{"id":4926,"date":"2013-06-05T14:33:23","date_gmt":"2013-06-05T14:33:23","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4926"},"modified":"2013-06-05T14:33:23","modified_gmt":"2013-06-05T14:33:23","slug":"a-paz-entre-o-governo-colombiano-e-as-farc-passa-pelas-ruas-de-havana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4926","title":{"rendered":"A PAZ ENTRE O GOVERNO COLOMBIANO E AS FARC PASSA PELAS RUAS DE HAVANA"},"content":{"rendered":"\n<p>As ruas de pedras, feitas por m\u00e3os escravas da \u00e9poca colonial, foi o \u201ctapete vermelho\u201d da tropa guerrilheira comandada por Fidel Castro, Ernesto Che Guevara e Camilo Cienfuego, quando triunfou a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, h\u00e1 54 anos. Hoje, por essas mesmas ruas hist\u00f3ricas tamb\u00e9m passa o futuro da Col\u00f4mbia. \u00a0De um lado da cidade est\u00e1 a gigantesca estatua de Jos\u00e9 Mart\u00ed, na importante Pra\u00e7a da Revolu\u00e7\u00e3o, e do outro lado est\u00e1 a imponente escultura de Vladimir Lenin, cravada na Tribuna Anti-Imperialista, de frente para o mar Caribe. Os dois \u201cguardi\u00f5es\u201d da revolu\u00e7\u00e3o formam parte do cen\u00e1rio de uma cidade que, sim chama a aten\u00e7\u00e3o por sua bela arquitetura, mas principalmente porque nesse momento desempenha um papel importante no teatro pol\u00edtico latino-americano. Na ilha socialista o governo colombiano e a guerrilha das For\u00e7as Armadas Revolucion\u00e1rias da Col\u00f4mbia (Farc) est\u00e3o sentados cara a cara para dialogar e encontrar o caminho de volta \u00e0 paz.<\/p>\n<p>O processo de negocia\u00e7\u00e3o iniciou oficialmente em 18 de outubro de 2012, em Oslo, capital da Noruega. Na ocasi\u00e3o, o que ficou acordado entre as duas delega\u00e7\u00f5es \u00e9 que a mesa seria dividida em cinco temas principais. O primeiro deles \u00e9 o desenvolvimento rural, onde reside o grande problema do conflito social e armado. Depois de quatro meses de conversa\u00e7\u00f5es, em 18 de fevereiro, a mesa inaugurou um novo ciclo depois que o chefe da delega\u00e7\u00e3o das Farc, Ivan Marques, apresentou um texto com 10 propostas para o campo. A guerrilha defende o reconhecimento pol\u00edtico dos camponeses e a cria\u00e7\u00e3o de zonas de reservas camponesas, para a produ\u00e7\u00e3o de alimentos, com assist\u00eancia t\u00e9cnica e cr\u00e9dito estatal.<\/p>\n<p>Depois de algumas semanas de paralisa\u00e7\u00e3o, as negocia\u00e7\u00f5es foram retomadas em meados de abril. Al\u00e9m da quest\u00e3o agr\u00e1ria, as duas delega\u00e7\u00f5es de paz tamb\u00e9m buscar\u00e3o um acordo em rela\u00e7\u00e3o a \u00a0participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, onde o objetivo principal \u00e9 garantir o ingresso da esquerda insurgente no \u00e2mbito pol\u00edtico partid\u00e1rio e evitar os erros do passado. Os outros temas a serem levados \u00e0 mesa de di\u00e1logo ser\u00e3o o fim do conflito armado, com um cesse ao fogo bilateral, o problema do narcotr\u00e1fico e as v\u00edtimas do conflito, que devem ser contempladas com justi\u00e7a e repara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a terceira vez que o governo senta para dialogar com a guerrilha. Na primeira delas, em 1984, se chegou a um acordo e parte dos rebeldes deixou a selva e as armas. Mas a falta de garantias pol\u00edticas frustrou o processo de paz.