{"id":4954,"date":"2013-06-10T14:09:15","date_gmt":"2013-06-10T14:09:15","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4954"},"modified":"2013-06-10T14:09:15","modified_gmt":"2013-06-10T14:09:15","slug":"a-questao-do-estado-questao-central-de-cada-revolucao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4954","title":{"rendered":"A quest\u00e3o do Estado, quest\u00e3o central de cada revolu\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>O\u00a0<a href=\"http:\/\/odiario.info\/\" target=\"_blank\">odiario.info<\/a> vem, com a publica\u00e7\u00e3o deste texto do grande patriota, internacionalista, pol\u00edtico comunista, revolucion\u00e1rio e multifacetado intelectual que foi \u00c1lvaro Cunhal, associar-se \u00e0s comemora\u00e7\u00f5es do centen\u00e1rio do seu nascimento.<\/p>\n<p>No momento em que amplas massas da juventude portuguesa manifestam nas ruas, nos blogues, nas ac\u00e7\u00f5es de contesta\u00e7\u00e3o do governo da burguesia que nos oprime, esclarecer o que \u00e9 o Estado numa sociedade de classes, como, por que se formou e para que serve, e que a supera\u00e7\u00e3o da ditadura da burguesia, desta ou de qualquer outra, n\u00e3o se faz no quadro da importante luta dentro das institui\u00e7\u00f5es, enfim, divulgar \u00c1lvaro Cunhal, o seu pensamento e a pol\u00edtica do Partido por ele dirigido \u00e9, seguramente, a melhor forma de o recordar.<\/p>\n<p>A 30 quil\u00f3metros a noroeste de Leninegrado, Razliv \u00e9 hoje um lugar hist\u00f3rico. A\u00ed, num s\u00edtio ermo, se pode ver a reconstitui\u00e7\u00e3o da cabana onde L\u00e9nine viveu clandestinamente em Agosto de 1917. A\u00ed se pode ver tamb\u00e9m o cepo de uma \u00e1rvore que L\u00e9nine utilizava como mesa para escrever.<\/p>\n<p>O Ver\u00e3o de 1917 foi um momento de viragem decisiva na revolu\u00e7\u00e3o russa. Terminara a dualidade de poderes, situa\u00e7\u00e3o original criada pela revolu\u00e7\u00e3o, em que, ao lado do governo provis\u00f3rio, governo da burguesia, se formara um outro governo com \u00abuma exist\u00eancia real e incontest\u00e1vel\u00bb: os sovietes de deputados oper\u00e1rios e soldados (L\u00e9nine, \u00abSobre a dualidade dos poderes\u00bb, Obras, edi\u00e7\u00e3o francesa, vol. 24, p. 28) [1]. Os mencheviques e socialistas-revolucion\u00e1rios, impedindo que todo o poder fosse entregue aos sovietes e entrando num \u00abgoverno de coliga\u00e7\u00e3o\u00bb, entregaram de facto todo o poder \u00e0 burguesia. A contra-revolu\u00e7\u00e3o passou \u00e0 ofensiva. Novas tarefas se colocaram ao proletariado e ao seu partido, o Partido Bolchevique. Como escreveu L\u00e9nine, se at\u00e9 [4 de] Julho \u00abo desenvolvimento pac\u00edfico da revolu\u00e7\u00e3o russa era ainda poss\u00edvel\u00bb, a partir de ent\u00e3o a quest\u00e3o punha-se em novos termos: \u00abou a vit\u00f3ria completa da contra-revolu\u00e7\u00e3o, ou uma nova revolu\u00e7\u00e3o\u00bb (\u201cResposta\u00bb, Obras, edi\u00e7\u00e3o francesa, vol, 25, pp. 231 e 236).