda do apartamento onde tinham me prendido, e que um companheiro passaria de carro embaixo do edif\u00edcio. Eu faria um sinal de que tudo estava bem, e ele iria me encontrar mais tarde em um determinado lugar. Eu achava que da varanda do apartamento eu poderia me jogar e tudo estaria terminado.<\/p>\n<p>Mas quando eu sa\u00ed do pau-de-arara , eu estava paral\u00edtica, a minha perna direita tinha inchado muito (depois foi diagnosticada uma flebite). Eu n\u00e3o conseguia mexer a perna, estava muito machucada, com febre muito alta e com os pulsos abertos por causa do pau de arara. Sem poder subir as escadas do edif\u00edcio, eles me levaram at\u00e9 o local, mas me deixaram dentro do carro e me substitu\u00edram na varanda por uma pessoa deles com uma peruca da cor dos meus cabelos. Quando eu percebi o que estava acontecendo, comecei a ficar desesperada. Sabia que eles n\u00e3o iam pegar ningu\u00e9m e que quando voltasse eu n\u00e3o iria resistir. Eu n\u00e3o ia conseguir me suicidar. Essa foi talvez a pior sensa\u00e7\u00e3o da minha vida, a sensa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o poder morrer. Eu chorava igual uma louca dentro do carro e pedia por favor para eles me matarem. Eles riam. E diziam que eu ia me fuder se n\u00e3o ca\u00edsse ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o tinha muita no\u00e7\u00e3o das horas, mas sabia que, naquele momento, tinha que aguentar pelo menos mais 12 horas para impedir a pris\u00e3o dos meus companheiros,. E n\u00e3o sabia como. Aos 22 anos, eu vi que tinha que inventar outra hist\u00f3ria que justificasse para mim mesmo o novo horror que se aproximava. Desde o carro, antes de ir para um encontro onde ningu\u00e9m foi preso, eu comecei a dizer que a culpa era deles, que ningu\u00e9m era idiota de ir num ponto porque n\u00e3o era eu que estava na varanda. Eu precisava me agarrar a uma hist\u00f3ria, mesmo que eles n\u00e3o acreditassem.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei bem o que se passou quando eu voltei. As lembran\u00e7as s\u00e3o confusas. N\u00e3o sei como era poss\u00edvel, mas tudo ficou pior. Eles estavam hist\u00e9ricos. Sabiam que precisavam extrair alguma coisa em 48 horas sen\u00e3o perderiam meu contato. Gritavam, me xingavam e me puseram de novo no pau de arara. Mais espancamento, mais choque, mais \u00e1gua. E dessa vez entraram as baratas. Puseram baratas passeando pelo meu corpo. Colocaram uma barata na minha vagina.<\/p>\n<p>Hoje, parece loucura. Mas um dos torturadores de nome de guerra Gugu, tinha uma caixa onde ele guardava as baratas amarradas por barbantes. E atrav\u00e9s do barbante ele conseguia manipular as baratas no meu corpo.<\/p>\n<p>Eu queria morrer e n\u00e3o conseguia morrer. Mas nisso praticamente eu j\u00e1 tinha ganho o tempo necess\u00e1rio para liberar os pontos com a organiza\u00e7\u00e3o. E a Marilena Vilas Boas, que mais tarde foi barbaramente assassinada, que era com quem eu tinha os encontros, conseguiu avisar minha fam\u00edlia de que eu tinha sido presa.<\/p>\n<p>Passados esses primeiros dias, eu fui largada no corredor, de capuz. Eu ficava meio desmaiada, meio dormindo.<\/p>\n<p>At\u00e9 que fui levada para a enfermaria. Na enfermaria, depois de algum tempo, comecei a tomar antibi\u00f3ticos. N\u00e3o podia andar, minha perna direita estava muito inchada e n\u00e3o mexia, meus pulsos estavam feridos, assim como os seios e os p\u00e9s. N\u00e3o podia comer porque tinha levado muito choque na l\u00edngua e se engolia alguma coisa, vomitava.