<\/p>\n<p>O resultado foi um genoc\u00eddio de mais 5 mil membros da Uni\u00e3o Patri\u00f3tica, organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da esquerda criada pelos ex-insurgentes. Um verdadeiro banho de sangue patrocinado pelo paramilitarismo e o narcotr\u00e1fico, na d\u00e9cada de 1980. Esse movimento pol\u00edtico, fruto da negocia\u00e7\u00e3o entre a guerrilha e o governo do presidente Belisario Betancurt (1982 &#8211; 1986), foi exterminado e as Farc voltaram ao seu lugar de origem: a insurg\u00eancia. Por isso uma das maiores preocupa\u00e7\u00f5es da guerrilha nesse momento \u00e9 garantir sua participa\u00e7\u00e3o na vida pol\u00edtica e, principalmente, que todos os termos acordados sejam cumpridos depois da entrega das armas.<\/p>\n<p>Para resolver o impasse os insurgentes apostam em um processo constituinte, atrav\u00e9s de assembl\u00e9ias nacionais, com ampla participa\u00e7\u00e3o popular. O objetivo \u00e9 envolver a sociedade nos grandes temas que s\u00e3o as causas e as consequ\u00eancias do conflito.<\/p>\n<p>Mas o governo resiste a essa proposta. Com as elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2014 pisando no talo, o governo faz press\u00e3o para as negocia\u00e7\u00f5es serem r\u00e1pidas e discretas. \u201cJuan Manuel Santos possui metas ambiciosas. Ele espera concluir as negocia\u00e7\u00f5es at\u00e9 novembro desse ano\u201d, afirma o analista pol\u00edtico Ariel \u00c1vila, do centro de investiga\u00e7\u00e3o Observat\u00f3rio do Conflito, que faz parte do instituto de pesquisa Nuevo Arco Iris, um dos mais importantes da Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p>Outro especialista no tema, o ex combatente da guerrilha caribenha de El Salvador, Roberto Ca\u00f1as, faz um alerta. \u201c\u00c9 arriscado coordenar os di\u00e1logos de paz em meio \u00e0s elei\u00e7\u00f5es. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o adianta querer acelerar o processo porque n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel conquistar paz com um acordo express\u201d. Ca\u00f1as foi membro da delega\u00e7\u00e3o dos acordos de paz de 1992, que p\u00f4s fim a uma d\u00e9cada de guerra civil, entre os rebeldes marxistas e o governo salvadorenho. Hoje Ca\u00f1as \u00e9 professor e investigador do Instituto de Economia da Universidade de El Salvador.<\/p>\n<p>O Secret\u00e1rio Geral do Partido Comunista Brasileiro, Ivan Pinheiro, que esteve em Cuba em janeiro de 2013 e manteve encontros com a delega\u00e7\u00e3o das Farc, afirma que \u201co governo n\u00e3o queria envolver a sociedade nos di\u00e1logos de paz, mas as Farc est\u00e3o condicionando esse processo \u00e0 convoca\u00e7\u00e3o de uma assembl\u00e9ias para discutir o tema com a popula\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>O analista pol\u00edtico Ariel \u00c1vila, ressalta que \u201cat\u00e9 agora todas as decis\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o aos di\u00e1logos com a guerrilha s\u00e3o resultados da decis\u00e3o quase pessoal do presidente Juan Manuel Santos. Por isso \u00e9 que se fala em mecanismos que valide e legitime a implementa\u00e7\u00e3o do que for acordado nesse processo. A guerrilha defende a ampla assembl\u00e9ia nacional. J\u00e1 o governo est\u00e1 mais inclinado a sugerir um referendum\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Organiza\u00e7\u00f5es exercem poder constitucional<\/p>\n<p>Mesmo sem o consentimento do Estado, os movimentos sociais tomaram frente e, utilizando o direito que lhes confere a Constitui\u00e7\u00e3o, no dia 20 de fevereiro, cerca de mil organiza\u00e7\u00f5es, declararam instaladas as Assembl\u00e9ias