<\/p>\n<p>Nas v\u00e9speras da \u00abnova revolu\u00e7\u00e3o\u00bb, que problema considerava L\u00e9nine necess\u00e1rio abordar sem perda de tempo e o levava a escrever febrilmente no cepo de \u00e1rvore em Razliv? Esse problema era o problema do Estado, e a obra que ent\u00e3o Lenine escrevia viria a constituir uma obra fundamental: O Estado e a Revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00e1 nas Teses de Abril L\u00e9nine caracterizara a situa\u00e7\u00e3o como a transi\u00e7\u00e3o da primeira etapa da revolu\u00e7\u00e3o, que deu o poder \u00e0 burguesia, para a segunda etapa, que deveria dar o poder ao proletariado e \u00e0s camadas pobres do campesinato (Ver Obras, edi\u00e7\u00e3o francesa, vol. 24, p. 12) [2].<\/p>\n<p>De Abril a Julho de 1917, em numerosos artigos e discursos, L\u00e9nine insiste na import\u00e2ncia do problema do Estado. \u00c9 por\u00e9m em O Estado e a Revolu\u00e7\u00e3o que n\u00e3o s\u00f3 exp\u00f5e de uma forma sistematizada a teoria de Marx e a defende dos seus detractores, como a aprofunda e enriquece com a sua investiga\u00e7\u00e3o te\u00f3rica criadora assente nas experi\u00eancias do movimento revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Nas v\u00e9speras da revolu\u00e7\u00e3o socialista, a ideia fundamental que L\u00e9nine julga necess\u00e1rio demonstrar exaustivamente e defender com paix\u00e3o \u00e9 que, conquistando o poder, o proletariado n\u00e3o se pode limitar a tomar conta do aparelho do Estado burgu\u00eas, mas tem de destru\u00ed-lo e substitu\u00ed\u00ad-lo por um novo Estado.<\/p>\n<p>1<\/p>\n<p>A teoria marxista da luta de classes permite explicar a origem e a natureza do Estado e os seus diversos tipos e formas.<\/p>\n<p>Marx descobriu e demonstrou que o Estado \u00e9 um poder que nasce da sociedade numa fase determinada do seu desenvolvimento, como resultado da divis\u00e3o da sociedade em classes, como necessidade do recurso \u00e0 coac\u00e7\u00e3o por uma minoria exploradora para manter a explora\u00e7\u00e3o da maioria.<\/p>\n<p>O Estado \u00e9 uma \u00aborganiza\u00e7\u00e3o especial do poder\u00bb, \u00abum poder especial de repress\u00e3o\u00bb, \u00aba organiza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia\u00bb, um aparelho militar e burocr\u00e1tico constitu\u00eddo especialmente pelas for\u00e7as armadas, pela pol\u00edcia, pelos tribunais, pelos \u00f3rg\u00e3os legislativos e executivos, pelo funcionalismo.<\/p>\n<p>Aparentemente acima da sociedade e das classes, o Estado \u00e9 na realidade um instrumento de domina\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o de uma classe sobre outras classes.<\/p>\n<p>A correcta compreens\u00e3o da natureza do Estado \u00e9 essencial para toda a ac\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria do proletariado, particularmente quando se coloca na ordem do dia a tomada do poder.<\/p>\n<p>Marx descobriu que a luta de classes que se trava na sociedade capitalista conduz necessariamente \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o, \u00e0 conquista do poder pol\u00edtico pelo proletariado, a um novo Estado definido no Manifesto Comunista como o \u00abproletariado organizado como classe dominante\u00bb (Obras Escolhidas, em dois volumes, edi\u00e7\u00e3o inglesa, vol. 1, p. 53) [3].