<\/p>\n<p>M\u00e9dicos mais tarde calcularam que se eu n\u00e3o tivesse come\u00e7ado a ser medicada, eu teria morrido em poucos dias. Isso \u00e9 uma quest\u00e3o importante. As circunst\u00e2ncias. Com certeza eu fui salva por circunst\u00e2ncias, n\u00e3o pela vontade deles. Pod\u00edamos morrer a qualquer momento e por isso nos mantinham incomunic\u00e1veis em todo esse per\u00edodo e negavam nossa pris\u00e3o. Para eles, que eram donos de nossas vidas e de nossas mortes, seria apenas mais um &#8220;acidente&#8221;, como tantos que aconteceram.<\/p>\n<p>Na enfermaria, os m\u00e9dicos que me trataram eram os mesmos que nos &#8220;assistiam &#8221; na sala de tortura: Amilcar Lobo e Ricardo Fayal. No dia seguinte, comecei a ser interrogada por dois representantes da Bahia &#8211; eu tinha vivido clandestina durante um ano em Salvador &#8211; o Major Cinelli, do CIEX e um representante da Aeron\u00e1utica. Eles resolveram me levar para a Bahia. Disseram que iam me tratar l\u00e1.<\/p>\n<p>Fui de avi\u00e3o da FAB para Salvador e levada para o quartel de Barbalho, onde o medico se apavorou achando que eu ia morrer em suas m\u00e3os e fez um relat\u00f3rio descrevendo em detalhes minha situa\u00e7\u00e3o e pedindo um especialista. Lembro que esse m\u00e9dico disse: &#8220;Eu vou fazer isso porque sen\u00e3o voc\u00ea vai morrer nas minhas m\u00e3os e eu n\u00e3o tenho nada a ver com isso&#8221;. Trouxeram ent\u00e3o um m\u00e9dico neurologista da Aeron\u00e1utica que me tratou. Minha perna come\u00e7ou a desinchar. Continuava de cama e sendo interrogada todos os dias pelo major Cinelli. Mas nesse momento sem tortura f\u00edsica.<\/p>\n<p>Melhorei, a perna desinchou e fui transferida para Base A\u00e9rea em Salvador. Eu estava com a perna muito fina, sem controle no p\u00e9, a cintura torta, como se eu tivesse tido paralisia infantil. Achei que as torturas tinham terminado, quando me avisaram que eu voltaria para o Rio. Quando eles entraram na cela j\u00e1 me puseram o capuz. Fui levada aos trancos para o avi\u00e3o, e durante todo o trajeto era amea\u00e7ada de ser jogada para fora. Me levantavam da cadeira, me levavam at\u00e9 um lugar onde deveria ser a porta de emerg\u00eancia do avi\u00e3o e diziam que iam abrir. Voltavam a me sentar para recome\u00e7ar tudo. Em algum momento, me perguntaram pelo &#8220;Paulo&#8221; , nome de guerra do Stuart Angel Jones, e eu percebi que ele tinha ca\u00eddo. Depois, no Rio nunca mais perguntaram por ele. Stuart tinha sido assassinado. S\u00f3 soube depois.<\/p>\n<p>Eles se comportavam o tempo todo como se estivessem disputando um campeonato. E o que estava em jogo podia ser uma pris\u00e3o, a morte de algu\u00e9m da oposi\u00e7\u00e3o considerado importante, o fato de algu\u00e9m ter falado. Assim, o pessoal do D\u00f3i-Codi disputava com a Aeron\u00e1utica, que disputava com a pol\u00edcia&#8230; O pessoal do Rio disputava com a Bahia, etc&#8230; Eles nos disputavam como se fossemos trof\u00e9us, verdadeiros animais de ca\u00e7a.<\/p>\n<p>Quando voltei ao DOi-Codi, de Salvador, a tortura seria um pouco diferente. Em 1971, eles j\u00e1 conheciam bem o funcionamento das organiza\u00e7\u00f5es clandestinas E a tortura era dirigida para o seu aniquilamento. Assim, eles sabiam do esquema de pontos que t\u00ednhamos e a tortura quando \u00e9ramos presos, era violenta e brutal para que entreg\u00e1ssemos os encontros com nossos companheiros o mais r\u00e1pido poss\u00edvel. Depois, eles sabiam que podiam usar o tempo a favor deles para conseguir informa\u00e7\u00f5es mais estruturais. Um dos torturadores, de nome de guerra Nagib, me disse um dia que para eles n\u00f3s \u00e9ramos como cachorrinhos de Pavlov. O choque no in\u00edcio tinha de ser de alta voltagem. Mas depois, eles podiam dar choques pequenos que a nossa mem\u00f3ria era do choque de alta voltagem. Nos j\u00e1 estar\u00edamos nas m\u00e3os deles.