Constituintes de Paz na Col\u00f4mbia, que ser\u00e3o realizadas em todo territ\u00f3rio colombiano de forma extra oficial. Essas organiza\u00e7\u00f5es afirmam que a convoca\u00e7\u00e3o \u00e9 leg\u00edtima e a sociedade civil organizada tem autonomia e direito a paz. Tais debates v\u00e3o possibilitar os cidad\u00e3os a opinar e propor alternativas para a sa\u00edda pac\u00edfica do conflito mais antigo do mundo. \u201cConsideramos que si chegam a um acordo sobre esse tema da terra a mesa de di\u00e1logo ser\u00e1 um sucesso\u201d, destaca o senador Cepeda. De acordo com o legislador o mais importante \u00e9 que n\u00e3o s\u00e3o somente as Farc ou o governo os que est\u00e3o opinando. \u201cEst\u00e1 havendo participa\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es camponesas, n\u00e3o suficientemente ampla como quer\u00edamos, mas sim significativa\u201d, ressalta Cepeda.<\/p>\n<p>\u201cA guerrilha pressionou e conseguiu envolver a sociedade e promover um grande debate nacional. O povo foi levado \u00e0 mesa de negocia\u00e7\u00e3o e as Farc representam os interesses da sociedade enquanto a delega\u00e7\u00e3o do governo assumiu a postura de defender os interesses da burguesia\u201d, analisa Ivan Pinheiro, do PCB. Ele argumenta que justamente por isso \u00e9 que o processo \u00e9 muito dif\u00edcil. \u201cEle reside no fio da navalha, porque as expectativas cada um dos lados s\u00e3o muito diferentes. O Estado colombiano, com a cumplicidade dos EUA, quer a paz para os neg\u00f3cios florescerem\u201d, afirma o pol\u00edtico brasileiro.<\/p>\n<p>O pesquisador do Observat\u00f3rio do Conflito, Ariel \u00c1vila assegura que, hoje, o cen\u00e1rio pol\u00edtico est\u00e1 mais favor\u00e1vel ao presidente Santos. \u201cMas o que vai confirmar ou n\u00e3o esse apoio pol\u00edtico s\u00e3o as urnas. Em 2014 a popula\u00e7\u00e3o vai dizer se o chefe de estado poder\u00e1 levar adiante o processo de implementa\u00e7\u00e3o dos pontos acordados entre os negociadores\u201d, \u00a0ressalta. Entretanto o presidente Juan Manuel Santos enfrenta um dif\u00edcil momento no seu governo. A falta de resultados das negocia\u00e7\u00f5es e a marcha lenta das pol\u00edticas p\u00fablicas em mat\u00e9ria de direitos humanos fez popularidade do chefe de estado despencar de 58 para 43% de aprova\u00e7\u00e3o, segundo uma pesquisa divulgada pelo jornal El Espectador na segunda quinzena de fevereiro. De acordo com mesma pesquisa, cerca de 60% dos colombianos desaprovam a reelei\u00e7\u00e3o de Santos.<\/p>\n<p>O desafio agora \u00e9 tornar o processo mais eficiente e objetivo. Mas qual \u00e9 a diferencia entre este processo e as outras duas tentativas anteriores? Segundo Cepeda, um dos mais respeitados pol\u00edticos colombianos, o principal fator \u00e9 que \u201cagora existe um contexto pol\u00edtico e militar diferente. H\u00e1 um esfor\u00e7o vis\u00edvel entre as partes para alcan\u00e7ar a paz. Nos processos anteriores existia muita ambig\u00fcidade\u201d, relata o senador. Al\u00e9m disso, segundo o analista pol\u00edtico Ariel \u00c1vila, \u201ca agenda pol\u00edtica do processo de negocia\u00e7\u00e3o \u00e9 muito mais resumida\u201d.<\/p>\n<p>A \u00faltima experi\u00eancia de negocia\u00e7\u00e3o foi traum\u00e1tica para Col\u00f4mbia. O di\u00e1logo de paz de El Cagu\u00e1n que come\u00e7ou em 1998 foi interrompido em 2001, pela guerrilha que argumentou que n\u00e3o existiam garantias de seguran\u00e7a suficientes para o negociadores. Contudo, o senador colombiano Ivan Cepeda fala ainda que existiram outros motivos para justificar o fracasso. \u201cO processo foi muito longo. N\u00e3o havia um tempo limite para terminar as negocia\u00e7\u00f5es. Houve um cesse ao fogo bilateral, mas tanto o governo quanto as Farc estavam realizando a\u00e7\u00f5es paralelas para fortalecer-se militarmente\u201d.