<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a conclus\u00e3o fundamental da teoria marxista da luta de classes. N\u00e3o podem pretender ser marxistas aqueles que a rejeitam. Falando da sua teoria da luta de classes, Marx lembrava que n\u00e3o lhe cabia a ele o m\u00e9rito nem de ter descoberto a exist\u00eancia das classes, nem de ter descoberto a luta de classes. \u00abO que fiz de novo (sublinhava) foi demonstrar: 1) Que a exist\u00eancia das classes n\u00e3o est\u00e1 ligada sen\u00e3o a determinadas fases do desenvolvimento hist\u00f3rico da produ\u00e7\u00e3o; 2) Que a luta de classes conduz necessariamente \u00e0 ditadura do proletariado; 3) Que esta ditadura n\u00e3o constitui ela pr\u00f3pria sen\u00e3o a transi\u00e7\u00e3o para a aboli\u00e7\u00e3o de todas as classes e para uma sociedade sem classes\u00bb (Carta a Weydemeyer, 5-3-1852, Obras Escolhidas, em dois volumes, edi\u00e7\u00e3o inglesa, vol. 2, p. 452) [4].<\/p>\n<p>O papel do proletariado na revolu\u00e7\u00e3o socialista decorre das suas pr\u00f3prias caracter\u00edsticas como classe na sociedade capitalista. \u00abDe todas as classes que hoje defrontam a burguesia (proclamava o Manifesto Comunista) s\u00f3 proletariado \u00e9 uma classe realmente revolucion\u00e1ria.\u00bb \u00abOs prolet\u00e1rios s\u00f3 t\u00eam a perder as pr\u00f3prias algemas. Eles t\u00eam um mundo a ganhar.\u201d (Obras Escolhidas, em dois volumes, edi\u00e7\u00e3o inglesa, vol. 1, pp. 43 e 65.) [5]<\/p>\n<p>Defendendo e desenvolvendo as ideias de Marx, L\u00e9nine insistiu em que s\u00f3 o proletariado, como \u00ab\u00fanica classe revolucion\u00e1ria at\u00e9 ao fim\u00bb, pode ser \u00abo guia de todas as massas laboriosas e exploradas, que frequentemente a burguesia explora, oprime e esmaga n\u00e3o menos mas mais que aos prolet\u00e1rios, e que s\u00e3o incapazes de uma luta independente pela sua liberta\u00e7\u00e3o\u00bb. Por isso, o poder da burguesia s\u00f3 pode ser abatido \u00abse o proletariado se transforma em classe dominante capaz de reprimir a resist\u00eancia inevit\u00e1vel, desesperada, da burguesia e de organizar para um novo regime econ\u00f3mico todas as massas laboriosas e exploradas\u00bb (\u00abO Estado e a Revolu\u00e7\u00e3o\u00bb, Obras, edi\u00e7\u00e3o francesa, vol. 25, p. 437) [6].<\/p>\n<p>O proletariado \u00abtransformado em classe dominante\u00bb, como escreveu L\u00e9nine, o proletariado \u00aborganizado como classe dominante\u00bb, como definiu o Manifesto, \u00e9 precisamente a ditadura do proletariado, o novo Estado Prolet\u00e1rio. \u00abO proletariado (insistia L\u00e9nine) tem necessidade do poder de Estado, de uma organiza\u00e7\u00e3o centralizada da for\u00e7a, de uma organiza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia, tanto para reprimir a resist\u00eancia dos exploradores, como para dirigir a grande massa da popula\u00e7\u00e3o &#8211; os camponeses, a pequena burguesia, os semiprolet\u00e1rios &#8211; na edifica\u00e7\u00e3o da economia socialista\u00bb (Ibid.) [7]<\/p>\n<p>Mas como organizar o poder do Estado? A conquista do poder significar\u00e1 a conquista do aparelho do Estado? A esta quest\u00e3o capital, Marx deu uma primeira e clara resposta, que depois Lenine desenvolveu.<\/p>\n<p>Estudando atentamente a experi\u00eancia revolucion\u00e1ria, Marx sublinhava em 1852 que at\u00e9 ent\u00e3o as revolu\u00e7\u00f5es pol\u00edticas n\u00e3o tinham feito mais do que aperfei\u00e7oar a m\u00e1quina do Estado, pois \u00abos partidos que lutavam uns ap\u00f3s outros pelo poder consideravam a conquista deste imenso edif\u00edcio do Estado como a principal presa do vencedor\u00bb (\u00abO 18 Brum\u00e1rio\u00bb, Obras Escolhidas em dois volumes, edi\u00e7\u00e3o inglesa, vol.1, p. 333) [8]. A experi\u00eancia da grande revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria do s\u00e9culo XIX, a Comuna de Paris de 1871, permitiu a Marx avan\u00e7ar e precisar a sua doutrina. Essa experi\u00eancia comprovou que, ao contr\u00e1rio do sucedido nas revolu\u00e7\u00f5es burguesas, \u00aba classe oper\u00e1ria (ao conquistar o poder pol\u00edtico) n\u00e3o pode contentar-se com o tomar a m\u00e1quina completamente pronta do Estado e faz\u00ea-la funcionar para a realiza\u00e7\u00e3o dos seus fins\u00bb (\u00abA Guerra Civil em Fran\u00e7a\u00bb, 1871, Obras Escolhidas, em dois volumes, edi\u00e7\u00e3o inglesa, vol, 1, p. 463) [9].<\/p>\n<p>\u00c9 nessa conclus\u00e3o fundamental que L\u00e9nine insiste e \u00e9 sobre ela que escreve no cepo da \u00e1rvore em Razliv, no Ver\u00e3o de 1917, no momento em que ao proletariado russo se colocava a tarefa de realizar a sua revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A liberta\u00e7\u00e3o da classe oprimida (escreve L\u00e9nine) \u00e9 imposs\u00edvel \u00absem a supress\u00e3o do aparelho do poder de Estado criado pela classe dominante\u201d e a sua substitui\u00e7\u00e3o \u00abpor um poder especial de repress\u00e3o\u201d exercido contra a burguesia pelo proletariado\u00bb (\u00abO Estado e a Revolu\u00e7\u00e3o\u00bb, Obras, edi\u00e7\u00e3o francesa, vol. 25, pp. 420 e 430) [10].<\/p>\n<p>L\u00e9nine alertava contra quaisquer ilus\u00f5es que pudessem existir acerca da possibilidade de realizar a revolu\u00e7\u00e3o socialista se o proletariado e as classes oprimidas se limitassem a tomar conta do aparelho do Estado, cuidando poder utiliz\u00e1-lo contra a burguesia. Em conformidade com tal conclus\u00e3o, indicava ao proletariado russo e ao seu partido uma tarefa capital para a conquista do poder pelos trabalhadores: a destrui\u00e7\u00e3o do Estado burgu\u00eas e a constru\u00e7\u00e3o dum novo Estado, dum Estado dos oper\u00e1rios e camponeses que, sob a direc\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria, quebrasse a resist\u00eancia decerto encarni\u00e7ada da burguesia, suprimisse a explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem, pusesse termo \u00e0 divis\u00e3o da sociedade em classes, assegurasse a transforma\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria da sociedade capitalista em sociedade socialista.<\/p>\n<p>Tal \u00e9 a ess\u00eancia da ditadura do proletariado.<\/p>\n<p>2<\/p>\n<p>Quando se fala da teoria marxista-leninista do Estado deve ter-se sempre presente o significado da palavra \u00abditadura\u00bb empregada tanto em rela\u00e7\u00e3o aos Estados capitalistas &#8211; \u00e0 \u00abditadura da burguesia\u00bb, como em rela\u00e7\u00e3o aos Estados socialistas &#8211; \u00e0 \u00abditadura do proletariado\u00bb. A clara explica\u00e7\u00e3o desse significado \u00e9 essencial para a compreens\u00e3o da teoria do Estado e da teoria da revolu\u00e7\u00e3o e para a determina\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o das v\u00e1rias classes e forcas pol\u00edticas em rela\u00e7\u00e3o ao problema da democracia. Os ide\u00f3logos burgueses, incluindo os liberais e socialistas, baralham os dados do problema e procuram mostrar que os comunistas, defendendo a ditadura do proletariado, se op\u00f5em \u00e0 democracia, e que os burgueses liberais e socialistas \u00e9 em nome da democracia que se op\u00f5em \u00e0 ditadura do proletariado. A ditadura do proletariado, como \u00abditadura\u00bb, seria um regime de opress\u00e3o, enquanto a democracia burguesa, como \u00abdemocracia\u00bb, seria um regime de liberdade.