<\/p>\n<p>Acho isso muito importante porque demonstra tamb\u00e9m que essa equipe de torturadores estudava os m\u00e9todos que eles eufemisticamente chamavam de &#8220;t\u00e9cnica de interrogat\u00f3rio&#8221;. N\u00e3o era simplesmente uma explos\u00e3o de um s\u00e1dico de plant\u00e3o.Num segundo momento ent\u00e3o, a tortura era progressiva, feita de idas e vindas, de amea\u00e7as e da nossa certeza, permanentemente alimentada por eles, que tudo poderia recome\u00e7ar a qualquer momento. O objetivo era, pouco a pouco, nos anular, como pessoas e como militantes.<\/p>\n<p>Foi nesse quadro, na volta, que o pr\u00f3prio Nagib, fez o que ele chamava de tortura sexual cientifica. Eu ficava nua, com um capuz na cabe\u00e7a, uma corda enrolada do pesco\u00e7o passando pelas costas at\u00e9 as m\u00e3os, que estavam amarradas atr\u00e1s da cintura. Enquanto o torturador ficava mexendo nos meios seios, na minha vagina, penetrando com o dedo na vagina, eu ficava impossibilitada de me defender, pois se eu movimentasse meus bra\u00e7os para me proteger eu me enforcava e instintivamente voltava atr\u00e1s. Ou seja, eles inventaram um m\u00e9todo t\u00e3o perverso em que aparentemente n\u00f3s n\u00e3o reag\u00edamos, como se f\u00f4ssemos cumplices de nossa dor. Isso durava horas ou noites, n\u00e3o sei bem.<\/p>\n<p>Era considerado um m\u00e9todo de aniquilamento progressivo. E foi realmente o per\u00edodo em que eu mais me senti desestruturada, mais do que em toda a loucura dos primeiros dias Porque voc\u00ea j\u00e1 sabe o que \u00e9 a tortura, e ela parece que nunca ter\u00e1 fim.Nessa \u00e9poca, a rotina estava implantada. Eu ficava numa cela &#8211; num per\u00edodo fiquei com uma menina do Paran\u00e1 chamada Ruth &#8211; e era levada repetidamente para a sala de tortura, para novos interrogat\u00f3rios.<\/p>\n<p>Acho que a essas alturas eu j\u00e1 estava ha dois meses na pris\u00e3o, quando meu advogado, Dr Tecio Lins e Silva, conseguiu que eu fosse apresentada na Auditoria da Marinha, onde corria um processo contra mim.<\/p>\n<p>Desde o primeiro dia, quando Marilena avisou minha m\u00e3e, minha fam\u00edlia e meu advogado, tentavam desesperadamente me encontrar. Eles sabiam que se eu fosse levada na auditoria, eu estaria salva pois teria sido apresentada e seria muito dif\u00edcil eles me matarem. Por isso, usaram de todos os subterf\u00fagios e procedimentos legais para conseguirem que eu fosse apresentada. O meu advogado entrou com um pedido na Auditoria afirmando que eu tinha sido presa. A auditoria mandou uma ordem para o Quartel da PE.<\/p>\n<p>Essas contradi\u00e7\u00f5es existiam porque em meio ao horror a ditadura brasileira sempre tentou manter justificativas legais. E n\u00f3s n\u00e3o est\u00e1vamos sendo torturadas numa casa clandestina, mas num quartel do ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>E assim um dia mandaram eu me vestir &#8211; n\u00f3s us\u00e1vamos um macac\u00e3o na pris\u00e3o &#8211; e eu fui levada por um grupo de soldados da PE para a Auditoria da Marinha.