<\/p>\n<p>O contexto pol\u00edtico internacional, al\u00e9m de respaldar as negocia\u00e7\u00f5es de paz, cria uma esp\u00e9cie de \u201cblindagem\u201d, conforme define o professor e investigador da faculdade de Cultura de Paz da Universidade Aut\u00f4noma de Barcelona, Yezid Arteta. Esse analista, especialista em conflitos armados, foi guerrilheiro das Farc e esteve preso 10 anos. Saiu da c\u00e1rcere em 2006 e hoje \u00e9 um importante especialistas no tema. Ele explica que a participa\u00e7\u00e3o de pa\u00edses como Noruega, Cuba, Venezuela e Chile agrega peso e credibilidade ao processo.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o existe uma \u00fanica organiza\u00e7\u00e3o internacional no mundo que saiu a criticar os di\u00e1logos de paz da Col\u00f4mbia. A pr\u00f3pria Uni\u00e3o Europ\u00e9ia fez declara\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de apoio. E o sil\u00eancio do Departamento de Estado dos Estados Unidos pode ser sim interpretado como um sil\u00eancio c\u00famplice, \u2013 argumenta Arteta.<\/p>\n<p>O escritor e jornalista Ignacio Ramonet vai ainda mais longe. Segundo o espanhol, o fato dos Estados Unidos n\u00e3o participarem das negocia\u00e7\u00f5es, apesar de estarem militarmente envolvidos no conflito colombiano, representa um grande avan\u00e7o diplom\u00e1tico para a regi\u00e3o. Esse novo cen\u00e1rio internacional com a Unasul e a Celac \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o do novo esp\u00edrito que reina na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>\u2013 Unasul e Celac constru\u00edram uma nova diplomacia que fez com esse continente emergente tomasse em suas m\u00e3os o seu destino, com a consci\u00eancia de que n\u00e3o \u00e9 superior a outra regi\u00f5es, mas que t\u00e3o pouco \u00e9 uma col\u00f4nia. Estados Unidos n\u00e3o faz parte dessa \u2018hora da Am\u00e9rica latina \u2013, diz Ramonet, durante entrevista no ano passado a Revista Caros Amigos.<\/p>\n<p>Em uma entrevista exclusiva publicada pelo PCB, no Brasil, o chanceler das Farc, Rodrigo Granda, tamb\u00e9m chama a aten\u00e7\u00e3o para essa \u201cnova diplomacia da Am\u00e9rica Latina\u201d.<\/p>\n<p>\u2013 A Unasul e o Brasil poder\u00e3o fazer parte da mesa de di\u00e1logo para acompanhar. Esse processo n\u00e3o afeta somente o territ\u00f3rio colombiano, \u00e9 um assunto regional. O Brasil tem um papel importante para a paz no continente.<\/p>\n<p>Com a intensifica\u00e7\u00e3o do conflito, nos \u00faltimos 15 anos os pa\u00edses vizinhos tamb\u00e9m s\u00e3o impactados.<\/p>\n<p>\u2013 Venezuela e Equador, recebem um maior grau de impacto econ\u00f4mico e social, mas os outros vezinhos como o Panam\u00e1, Peru e Brasil, j\u00e1 em menor intensidade, \u2013 explica Yezid Arteta, da Universidade de Barcelona.