{"id":4984,"date":"2013-06-14T22:16:12","date_gmt":"2013-06-14T22:16:12","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4984"},"modified":"2013-06-14T22:16:12","modified_gmt":"2013-06-14T22:16:12","slug":"ode-a-baderna","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4984","title":{"rendered":"Ode \u00e0 baderna"},"content":{"rendered":"\n<p>Um dos discursos mais comuns \u00e0 direita brasileira \u00e9 esse: pe\u00e7am o que quiserem, digam o que quiserem, mas n\u00e3o fa\u00e7am baderna. E, sobretudo, n\u00e3o atrapalhem o tr\u00e2nsito. N\u00e3o por outra raz\u00e3o, qualquer cobertura da m\u00eddia nacional sobre passeatas, manifesta\u00e7\u00f5es e grandes movimenta\u00e7\u00f5es de massa acabam, sempre, em manchetes de tr\u00e2nsito. Os camponeses foram a Bras\u00edlia pedir reforma agr\u00e1ria? Atrapalharam o tr\u00e2nsito. As mulheres da Marcha das Margaridas invadiram as Esplanada dos Minist\u00e9rios para pedir sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o no campo? Provocaram engarrafamentos. A mo\u00e7ada parou S\u00e3o Paulo para reclamar do aumento da tarifa do transporte p\u00fablico? O promotor mentecapto, parado no tr\u00e2nsito, pede a PM para espancar e matar os manifestantes. Afinal, o filhinho dele est\u00e1 na escola. Mas como chegar para peg\u00e1-lo a tempo, se os b\u00e1rbaros impedem o tr\u00e2nsito?<\/p>\n<p>Quando, al\u00e9m de parar o tr\u00e2nsito, os manifestantes fazem baderna, a\u00ed n\u00e3o! A\u00ed j\u00e1 \u00e9 demais! N\u00e3o pode ter baderna. Tem que ser como aquelas passeatas pela paz na Zona Sul do Rio de Janeiro, todos de branco na Avenida Atl\u00e2ntica, copos-de-leite \u00e0s m\u00e3os, o tr\u00e2nsito compreensivelmente parado para a prociss\u00e3o de cidad\u00e3os contritos. A pol\u00edcia, claro, \u00e0 dist\u00e2ncia, com as sirenes reverencialmente desligadas. Tudo assim, sem baderna, dentro da lei e da ordem. A manifesta\u00e7\u00e3o do mundo ideal.<\/p>\n<p>Pena que para quem pega quatro condu\u00e7\u00f5es por dia e gasta em m\u00e9dia quatro horas dentro delas (ou esperando por elas) a realidade seja outra. No mundo do transporte p\u00fablico n\u00e3o tem hakuna matata. O pau come no ponto, no \u00f4nibus lotado, nas esta\u00e7\u00f5es de trem e metr\u00f4 diariamente conflagradas. Para o usu\u00e1rio de transporte coletivo, todo dia tem confus\u00e3o e baderna, mas \u00e9 dif\u00edcil explicar isso para o mundo da Avenida Paulista. Para a classe m\u00e9dia bem motorizada, as demandas do transporte coletivo s\u00e3o subterr\u00e2neas, confinadas a um universo espec\u00edfico sobre o qual s\u00f3 se tem not\u00edcia quando motoristas e cobradores entram em greve. \u00c9 o dia em que a patroa de Higien\u00f3polis se inquieta porque a empregada vai chegar mais tarde ou, horror dos horrores, nem vem trabalhar. Quem vai fazer almo\u00e7o? E os petizes, sob a guarda de quem ficar\u00e3o no playground?<\/p>\n<p>E, de repente, vem a baderna.<\/p>\n<p>Multid\u00f5es de cidad\u00e3os, jovens, velhos, brancos, negros, empregadas, office-boys, desempregados, professores, trabalhadores, trabalhadoras, desocupados. Baderneiros. Quebram \u00f4nibus, depredam vidra\u00e7as, picham paredes, revolvem a cidade e deixam marcas no asfalto.<\/p>\n<p>O horror, o horror!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, todos se unem contra a baderna. Podem pedir o que quiserem, podem se manifestar, cruzar as ruas com bandeiras, mas, por favor, n\u00e3o atrapalhem o tr\u00e2nsito. Pol\u00edticos de todos os matizes se unem para bradar: baderna, n\u00e3o! Antigos militantes de esquerda que ainda acham um lindo momento hist\u00f3rico as barricadas de Paris, em 1968, est\u00e3o, ora vejam, revoltados com a baderna. Pedras, paus, coquet\u00e9is molotov, \u00e9 preciso conter os b\u00e1rbaros e acabar com a baderna. N\u00e3o interessa se eles vivem em panelas de press\u00e3o, amontoados em latas automotivas superlotadas, se ganham uma mis\u00e9ria e, agora, ter\u00e3o que pagar mais 20 centavos pelo mesmo sofrimento di\u00e1rio. O que importa \u00e9 que eles, baderneiros, est\u00e3o atrapalhando o tr\u00e2nsito.