<\/p>\n<p>Quando eu cheguei na auditoria eu n\u00e3o andava, a minha perna continuava atrofiada e eu tinha hematomas e ferimentos pelo corpo. Me levaram para uma sala onde estavam meus pais e meu advogado. Sempre rodeada pelos soldados da PE, eu pedi por favor para que eles tentassem me tirar do Doi-Codi e me levassem para o Hospital Militar. Eu sabia tamb\u00e9m que aquele momento era a \u00fanica chance que eu teria de denunciar as torturas com uma prova real. Eu era a prova real da tortura. E apesar do medo imenso que sentia eu denunciei que estava naquele estado por causa das torturas, num depoimento extremamente emocionado.<\/p>\n<p>Lembro- e eu tinha apenas 22 anos &#8211; que quando entrei na sala todos os ju\u00edzes militares baixaram a cabe\u00e7a. N\u00e3o tiveram a coragem de me encarar. Como tamb\u00e9m n\u00e3o tiveram a coragem &#8211; apesar de todos os esfor\u00e7os do meu advogado &#8211; de me mandarem para o Hospital Militar e, mais uma vez, eu fui levada para o Doi-Codi. Eu tremia muito pois imaginava o que me esperava depois de ter denunciado tortura. Eu disse para o meu advogado: Eles v\u00e3o me matar&#8217;. A impot\u00eancia estampada nos olhos dele era o retrato desse pa\u00eds.<\/p>\n<p>Mas eles n\u00e3o podiam mais me matar porque eu j\u00e1 estava oficialmente presa, o que no entanto n\u00e3o tinha a menor import\u00e2ncia para mim. O importante era que eu sabia que ia voltar a ser torturada e que eles deveriam estar furiosos com o meu depoimento. E \u00e9 impressionante a capacidade deles de inventarem sempre alguma coisa diferente. Alguma coisa que vai te deixar pior ainda.<\/p>\n<p>Quando cheguei na sala de tortura, estavam todos juntos e enlouquecidos. (Releio esse depoimento e vejo que a todo momento eu digo que foi a pior coisa que vivi na vida.) Bom, esse momento foi de novo o pior momento que j\u00e1 vivi na vida. Eles me fizeram representar o que eu tinha feito na auditoria, como se tivesse sido uma representa\u00e7\u00e3o, uma mentira, uma palha\u00e7ada. &#8220;Ah, agora faz mais cara de choro, n\u00e3o est\u00e1 suficiente, voc\u00ea fez mais cara de choro do que essa l\u00e1&#8217;, &#8216;- Manca mais, voc\u00ea mancou mais l\u00e1 filha da puta&#8217;. E eu fiz tudo o que eles mandaram, eu fiz tudo que eles mandaram. A sensa\u00e7\u00e3o era que eu tinha perdido inteiramente minha identidade. Quando a sua dor \u00e9 transformada em piada com a sua ajuda \u00e9 como se nada mais tivesse sentido.<\/p>\n<p>Depois disso, eu fiquei mais algum tempo no Doi-Codi, n\u00e3o sei precisar quanto. Sei que fui presa em 31 de mar\u00e7o e que quase tr\u00eas meses depois fui finalmente mandada para a Vila Militar, onde passei a ser legalmente presa, com visita de fam\u00edlia e advogado. De todo esse per\u00edodo, de todo esse horror, eu vivi tamb\u00e9m alguns momentos de esperan\u00e7a. No quartel da Bar\u00e3o de Mesquita, al\u00e9m das equipes de torturadores, encontr\u00e1vamos soldados da Pol\u00edcia do Ex\u00e9rcito em servi\u00e7o militar. Era um quartel, com um funcionamento normal de quartel. E a maior parte dos soldados para mostrar servi\u00e7o diante dos oficiais participavam da brutalidade. Ou nos empurrando, ou, por exemplo, dizendo que tinha um degrau a mais quando sub\u00edamos uma escada de capuz fazendo com que ca\u00edssemos. Pequenos poderes, muitos abusos. Mas nem todos se comportaram assim. Dois soldados s\u00e3o inesquec\u00edveis por terem conseguido manter sua humanidade. E eu queria lembr\u00e1-los hoje.