<\/p>\n<p>Inimigos da paz<\/p>\n<p>Ex presidente da Col\u00f4mbia e personagem sempre presente na pol\u00edtica do pa\u00eds, \u00c1lvaro Uribe Velez, ficou quase sozinho na sua decis\u00e3o de se declarar publicamente contra as negocia\u00e7\u00f5es de paz entre a guerrilha das Farc e o governo. Uribe, que \u00e9 parte de uma elite pol\u00edtica de extrema direita, sempre defendeu os enfrentamentos militares e nunca reconheceu que em sue pa\u00eds existia um conflito social e armado. Para o ex presidente a viol\u00eancia que deixou mais 60 mil mortes no pa\u00eds \u00e9 o resultado da viol\u00eancia de mil\u00edcias, terroristas e bandidos comuns. Esse velho discurso foi vencido pelo tempo e pela impossibilidade de resolver problemas estruturais t\u00e3o complexos quanto reais. Uribe, fiel aliado dos Estados Unidos, se transformou um inimigo poderoso do processo de paz e n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico.<\/p>\n<p>Para o analista internacional de geopol\u00edtica, fundador do \u201cProjeto Segunda Rep\u00fablica\u201d da Argentina, Adrian Salbuchi, \u201cn\u00e3o se pode perder de vista que o conflito da Col\u00f4mbia est\u00e1 intimamente ligado ao narcotr\u00e1fico\u201d. Esse n\u00e3o \u00e9 um problema isolado da Col\u00f4mbia, segundo Salbuchi, existem grupos de interesse que jogam a guerra. \u201cA quest\u00e3o nunca \u00e9 branca e preta. Existe in\u00fameros tons de cinza nesse conflito\u201d, frisa.<\/p>\n<p>Os narcotraficantes, homens de neg\u00f3cios, poderiam ser afetados com o fim do conflito, j\u00e1 que as zonas guerrilheiras, onde o Estado n\u00e3o pode chegar, passariam a ser vigiadas e fiscalizadas. O que poderia impactar diretamente as corpora\u00e7\u00f5es financeiras mundiais. Alguns dos grandes grupos econ\u00f4micos dos Estados Unidos como Citigroup, Bank of America, Wells Fargo, American Express e Western Union, est\u00e3o envolvidos em esc\u00e2ndalos de lavagem de dinheiro do narcotr\u00e1fico, segundo den\u00fancias do jornal mexicano La Jornada.<\/p>\n<p>\u2013 Essas grandes corpora\u00e7\u00f5es s\u00e3o as verdadeiras beneficiadas com o narcotr\u00e1fico e, como sempre, est\u00e3o bem longe dos flagelos gerados pelo conflito, \u2013 enfatiza Salbuchi. Ele ressalta um epis\u00f3dio curioso que aconteceu rm 1999, quando o ent\u00e3o presidente da Bolsa de Valores de Nova York, Richard Grasso, fez uma visita secreta ao chefe guerrilheiro Raul Reyes, ent\u00e3o o segundo ao mando da guerrilha. O fato foi documentado pela Reuters e publicado no dia 26 de junho desse ano. A ag\u00eancia de not\u00edcias estadunidense revelou ainda que Grasso havia estendido um convite pessoal para os l\u00edderes das Farc, considerada uma \u201corganiza\u00e7\u00e3o terrorista\u201d pelo Departamento de Estado desse pa\u00eds, a visitar Wall Street t\u00e3o logo quanto poss\u00edvel. \u201cConvido os membros das Farc a visitar o New York Stoch Exchange, para que possam conhecer o mercado financeiro pessoalmente\u201d, cita Reuters.<\/p>\n<p>O acampamento visitado por Richard Grasso estava localizada na regi\u00e3o desmilitarizada de Cagu\u00e1n, pr\u00f3ximo \u00e0 zona de negocia\u00e7\u00e3o durante o governo de Andr\u00e9s Pastrana (1998 -2002). A pergunta que fica \u00e9: sobre o que falaram o presidente do maior centro financeiro do mundo e o l\u00edder da guerrilha marxista?<\/p>\n<p>\u2013 O que aconteceria se, por um milagre de Deus ou da natureza, o tr\u00e1fico de drogas acabasse amanh\u00e3?\u201d \u00a0\u2013 questiona o analista internacional argentino. \u201cProvavelmente muitas corpora\u00e7\u00f5es financeiras iriam \u00e0 fal\u00eancia. O narcotr\u00e1fico existe sem os bancos e muitos bancos n\u00e3o resistiriam sem o narcotr\u00e1fico\u201d, finaliza Adrian Salbuchi.