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que a palavra \u00abditadura\u00bb, na teoria marxista-leninista do Estado, n\u00e3o significa uma forma particular de domina\u00e7\u00e3o de uma ou v\u00e1rias classes por outra ou outras classes, mas o pr\u00f3prio facto dessa domina\u00e7\u00e3o. Segundo a teoria leninista, o Estado numa sociedade dividida em classes antag\u00f3nicas \u00e9 sempre uma ditadura. A express\u00e3o \u201cditadura\u00bb sublinha que o Estado n\u00e3o est\u00e1 acima das classes, n\u00e3o \u00e9 um instrumento de concilia\u00e7\u00e3o das classes nem um \u00e1rbitro entre elas, antes \u00e9 a \u00aborganiza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia\u00bb, \u00e9 um \u00abpoder especial de repress\u00e3o\u00bb, \u00e9 um organismo de domina\u00e7\u00e3o de umas classes sobre outras. Em resumo: numa sociedade dividida em classes antag\u00f3nicas, Estado \u00e9 sin\u00f3nimo de Ditadura.<\/p>\n<p>As formas de domina\u00e7\u00e3o, tanto na ditadura da burguesia como na ditadura do proletariado, \u00e9 que podem ser diversas. A ditadura burguesa pode exercer-se atrav\u00e9s de variadas estruturas dos \u00f3rg\u00e3os do poder e da administra\u00e7\u00e3o, ou seja, sob regimes pol\u00edticos diferentes: rep\u00fablica parlamentar, monarquia constitucional, governo militar, ditadura fascista, etc. Em qualquer caso \u00e9 sempre a \u00abditadura burguesa\u00bb. A ditadura do proletariado pode tamb\u00e9m exercer-se com a exist\u00eancia de um ou mais partidos, com um sistema sovi\u00e9tico ou uma assembleia parlamentar, ou outras formas de organiza\u00e7\u00e3o do poder. As experi\u00eancias hist\u00f3ricas das democracias populares j\u00e1 mostraram que o sistema sovi\u00e9tico n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico poss\u00edvel para o exerc\u00edcio da ditadura do proletariado, n\u00e3o \u00e9 a forma \u00fanica e obrigat\u00f3ria dum Estado socialista.<\/p>\n<p>O facto de quaisquer que sejam as formas de domina\u00e7\u00e3o da burguesia se tratar sempre de uma ditadura da burguesia n\u00e3o torna a classe oper\u00e1ria indiferente a essas formas de domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nada tem a ver com o marxismo-leninismo a opini\u00e3o anarquizante segundo a qual \u00e9 indiferente \u00e0 classe oper\u00e1ria que o poder da burguesia se exer\u00e7a num regime parlamentar ou numa ditadura fascista, uma vez que num caso e noutro se trata de capitalismo. A repress\u00e3o e o terror s\u00e3o utilizados precisamente contra o proletariado, para impedir o desenvolvimento da sua organiza\u00e7\u00e3o e da sua luta, para aniquilar os seus quadros, para cortar o caminho \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o socialista. Enquanto subsistir o capitalismo o proletariado est\u00e1 interessado em lutar para que a ditadura da burguesia se exer\u00e7a atrav\u00e9s de formas o mais democr\u00e1ticas poss\u00edvel, pois estas n\u00e3o s\u00f3 s\u00e3o as que menos sofrimentos lhe acarretam, como s\u00e3o aquelas que melhor lhe permitem defender os seus direitos, forjar a sua unidade, refor\u00e7ar as suas organiza\u00e7\u00f5es, limitar e enfraquecer o poder dos monop\u00f3lios, ganhar as massas para a causa da revolu\u00e7\u00e3o socialista. Nesse sentido se afirma que a luta pela democracia \u00e9 parte constitutiva da luta pelo socialismo.