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 descer a porrada. Passar a borracha no lombo desses baderneiros, enfiar-lhes o cassetete na cuca, tocar o gado revoltado para o corredor polon\u00eas.<\/p>\n<p>Que a viol\u00eancia policial contra os manifestantes venha do governo de S\u00e3o Paulo, n\u00e3o causa esp\u00e9cie a ningu\u00e9m. O PSDB \u00e9 um partido de direita, o governador Geraldo Alckmin \u00e9 um numer\u00e1rio da Opus Dei, organiza\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica de extrema-direita, e a PM de S\u00e3o Paulo \u00e9 um substrato intoc\u00e1vel do aparato policial-militar herdado da ditadura. Os policiais que tomaram o centro da cidade para espancar e prender manifestantes e jornalistas s\u00e3o os c\u00e3es de guarda desse sistema. N\u00e3o h\u00e1 disfun\u00e7\u00e3o alguma no que est\u00e3o fazendo: eles existem, basicamente, para isso. Para tocar a negrada a pau, para dar paz a Higien\u00f3polis e garantir a brisa fresca de domingo nos Jardins. Dessa gente e de sua guarda pretoriana devem cuidar, nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es, o povo de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Mas, onde est\u00e1 o PT? Onde est\u00e1 o prefeito Fernando Haddad, este que j\u00e1 avisou, de Paris, pelo Twitter, que n\u00e3o ir\u00e1 \u201ctolerar vandalismo\u201d? Onde est\u00e3o os vereadores, deputados e senadores do partido que nasceu nas monumentais greves do ABC paulista, em plena ditadura militar, que os chamava, ora vejam, de baderneiros? Nada. Ningu\u00e9m de bra\u00e7os dados para enfrentar a tropa de choque. Todos quietinhos, com seus militantes sempre t\u00e3o subordinados, para saber o que vai sair no Jornal Nacional e na Veja de domingo. At\u00e9 l\u00e1, melhor deixar as barbas de molho. Para os que ainda t\u00eam barba, claro.<\/p>\n<p>Nessa vergonhosa escalada de viol\u00eancia tocada pelo governo tucano de S\u00e3o Paulo, n\u00e3o podia faltar, claro, o apoio da m\u00eddia. N\u00e3o h\u00e1 manifestantes para a ela, mas s\u00f3 baderneiros. Manifestantes s\u00e3o franceses, suecos, turcos, chineses. No Brasil, s\u00e3o v\u00e2ndalos e desocupados interessados em depredar o patrim\u00f4nio p\u00fablico, como se a imprensa brasileira, hoje povoada de engomadinhos formados em cursinhos de trainee, alguma vez tenha se preocupado, de fato, com a seguran\u00e7a f\u00edsica dos \u00f4nibus usados pelos pobres.<\/p>\n<p>Perd\u00e3o, gente indignada com os v\u00e2ndalos. Mas entre a hipocrisia e a baderna, eu fico, alegremente, com a segunda.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.cartacapital.com.br\/blogs\/leandro-fortes\/ode-a-baderna-8017.html\" target=\"_blank\">http:\/\/www.cartacapital.com.br\/blogs\/leandro-fortes\/ode-a-baderna-8017.html<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Nada mais assustador para um conservador do que a baderna\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4984\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[21],"tags":[],"class_list":["post-4984","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c35-o-petroleo-tem-que-ser-nosso"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1io","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4984","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4984"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4984\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4984"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4984"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4984"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}