<\/p>\n<p>A longa estrada percorrida at\u00e9 \u00a0Havana<\/p>\n<p>Depois de 50 anos de guerra \u00e9 dif\u00edcil medir quem perdeu mais. Se por um lado a guerrilha n\u00e3o conseguiu tomar o poder atrav\u00e9s da luta armada, por outro lado o Estado t\u00e3o pouco venceu. O conflito chegou em um est\u00e1gio classificado como \u201cempate negativo\u201d. As Farc foi duramente golpeada com a morte dos seus l\u00edderes hist\u00f3ricos, como Raul Reyes (2008), Manuel Marunda (2008), Mono Jojoy (2010) e Alfonso Cano (2011). Enquanto o Estado enfrentava uma grave crise financeira, pol\u00edtica e militar, provocada pelo desgaste de uma guerra que nunca termina. O Estado vai vencendo mas n\u00e3o ganha a guerra, segundo o analista pol\u00edtico Ariel \u00c1vila, investigador da Corpora\u00e7\u00e3o Nuevo Arco-Iris um dos respeitados especialistas colombianos quando o tema \u00e9 o conflito armado. Mas o caminho at\u00e9 Havana come\u00e7ou bem antes de Oslo. Foi iniciado ainda nos primeiros meses do governo de Juan Manuel Santos, que tem a ambi\u00e7\u00e3o de entrar para a Hist\u00f3ria como o \u201cpresidente que devolveu a paz \u00e0 Col\u00f4mbia\u201d, como ele mesmo afirmou em 2010, quando assumiu o cargo.<\/p>\n<p>As primeiras mensagens de inten\u00e7\u00e3o foram iniciadas entre o ent\u00e3o l\u00edder m\u00e1ximo das Farc, Alfonso Cano e o presidente colombiano. Durante o primeiro ano de governo, Santos j\u00e1 foi preparando o terreno ao impulsionar legisla\u00e7\u00f5es de paz, como a lei de V\u00edtimas e Restitui\u00e7\u00e3o de Terras. O primeiro grande avan\u00e7o.<\/p>\n<p>O que poucos sabem \u00e9 que o primeiro encontro entre a c\u00fapula do governo e homens do alto comando das Farc foi realizado em territ\u00f3rio colombiano, na regi\u00e3o de Catatumbo, no Departamento de Santander, no norte do pa\u00eds. Nesse momento a delega\u00e7\u00e3o das Farc era liderada pelos chefes guerrilheiros Andr\u00e9s Par\u00eds, ide\u00f3logo das Farc e que tamb\u00e9m esteve presente nos frustrados di\u00e1logos de Cagu\u00e1n, entre 1998 e 2001, e Rodrigo Granda, conhecido como o chanceler das Farc. Representa\u00e7\u00e3o do Estado estiveram a cargo do conselheiro presidencial, Alejandro Eder e Jaime Avenda\u00f1o, um funcion\u00e1rio veterano da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. O baixo escal\u00e3o dos representantes do governo irritou a guerrilha e pouca coisa avan\u00e7ou nesse primeiro contato.<\/p>\n<p>J\u00e1 em uma segunda fase, em julho de 2011, o presidente Santos convida o alto comiss\u00e1rio para a paz, Sergio Jaramillo, para encabe\u00e7ar a equipe de negociadores. Al\u00e9m disso, o chefe de governo envia uma mensagem de boa f\u00e9 e um gesto de confian\u00e7a ao delegado de cunho pessoal, seu irm\u00e3o mais velho, o jornalista Enrique Santos Calder\u00f3n, ex diretor do importante jornal El Tiempo. As Farc recebe essa not\u00edcia como uma mostra do seu compromisso com o processo ao envolver um membro da sua pr\u00f3pria fam\u00edlia, mas tamb\u00e9m a possibilidade de conversar diretamente com um veterano das negocia\u00e7\u00f5es de paz, que esteve em Cagu\u00e1n (2001) e na Uribe (as negocia\u00e7\u00f5es de 1984). As Farc retribuem a \u201cgentileza\u201d e colocam o chefe militar das Farc, Mauricio Jaramillo, \u00e0 frente da delega\u00e7\u00e3o guerrilheira. Tamb\u00e9m conhecido como \u201co m\u00e9dico\u201d, ele \u00e9 o sucessor do Mono Jojoy, membro do Secretariado e comandante do mais poderoso bloco guerrilheiro jamais visto. Enrique Santos afirma que Mauricio Jaramillo era quem dava peso \u00e0 delega\u00e7\u00e3o por ser o chefe militar. O jornalista veterano o descreve como uma pessoa \u201cs\u00f3bria, seca, calada, mas quando falava tinha a autoridade de ser o homem sobre cujas costas estava o compromisso das Farc\u201d.