<\/p>\n<p>Nada tem tamb\u00e9m a ver com o marxismo-leninismo a posi\u00e7\u00e3o de alguns \u00abultra-revolucion\u00e1rios\u00bb ao afirmarem que, nas condi\u00e7\u00f5es do Portugal de hoje, a instaura\u00e7\u00e3o das liberdades democr\u00e1ticas, se n\u00e3o fosse acompanhada pela conquista do poder pelo proletariado, seria ainda pior que a ditadura fascista, uma vez que representaria a consolida\u00e7\u00e3o do poder da burguesia, cuja crise se agrava nas condi\u00e7\u00f5es do fascismo. O Partido Comunista Portugu\u00eas n\u00e3o considera a revolu\u00e7\u00e3o antifascista como uma revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tico-burguesa, mas como uma revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica e nacional, de natureza profundamente popular. Mas insiste que o fim do fascismo e a instaura\u00e7\u00e3o das liberdades fundamentais constituem um passo primeiro, fundamental e indispens\u00e1vel da revolu\u00e7\u00e3o antifascista. Assim, n\u00e3o s\u00f3 formula uma reivindica\u00e7\u00e3o central, compreendida e sentida pelas mais vastas massas populares, como indica o caminho que pode conduzir \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o dos outros objectivos da revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica e nacional e ao socialismo. L\u00e9nine numerosas vezes sublinhou que os comunistas russos \u00abnunca separaram a luta pelo socialismo da luta pela liberdade pol\u00edtica\u00bb (\u00abAs tarefas dos sociais-democratas russos\u00bb, Obras, edi\u00e7\u00e3o francesa, vol. 2, p. 347).<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo que indicamos a conquista da liberdade pol\u00edtica como um primeiro objectivo central da revolu\u00e7\u00e3o antifascista, afirmamos como marxistas-leninistas, como partido do proletariado, como revolucion\u00e1rios que pretendem p\u00f4r fim \u00e0 explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem, que a mais democr\u00e1tica das democracias burguesas serve a burguesia contra o proletariado, protege e defende a explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e, se a luta destes p\u00f5e em perigo os interesses do capital, a burguesia dominante, por muito \u00abliberal\u00bb e \u00abdemocr\u00e1tica\u00bb que seja, n\u00e3o hesita em violar a lei, retirar as liberdades e recorrer a m\u00e9todos abertamente terroristas.<\/p>\n<p>Como marxistas-leninistas, esclarecemos a classe oper\u00e1ria e as massas da verdadeira natureza do Estado e da democracia. Quaisquer que sejam as formas do Estado burgu\u00eas e do Estado prolet\u00e1rio, o Estado prolet\u00e1rio, tanto pela sua natureza como pela pol\u00edtica que realiza, \u00e9 sempre mais democr\u00e1tico que o Estado burgu\u00eas. O Estado da burguesia \u00e9 o instrumento de domina\u00e7\u00e3o por uma \u00ednfima minoria de exploradores da maioria esmagadora da popula\u00e7\u00e3o; o Estado prolet\u00e1rio \u00e9 o instrumento da grande maioria contra uma \u00ednfima minoria. O Estado burgu\u00eas \u00e9 um instrumento de explora\u00e7\u00e3o e subjuga\u00e7\u00e3o das classes trabalhadoras e visa perpetuar a divis\u00e3o da sociedade em classes antag\u00f3nicas, o Estado prolet\u00e1rio \u00e9 o instrumento da liquida\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem e do termo da divis\u00e3o da sociedade em classes.