<\/p>\n<p>Eu queria lembr\u00e1-los aqui, mesmo sem saber seus nomes, porque o que estamos fazendo \u00e9 um exerc\u00edcio de humanidade. Um soldado se ofereceu para levar um bilhete para minha fam\u00edlia. E levou. O outro foi o enfermeiro que na minha primeira noite na enfermaria passou todo o tempo acordado colocando panos quentes para tentar amenizar a dor da minha perna, Lembro que ele s\u00f3 repetia. &#8220;Quando eu terminar o servi\u00e7o militar, quero esquecer tudo isso.&#8221;<\/p>\n<p>Mas n\u00f3s n\u00e3o podemos esquecer. E por isso estamos aqui hoje.<\/p>\n<p>Estava j\u00e1 h\u00e1 cerca de dois meses na Vila Militar, quando em final de agosto, fui levada de novo para o Doi-Codi. Essa possibilidade n\u00e3o passava pela minha cabe\u00e7a. Tinha me convencido que tudo aquilo acabara. Mas com o assassinato da Yara Yalvberg e a persegui\u00e7\u00e3o ao Lamarca e ao Zequinha, resolveram que eu deveria ser interrogada de novo sobre a Bahia.<\/p>\n<p>Quando um sargento me disse, na Vila Militar, que eu iria ser levada para o Doi-Codi entrei em desespero, e de novo tentei suic\u00eddio. Era inadmiss\u00edvel voltar a viver tudo aquilo. Mas fui impedida pela minha companheira de cela, minha querida Abigail Paranhos, que perdemos para o c\u00e2ncer alguns anos atr\u00e1s. Estava t\u00e3o desesperada que me deram uma inje\u00e7\u00e3o e fui levada quase desmaiada para a Bar\u00e3o de Mesquita.<\/p>\n<p>L\u00e1 tudo estava mudado. As celas tinham cama e len\u00e7ol e os aparelhos de tortura foram substitu\u00eddos por celas com controle de som e de temperatura, as chamadas geladeiras. Os presos eram colocados sem poder dormir, sem comer e em temperaturas baix\u00edssimas. Fui de novo interrogada pelo Major Cinelli. Eu n\u00e3o estava entendendo nada do que acontecia.<\/p>\n<p>Hoje, me parece que o Doi-Codi da Bar\u00e3o de Mesquita, a partir desse momento, foi reservado para presos que passariam por esse &#8220;interrogat\u00f3rio cientifico&#8221;. Ao mesmo tempo, os militantes das organiza\u00e7\u00f5es armadas considerados chave foram sumariamente condenados a morte. N\u00e3o iam mais para o Doi-Codi. Iam ser torturados e assassinados em outros lugares, como a Casa da Morte de Petr\u00f3polis, cuja \u00fanica sobrevivente foi Ines Etiene Romeu.<\/p>\n<p>Foi assim com S\u00e9rgio Furtado, com Paulo Ribeiro Bastos, com Fernando Santa Cruz e muitos outros companheiros que constam da lista de &#8220;desaparecidos&#8221;. A pena de morte foi decretada tamb\u00e9m para os combatentes urbanos nesse per\u00edodo, assim como foi para os militantes da Guerrilha do Araguaia. N\u00e3o posso provar que houve uma decis\u00e3o de matar os poucos sobreviventes das organiza\u00e7\u00f5es armadas, mas \u00e9 o que deduzo do que vivi nessa \u00e9poca.<\/p>\n<p>O Nagib, que gostava de discursar, de me explicar as t\u00e9cnicas e os objetivos deles, me disse uma vez que depois de acabarem conosco, que no fundo \u00e9ramos apenas garotos impertinentes, eles iam terminar com quem efetivamente importava, com aqueles que tinham feito nossas cabe\u00e7as. E que depois de aniquilar as organiza\u00e7\u00f5es armadas, iriam aniquilar o Partido Comunista Brasileiro. Efetivamente, alguns anos depois a dire\u00e7\u00e3o do PCB foi assassinada.<\/p>\n<p>\u00c9 terr\u00edvel voc\u00ea olhar para tr\u00e1s e descobrir que no seu pa\u00eds utilizou-se de m\u00e9todos cru\u00e9is e criminosos na luta pol\u00edtica. N\u00e3o se tratava apenas de aniquilar quem estava se defendendo de armas na m\u00e3o, mas de aniquilar toda e qualquer vis\u00e3o contr\u00e1ria \u00e0 deles. Era um m\u00e9todo de manuten\u00e7\u00e3o de um poder autorit\u00e1rio. Uma vez na enfermaria, quando questionei o Amilcar Lobo de como um m\u00e9dico e psicanalista se permitia \u00e0quele papel, ele me disse que se n\u00e3o fosse ele seria outro, que ele era apenas um membro de uma engrenagem. Eu me lembro que respondi: muitos disseram isso em Nuremberg.