<\/p>\n<p>As reuni\u00f5es s\u00e3o transladadas a Cuba e realizam-se uma s\u00e9rie de encontros secretos, entre os meses de fevereiro e agosto de 2012. \u201cO governo colombiano e as Farc realizaram cerca de dez rodadas preparat\u00f3rias. Cada uma podia durar entre quatro a oito dias seguidos\u201d, conta Maur\u00edcio Jaramilho em artigo publicado pela revista colombiana Semana.<\/p>\n<p>\u2013 Os delegados do governo voltavam \u00e0 Col\u00f4mbia ao final de cada encontro. M\u00e1s n\u00f3s permanec\u00edamos em Cuba no mais absoluto segredo. Ningu\u00e9m podia ver-nos e n\u00f3s tamb\u00e9m n\u00e3o pod\u00edamos deixar nos ser vistos. Isso convertia a nossa prolongada estadia em uma esp\u00e9cie de clausura de monast\u00e9rio, \u2013 descreve o chefe militar das Farc.<\/p>\n<p>Durante as conversa\u00e7\u00f5es explorat\u00f3rias a guerrilha prop\u00f5e o cesse ao fogo bilateral, mas o governo n\u00e3o aceita. \u00c9 nesse momento que decidem mudar de equipe. Mauricio Jaramillo, \u00a0estrat\u00e9gia militar, volta para a selva e Ivan Marquez, que tamb\u00e9m \u00e9 membro do secretariado das Farc, assume a lideran\u00e7a da delega\u00e7\u00e3o de insurgentes.<\/p>\n<p>\u2013 Como o governo n\u00e3o aceitou a tr\u00e9gua eles deixaram seus chefes militares no campo de batalha, \u2013 conclui o veterano negociador Enrique Santos.<\/p>\n<p>Do outro lado da mesa, a que toca ao governo, a delega\u00e7\u00e3o ganha um refor\u00e7o com a nomea\u00e7\u00e3o do pol\u00edtico e ex magistrado Humberto La Calle, que tamb\u00e9m foi ministro de Governo, em 1990 durante a gest\u00e3o do ent\u00e3o presidente C\u00e9sar Gaviria e representante direto do governo na Assembl\u00e9ia Nacional Constituinte de 1991. La Calla conduziu a instala\u00e7\u00e3o oficial dos di\u00e1logos de paz, em Oslo, e agora \u00e9 quem lidera a equipe do governo.<\/p>\n<p>Todos os caminhos levam a Cuba<\/p>\n<p>A escolha de Cuba para sediar os di\u00e1logos tamb\u00e9m n\u00e3o foi por acaso. As reuni\u00f5es explorat\u00f3rias estavam cada vez mais tensas e o processo corria o risco de fracassar antes mesmo de come\u00e7ar. E a conjuntura internacional veio a calhar. Tudo come\u00e7a com um acordo entre o presidente da Venezuela, Hugo Chavez e o colombiano Juan Manuel Santos, quando se restabelecem as rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas entre as duas na\u00e7\u00f5es. O compromisso do presidente da Col\u00f4mbia era usar sua influencia dentro da direita do continente para contribuir com a volta do presidente Manuel Zelaia a Honduras, onde havia sofrido o golpe de Estado. E o presidente da Venezuela se comprometeu em sincronizar e trabalhar conjuntamente com a ag\u00eancia de intelig\u00eancia colombiana e a Interpol na captura de chefes guerrilheiros, paramilitares e narcotraficantes que pudessem se refugiar em territ\u00f3rio venezuelano.<\/p>\n<p>No come\u00e7o de 2012 os governos de esquerda da Am\u00e9rica Latina exerciam forte press\u00e3o nos Estados Unidos por sua pol\u00edtica de inger\u00eancia na Am\u00e9rica Latina. Venezuela amea\u00e7a se retirar do comit\u00ea \u00a0interamericano de Direitos Humanos, organismo vinculado a Organiza\u00e7\u00e3o de Estados Americanos (OEA). Equador toma a decis\u00e3o de n\u00e3o participar \u00a0da C\u00fapula das Am\u00e9ricas, enquanto Cuba n\u00e3o for convidada a regressar ao organismo. Nicar\u00e1gua, Bol\u00edvia e Venezuela tamb\u00e9m n\u00e3o confirmam participa\u00e7\u00e3o. Nesse momento o corpo diplom\u00e1tico da Col\u00f4mbia entra em a\u00e7\u00e3o. O pa\u00eds que era o anfitri\u00e3o da sexta C\u00fapula das Am\u00e9ricas, em abril de 2012, n\u00e3o queria entrar para a hist\u00f3ria como sede da desintegra\u00e7\u00e3o da OEA.