{"id":4927,"date":"2013-06-05T14:36:38","date_gmt":"2013-06-05T14:36:38","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4927"},"modified":"2013-06-05T14:36:38","modified_gmt":"2013-06-05T14:36:38","slug":"de-volta-ao-brasil-grande","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4927","title":{"rendered":"De volta ao Brasil Grande ?"},"content":{"rendered":"\n<p><em>\u00c9 lament\u00e1\u00e1\u00e1vel ! (bord\u00e3o do grande humorista, poeta e chanchadeiro Z\u00e9 Trindade)<\/em><\/p>\n<p>Em julho de 2004, visitei Santiago. Fiz quest\u00e3o de conhecer o Pal\u00e1cio de La Moneda, c\u00e9u e inferno da experi\u00eancia socialista de Salvador Allende. Fazia um frio polar, desses de congelar pinguim de geladeira. No port\u00e3o, uma guarda solene recebia os visitantes e fazia uma revista discreta. Afinal de contas, ali era o local de trabalho do presidente da Rep\u00fablica. Educadamente, o sentinela encapotado falou-me alguma coisa que n\u00e3o entendi. De imediato, e por conta e obra de fantasmas inapag\u00e1veis, levantei os bra\u00e7os. A\u00ed aconteceu o inusitado. O soldado disse-me, visivelmente constrangido, que aquilo n\u00e3o era necess\u00e1rio, que a situa\u00e7\u00e3o lhe trazia \u201clembran\u00e7as ruins\u201d. Percebi a mancada a tempo de manifestar-lhe solidariedade. \u00c9ramos irm\u00e3os atemporais de mem\u00f3rias sofridas.<\/p>\n<p>Quando Allende assumiu a presid\u00eancia do Chile, em 1970, a barra andava pesada na Ilha do Fund\u00e3o, onde eu cursava engenharia qu\u00edmica. Soldados invadiam a ilha, fazendo arrast\u00f5es e prendendo a rodo. As engrenagens do terror de Estado surfavam no apoio da classe m\u00e9dia, do Milagre Econ\u00f4mico (arquitetado pelo \u201cneoprogressista\u201d Delfim Netto, or\u00e1culo sinistro da caserna). Naquele ano, o Brasil ganhou a Copa do Mundo de futebol com uma sele\u00e7\u00e3o brilhante e uma campanha publicit\u00e1ria recheada de clich\u00eas patrioteiros. Os 90 milh\u00f5es em a\u00e7\u00e3o do Miguel Gustavo serviram de trilha sonora para a repress\u00e3o, a censura e a tortura. Presos pol\u00edticos da \u00e9poca contam que os torturadores interrompiam o supl\u00edcio para acompanhar as partidas. Patriotadas oficiais escondiam o Brasil real, que sangrava e estava amorda\u00e7ado.<\/p>\n<p>O guarda chileno e suas lembran\u00e7as tristes surgiram das brumas quando vi a inacredit\u00e1vel campanha que o governo federal acaba de lan\u00e7ar para promover a Copa de 2014 (<a href=\"http:\/\/www.brasil.gov.br\/noticias\/arquivos\/2013\/05\/27\/campanha-publicitaria-para-a-copa-2014-traz-brasil-como-a-patria-de-chuteiras\" target=\"_blank\">link<\/a>). \u00c9 duro ter aguentado os \u201came-o ou deixe-o\u201d, \u201cintegrar para n\u00e3o entregar\u201d e \u201cesse \u00e9 um pa\u00eds que vai p\u2019ra frente\u201d\u00a0\u00a0e v\u00ea-los ressuscitados numa ret\u00f3rica ufanista e debiloide. Reafirmando o mito surrado de que somos o pa\u00eds \u201cda alegria\u201d, a propaganda passeia pelo patriotismo tacanho e garante que somos \u201c200 milh\u00f5es de brasileiros que jogam juntos, acreditam at\u00e9 o \u00faltimo instante e transformam tudo em paix\u00e3o\u201d. Usaram recursos p\u00fablicos para produzir este lixo de aroma verde-oliva, que n\u00e3o resiste a tr\u00eas neur\u00f4nios de an\u00e1lise. Chamem o Z\u00e9 Trindade !!<\/p>\n<p>Os s\u00e1bios de Bras\u00edlia dizem que \u201co Brasil n\u00e3o vai fazer s\u00f3 uma Copa do Mundo, vai fazer a melhor Copa de todos os tempos\u201d. De onde tiraram isso ? O que vimos at\u00e9 agora foi a constru\u00e7\u00e3o de um colar de elefantes brancos e corrup\u00e7\u00e3o a c\u00e9u aberto. O est\u00e1dio Man\u00e9 Garrincha, em Bras\u00edlia, teve a capacidade aumentada para mais de 70 mil lugares, o equivalente a quase 3% de toda a popula\u00e7\u00e3o brasiliense. As obras do Maracan\u00e3, que j\u00e1 havia sido reformado para o Pan de 2007, custaram 50% a mais do que foi or\u00e7ado no in\u00edcio. Quem vai investigar ? Quem se beneficia disso ?\u00a0<em>Apr\u00e8s moi, le deluge<\/em>. A cobertura do est\u00e1dio da Fonte Nova, em Salvador, n\u00e3o resistiu a uma chuva mais forte.