<\/p>\n<p>Uma democracia burguesa, por mais amplas que sejam as \u00abliberdades democr\u00e1ticas\u00bb, e por muito grande que seja a autoridade do parlamento, \u00e9 sempre uma ditadura da burguesia; qualquer ditadura do proletariado, mesmo quando assume formas \u00abditatoriais\u00bb, \u00e9 sempre mil vezes mais democr\u00e1tica do que qualquer democracia burguesa.<\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro trouxe a grande primeira comprova\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica desta verdade. Desde o in\u00edcio e no seu desenvolvimento, o primeiro Estado de oper\u00e1rios e camponeses mostrou ser o Estado de mais profundo conte\u00fado democr\u00e1tico jamais existente na hist\u00f3ria da humanidade.<\/p>\n<p><em>Notas:<\/em><\/p>\n<p><em>[1] Cf. V. I. L\u00e9nine, Obras Escolhidas em seis tomos, Edi\u00e7\u00f5es \u00abAvante!\u201d -Edi\u00e7\u00f5es Progresso, Lisboa-Moscovo, 1984-1989, t. 3, p. 132. (N. Ed.)<\/em><\/p>\n<p><em>[2] Cf. V 1. L\u00e9nine, Obras Escolhidas em tr\u00eas tomos, Edi\u00e7\u00f5es \u201cAvante!\u201d-Edi\u00e7\u00f5es Progresso, Lisboa-Moscovo, 1977-1979, t. 2, p. 14. (N. Ed.)<\/em><\/p>\n<p><em>[3] Cf. K. Marx\/F. Engels, Manifesto do Partido Comunista, Edi\u00e7\u00f5es \u00abAvante!\u00bb, Lisboa, 1997, p. 56. (N.Ed.)<\/em><\/p>\n<p><em>[4] Cf. K. Marx\/F. Engels, Obras Escolhidas em tr\u00eas tomos, Edi\u00e7\u00f5es \u00abAvante!\u00bb-Edi\u00e7\u00f5es Progresso, Lisboa-Moscovo, 1982-1985, t. 1, p. 555. (N. Ed.)<\/em><\/p>\n<p><em>[5] Cf. K. Marx\/F. Engels, Manifesto do Partido Comunista, ed. cit., pp. 46 e 73. (N. Ed.)<\/em><\/p>\n<p><em>[6] Cf. V. I. L\u00e9nine, Obras Escolhidas em seis tomos, ed. cit., t. 3, pp. 207-208. (N. Ed.)<\/em><\/p>\n<p><em>[7] Cf. Ibidem, pp. 208-209. (N. Ed.)<\/em><\/p>\n<p><em>[8] Cf. K. Marx\/F. Engels, Obras Escolhidas em tr\u00eas tomos, ed. cit., t. 1, p. 502. (N. Ed.)<\/em><\/p>\n<p><em>[9] Cf. Karl. Marx\/F. Engels, Obras Escolhidas em tr\u00eas tomos, ed. cit., t 2, p. 237. (N. Ed.)<\/em><\/p>\n<p><em>[10] Cf. V l. L\u00e9nine, Obras Escolhidas em seis tomos, ed. cit., t. 3,pp. 194 e 202. (N. Ed.)<\/em><\/p>\n<p><em>Texto (Introdu\u00e7\u00e3o, 1 e 2) e notas da 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o, Editorial \u201cAvante!\u201d, 2007<\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.odiario.info\/?p=2883\" target=\"_blank\">http:\/\/www.odiario.info\/?p=2883<\/a><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":" \u00c1lvaro Cunhal\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4954\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[33],"tags":[],"class_list":["post-4954","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c34-marxismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1hU","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4954","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4954"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4954\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4954"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4954"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4954"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}