<\/p>\n<p>N\u00e3o estamos em Nuremberg. 43 anos se passaram desses acontecimentos. Restaram pequenas cicatrizes no meu corpo, um problema de sensibilidade na minha perna direta e essa hist\u00f3ria. Uma hist\u00f3ria que compartilho com voc\u00eas n\u00e3o por desejo de vingan\u00e7a ou masoquismo, mas porque acredito que a \u00fanica maneira de fortalecemos a democracia nesse pa\u00eds e conhecendo nosso passado. A \u00fanica maneira de combater aqueles que ainda torturam por esse pa\u00eds afora, \u00e9 mostrar que esse \u00e9 &#8211; e sempre foi &#8211; um crime de lesa-humanidade.<\/p>\n<p>Depois de 3 anos e meio de pris\u00e3o, fui solta. \u00c9 verdade que depois de tudo isso, reconstru\u00ed minha vida. Com a ajuda de minha fam\u00edlia, de meus amigos e de um processo de an\u00e1lise que durou 25 anos. Mas reconstruir n\u00e3o significa esquecer. Reconstruir significa saber conviver com esses fatos lutando para que n\u00e3o se repitam jamais. O horror \u00e0 viol\u00eancia e ao autoritarismo passou a fazer parte de mim.<\/p>\n<p>H\u00e1 dois anos, pedi licen\u00e7a ao Ex\u00e9rcito para filmar as celas onde estive presa. O pedido foi negado. Sem explica\u00e7\u00f5es. Como se pode avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o ao futuro se n\u00e3o se pode reconstruir o passado? At\u00e9 quando v\u00e3o esconder nossa hist\u00f3ria?<\/p>\n<p>Milhares de pessoas foram presas e torturadas no Rio de Janeiro Queria pedir \u00e0 Comiss\u00e3o que comece uma campanha para que todos aqueles que foram presos mandem um depoimento. Precisamos saber o que aconteceu. Nome, data , que torturas sofreu e quem foram os respons\u00e1veis.<\/p>\n<p>Na minha \u00e9poca do Doi-Codi, os torturadores usavam nome de guerra e tinham seus nomes verdadeiros tampados por um esparadrapo na camisa. Mas posteriormente, consegui identificar alguns deles, que s\u00e3o: Major Demiurgo &#8211; ent\u00e3o chefe do Doi-Codi e que mantinha contato com nossas fam\u00edlias; Tenente Armando Avolio Filho &#8211; de nome de guerra Apolo; e Riscala Corbage, o Nagib.<\/p>\n<p>Os outros n\u00e3o consegui localizar. E creio que passados 43 anos ser\u00e1 quase imposs\u00edvel o reconhecimento. Mas outros torturados, e foram milhares, com certeza ter\u00e3o outras informa\u00e7\u00f5es a dar.<\/p>\n<p>Espero que a Comiss\u00e3o possa ouvir os que ainda est\u00e3o vivos e a todos aqueles que foram reconhecidos para que possamos revelar por inteiro esse per\u00edodo.&#8221;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/atarde.uol.com.br\/politica\/materias\/1506981-depoimento-de-lucia-murat-a-comissao-da-verdade-do-rio\" target=\"_blank\">http:\/\/atarde.uol.com.br\/politica\/materias\/1506981-depoimento-de-lucia-murat-a-comissao-da-verdade-do-rio<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4916\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["post-4916","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1hi","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4916","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4916"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4916\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4916"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4916"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4916"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}