<\/p>\n<p>Em fevereiro desse mesmo ano, dois meses antes da c\u00fapula, a ministra de rela\u00e7\u00f5es exteriores da Col\u00f4mbia, Mar\u00eda \u00c1ngela Holgu\u00edn viaja a Cuba e se re\u00fane com o chanceler cubano, Bruno Rodr\u00edguez e sai do pa\u00eds sem dar declara\u00e7\u00f5es. Da\u00ed em diante ningu\u00e9m mais polemizou o tema. Equador foi o \u00fanico pa\u00eds que n\u00e3o compareceu em Cartagena, mas manteve sil\u00eancio desde ent\u00e3o. Possivelmente foi nesse per\u00edodo que se negociou o papel transcendental que Cuba teria como pa\u00eds garante do di\u00e1logo de paz. Uma jogada de mestre da diplomacia colombiana, em um momento decisivo para o pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 verdade que o processo esteve a ponto de morrer devido \u00e0 dificuldade em determinar qual seria a sede das conversa\u00e7\u00f5es, \u2013 confessou o guerrilheiro Mauricio Jaramillo, em nota recentemente publicada pela imprensa colombiana.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, algumas conversa\u00e7\u00f5es explorat\u00f3rias para definir os protocolos e metodologias j\u00e1 haviam sido realizadas em Cuba, entre os meses de julho e dezembro de 2011.<\/p>\n<p>\u2013 O papel de Cuba nesse momento \u00e9 decisivo. O que tamb\u00e9m demonstra seu compromisso com a paz da regi\u00e3o, \u2013 afirma o investigador da universidade de Barcelona Yezid Arteta.<\/p>\n<p>Na escolha dos pa\u00edses que participariam como observadores e testemunha a guerrilha optou pelo governo de esquerda da Venezuela e o presidente Santos ficou com a direita do Chile, um aliado no bloco \u201cArco do Pac\u00edfico\u201d, que tamb\u00e9m inclui Peru, Panam\u00e1 e M\u00e9xico, zona de influ\u00eancia dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>\u2013 J\u00e1 a Noruega, que junto com Cuba oferece garantias de seguran\u00e7a ao processo, foi escolhida por ser um dos poucos pa\u00edses que n\u00e3o reconhece a lista de organiza\u00e7\u00f5es terroristas dos Estados Unidos, na qual as Farc est\u00e3o inclu\u00eddas \u2013 conforme explica Arteta. Outro ponto a favor da Noruega \u00e9 sua vasta experi\u00eancia diplom\u00e1tica por haver participado de diferentes di\u00e1logos de paz no mundo.<\/p>\n<p>*Jornalista colaboradora da revista brasileira Caros Amigos &lt;<span style=\"line-height: 1.3em;\">rodrigues.fania@gmail.com&gt;<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nFania Rodrigues*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4926\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[34],"tags":[],"class_list":["post-4926","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c39-colombia"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1hs","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4926","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4926"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4926\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4926"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4926"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4926"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}