<\/p>\n<p>O\u00a0<em>grand finale <\/em>da pe\u00e7a publicit\u00e1ria \u00e9 o retorno \u00e0 p\u00e1tria de chuteiras. Criada pelo N\u00e9lson Rodrigues em plena ditadura, no estilo reacion\u00e1rio-elegante t\u00edpico do grande escritor, a express\u00e3o serviu para desenhar uma perigosa cartada: a de que \u00e9 desej\u00e1vel que os brasileiros esque\u00e7am suas diferen\u00e7as e se unam em torno da sele\u00e7\u00e3o nacional. Nada mais conveniente para o general M\u00e9dici com o radinho de pilha. Nada mais adequado para qualquer governo em ano de elei\u00e7\u00e3o. Nada mais est\u00fapido e antiesportivo do que o fanatismo por tr\u00e1s de sagradas chuteiras. Nada mais pat\u00e9tico do que as v\u00edtimas do arb\u00edtrio repetirem mantras dos algozes.<\/p>\n<p>O ufanismo serve a v\u00e1rios senhores. A galv\u00e3obueniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds nutre a apatia, mediocrizando temas e an\u00e1lises. A megalomania fixa no imagin\u00e1rio popular uma falsa ideia de pot\u00eancia e cria alvos fantasiosos (\u201csomos melhores e maiores do que os outros\u201d, que, por consequ\u00eancia, devem se curvar a n\u00f3s). A lobotomia propagand\u00edstica esteriliza a capacidade cr\u00edtica e torna o povo ref\u00e9m de interesses n\u00e3o revelados. Quem tem a ousadia de papaguear que somos \u201c200 milh\u00f5es de brasileiros que jogam juntos\u201d perdeu o rumo e o prumo. Ser\u00e1 que empreiteiros brasileiros jogam no mesmo time dos oper\u00e1rios que constru\u00edram\/reformaram os est\u00e1dios e jamais poder\u00e3o frequent\u00e1-los (os ingressos ter\u00e3o pre\u00e7os inacess\u00edveis \u00e0 grande maioria) ? Ser\u00e1 que os pais e alunos da Escola Municipal Friedenreich, amea\u00e7ada de demoli\u00e7\u00e3o para facilitar o escoamento de torcedores no Maracan\u00e3, vestem a mesma camisa dos que querem destru\u00ed-la ? Ser\u00e1 que o Brasil chegou, meio sem querer e assobiando, \u00e0 sociedade sem classes ?<\/p>\n<p>Ainda sobre a p\u00e1tria de chuteiras, cabe um derradeiro coment\u00e1rio. O futebol, hoje, n\u00e3o tem nada a ver com aquele que se jogava na \u00e9poca de N\u00e9lson Rodrigues. Virou, como registrei na semana passada, um neg\u00f3cio. A sele\u00e7\u00e3o rodrigueana tinha cacoete local, todos os jogadores atuavam em times brasileiros. A torcida tinha contato permanente com eles. Assistia aos treinos, via-os aos domingos. O que se v\u00ea hoje \u00e9 uma legi\u00e3o multinacional, reunida circunstancialmente, para a qual a no\u00e7\u00e3o de p\u00e1tria passa batida. Capital n\u00e3o tem fronteira, tem interesses. Longe de ser fen\u00f4meno caboclo, virou regra. A bobagem que o governo federal divulga nas televis\u00f5es ignora essas mudan\u00e7as e nos faz retroceder a oba-obas de triste mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Gostaria que isso n\u00e3o passasse de um pesadelo. Amanh\u00e3 acordaria e, aliviado, constataria que tudo n\u00e3o passara de imagina\u00e7\u00e3o. Bem ao estilo de um maravilhoso samba de breque do imortal Moreira da Silva,\u00a0<em>Acertei no milhar <\/em>(<a href=\"http:\/\/letras.mus.br\/moreira-da-silva\/393251\/\" target=\"_blank\">link<\/a>). O malandro sonha que ganhou no jogo do bicho, faz planos delirantes e, no final, descobre que tinha sonhado. Temo, entretanto, que vem por a\u00ed uma avalanche euf\u00f3rico-nacionalista, com uma parceria amig\u00e1vel entre governos e imprensa (para isso a PIG ser\u00e1 muito \u00fatil aos projetos oficialistas &#8230;). Afinal de contas, dona Dilma pagou o mico de balan\u00e7ar a caxirola e n\u00e3o vai perder uma oportunidade dessas.<\/p>\n<p>Jacques Gruman<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4927\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[54],"tags":[],"class_list":["post-4927","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c65-lulismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1ht","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4927","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4927"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4927\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4927"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4927"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4927"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}